O Trabalho - 1ª parte

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

É por vezes bem arriscado tentar definir certos processos em palavras. As palavras têm limitações implícitas em sua própria constituição. Mas se nos lembrarmos disso, se compreendemos que palavras estão presas na memória e a memória é apenas o inventário de tudo o que vivemos, então poderemos usar as palavras como ferramentas.

O Trabalho.

Quantas vezes tentamos definir o que é o trabalho sobre si mesmo? E quantas vezes deixamos de alcançar o resultado por não termos claro o que é esse si mesmo sobre o qual acreditamos poder trabalhar. Por razões como esta que todo trabalho efetivo começa com a observação de si mesmo. Sim, lembrar-se de si mesmo no inicio é isso.

Observar-se.

Meditar.

Observar como respira, onde você está.

Observar suas emoções, seus pensamentos.

Observar como eles surgem, o que os motiva.

Como é seu reagir frente as diversas situações que a vida oferece?

Observando-se a cada instante acabará criando um significado mais amplo para esse "si mesmo". Se você não se observou nunca, ou se não o fez por tempo suficiente as colocações que vem a seguir não terão muito sentido. Este ensaio é destinado à aqueles e aquelas que já caminharam um pouco na senda da auto-observação, estando assim cônscios de certas peculiaridades de nosso ser neste mundo. Este exercício é muito difícil de ser realizado pela maioria das pessoas porque elas se observam esperando algum resultado, depois de um tempo consideram que "já se observaram o bastante" e agora o que vai acontecer? "Pronto, já me observei e agora?" Essa é uma reação que ocorre muito neste tipo de exercício. Este tipo de abordagem é inútil nesse exercício. Observar-se sem julgamento e apenas observar-se, contemplar-se como é, sem analisar, criticar.

Se você decidiu fazer um regime e ainda assim compra um doce na padaria, observe-se, sem traçar planos de regime, sem se reprovar, sem se justificar. Apenas observe-se no ato, no momento, o que sente, observe o que em você lhe leva a comer esse doce. Se alguém fuma observa-se acendendo o cigarro, o corpo pedindo, como pede, a satisfação da fumaça, o fumar cada momento, as reações de seu organismo. Cada momento seja ele como for. Quando estiver sem fôlego, arfante, tossindo, sinta isso, sinta seu organismo. Você vai no banheiro, como se sente durante o que quer que vá lá fazer? Antes, durante e depois, que já é outro durante de algum processo.

Observar-se é isso.

Um ponto que sempre me pedem é definir os objetivos do Trabalho e quais os métodos que ele usa para nestes objetivos chegar. Isto está bem de acordo com a cultura atual, envolvida em procedimentos, técnicas, etapas para se atingir algo.

Mas as metas do trabalho não estão no mesmo plano de nossa compreensão ordinária. As reais metas do trabalho estão além da esfera onde a mente usual opera. No nosso nível ordinário de consciência não há como compreender plenamente o Trabalho, assim toda definição, toda elaboração racional sobre o Trabalho, como esta que aqui está sendo tecida, vai ser sempre, na melhor das hipóteses uma aproximação, um aludir, um apontar para algo que embora comece na nossa esfera do cotidiano tem como objetivo o adentrar em outras esferas da realidade.

Quando começamos a tecer um tapete por exemplo sabemos qual é o resultado exato que pretendemos, assim temos que trabalhar, usar as combinações certas de cores para atingir o desenho que queremos e a usar o ponto adequado. Mas o Trabalho é como tecer um tapete com fios mágicos, fios que uma vez juntos na trama da tessitura provocarão um resultado novo e surpreendente além de toda nossa expectativa.

O Trabalho tal qual o consideramos aqui começa numa esfera, na esfera limitada e robótica onde vivemos nossas vidas, mas nos leva a outra esfera, ao estar desperto e presente de fato. Embora não possa ser limitado, é possível dentro da amplitude na qual o Trabalho ocorre destacar alguns aspectos seus, para que façam sentido mesmo dentro dos limites ainda cartesianos que a mente linear opera. Mas não perca nunca isso de vista, não se esqueça:

Falar sobre o trabalho é apresentar um pálido esboço, chamar a atenção para alguns aspectos de um todo multi-facetado e muito mais abrangente que a tosca descrição possível dentro da linguagem vulgar que usamos. O trabalho é mais do que o açambarcado pelo falar. Aqui vale o velho aforismo:

"Se queres ver a estrela não te fixes no dedo que a aponta".

A história humana tal qual a estudamos na escola é uma tolice sem par. Alguns homens, sempre homens, indo e vindo, matando, pilhando, roubando, impondo seus caprichos sobre outros. Servos que destroem seus opressores e instalam um tipo de opressão ainda pior. Escravos que se tornam peões, que se tornam assalariados e continuam a servir. A implantação do modelo nascido e desenvolvido no Mediterrâneo sobre todos os outros povos. Vimos isso como guerras de conquista, depois como "colonização" e agora o mesmo imperialismo é chamado globalização.

Mas não deixa um minuto de ser o que sempre foi.

