A Reconsagração do Falo - parte 2

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Os homens e as mulheres são seres diferentes.

Como dizem, "viva a diferença".

Pelas nossas diferenças podemos ser instigantes, interessantes e nos ampliarmos, nos estimularmos a ir cada vez mais longe.

O primeiro ponto importante é notar que existem energias femininas e masculinas na ETERNIDADE, os Taoístas chamam de Yin e Yang.

Como homens e mulheres somos a personificação dessas energias, mas pode acontecer de um homem ter muita energia Yin e uma mulher ter muita energia Yang.

Organicamente as diferenças são claras.

As mulheres possuem um órgão mágico por excelência, o útero.

Nós homens temos outro caminho para a magia, temos um caminho que se desenvolve em nós por um trabalho diferente do da mulher, diferente não quer dizer antagônico como tantos quiseram fazer crer.

Diferente não é superior nem inferior, é só diferente, homens e mulheres tem nuances muito próprias em seu caminhar pelas trilhas da magia, nuances determinadas pelas diferenças orgânicas que tem.

A mulher menstrua, tem um ciclo lunar claro, gera a vida, portanto seus ciclos de transformação são muito claros e bem marcados.

Uma menina começa a menstruar e isso muda a posição dela no grupo onde vive, agora ela é fértil, depois de ser mãe, claramente muda novamente sua posição no grupo.

Assim os "ritos de passagem" da mulher continuam ainda presentes mesmo em nossa cultura.

Até aquele piegas baile de "debutante" tem seu papel nesse transitar da mulher por suas fases da existência.

Mas nós homens temos outro caminho.

E este caminho foi um pouco perdido na nossa civilização. Por esta razão, a meu ver, é mais fácil alienar um homem de si mesmo e o colocar como "conquistador e mercenário", onde devia viver o guerreiro, fazer de nós o imaturo consumista, preocupado com metas que o fazer servil às grandes corporações que dominam o mundo, as novas companhias "das índias ocidentais e orientais" que mercantilistamente continuam usando o mundo para seus fins, fazendo de pessoas apenas os prolongamentos biológicos de suas engrenagens.

Nós perdemos muitos ritos de passagem em nossa cultura. Hoje quando um garoto começa a entrar numa idade que seus pais ou professores consideram como "sexualmente ativa", recebe orientação sexual baseada no medo da morte, pela contaminação pela SIDA ou uma educação baseada em uma abordagem do sexo que foi dada por igrejas, para as quais a negação do corpo e da sexualidade é tema fundamental, ou uma abordagem tida por cientifica, onde se explica o processo orgânico da sexualidade de forma fria, racional e mecânica.

Mas sabemos que sexualidade é muito mais que uma explicação orgânica e não pode ser contida nem pelo medo da morte, vejam quantas pessoas ainda contaminadas no mundo de hoje, onde todos sabem dos riscos da AIDS, ou seja mais forte que o medo da morte é o desejo sexual, um tema para meditar, ancestral tema Eros e Tanathos.

O caminho fálico é um caminho masculino. Viril, ele é sentido na força do Sol e também da Terra. O primeiro e importante ponto aqui é ressaltar que tanto o Sol, como a Terra são ao mesmo tempo masculinos e femininos. O caminho masculino, o caminho fálico é despertar o poder do Sol e da Terra que existe também em nós. E isto é muito importante de ser compreendido, pois mesmo que a pessoa tenha uma sexualidade não convencional, ainda assim, se tem excalibur entre as virilhas, trilha o caminho fálico.

Aprender a lidar com esse poder é fundamental, somos todos "Arthur", "Arcturus", que precisa resgatar a espada que dorme na pedra para com ela unificar nosso "reino", isto é, nosso interior.

E como Arthur podemos não resolver nosso lado feminino, rejeitando a via do poder da TERRA (Morgana) e se aliando a via do poder que serve o dominador (Guenevere) e rejeitando "Mordred" nossa sombra e filho, deixamos que ela seja forte mas descontrolada e perdemos a força da vida e falhamos em nossa aventura existencial.

O caminho do falo é o caminho do poder masculino, mas o que sabemos do poder masculino?

 Se o poder masculino é a contraparte do poder feminino, a forma profundamente desequilibrada com que tratamos o poder feminino em nosso mundo revela também que nossa abordagem do poder masculino não deve lá estar muito equilibrada e sensata.

