O Trabalho, por Nuvem que passa - 3ª parte

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Entrar num estado de consciência plena e incendiar-se de dentro para fora. Um caminho trilhado pelos que entenderam essa possibilidade e assim ao final da vida abandonavam totalmente a consciência tanto do mundo cotidiano, como de tudo aquilo que podemos chamar de transcendente, espiritual ou qualquer nome que se dê aos mundos que nos circundam mas podem ser acessados em outros estados que temos como potenciais dentro de nós mesmos.

Devolver a consciência para a fonte, mas juntar a fisicalidade do corpo orgânico ao corpo inorgânico.

Transferir a energia vital para o corpo de energia enquanto ela ainda está plena, íntegra.

E tomar emprestado outro tipo de consciência, assim como ganhamos essa ao nascermos.

Note que no primeiro caso a energia vital continua se dissipando junto com a morte do corpo, no segundo não.

Essa manobra permite que algo aconteça. Surge então um novo ser. Um ser que poderá continuar por bilhares de anos a viagem que é nossa vida. Como tal estado é impossível de ser descrito vamos apenas citá-lo como meta e vamos nos envolver nos meios para atingi-lo.

Para podermos vislumbrar o infinito que nos envolve temos que ter equilíbrio. Se a bolha dentro da qual existimos se rompe de uma vez podemos nos diluir antes de termos criado um eixo real e assim ficaremos vagando por sensações indefinidas. Há um velho símbolo para o trabalho sobre nós mesmos.

Dividir a bolha.
Em uma metade rearranjamos tudo o que somos enquanto entes presentes nesse mundo. Em uma metade reorganizamos nossa vida e nossa forma de lidar com o mundo, dentro de parâmetros estratégicos, focados e fortalecedores.

Mas substituímos alguns itens.

Como por exemplo podemos deixar de reagir a nossa importância pessoal e a nossa arrogância e ficarmos mais sensíveis ao fato de que somos mortais e efêmeros. E o outro lado da bolha fica vazio. Sem pré conceitos, nada. Vazio e silencioso para a partir dele podermos vislumbrar o infinito. Assim veremos o outro mundo como outro mundo, não apenas uma projeção do que aqui vivemos.

Não reduziremos o infinito aos nossos limites. Você já deve ter visto aquelas gravuras de realidade virtual. As mais populares são as feitas pela "N. E. Thing Enterprises". Na maioria delas, você vê um quadro com muitas cores e formas desconexas, mas quando você envesga os olhos do jeito certo, a mágica acontece e um desenho tridimensional salta , literalmente, aos olhos.

O truque é conseguir envesgar os olhos, isto é conseguir que cada olho veja de certa forma separadamente, assim o efeito acontece. Para uma pessoa que não consegue ver dessa forma pode ser difícil acreditar que exista o que os outros estão falando naquela página , para ela um amontoado de cores em padrões simétricos. Alguém muito desconfiado poderia afirmar que nada do que estão dizendo existe, que é tudo uma farsa, uma armação dos que dizem estar vendo algo. Parece bobo esse raciocínio, no entanto fazemos isso vezes sem conta em nossa vida.

Por não conseguirmos perceber o que os(as) Xamãs percebem apenas negamos. Por não termos condições de ver as outras realidades que existem simultâneas com a nossa, devido ao fato de não termos sido treinados na maneira adequada de olhar, de perceber, passamos a dizer que qualquer outra experiência que extrapole nosso limitado senso comum é falsa.

Confusos e arrogantes trocamos os termos e onde deveríamos dizer:

"Não compreendo",

Dizemos:

"Não acredito".

Outros esperam que os que vêem lhes digam o que há na gravura. Aí podem dizer que estão vendo, quando na realidade não estão. Há os que vão na última página e decoram o que deve estar em cada gravura. E há sempre os que após não conseguirem desistem e dizem que aquilo é coisa prá quem não tem o que fazer.