Grupos em busca do poder, grupos que se aliam e brigam e voltam a se aliar. Grupos que dominam o poder das armas e grupos que dominam o poder religioso. Assim, matando, subjugando e convertendo os povos, vem esses grupos se espalhando há séculos por todo o mundo e agora dominam-no completamente.

Pense que neste instante estão trabalhando em artefatos nucleares, outros tantos já prontos aguardam em silos e usinas, de segurança duvidosa. Existem mentes brilhantes agora manipulando bactérias e vírus, tentando criar doenças que possam ser lançadas sobre populações especificas, doenças como armas. Contaminar o mundo e criar uma imunidade só nos grupos escolhidos.

Você é tão robotizado que nem sequer pensa nisso?

Que toda, TODA, a vida neste planeta está ameaçada completamente enquanto esses engenhos existirem?


Neste instante alguma mente brilhante foi desviada de seu curso e serve a indústria da guerra: mentes humanas pensando o meio mais letal e eficiente de matar outros seres humanos. Guerra química, guerra biológica, domínio psicológico das massas.

Destruição.

Indústrias continuam rasgando a terra, poluindo ar e mar, esquecidos que nossos recursos naturais são finitos e a Terra é como um aquário no meio do grande espaço inter-estelar. Sim um aquário, a mesma limitação de um aquário.

Pense nisto e pense com atenção, faz partes das coisas que te ensinaram a não pensar.

As árvores são organismos geradores de energia.

Cada ser árvore tem sua própria linha evolutiva e quando adultas geram um campo de energia que fortalece a vida como um todo. Árvores adultas geram energia e poderiam nos proteger de certos entes parasitas que tem muito poder sobre a humanidade há alguns milênios.

Nós somos partes da vida.

Não tecemos a teia da vida, somos apenas um de seus fios na vasta trama. E somos afetados por tudo que fazemos à Terra. Tudo que fazemos a Terra fazemos a nós mesmos. Mas somos escravos, embotados e tornados robôs apenas para servir. Nosso orgulho e arrogância nos mantém distantes de qualquer possibilidade de percebermos nossas limitações. Nosso medo nos mantém distante da auto-consciência.

Não nascemos assim.

Os mecanismos sociais como a família , a escola e a religião cuidaram para que nos tornássemos assim. É nisto que hoje essas antigas instituições, que um dia já foram caminhos para a conquista da autonomia moral e intelectual, foram transformadas. Em vetores do estado sonambúlico no qual somos mantidos usando o mínimo de nossas habilidades. As criaturas mágicas que somos, os viajantes da eternidade transformados em produtores consumidores de futilidades. A observação atenta de nós mesmos nos permite reconhecer algumas das facetas dessa condição de escravizados e assim daremos o primeiro passo para nossa liberdade.

O reconhecimento de nosso estado real. Pois a melhor forma de manter alguém prisioneiro é mantê-lo ignorante desse estado. Vale aqui um antigo conto oriental narrado por Gurdjieff.

Um homem, possuidores de muitos poderes tinha um grande rebanho. Este rebanho era a fonte de sustento, status e poder desse homem, pois em sua sociedade pastoril o tamanho do rebanho era o sinal do poder de seu possuidor. Mas tal rebanho era também a fonte de preocupações do mesmo homem, pois os carneiros fugiam, tinha que pagar muitos empregados e muitas vezes era roubado. Certo dia teve a idéia da solução. Reuniu todas as ovelhas numa garganta. Colocou-se num lugar de onde todas podiam vê-lo e ouvi-lo. Usando seus poderes hipnóticos convenceu a todas que ele era o Deus supremo, o senhor, o bom pastor que as conduzia por pastos verdes e fartos, sombras tranqüilas e água fresca. Sempre seria assim. Elas eram ovelhas e mesmo quando parecia que ele as tosquiava impiedosamente e que ao final vinha degolá-las aquilo nada mais era que a passagem ao paraíso, perderiam o pesado e pecaminoso corpo e entrariam em espírito num estado de glória, onde a grama era eternamente verde e boa, a água sempre fresca , e nenhum lobo ou leão da montanha poderia neste céu entrar. Lhes disse que eram imortais e que não precisavam se preocupar com nada, só em comer e beber para a plenitude do pastor. Mas para isso elas deveriam estar sempre onde ele mandasse e jamais ir com outros, esses sim o mal e a perdição. Após sua prédica ele observou por alguns dias o rebanho. Ficou satisfeitíssimo com o resultado. Despediu todos os pastores, só deixando um de guarda para o caso de ladrões. Nunca mais precisou arrumar nem mesmo a cerca.

O conto dispensa comentários. Fala por si só.

Assim como as ovelhas , precisamos sair desse estado hipnótico que nos puseram para podermos ser donos de nossas próprias vidas. E só podemos começar observando-nos, atentamente. Com calma, sem predisposições, só observar-se. Para perceber que o que chamamos de "eu" é um agregado. Um conjunto de jeitos de emocionar-se e pensar que reunimos dentro de um mesmo saco e chamamos esse saco de " Eu".