Todo extremo é danoso, o equilíbrio é sempre um ponto de síntese entre tese e antítese, isto é demonstrado pela vida, pela realidade a nossa volta, assim os caminhos que estão aí não são caminhos "solares" ou "patriarcais" mas caminhos "pseudo-solares" e "pseudopatriarcais".

Há uma luta entre seres humanos querendo dominar seres humanos e esta é a divisão fundamental na humanidade há já algum tempo, os dominadores e os dominados.

Os que querem dominar, exercer o poder sobre outros, subjugar, escravizar e fazer o mundo, enquanto natureza e enquanto outros seres humanos, servirem a seus caprichos.

Esse caminho é só um dos caminhos possíveis, podemos desenvolver modelos mais harmônicos de existência, onde simbiose e mutualismo podem ser formas mais adequadas de viver que o parasitismo e a ação predadora e degradante que temos hoje como modelo oficial.

Assim o caminho do Falo é um caminho de amplitude e não de limitação; de força, não de "dominação", onde o poder "se manifesta" e não é imposto.

Portanto para entender o caminho do Falo temos que compreender também que o "pseudo patriarcalismo" não é o patriarcalismo, e que as abordagens dentro destes paradigmas dos caminhos solares, são caminhos pseudo-solares, não efetivamente solares.

Quando começamos a sentir nosso falo acordando isto vem aos poucos, em diferentes fases para diferentes pessoas.

Tocar aquela área pode começar até incidentalmente, mas vai ficando cada vez mais evidente que há "algo" diferente que irradia dali.

A masturbação na maioria dos homens é apenas fálica, é o estimular do falo até que um limiar é atingido e então vem a ejaculação, com os disparadores de prazer que estão ligados a ela.

É importante perceber que esta fase é "programada", instintiva.

Masturbar-se, sentir prazer, ter algumas fantasias eróticas, são coisas que apenas tocam de leve a sexualidade e seu poder, são a ponta do iceberg.

Para os fins da Existência importa que um homem se torne sexualmente ativo e gere a continuidade na mulher.

Assim a sexualidade é a função humana mais ligada a estímulos de resposta prazerosa, o que pode torná-la uma verdadeira obsessão para alguns.

Mas a sexualidade pode ser ampliada além dessa função reprodutora, podemos ir além de sermos os "reprodutores" da espécie e ampliarmos nossa expressão sexual.

Assim como a espada tem seu poder não apenas no material que é forjada, mas principalmente no punho que a manobra, também o falo tem seu poder não apenas nessa concepção do ato sexual, mas em toda a realidade existencial de quem faz parte desse falo.

O caminho fálico não se resume ao falo, um homem pleno em sua sexualidade tem a força do falo em sua língua, quer fale, quer a use para explorar o corpo desejado, a boca de quem nos atraí, o corpo é fálico, o olhar, cada gesto, cada ação é profundamente "fecundadora" e "prazerosa".

Nosso corpo é nosso maior templo, como xamã e bruxo só reconheço dois templos de poder inesgotável, o corpo e a natureza, tudo mais é de poder relativo.

Descobrimos o nosso falo quando transformações metabólicas tremendas ocorrem em nosso corpo, por ocasião da puberdade, quando nos tornamos uma "usina de hormônios" que nos despertam sensações até então insuspeitas.

Se partirmos da perspectiva mágica, cada momento em nossas vidas estamos "ressonando" a energias tremendas, como se fôssemos um aparelho de rádio, recebendo diversas estações.

Como ocorre em nossa cultura o despertar da sexualidade?

Na maior parte das vezes esse "jogo" com nosso corpo, acontece para muitos no banheiro, às vezes apenas durante o banho e isto gera uma "pressa", uma certa tensão de que alguém perceba ou interrompa e esta abordagem ainda vem às vezes mais prejudicada por crenças que está "pecando", agindo errado e coisas do gênero que são implantadas pelos caminhos não pagãos.

Nosso corpo é um portal natural, trazemos a este mundo energias diversas, ritualizando reatualizamos o mito e isso nos faz canais dos Deuses e Deusas.

Pã e tantos outros deuses que representam a complexa teia de energias da sexualidade estão quase perdidos hoje. O galhudo é associado ao mal, coloquem uma imagem do galhudo para a maioria das pessoas e elas vão querer te exorcizar, vão ver ali o "mal" e com medo fugirão.