É interessante observar as diversas reações das pessoas frente a este fato. Durante muito tempo levei livros desses para festas, na época em que ainda eram novidade e fiquei observando as reações. E notei que frente ao Trabalho as pessoas se portam de forma similar. Bem poucas tem disciplina para insistir, insistir e procurar novas formas, confessar que não conseguem, insistir de novo. Humildade para aprender. Muitos desistem, outros tentam enganar , apenas para não admitir que não entendem nada.

E se formos sinceros a primeira sensação de quem realmente se observa é a percepção de que ignora, de que desconhece, pois robôs em seu estado natural nada sabem, apenas processam dados por outros impostos. A arrogância é uma das melhores trancas que colocaram nas modernas correntes com as quais nos limitam. E a vaidade o resistente cadeado. Existem alguns temas que aceitamos sem a devida análise.

Um deles é a idéia de que os seres humanos são especiais, a parte de toda a criação, o ápice e a razão de ser do cosmos. Tal idéia nos coloca em condições bastante desfavoráveis. Sim, pois tais delírios megalomaníacos nos impedem de perceber nossa real condição e deixamos de lutar e trabalhar por coisas que poderíamos ter, como uma alma e imortalidade, por julgarmos já as possuir.

Este é o ponto no qual fica mais clara a diferença entre as Escolas ligadas ao Trabalho e aquelas que embora busquem algo maior ainda estão presas ao paradigma da época. Faz parte do paradigma desta época dotar o ser humano de uma alma imortal. Assim todos os ditos" ocultismos" e "esoterismos" da moda partem deste princípio.

E consideram que as grandes revelações esotéricas estão no falar sobre outros mundos, ou contar sobre cosmogênese, antropogênese, citando antigos textos mas sem entender a chave que transformaria a letra morta em informação viva. Ao lado da idéia de um deus antropomórfico, a imagem e semelhança do homem criado, são as idéias que mais distanciam do Trabalho.

Estes textos foram feitos para aqueles que já passaram por estas fases e, de fato, compreenderam que não temos uma alma imortal, mas podemos criá-la. Aliás é este o principal trabalho de cada escola ligada a tradição. Fornecer os meios para que cada ser gere em si a alma para buscar a imortalidade. Para evitar quaisquer confusões religiosas preferimos adotar a designação: "Corpo de energia", principalmente pelo fato de ser exato esse termo.

É um corpo, mas de energia.

Tenho estudado com atenção e praticado algumas tradições. Taoísmo, Budismo, a linhagem apresentada por Gurdjief e o Xamanismo Tolteca. Em todas essas linhagens encontro as mesmas idéias. Atualmente tive acesso a taoístas que me mostraram ser o Taoismo profundo também possuidor dessas mesmas idéias. E em escolas como teosofia e rosacrucianismo pude encontrar aspectos das mesmas idéias, mas transformadas pelo contato com as influências mecânicas do cotidiano, entretanto as idéias bases estão lá.

Eu vou usar no decorrer deste trabalho a terminologia de duas escolas. A escola Gurdjefiana e a Escola Tolteca.

Sou, entretanto, consciente que tais escolas, especialmente a Gurdjieffiana já foi muito deturpada e mecanizada, pois era um trabalho para um tempo espaço específico. Mas certas idéias que ela traz são válidas ainda hoje (e ainda hoje podem se encontrar grupos sérios ligados ao Trabalho de G.).

Assim ficará mais claro esse trabalho aos que já estudam tais caminhos, embora os termos usados possam ser compreendidos por outros estudiosos também. Este não é um trabalho de introdução volto a repetir. É dedicado àqueles que tenham estudado e, o mais importante, praticado, tais caminhos por já algum tempo.

Nada substitui a experiência. O viver. É uma exposição sobre as impressões que tive ao trilhar tais caminhos. Não é também achismo, é um relato de viagem, daquilo que na minha jornada percebi. Uma jornada na qual ainda me encontro, a cada inspirar e expirar e no espaço entre.

