O caminho do guerreiro

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Lenta e metodicamente, ele guiou minha percepção para focalizar com mais e mais intensidade a elaboração abstrata do conceito do guerreiro, que ele chamava o caminho do guerreiro e a senda do guerreiro. Ele explicou que o caminho do guerreiro era uma estrutura de idéias estabelecida pelos xamãs do México antigo. Esses xamãs tinham derivado essa estrutura por meio de sua capacidade em ver a energia que flui livremente no universo. Portanto, o caminho do guerreiro era um conglomerado muito harmonioso de fatos energéticos, verdades irredutíveis determinadas exclusivamente pela direção do fluxo de energia no universo. Dom Juan declarou categoricamente que não havia nada no caminho do guerreiro que pudesse ser discutido, nada que pudesse ser mudado. Esse caminho era em si mesmo e por si mesmo uma estrutura perfeita, e quem fosse que o seguisse era encurralado por fatos energéticos que não admitiam discussão, nenhuma especulação sobre sua função e seu valor.

Dom Juan disse que aqueles xamãs o chamavam de o caminho do guerreiro porque sua estrutura abrangia todas as possibilidades vivas que um guerreiro poderia encontrar na senda do conhecimento. Esses xamãs eram absolutamente exaustivos e metódicos na sua procura de tais possibilidades. Segundo Dom Juan, eles foram realmente capazes de incluir em sua estrutura abstrata tudo que é humanamente possível.

Dom Juan comparou o caminho do guerreiro a um edifício, no qual cada um de seus elementos é um dispositivo de suporte, cuja única função era sustentar a psique do guerreiro no seu papel de iniciante de xamã, com o objetivo de tornar seus movimentos fáceis e significativos. Ele declarou inequivocamente que o caminho do guerreiro era a estrutura essencial, sem a qual os iniciantes de xamã naufragariam na imensidão do universo.

Dom Juan chamava o caminho do guerreiro a glória suprema dos xamãs do México antigo. Ele o considerava a sua mais importante contribuição, a essência de sua sobriedade.

— O caminho do guerreiro é tão absolutamente importante, Dom Juan? — eu lhe perguntei uma vez.

— "Absolutamente importante" é um eufemismo. O caminho do guerreiro é tudo. É o resumo da saúde mental e física. Não posso explicar de outro modo. O fato de os xamãs do México antigo terem criado tal estrutura significa, para mim, que eles estavam no auge de seu poder, no cume de sua felicidade, no ápice de sua alegria.

(...)

— O intento desses xamãs — disse Dom Juan — era tão agudo, tão poderoso, que podia solidificar a estrutura do guerreiro em qualquer um que tocasse, mesmo que eles não tivessem consciência disso.

Em suma, o guerreiro era, para os xamãs do México antigo, uma unidade de combate tão sintonizada com a luta em volta dele, tão extraordinariamente alerta na sua forma mais pura, que ele não precisava de nada supérfluo para sobreviver. Não havia necessidade de dar presentes para um guerreiro, ou apoiá-lo com palavras ou ações, ou tentar dar-lhe consolo ou incentivo. Todas essas coisas já estavam incluídas na estrutura do próprio guerreiro. Desde que essa estrutura fosse determinada pelo intento dos xamãs do México antigo, eles se asseguravam de que qualquer coisa previsível estaria incluída. O resultado final era um lutador que lutava só e que tirava de suas próprias convicções silenciosas todo o impulso que necessitava para avançar, sem queixas, sem a necessidade de ser elogiado.

Pessoalmente, achei fascinante o conceito do guerreiro e, ao mesmo tempo, era uma das coisas mais amedrontadoras que jamais tinha encontrado. Pensava que era um conceito que, uma vez que eu o adotasse, me manteria preso numa servidão e não me daria nem tempo nem disposição para protestar, criticar ou me queixar. A queixa foi um hábito de toda a minha vida; para ser sincero, eu teria lutado com unhas e dentes para não deixá-la. Achava que a queixa era um sinal do homem sensível, corajoso e direto que não tem escrúpulos em admitir do que gosta e do que não gosta. Se tudo isso ia se transformar num organismo de luta, eu achava que ia perder mais do que podia me permitir.

Eram esses meus pensamentos profundos. E, contudo, eu cobiçava a direção, a paz, a eficiência do guerreiro. Um dos grandes auxílios que os xamãs do México antigo usaram ao estabelecer o conceito de guerreiro era a idéia de tomar a morte como uma companheira, uma testemunha de nossos atos. Dom Juan disse que, uma vez aceita essa premissa, mesmo numa forma mitigada, se forma uma ponte que se estende sobre o vazio entre o mundo de nossos afazeres mundanos e alguma coisa que está diante de nós, embora não tenha nome; alguma coisa que está perdida na neblina e não parece existir; alguma coisa tão terrivelmente obscura que não pode ser usada como ponto de referência e, no entanto, está aí, inegavelmente presente.

Dom Juan argumentava que o único ser na terra capaz de cruzar essa ponte era o guerreiro: silencioso em sua luta, ele é um homem que não pode ser detido porque não tem nada a perder; e um homem funcional e eficiente porque tem tudo a ganhar.

Roda do Tempo, de Carlos Castaneda

Um comentário:

Martyn disse...

Aquele que conhece a sua alma está imune ao temor e ao medo causado pelas coisas exteriores. Ele sabe que tudo é ilusório e por isto não se abala com a manifestação de força do mundo em sua volta, firme como uma rocha, seguro de seu poder, ele se mantém no caminho correto, pois não teme por sua segurança
(I Ching - O Livro das transmutações.)