Atenção e pequenos hábitos

terça-feira, 4 de agosto de 2015

A impecabilidade começa com um único ato, que tem de ser deliberado, preciso e fundamentado. Se esse ato é repetido pelo tempo suficiente, adquire-se o senso de um intento inflexível, que pode ser aplicado a qualquer outra coisa. Se isso é realizado, o caminho é claro. Uma coisa leva à outra até que o guerreiro perceba todo o seu potencial - Carlos Castaneda.

A observação de si é muito difícil. Quanto mais tentarem, mais perceberão isso. No momento, devem exercitar-se nela, não objetivando um resultado, mas para compreender que não podem se observar. Até agora imaginaram que se viam e se conheciam.

Estou falando de uma observação de si objetiva. Objetivamente, vocês não são capazes de se ver nem por um minuto, porque trata-se aí de uma função diferente: a função do amo.

Se acreditarem que podem observar-se por cinco minutos, isso é falso; seja vinte minutos ou um minuto, dá no mesmo. Se constatarem simplesmente que não podem observar-se, então terão razão. Sua meta é chegar a isso.

Para alcançar essa meta, devem tentar e tornar a tentar. Se tentarem o resultado não será a observação de si no sentido pleno da palavra. No entanto, o próprio fato de tentar fortificar a sua atenção. Aprenderão a se concentrar melhor. Tudo isso será útil a vocês mais tarde. Só mais tarde é que poderão começar a se lembrar verdadeiramente de si mesmos.

Hoje só dispõem de uma atenção parcial, proveniente, por exemplo, do corpo ou do sentimento.

Se trabalharem conscienciosamente, vocês se lembrarão de si mesmos e não mais, porém menos, porque a lembrança de si mesmo é cada vez mais exigente. Isto não é tão fácil, tão barato .

O exercício da observação de si é suficiente durante anos. Não tentem mais nada. Se trabalharem conscienciosamente, verão do que necessitam.

Pergunta : Como podemos adquirir atenção?

Resposta : Ninguém tem atenção. Sua meta deve ser adquiri-la. A observação de si só é possível depois que se adquire atenção. Começem por pequenas coisas.

P.: Por quais coisas pequenas devemos começar ? Que devemos fazer ?

R.: A sua constante agitação nervosa faz os outros sentirem, consciente ou inconscientemente, que você não tem autoridade alguma e é um pobre coitado. Você não pode ser alguém mexendo-se continuamente como está fazendo sempre. A primeira coisa que você deve fazer é parar essa agitação. Faça disso a sua meta, o seu deus! Peça até mesmo a sua família que o ajude; depois disso, talvez possa adquirir atenção. Eis um exemplo do que significa fazer.

Outro exemplo: aquele que ambiciona se tornar pianista só poderá aprender aos poucos. Se você quiser executar melodias sem praticar antes, nunca poderá tocar verdadeiras melodias. O que vai tocar será uma cacofonia penosa de ouvir e que o fará ser destestado pelos outros. Ocorre o mesmo no domínio psicológico: para se adquirir algo é preciso uma longa prática.

Tente fazer primeiro coisas bem pequenas. Se você quiser começar de imediato por coisas grandes, nunca chegará a ser nada; as suas manifestações terão efeitos igualmente cacofônicos, que farão com que as pessoas o detestem.

P.: Que devo fazer?

R.: Há duas maneiras de fazer: uma por automatismo e a outra para alcançar uma meta. Escolha uma pequena coisa que não é capaz de fazer e faça dela a sua meta, o seu deus. Não deixe que nada se interponha. Olhe só para isso. Então, se você conseguir isso, será possivel para mim dar-lhe uma tarefa maior. Por ora, você tem olhos maiores que a barriga, aspira fazer coisas grandes demais e nunca as poderá fazer. É um apetite anormal que o desvia das pequenas coisas que você seria capaz de fazer. Destrua esse apetite, esqueça-se das coisas grandes. Tome como meta vencer um pequeno hábito.

P.: Creio que falar demais é meu pior defeito. Seria uma boa tarefa não tentar falar tanto?

R.: Para você é uma meta muito boa. Você estraga tudo com a sua tagarelice, que prejudica inclusive seus negócios. Ao falar demais, as suas palavras não têm peso nenhum. Tente superar isso. Se conseguir, todas as espécies de benção fluirão para você. Sem dúvida, é uma meta muito boa, mas é uma coisa grande, não é uma coisa pequena. Eu lhe prometo que, se você conseguir isso, mesmo que eu não esteja aqui, eu vou sabê-lo e lhe mandarei ajuda, para que saiba o que deve fazer a seguir.

P.: Suportar as manifestações dos outros seria uma boa tarefa?

R.: Suportar as manifestações dos outros é uma coisa grande, talvez a maior para um homem. Só o homem realizado é capaz disso. Comece fixando como meta a capacidade de suportar uma manifestação de alguém que você não pode aguentar hoje sem se exasperar.

Se "quiser", "poderá". Sem querer, nunca poderá. Querer é a coisa mais poderosa do mundo. Com um querer consciente, tudo se consegue.