O começo de todo o trabalho é através da auto observação. A partir da observação de si mesmo, aquele que estuda começa a perceber que o mundo tal qual o vemos é fruto de uma descrição da realidade, com a qual concordamos, sem nunca perceber profundamente as implicações profundas dessa concordância. É um passo fundamental compreender que o mundo tal qual o conhecemos não é a realidade final, mas uma descrição que nos foi dada e com a qual concordamos. Vivemos a cumprir compromissos com os quais nada temos a ver, resgatamos acordos feitos por outros.

Segundo os Xamãs nosso centro energético responsável pela nossa capacidade de tomar decisões (o chamado ponto V da Tensegridade ) foi enfraquecido e assim, como não temos energia para tomar decisões criamos os organismos sociais, as instituições, que decidem tudo por nós. Aquele que se liga ao Trabalho vai em primeiro lugar recuperar sua capacidade de fazer.

Este é outro ponto polêmico.

O fato de que no estado natural não somos capazes de fazer, que tudo acontece em nossas vidas, é rejeitado com tal veemência que em tal rejeição mostra , a meu ver, a verdade neste argumento. Mais uma vez só a observação apurada de si poderá demonstrar que durante nossa vida as coisas acontecem, raramente agimos, raramente fazemos.

Reagir não é agir.

Estar presente no aqui e agora é a condição básica para agir. E quanto do dia estamos realmente presentes? Faça o teste. Observe-se. Você está aqui e agora, lendo este texto. Qual sua postura, onde está sua mente, o que sente? A ilusão da mente é apontada em muitas escolas como o Zen, onde há um célebre diálogo no qual o aprendiz vai ao mestre e diz:

"Mestre me ajude a acalmar minha mente".

O mestre responde: "Ache sua mente e a traga aqui para mim que a apaziguarei".

"Mestre, não acho minha mente."

O mestre sorri: "Viu, já a apazigüei".

Como está sua respiração?

Não tente controlá-la só senti-la.

Que sons chegam aos seus ouvidos?

Quais suas percepções táteis, olfativas, gustativas?

O ramo zen do budismo tem exercícios interessantes onde em atos simples, como cuidar de um jardim ou limpar uma casa, cada mínimo momento, cada gesto, é um exercício da presença. É este o exercício, sair do pântano das divagações e voltar a focar-se aqui e agora, onde de fato estamos.

Se você começar a praticar tais exercícios de estar aqui e agora, perceberá que consegue manter por alguns instantes sua atenção no momento e em si, mas depois de alguns instantes você divaga e se diluí.

Não há um momento mais importante do que outro. Cada instante é pleno de significação. Fomos alimentados de um vício, o que buscamos está sempre no futuro, um dia vai chegar e perdemos nessa ilusão a única realidade: O tempo presente. O aqui e agora!

Como já disse parto do principio que você seja já um(a) praticante desses exercícios, assim notado terá que por vezes durante um dia todo temos minutos de presença e a maior parte do tempo passamos diluídos. E aqui temos um critério válido para avaliar nosso progresso no Trabalho. Quanto mais tempo estamos aqui e agora, presentes, mais estamos de fato sendo e não apenas existindo.

E o trabalho é o trabalho sobre o Ser.

O Ser é dinâmico.


Uma das coisas que nos impede de descobrirmos nosso ser verdadeiro é nossa história pessoal. Um conjunto de lembranças que possuímos somadas a imagem que o meio nos levou a construir de nós mesmos. Existe um filme no qual um agente de uma organização sabe muito sobre a mesma, mas quer se afastar. Assim fazem uma lavagem cerebral nele, levam-no a esquecer todo seu passado, "implantam" uma nova história para sua vida e o mandam para outro lugar onde ele vive feliz e mais ou menos tranqüilo com as "memórias" nele implantadas. Vale pensar sobre isso. Me parece uma analogia terrível para nossas vidas.

O caminho dos xamãs Toltecas apresenta uma forma de lidar com o Trabalho que considero genial. Há três tarefas básicas aqui para poder lidar com a história pessoal e diminuir seu poder sobre nós.

