Quem sou eu? - 2ª parte

sábado, 8 de agosto de 2015

Façam a si mesmos a pergunta: São livres? Muitos serão tentados a responder que sim, se estiverem num estado de relativa segurança material, sem preocupação com o "amanhã" e se não dependerem de ninguém para sua subsistência ou para a escolha de suas condições de vida. Mas a liberdade está aí? É somente uma questão de condições externas?

Você tem muito dinheiro, vive no luxo e goza do respeito e da estima geral. A frente das importantes empresas que controla estão homens capazes, que lhe são inteiramente devotados. Em suma, sua vida é um verdadeiro mar de rosas. Você se considera absolutamente livre, porque, no final de contas, seu tempo lhe pertence. Você patrocina as artes, resolve os problemas mundiais diante de uma xícara de café e se interessa pelo desenvolvimento dos poderes espirituais ocultos. As coisas do espírito não lhe são estranhas e você se sente à vontade diante de qualquer questão filosófica. É bem educado e instruído. Graças a seus consideráveis conhecimentos nos mais variáveis domínios, tem a reputação de ser um homem inteligente, hábil para resolver qualquer problema. Você é o modelo do homem culto. Em resumo, pode-se invejá-lo.

Esta manhã você acordou sob a influência de um sonho desagradável. Esse ligeiro mal-estar desapareceu rapidamente, mas deixou seu traço: uma espécie de lassidão, de hesitação nos gestos. Você se dirige ao espelho para se pentear e, por descuido, deixa cair a escova. Mal acaba de pegá-la, ela escapa de novo. Você então a apanha com ligeira impaciência; ela foge de suas mãos pela terceira vez. Você tenta pega-la no ar, mas, em vez disso, ela vai bater no espelho. Em vão tenta agarrá-la . Craque!... Eis um feixe de estrelas sobre o espelho antigo de que você se orgulha tanto. Diabo! Os discos do descontentamento começam a se mover. Você sente a necessidade de descarregar sua irritação em alguém. Descobrindo que seu empregado se esqueceu de pôr o jornal sobre a mesa do café da manhã, você perde a paciência e decide que tal malandro não pode permanecer mais tempo em sua casa.

Agora está na hora de sair. Como o dia é bonito e você não precisa ir muito longe, decide ir a pé, enquanto seu carro o segue lentamente. O belo sol produz em você efeito apaziguador. Uma pequena multidão que se formou na esquina da rua atrai sua atenção. Você se aproxima e descobre um homem caído na calçada, inconsciente. Com a ajuda dos transeuntes, alguém o coloca num táxi e o leva para o hospital. Note como o rosto estranhamente familiar do chofer de táxi se liga em suas associações ao acidente que lhe ocorreu no ano passado.

Você voltava para casa depois de ter festejado alegremente um aniversário. Como os doces estavam deliciosos! Esse danado do seu empregado que esqueceu seu jornal da manhã estragou o café matinal. Essa desgraça não poderia ser reparada? Afinal de contas , os doces e o café tem sua importância! Aqui está justamente o famoso café onde você se encontra as vezes com seus amigos. Mas porque você se lembrou daquele acidente? Você quase havia esquecido os aborrecimentos da manhã... E agora o bolo e o café tem realmente um gosto tão bom!

Olhe só! Duas moças na mesa vizinha. Que loura espetacular! Ela lança um olhar para você e sussurra para a companheira: "Ele é o meu tipo." Certamente nenhum de seus aborrecimentos merece mais a sua atenção ou a sua contrariedade por causa dela. Será que você notou a mudança de seu humor enquanto conhecia essa bela loura e como ele se manteve o tempo todo que passou com ela? Você voltou para a casa cantarolando e até o espelho quebrado só tirou de você um sorriso. Mas e o negócio para o qual você saiu essa manhã? Você acaba justamente de se lembrar... Não importa!... Afinal, sempre se pode telefonar.

Você tira o fone do gancho, mas a telefonista liga um número errado. Faz uma segunda ligação e o erro se repete. Um homem lhe diz grosseiramente que você o está aborrecendo; você responde que nada tem a ver com isso; segue-se uma discussão e você fica sabendo com surpresa que é um grosseirão, um idiota e que se ligar outra vez...

Um tapete que ficou preso em seus pés o exaspera; é preciso ouvir em que tom você repreende o empregado que lhe traz uma carta. Ela foi enviada por um homem que você estima e cuja opinião é importante para você. O conteúdo da mensagem é tão lisonjeiro que sua irritação aos poucos se dissipa, dando lugar a esse delicioso sentimento de embaraço que a lisonja provoca. É com o mais agradável humor que você termina a leitura.

Eu poderia continuar descrevendo dessa maneira o seu dia - ó homem livre! Pensa por acaso que exagero? Não, trata-se de uma série de instantâneos tomados ao vivo.

Esse é um dia na vida de um homem importante e até de renome internacional, um dia reconstituído e descrito por ele, na mesma note, como exemplo vivo de pensamentos e sentimentos associativos.

Onde está então a liberdade, quando as pessoas e as coisas se apoderam de um homem a ponto de fazê-lo se esquecer do seu humor, de seus negócios e de si mesmo? Pode um homem sujeito a tais mudanças ter, por pouco que seja, uma atitude séria em relação a sua busca?

Agora vocês compreendem melhor que um homem não é necessariamente o que parece ser e que o que importa não são os fatos exteriores nem a situação, mas a estrutura interna do homem e sua atitude em relação a esses fatos.