P.: Eu me lembro com freqüência de minha meta, mas não tenho energia para fazer o que sinto que devo fazer.

R.: O homem não tem energia para atingir as metas que fixou para si, porque toda a sua força, acumulada durante a noite, durante o seu estado passivo, é desperdiçada em manifestações negativas, que são manifestações automáticas, ao contrário das manifestações positivas, voluntárias.

Para aqueles dentre vocês que já são capazes de se lembrar automaticamente de sua meta, mas que não tem força para realiza-la: sentem-se sozinhos durante uma hora pelo menos; relaxem todos os seus músculos. Deixem desenrolar suas associações mas sem deixar-se absorver-se por elas. Digam a elas: "Se me deixarem fazer agora o que quero, mais tarde lhes darei o que desejarem". Olhem para as suas associações como se fossem outra pessoa, para não se identificar com elas.

Ao cabo de uma hora, peguem uma folha de papel e escrevam nela sua meta. Façam desse papel o seu deus. Que fora dele nada exista. Tirem-no do bolso e leiam-no constantemente, todos os dias. Assim a meta se tornará parte de você mesmo ; de início teoricamente, depois realmente.

Para adquirir energia, pratique o exercício que consiste em ficar sentado tranquilamente, com todos os músculos relaxados, como se estivessem mortos. Só quando estiver tudo calmo em você, depois de uma hora, é que tomará sua decisão. Não permita que as associações o absorvam. Fixar uma meta voluntária e alcançá-la gera magnetismo e capacidade de "fazer".

P.: Que é o magnetismo?

R.: Num grupo verdadeiro, se poderia dar uma resposta verdadeira a essa pergunta. Digamos que o homem tem em si duas substâncias: a substância dos elementos ativos do corpo físico e a substância proveniente dos elementos ativos da matéria astral.

Quando se combinam, essas duas substâncias formam uma terceira. Essa substância composta se concentra, por um lado em certas partes do homem e, por outro, forma uma atmosfera em torno dele, semelhante a atmosfera que envolve um planeta.

Sob a ação de outros planetas, a atmosfera de um planeta adquire ou perde continuamente substâncias. O homem está cercado de outros homens, do mesmo modo que os planetas estão cercado de outros planetas. Quando, dentro de certos limites, duas atmosferas se encontram e são "simpáticas", se estabelece entre elas uma relação que dá resultados de conformidade com as leis. Algo circula. A quantidade de atmosfera continua a mesma, mas a qualidade muda. O homem pode controlar a sua atmosfera.

É como a eletricidade: há o positivo e o negativo. Um ou outro pode ser aumentado e levado a fluir como uma corrente. Todas as coisas tem uma eletricidade positiva e negativa. No homem, os desejos e não-desejos podem ser positivos e negativos. A matéria astral se opõem sempre a matéria física. Nos tempos antigos, os sacerdotes eram capazes de curar as doenças através da benção . Alguns deles tinham que por suas mãos sobre os doentes, outros podiam curar a ccurta distância e outros à grande distância . Um sacerdote era um homem que tinha "substâncias compostas" e podia se servir delas para curar os outros. Um sacerdote era um "magnetizador". Os doentes carecem de "substâncias compostas", carecem de magnetismo, carecem de "vida".

Se estiverem concentradas, essas substâncias compostas podem ser vistas. Uma aura, um halo, é algo real e às vezes pode ser vista em lugares santos ou igrejas (ou locais de poder).

Mesmer descobriu o uso dessa substância. Para ser capaz de utiliza-la, é preciso primeiro adquiri-la.

O mesmo ocorre com a atenção.

Só se adquire atenção pelo trabalho consciente e pelo sofrimento voluntário, por pequenas ações realizadas conscientemente.

Faça de uma pequena meta o seu deus; isso o levará a adquirir magnetismo. O magnetismo, como a eletricidade, pode ser concentrado e transformado em corrente.

Em " Gurdjieff fala a seus alunos ", pgs. 94 à 98, Ed. Pensamento.

7 comentários:

benjamin disse...

Me empenho na observação de mim mesmo e dos próprios pensamentos e motivações há coisa de um ano e meio. No início, era mesmo uma confusão irritante perceber a série de vozes que não dizem nada e são apenas reagentes. Depois, a confusão continua, mas você se identifica cada vez menos com ela, percebe que há um observador entre uma coisa e outra, e esse observador já é algo mais próximo do que seja um eu.
Então você passa a perceber o que te move por detrás das motivações, e são coisas muitos simples à maior parte das vezes, nós é que tornamos tudo muito complexo para ocultar de nós mesmos as reais motivações, sempre atadas à algum medo ou certeza de insuficiência. O medo nos impede de sermos nós mesmos: um homem so torna-se violento porque, na verdade, tem medo de apanhar, outro torna-se fanático por sexo porque tem medo da solidão, outro teme a escassez e torna-se o rico explorador e pão duro, outro despreza os demais e se acha melhor como forma de se defender de seu próprio sentimento de inferioridade, e assim vai. Inventamos mil motivos subsequentes, mas entender a raiz das motivações ninguém quer, porque vai dar de cara com a criança barbada.
Eu diria que auto-observar-se é mais possível do que propõe a matéria e traz resultados um tanto rápidos, mas não imediatos.
Certo dia, você está consagrando suas plantas de poder, meditando e orando (porque oração funciona, é verbo e pensamento alinhados pela vontade), e de reprente, teu eu verdadeiro aparece, toma conta da consiência, fala contigo e com quem está por perto, bota um monte de gente pra correr e você vê que, apesar de parecer outro, sem dúvida é você mesmo.
Tem outra aparência, outra configuração, mas é você.

beijamim disse...