A primeira delas é ter a morte como conselheira. Enquanto nos considerarmos seres imortais não saberemos transformar nosso tempo aqui em poder. Um ser imortal tem todo o tempo do mundo. Não precisa se esforçar, não precisa trabalhar arduamente. Fará em outra vida aquilo que não fizer agora. Assim só a idéia que a morte é nossa companheira de estrada e que a qualquer instante pode nos tocar e acabar com tudo dá aos nossos atos o poder que faz de nosso viver um tempo mágico. Esse conceito vai totalmente contra os modernos conceitos "new age" que afirmam ser a morte apenas uma passagem, um trocar de roupas, como um mergulho num lago frio e depois tudo continua. Isso pode levar a uma vulgarização do instante. Cada instante é único e conta muito.

O segundo procedimento é perder a importância pessoal e aqui temos um dos maiores desafios para nós contemporâneos, estimulados a ser arrogantes e prepotentes como forma de se defender e se colocar no jogo social. É um grande momento quando se percebe que a importância pessoal é a auto piedade disfarçada. Sim, só a pena de si mesmo levaria o ser humano a criar a imagem de importância que tem sobre si, para se defender do nada que sabe ser frente ao Todo.

Assumir a responsabilidade pelos atos é o terceiro ponto. Quando assumimos que estamos sós neste vasto mundo e que podemos morrer a qualquer instante, não há tempo para hesitações. Nos tornamos donos de nossas decisões e esse é o poder que de fato temos. Quando tomamos uma decisão ela tem que ser final. Cada momento é resolvido em si mesmo. Isto leva a um desdobramento interessante. Fomos criados para agir em busca de alguma recompensa. Isto gera dependência de recompensas. Quando percebemos que podemos acabar a qualquer instante, um novo estado de ser pode surgir.

Agir por agir, atuar sem esperar recompensas além do próprio prazer de agir é uma nova forma de encarar as situações que gera uma nova energia a quem assim procede. Todas essas linhas de ação não são princípios, regras ou comportamentos ditados por razões morais.

São comportamentos estratégicos que permitem a percepção se libertar das amarras do senso comum da época, economizar e recanalizar a energia que antes estava sendo utilizada para manter o estado de consciência padrão da civilização dominante.

Lembrar-se de si mesmo e não identificar-se dizem os adeptos do 4º Caminho. Estar no mundo mas não ser dele dizem os Sufis. Só na prática é possível entender tais conceitos, só na prática cotidiana, constante e árdua eles se mostram em todo seu valor, abrindo novas reservas de energia aos que assim procedem. E é tal energia que vai permitir ao Trabalho ter seqüência. Pois este é outro ponto fundamental.

Somos a energia que temos, e só podemos realizar se temos energia para isto.

E como a energia está inicialmente diluída em nossos condicionamentos e limitações só trabalhando os nossos estilos de agir, sentir e pensar libertando-os de seus desequilíbrios poderemos ter energia para ativar outros níveis de percepção que nos permitam ter acesso ao Trabalho.

E só começando pela auto observação podemos detectar tais drenos de energia. Existe um frase colocada por G. que choca os incautos e tenho certeza será um segundo filtro neste nosso tratado, afastando definitivamente dele aqueles de ‘estômago’ mais fraco: "O verdadeiro trabalho é contra Deus ". Como já disse anteriormente que este estudo é para aqueles que já estão avançados em seus estudos vamos nos aprofundar nessa colocação. A natureza trouxe o ser humano até este ponto e aqui o mantém pois é nesse estado que o ser humano serve aos propósitos naturais. O ser humano, tal qual toda a vida orgânica, tem um papel a desempenhar no esquema da natureza e assim sendo nosso organismo foi desenvolvido até o ponto em que possa tal mister realizar.