Percebem como é complexo recuperar mesmo o caminho fálico? Pois ele está terrivelmente prejudicado por séculos de condicionamento limitador, onde sexualidade foi associada ao pecado e hoje, com o risco da SIDA acabam usando o medo, agora bem objetivo, como meio de impedir uma abordagem tranqüila e harmônica da sexualidade.

O caminho da sexualidade possui muitas ramificações.

Alguns se limitam a uma exploração solitária de sua sexualidade, por vezes caindo no risco de deixar a fantasia substituir a realidade. Por inseguranças diversas podem limitar a expressão de sua sexualidade ao fantasiar e ao masturbar-se, que são caminhos de iniciação, pontes ao universo da sexualidade, mas não podem ser substitutos de uma sexualidade plena. A quantidade de material sexual como revistas e a Internet faz com que alguns tenham uma rica sexualidade imaginária, virtual e nada de real acontece.

Isto é incompleto e só na "fantasia" nenhum poder real se manifesta.

Alguns se liberam na questão sexual, se assumem seres sexuais e partem para as "caçadas" e "conquistas", expandem a sexualidade além de sua esfera pessoal e conhecem o prazer, o ter e promover prazer e muitos caminhos e faces da sexualidade serão vivenciadas e experimentadas repetidas vezes até que a "persona sexual" isto é nossa forma pessoal de viver a sexualidade se manifeste em nós.

Como em todos nossos talentos, só seremos singulares, isto é, plenos, em nossa sexualidade, se a desenvolvermos e lapidarmos pela prática e pelo auto conhecimento nosso próprio jeito de viver a sexualidade.

Senão seremos apenas "repetidores", seremos caçadores frustrados que vivem em busca de algo que sabem existir mas que nunca atingem na prática.

O prazer pleno exige um nível de dedicação que só quando somos plenamente nós mesmos o atingimos, do contrário este tremendo poder será sempre "intuído" mas não vivenciado como ATO.

Nesse ponto considero o excesso de imagens e apelos sexuais de hoje uma deturpação. Na falta do ATO, fica a imagem, o imaginário. Como em muitos outros campos o ser humano está trocando "viver" pelo simulacro, pela fantasia, tornando-se pouco a pouco uma "pilha" da MATRIX, o sistema que tudo domina para extrair nossa energia apenas para ele.

A fantasia pode ser um acessório numa fase da vida sexual, mas viver na fantasia me parece estar ausente da realidade e onde mais podemos existir como seres mágicos senão na realidade?

Magia é ato, não imaginação, magia é a ação incisiva na realidade, com nossa vontade, causando modificações.

Assim, por definição, ficar só em fantasias é estar fora da realidade, é subparticipar da vida.

Portanto o poder do falo para ser compreendido em toda sua tremenda energia precisa ser trabalhado com amplitude, não nos limites dos condicionamentos que as religiões dogmáticas e as abordagens cientificistas da questão forjaram.

Notem que o momento exato que começamos a ejacular é muito impreciso, temos todo um tempo com um líquido mais ralo que pouco a pouco vai mudando e de repente o grosso esperma é que jorra.

Também a questão do prazer precisa ser muito meditada e compreendida, pois essa tremenda força tem duas naturezas. Num primeiro momento o prazer pelo ato sexual está implantado em nós como uma "garantia" para a sobrevivência da espécie, pois com este tremendo estímulo os seres humanos continuam a perpetuar a espécie e a transmitir adiante uma linguagem, uma mensagem que temos nos genes, que passa através de nós em direção a algum momento no tempo e espaço.

Essa tremenda energia do prazer pode ser trabalhada e muitos caminhos ensinam que ejacular e o orgasmo são coisas distintas, associadas em nós para fins de continuidade da espécie, mas que podem ser trabalhadas de outras formas.

Aí entramos também na questão da forma de manifestar essa sexualidade. As religiões que vieram de povos conquistadores ou povos que desejavam se fortalecer pela multiplicação sempre tiveram severos dogmas contra as posturas homossexuais, quer masculinas quer femininas, porque tais posturas ameaçavam" a continuidade e a expansão". Porém vivemos numa época hoje onde o excesso e não a falta de pessoas é o problema, assim tais preconceitos precisam ser revistos e superados para que cada homem e cada mulher expresse sua sexualidade como sente, como é, sem querer negar-se para servir a modelos por outros implantados.

Na nossa sociedade as pessoas aprendem sobre sexualidade em duas abordagens principais.