Cada vez mais me convenço de que o medo é o pior inimigo do conhecimento que podemos ter a respeito de qualquer coisa, inclusive no que tange ao conhecimento de si mesmo.
Nosso emocional precisa ser observado para ser bem conduzido pela consciência. Precisa ser observado para ser compreendido e amadurecido, com objetividade, sem julgamentos, apenas a constatação daquilo que acrescenta ou subtrai nossas próprias essências, aquilo que verdadeiramente somos enquanto atuamos nesse plano.
Nossas mentes podem ter idéias e concepções maravilhosas, mas a consciência requer alinhamento entre o emocional e o mental para frutificar qualquer iniciativa.
Vou dar um exemplo. Enquanto escrevo estas palavras, está me dando um baita frio na barriga.
Qual é o sentimento que está mandando aqui? Minha necessidade de me clarear e ajudar a clarear os demais, ou meu medo de não ser compreendido? Porque teria este medo? Por acaso tenho obrigação de ser referência sempre que escrevo?
Então, para concluir, o frio na barriga já sumiu, e o que assumiu foi apenas a vontade honesta de buscar mais consciência e referências, enquanto compartilho minhas experiências pessoais, que não valem em si mesmas nem mais, nem menos do que as experiências de outras pessoas que se debruçam por aqui.

Fernando Augusto disse...

A despeito de todas as distrações e embustes desta matrix sócio-cultural a única coisa que realmente vale a pena é a realização do trabalho sobre si mesmo, Benjamin. Bom lê-lo por aqui. Lembro de vc quando ouço aquele hino do Daime:

Meu beija-flor o sol raiou...

beijamim disse...

Mas o que me chama a atenção nesta matéria é a necessidade de percepção e domínio das linhas de força que nos atingem a todo momento, provenientes do meio natural ou humano, algumas das quais introjetamos e alimentamos por anos a fio, de modo que estas acabam nos conduzindo à revelia.
Concordo que o esforço necessário para romper com essas linhas que se transformam em hábitos, e o sofrimento envolvido nesta tarefa, é o que acaba fortalecendo nosso poder de decisão e autodeterminação, em resumo, nosso magnetismo.

Oi Fê. Conheço o hino que menciona e a responsabilidade a que ele remete.Uso este nome porque é a verdade.Há alguns anos, no Céu de Maria, recebí que era Beijamim, de uma maneira que, mesmo sabendo da certeza que tenho sobre minhas imperfeições, eu não poderia duvidar ou mesmo desprezar.Assim que me disseram "Tu é Beijamim, não duvide, não duvide, não duvide",em meio a outras manifestações confirmatórias, perguntei o que era mesmo esse negócio de ser o Beijamim. Simplesmente me respondeu a força: "é você, do jeito que está".
Então fui entendendo que a gente pode ser o que for lá em cima, mas aqui embaixo, estamos sujeitos à tudo o que todos estão sujeitos: as mesmas armadilhas, os mesmos enganos, a mesma desinformação.
Demorou muito pra eu entender que existe a essência e o ego manifestado e que a verdadeira tarefa é permitir que esta essência vigore cá embaixo, a despeito das necessidades mesquinhas e medrosas do ego.
Estou na batalha pra assumir meu papel, para ser o que é. Na corrente, a história se manifesta, graças à Deus, pra eu não duvidar.

beijamim disse...

Eu não saio espalhando isso pela irmandade. Deixo que o trabalho fale por si mesmo. Não posso nem devo me declarar neste sentido, porque ainda não me sinto pronto cá embaixo e, se sair por aí afirmando, serei muito mais cobrado, porque as pessoas têm expectativas e esperam que resolvemos estas mesmas. Só que nós temos nossas próprias demandas internas também, temos muita coisa pra curar em nós mesmos e não dá para sair por aí bancando o salvador da pátria.
Mas eu acredito no que posso fazer na corrente, porque lá não estou sozinho:"ninguém não se domina, o poder é quem nos leva".

beijamim disse...

De qualquer modo Fê, não me sinto com muito mais tempo pra resolver essa questão. Então, pra algumas pessoas estou dizendo, pra elas saberem que também estou aqui e que não vou correr da raia.Ser divino todo mundo é, e é bom que isso se atualize.

Fernando Augusto disse...

De fato é como disse o mestre:

Sois Deuses. O reino de Deus está dentro de vós.

Na Força percebemos toda a beleza do divino em nós, a questão é estabelecer a sintonia com o divino no dia à dia, no relacionamento diário com os nossos.

Namastê ;-)))