Deus

Este termo tem um peso enorme em nossa cultura. Em nome de deus todo ditador diz estar agindo e pede sua benção e proteção antes de se lançar ao extermínio de milhões. Em nome de deus personalidades admiráveis de nossa história realizaram obras de grande alcance no minimizar os problemas humanos. Assim o termo deus é usado indistintamente para justificar desde atos sublimes a profundas atrocidades. Num estudo sério, olhando para nossa história conhecida de forma consciente perceberemos que mais atrocidades foram cometidas em nome de deus que em nome do diabo.

Para as escolas que estamos estudando a crença em um deus antropomórfico, criado a imagem e semelhança do homem, um pai, um pastor é uma questão muito séria. Sim, pois muitos colocam sua energia pessoal e única neste conceito vazio. Quando você é criança tem sempre um adulto por perto, sempre alguém que vai lhe socorrer em caso de necessidade, ou mesmo que seu choro ou grito seja apenas manha. Assim criamos a idéia que sempre alguém vem nos salvar.

Quando crescemos, descobrimos que nem sempre há alguém ao nosso lado para nos salvar, para nos socorrer. E então surge uma carência enorme, um vazio que na maioria das vezes é suprido com o "papai do céu" , com o "mestre", com o "partido" , enfim sempre arrumamos alguma coisa para colocar neste papel de nosso salvador. É muito difícil que alguém naturalmente assuma sua condição de ser solitário sem buscar tais muletas. Diariamente as pessoas são confrontadas com as falácias de suas crenças, momentos nos quais fica evidente que estão sós e que não há este ente protetor. Ônibus de crentes voltando de seus cultos, cantando "ungidos" com o espírito de deus e que desabam numa ribanceira ou batem matando a maioria dos que ali estão. Assim, incapazes de lidar com tais evidências criou-se a idéia de que deus testa seus fiéis. Os faz sofrer miseravelmente mas depois recompensa os que servilmente tudo aceitaram, com um céu de eterna beatitude. Note que a crença num paraíso posterior, numa recompensa em outro mundo é um dos aspectos chaves da maioria dos cultos a deus. Frente as incongruências que a realidade apresenta, frente ao fato que muitas vezes o incontrolável da existência é muito mais evidente que as pretensas crenças num deus onipresente atuando a favor dos "eleitos", é importante a idéia de que a verdadeira recompensa está além, noutros mundos, obviamente não investigáveis .Repare que uma das grandes forças para tal idéia de deus vem de sua "palavra viva". E o que é essa palavra viva de deus, algum lugar misterioso onde essa presença se faz ouvir por todos que ali cheguem, sem nenhum veículo? Não, um livro, um livro escrito por seres humanos e usado por muitos impérios no decorrer da história para justificar seu próprio poder.

Este tema é muito amplo e exige uma profunda capacidade de reavaliar o que nos obrigaram a aceitar. O coloco aqui como "teste iniciático". Quem não entender que estamos indo contra o conceito usual e não contra a noção de algo transcendente que permeia a existência vai ficar chocado e se retirar. É um tema muito delicado pois está sedimentado em camadas profundas de nossa psique e choca profundamente quando abordado pela primeira vez. Mesmo aqueles capazes de investigar com clareza muitos campos se sentem algo temerosos ao adentrar tal campo de questionamento. Por isso nos dedicaremos nesse capítulo a um estudo desta questão, nada que represente uma opinião final, mas pistas através das quais poderá você que pensa permitir-se avaliar este que é um dos paradigmas básicos da cultura contemporânea.

Blavatsky quando explicava o termo Teosofia sempre insistia que o "Teo” ao qual ela se referia não era um ser, uma entidade antropomórfica, que criou o céu e a terra e descansou no sétimo dia e depois ficou alcoviteiramente a vigiar e a julgar os seres humanos, servindo de avalista aos despropósitos que aqueles que se auto intitulavam seus legítimos representantes, realizavam. A Inquisição, Hitler e tantos outros sempre agiram em nome de deus. Mas quando entramos nas chamadas linhas espiritualistas o que dizem? Deus é amor. Deus é um principio , uma energia que criou o céu e a terra e tudo que neles há. Esse papel criador é também questionado. Aliás a própria Blavatsky chama atenção para isto. Ela liga o "Teos" a Tein, movimento, manifestação.