Entre amigos e nas aulas "formais" onde professores e professoras falam "cientificamente" sobre sexualidade, já criando um problema muito sério:

A "racionalização do sexo".

Entre amigos há uma abordagem do semiconhecimento, uma mistura de idéias próprias com preconceitos herdados e desta confusão emerge uma abordagem "marginal" da sexualidade.

Assim o tremendo poder do Sexo pode ser confundido e ainda mais se viemos de famílias com formação católica ou similar, podemos ter em nós, enraizadas, concepções tacanhas e tolas sobre sexualidade.

Pois para a formação oficial das pessoas sexo ainda é visto como pecado, por isso é algo meio proibido, algo tabu, algo que se fala pouco e os conservadores e conservadoras de plantão, que estavam assustados e amedrontados porque o mundo não os (as) levava mais a sério, tiveram na Sida um aliado para suas batalhas moralistas, pois agora ameaçam não com o fogo do inferno, mas com a "morte".

O sexo é um poder tremendo, gera a vida, basta dizer isso. E um veículo de expressão dessa energia sexual é o falo.

Por isso no caminho mágico temos que resgatar nosso falo, para que ele seja nossa "excalibur" nossa "vara mágica", para que o poder nele contido não possa ser perdido em "fantasias eróticas", mas REALIZADO, no mágico casamento, primeiro do feminino e do masculino em nós, em nosso interior e depois no Deus e Deusa fora de nós.

O trabalho de transformação de nossa energia sexual é uma das chaves, um dos arcanos mais delicados dos caminhos iniciáticos, porque pessoas bem resolvidas sexualmente têm uma energia tremenda, inquebrantável, portanto não é de admirar que é na frustração e na crise quanto a sexualidade que este sistema dominador que aí está tem uma de suas forças.

Alguns pontos para meditarmos sobre o tema.

Nuvem que passa

Um comentário:

Dinarte araujo neto disse...

Fernando Augusto, queria aqui três quatro indicações a respeito de seu texto sobre a Reconsagração do Falo. Primeiro indicaria o livro Castração e a fúria masculina do autor Eugene Monick,onde o autor junguiano busca a cura da ferida fálica, mas ignora a energia ativada do falo pelo tantrismo. Então ainda permanece na via da normose. Destaco a advertência de D.Juan em CARLOS CASTANEDA, a de que a energia básica é a sexual e deveríamos ser 'ávaros' e não disperdiça-la a bel prazer. Entretanto os toltecas não destacaram nenhuma alternativa a esta recanalização sexual que sustentasse o intercâmbio sexual. Logo muitos se afastaram de C.C. Outrossim os antigos sábios da ioga tântrica trouxeram à tona a prática de preservar e intensificar a energia sexual, reunindo-a num caudal com a cultura espiritual de suas analogias teomórficas. O taoismo herdou e aprimorou a arte do leito nupcial sem a projeção religiosa, mas apenas filosófica e curativa. Entretanto, pelo menos para nossa cultura sem limites, o tantrismo pode nos levar a um beco sem saída por força do carma voraz da energia sexual, a compulsão sexual. Então eu vejo a culminação do caminho falo-tântrico em Cristo e seu amor holocentrado, onde a mulher é o estímulo da forja e o cálice sagrado no caso do homem, e vice-versa, cada qual com sua singularidade. Duas pessoas do mesmo sexo podem se relacionar tantrica e crísticamente, mas não vejo como poderiam menosprezar o sexo oposto como complemento indispensável ao fogo Kundalínico e ampliação da percepção-consciência. Se acaso se entregarem ao fogo da paixão, vão se confundir mutuamente e tenderão a projetar as virtudes arquetípicas do sexo oposto um no outro(anima-animus)e viverem estereótipos. Quanto à SIDA-HIV-AIDS, apesar de terem colocado a 'revolução sexual' Reichiana na berlinda e dado argumento repressivo aos moralóides normóticos, vejo porém que o HIV colocou um obstáculo e um DIQUE à libido compulsiva e á volúpia, obrigando o homem a se encontrar consigo mesmo e com a companheira sexual, que antes era menosprezada por pouca distensão entre o casal, e separações ego-narcísicas eram fáceis demais. Quem amadurece se não formos ao fundo e ao limite de nosso inconsciente pueril e narcisista? Deixo aqui referência ao blog em que busco reconciliar tantra e Cristo, Unotantra crístico.blogstop.com