Uma analogia.

Você pega peças e as reúne. Cria um carburador, caixa de marcha, tanque, motor, sistema elétrico e tudo o mais. Quando coloca a bateria e enche o tanque você pode usar esse todo para leva-lo de um lado para outro. Chama o todo de carro. É algo concreto, ali, um carro, de um certo modelo, de um certo estilo. Com o tempo você pode trocar pneus, peças, como as células estão se renovando em seu corpo. Como troca de idéias, de emoções. Mas ao final o carro acaba, bate, enferruja, e vai embora, desmontado. Sobrou algo do carro? Suas peças podem ir para outros carros, seu material pode ser fundido e reaproveitado, mas aquele carro, aquele que você as vezes até deu um nome para ele, com o qual viveu tantas histórias cadê ele? Pode haver um motorista no carro, mas digamos que a maioria dos carros sejam carros de frota, cada dia um pega para dirigir. O carburador precisa de limpeza, mas o motorista da tarde não sabe que o da manhã detectou essa necessidade. E muitos motoristas dirigem esse carro. Podemos criar condições para que um dono verdadeiro surja nesse carro, mas antes temos que saber que isso é possível.

Saber que podemos ter um Eu real faz parte das coisas que nos negam fazendo acreditar que já as temos. E o mais importante, esse Eu real , essa individualidade nada tem a ver com a abordagem segmentada, egóica e dissociada que temos hoje do termo "eu". Como o consumidor mediano se crê num mundo livre por poder escolher a marca do seu aspirador de pó e do seu remédio para a cardiopatia que o ataca. Note que aqui estamos muito distantes do espiritualismo do senso comum que acredita que há uma alma em torno da qual o ser se forma.

Estamos usando o exemplo do carro não apenas para compara-lo com o corpo, mas com os campos emocionais e mentais, com os vários componentes , os vários jeitos de ser e pensar que amarramos no mesmo fardo e chamamos "eu". Esta consciência não pode ser apenas intelectual. Não adianta você ler isso. Você precisa meditar, por muito tempo e atentamente para perceber isso.

Todas as escolas trabalham com exercícios para que essa percepção seja possível. Portanto seguir lendo este trabalho e o compreender indica que você já trabalhou o suficiente para compreender que o que chamamos "eu" é um agregado. Algumas escolas falam de muitos "egos", outras de muitas "personalidades".

Personas, máscaras que usamos para nos comunicar com o mundo. Quem é esse nós que se comunica? Quem usa as máscaras? Há uma unidade, algo, alguém? Ou são só fluxos, que focados sob a lente do presente parecem ser algo, parecem ter unidade e existência própria, mas são apenas momentos num fluir constante?

Não passe apenas por essas questões, pense nelas, visualize, pare, respire e leia de novo esta página. Várias Escolas tocam nesse ponto. Percebemos o mundo a nossa volta. E quando níveis mais amplos de consciência são atingidos, algo permanece existindo. A psicologia ocidental em quase sua totalidade só se interessa pelos estados outros de consciência que não o usual quando estes são patológicos, isto é , não integrados no indivíduo. Esquizofrenia, psicoses, neuroses, este é o campo que tais escolas lidam.

Escolas como a junguiana e a transpessoal são exceções importantes, que embora de forma tímida, dão os primeiros passos no estudo dos níveis alterados de consciência nos quais ela não se fragmenta ou descompensa, mas se amplia. De uma forma primária ainda chamam tais estados de transe, muitas vezes considerando-os ocorrência fugidias, como acessos que vem e vão.

Mas outras escolas de psicologia mais sofisticadas como a budista compreendem que existem outros estados de consciência e podemos não apenas incidir neles mas ampliar a tal ponto nossa percepção que um novo mundo se descortina aos nossos olhos, ampliado por podermos perceber mais. Um desses estados é conhecido como o estado de Arhat. Após um trabalho disciplinado o ser passa a interagir de forma mais consciente com o meio e assim ao invés de estados ilusórios passa a perceber o mundo como ele de fato é, com seus fluxos e mutações. Costuma-se dizer que o Arhat vê a essência das coisas e não apenas a superfície.

Todo trabalho é realizado em etapas.

Em relação a energia por exemplo, como veremos mais adiante, é importante em primeiro lugar poupar energia, pois precisamos de energia para começar o trabalho sobre nós mesmos. Em segundo lugar é o momento de recanalizar a energia, reconhecer que os focos nos quais a energia foi anteriormente aplicada eram determinados pelo sistema que nos criou, o qual tem seus próprios fins, bem distantes da auto-consciência e do equilíbrio.

Finalmente em terceiro lugar aprendemos a potencializar e ampliar nossa energia, liberando-a dos pontos onde estava bloqueada e aprendendo a ampliar ainda mais a energia que possuímos.

Veja que tal seqüência não é arbitrária mas estratégica.

Continua...

Um comentário:

Wagner Woelke disse...

Parabéns pelos artigos!

convido a visitar o blog: www.leidaatracaoresultadospraticos.blogspot.com

Abs.

Wagner Woelke