Aos estudiosos fica claro que o próprio termo usado pelos maçons: "Arquiteto do Universo" indica que tal força arquiteta, mas quem cria são outras hierarquias. No plano que estamos estudando é interessante notar que existe uma diferença entre os que crêem num deus criador e a abordagem de muitos ramos que falam da existência emanar da não existência. É muito importante entender esta questão. É totalmente diferente falar de uma entidade que cria um mundo e de uma força, uma presença da qual o mundo emana.

Um conceito antropomórfico de deus, como o povo simples do Egito ou da Babilônia acreditava que as estatuas expressando princípios cósmicos, símbolos sofisticados para os iniciados nos mistérios, eram elas em si a imagem de deuses e deusas os quais iriam por eles interceder. Algo similar seria pegar um livro de receita de bolo ficar a lê-lo sem conseguir os ingredientes, sem executar o ato de preparar o bolo, ficar apenas falando sobre e acreditar que no final o bolo vai surgir. Todos os livros sagrados eram manuais onde os iniciados deixaram seu conhecimento expresso em símbolos, mas traduzidos apenas na letra que mata perderam o espírito. Em muitas cosmogonias é representado o Todo por um dragão que em certo momento bota um ovo e desse ovo surge o mundo.

Note você que está acompanhando com atenção ao aqui exposto que não estamos caindo na negação de algo mais amplo, algo maior, um inefável poder. Estamos questionando esse deus antropomórfico criado a imagem e semelhança do ser humano, com suas limitações e medos, sua agressividade e falhas. É interessante notar que para a maioria das pessoas cultas e informadas o monoteísmo é uma evolução nobre do pensamento humano. Os "pobres e ignorantes" primitivos viam a divindade em tudo, em toda parte e a identificavam de acordo com sua manifestação, na chuva, no trovão, na terra ou nas montanhas, viam eles aspectos da divindade, do todo.

Então vem o monoteísmo e diz que só existe um deus, um antropomórfico deus que é externo a tudo, que dirige o mundo de fora, que exige adoração, que castiga, que pune, que tem uma vontade curiosamente conivente com os poderosos de plantão. A natureza é criação, não mais parte dele, e nós somos criaturas, logo não mais parte direta. Assim a exploração do mundo e de um ser humano pelo outro se torna justificável.

Haverá um paraíso nos esperando, continuem a destruir o mundo, é essa á última conseqüência da ética protestante que impulsiona o capitalismo. E o mundo cada vez mais a beira da destruição. E isto é considerado evolução.

A medida que compreendermos os jogos de poder nos quais os poderosos estão envolvidos fica também mais claro o papel desse deus antropomórfico. E então compreendemos que o Trabalho é libertar-se. Tornar-se de fato capaz de agir e não apenas reagir impulsionado, impulsionada, por esta pilha de programações atávicas que recebemos. E para começar esta vasta jornada a observação de si, no cotidiano, a cada instante é o caminho recomendado. Perceber-se a cada momento, para descobrirmos quem de fato somos e onde estamos e então, sobre estas bases reais começar o Trabalho.

continua...

3 comentários:

Beth disse...

Admirável tratado. Explicar o complexo de forma sucinta, ver a conexão entre as várias escolas, traduzir em palavras os principais conceitos - idéias por vezes abstratas - de forma sucinta e tão lúcida. Obrigada por tamanha contribuição.

KALI, desesperadamente humana. disse...

Obrigada. Era exatamente o que eu precisava agora.

beijamim disse...

Muito bom mesmo.Vamos esperar a continuação, embora a aplicação dos princípios mais básicos para uma verdadeira religação, já seja em si um desafio a ser levado a sério, para poder ser vivido. Ainda bem que exista quem escreva e quem ainda poste sobre o verdadeiro caminho, sem ressalvas. Abs, Fê!