A Obra do Nagual - 3ª parte - por Nuvem que passa

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A partir de agora o texto só vai interessar ou mesmo ser realmente compreendido aos que estudam a obra do novo nagual. O trabalho que C.C. tem em sistematizar a experiência pela qual passou e colocá-la em palavras é em si mesmo uma das mais complexas abordagens antropológicas de uma civilização em tudo e por tudo alienígena à atual.

Culturalmente alienígena, vejam bem.

C.C. se torna praticante, mas não deixa de ser um homem racional do ocidente, que busca explicar, que busca sistematizar o saber que lhe está sendo apresentado. Ele aplica as ferramentas cognitivas e os novos modelos de realidade que lhe são demonstrados junto com a nova "descrição de mundo" que lhe é apresentada nas questões mais fortes de nosso tempo e trás uma sutileza de abordagem da realidade na qual estamos inseridos, que distingue sua obra.

Ele mostra que tudo é trabalho, que nada vem de graça. Vai concordar com Gurdjieff e outros que já haviam dito que os planos da Eternidade para o ser humano nada tem que o permita se considerar "eleito", "favorecido". O ser humano tem uma função cósmica. Ao nascer ganha a consciência. Durante a vida desenvolve e matura essa consciência. Para ao final, a força motriz e original da existência, chamada Águia ou mar escuro da consciência, receba de volta essa consciência enriquecida, imediatamente após a morte ou algum tempo depois, pois a consciência pode sobreviver em várias formas nos muitos mundos que existem paralelos a esse.

O forte das descobertas dos Toltecas é que existe um caminho alternativo. Que existe uma chance que é apresentada de tal forma que não vamos ler abordagem equivalente em nenhuma outra obra apresentada no ocidente como reveladora da sabedoria ancestral.

O ser humano pode, à partir da certas práticas no decorrer de sua vida, escapar dessa dissolução e entrar num estado alternativo de consciência que é quase uma eternidade, embora ainda aqui fique claro que há um limite.

Esta abordagem muda toda uma concepção muito em voga nos meios esotéricos. Vidas após vidas para evoluir, para chegar a algum lugar. O xamanismo guerreiro dos Toltecas afasta toda essa idéia e coloca essa vida como única, como a mais importante e o campo onde a batalha contra nossos oponentes devem ser travadas.

Quem são esses oponentes?

Demônios, seres perigosos de outros mundos?

Os mais perigosos estão em nós, são eles que podem abrir a porta da fortaleza quando o exterior tenta atacar. Se eles forem vencidos os exteriores perdem seu poder. Aos que buscam o conhecimento quatro já foram apresentados: O medo, que paralisa, a clareza que cega, que gera a arrogância de tudo saber, esquecendo que num mundo em expansão o aprendizado é constante, o Poder que fascina e aprisiona criando marionetes que se julgam entes poderosos quando na realidade servem os que julgam dominar e a velhice, compreendida como a incapacidade de por em atos o que sabemos. São inimigos constantes, nunca totalmente vencidos, sempre prontos a voltar e tomar o controle da situação. A importância pessoal é apontada como sua principal arma.

Há uma estratégia fundamental nesta luta: Desmontar as rotinas da vida, para estar atento a cada momento, sem entrar no "piloto automático". Apagar pouco a pouco a história pessoal. Essas são as práticas mágicas ensinadas ao aprendiz. E embora pareçam a alguns tolas, quem ousa realizá-las compreenderá que esteve tecendo sua capa mágica, que esteve forjando sua arma mágica, que se chamará Implacabilidade e também esteve trabalhando seu escudo, a ausência de importância pessoal, que tem sua chave na ausência de piedade por si mesmo. Quando a estratégia da ação abrange o ser implacável, paciente, astuto e gentil sabe o aprendiz que chegou num ponto decisivo. Sua energia acumulada expulsa sua percepção da condição "normal" que até então era mantida.

Surge um desassossego. O mundo não é o mesmo, não é mais satisfatório, há algo que te chama além. O chamado do infinito tem vários nomes em cada cultura , mas o fato é que quem já o ouviu nunca mais irá ficar tranqüilo se ceder a mediocridade de uma vida conformada ao cotidiano. O chamado do infinito tem a estranha habilidade de despertar em nós um senso crítico interior que sempre nos dirá, quer queiramos saber ou não, se continuamos fazendo do dom da vida um caminho para a liberdade ou se voltamos e cedemos e nos vendemos por algum preço ou conforto, ao sistema, à "Matrix".

C.C. percebe que foi isso que aprendeu e aprende que seu campo de batalha era o mundo das cidades, os lugares onde ia, onde estudava, era ali que deveria aprender a aplicar tudo que aprendeu e atingir a condição singular, onde tudo que havia herdado lhe ajudaria a ser ele mesmo, um evento conectado ao infinito, mas único.

Como um vetor resultante que subitamente deixasse de ser apenas o resultado de todas as forças exercidas sobre o móvel, mas se torna uma força ele mesmo, uma força nascida de si mesmo, uma vontade plena. C.C. experimenta muitas possibilidades de aglutinar mundos. Vai a muitos lugares diferentes e explora o mistério do ponto de aglutinação, conhecimento de um ineditismo ímpar. Não há conceito similar a esse em outras obras e cito isso aqui para que todos percebam que estamos diante de um conceito "novo", algo raro nessa era de reedições e releituras.

O ponto de aglutinação será nosso próximo tema.

5 comentários:

oanonimo disse...

Muito bom esse texto, vou retirar algumas frases e fazer um wallpaper!

abraço

Joao Franco disse...

Queria agradecer pelo livro que me sugeriram e que deram o link - Viagem a Ixtlan!

Estou a adorar....é incrivel! Parece que me sinto a reagir como Castaneda reage ao que diuz Don Juan e a +erceber as lições na minha vida.

O meu profundo obrigado.

Fernando Augusto disse...

\o/ \o/ \o/ Somos gratos também, João. Após a leitura de Viagem a Ixtlan recomendamos, na sequencia, Porta para o Infinito.

http://www.4shared.com/document/pKwb0kFK/Castaneda_Carlos_-_Porta_para_.html

sobralios disse...

obrigado pelo texto guerreiro!
muuuito bom
esperando continuação

KALI, desesperadamente humana. disse...

Uma vontade de reler tudo de CC...