Será que tudo que acabamos de dizer é verdadeiro apenas para as associações que o atravessam? Será que a situação é diferente em relação aquilo que ele "conhece''?

Mas pergunto-lhes: se, por qualquer razão, cada um de vocês estivesse, durante vários anos, na impossibilidade de pôr em prática seus conhecimentos, que restaria deles? Quem sabe, nada mais que materiais que se evaporam e se ressecam com o tempo? Lembre-se da folha de papel em branco. É fato que durante a nossa vida aprendemos sem cessar coisas novas Chamamos "conhecimentos" os resultados dessa acumulação. Mas, apesar desses conhecimentos, não nos mostramos com freqüência afastados da vida real e , portanto, mal adaptados a ela ? Somos formados pela metade, como girinos, ou, ainda mais, simplesmente instruídos, quer dizer, tendo fragmentos de informações sobre muitas coisas. Mas tudo isso permanece vago e inadequado. E, com efeito, não passam de informações: não podemos chamar isso de conhecimento. O conhecimento é propriedade inalienável de um homem; não pode ser maior ou menor do que ele, porque

um homem só conhece quando ele próprio é esse conhecimento.


Quanto as suas convicções, vocês nunca as viram mudar? Como tudo o que está em nós, também elas não estão sujeitas a flutuações? Não seria mais correto chamá-las de opiniões em vez de convicções, uma vez que dependem de nosso humor tanto quanto de nossa informação ou talvez simplesmente do estado de nossa digestão naquele momento?


Cada um de vocês não passa de um mero exemplar de autômato animado.


Vocês pensam que é necessário um "alma" e até um "espírito" para fazerem o que fazem e viverem como vivem.

No entanto, talvez basta uma chave para dar corda ao seu mecanismo. Suas rações de alimento cotidiano contribuem para dar corda à mola e para renovar continuamente as piruetas vãs de suas associações. Certos pensamentos desalinhavados surgem desse pano de fundo e vocês tentam fazer deles um todo, apresentando-os como preciosos e pessoais. Da mesma forma, com os sentimentos e as sensações que passam, os humores, as experiências vívidas, criamos a miragem de uma vida interior. Dizemos que somos seres conscientes, capazes de raciocínio; falamos de Deus, da eternidade, da vida eterna e de outros assuntos elevados; falamos de tudo que se possa imaginar; julgamos, discutimos, definimos e apreciamos, mas omitimos falar de nós mesmos e de nosso real valor objetivo, pois estamos todos convencidos de que, se nos falta alguma coisa, poderemos certamente adquiri-la.

Se, com tudo que eu disse, consegui, mesmo numa pequena medida, mostrar com clareza em que caos vive esse ser que chamamos homem, vocês estarão em condições de encontrar por si mesmos uma resposta à pergunta sobre o que falta a ele, o que ele pode esperar se permanecer como é, o que poderá acrescentar de legítimo ao valor que ele próprio representa.

Já disse que certos homens têm fome de verdade. Se eles refletirem sobre os problemas da vida e forem sinceros consigo mesmos, logo se convencerão de que não lhes é mais possível viver como viveram, nem ser o que foram até o presente; que precisam a qualquer preço encontrar uma saída para essa situação e que um homem só pode desenvolver seus poderes e capacidades ocultos se limpar sua máquina de todas as sujeiras que nela se imiscuíram durante a sua vida. Para empreender essa limpeza de forma racional, é preciso ver o que deve ser limpo, onde e como . Mas ver isso por si mesmo é quase impossível. Para ver o que seja o que for dessa espécie, deve-se olhar do exterior; e, para isso, a ajuda mútua é indispensável.

Se lembrarem do exemplo de identificação que dei, verão como um homem é cego, quando se identifica com seus humores, seus sentimentos e pensamentos. Mas nossa dependência se limitará às coisas que podem ser captadas no primeiro instante? Àquelas que são tão salientes que não possam deixar de chamar a atenção? Lembram-se do que dissemos sobre a maneira como julgamos o caráter das pessoas, dividindo-as de modo arbitrário em boas e más?

À medida que um homem começa a se conhecer, descobre sempre novos domínios de mecanicidade em si mesmo - chamemos isso de automatismo - , domínios onde sua vontade, se "eu quero", não tem nenhum poder e onde tudo é tão confuso e sutil, que é impossível ele se achar dentro dessa confusão, sem ser ajudado e guiado pela autoridade de quem sabe.

Em suma, este é o estado de coisas no que se refere ao conhecimento de si: para fazer, é preciso saber; isso não podemos descobrir sozinhos.

Continua...

3 comentários:

Rafael F.C. disse...

Se não podemos descobrir sozinhos, como faremos?

Agradeço

Fernando A. disse...

"Portanto, a primeira meta de um homem que começa o estudo de si deve ser reunir-se a um grupo. O estudo de si só pode efetuar-se em grupos convenientemente organizados. Um homem sozinho não pode ver a si mesmo.

Mas certo número de pessoas associadas neste propósito trará para todas, mesmo sem querer, um auxílio mútuo. Um dos traços típicos da natureza humana é que o homem vê sempre mais facilmente os defeitos dos outros que os próprios. Ao mesmo tempo, no caminho do estudo de si, o homem aprende que ele próprio tem todos os defeitos que encontra nos outros. Ora, há muitas coisas que não vê em si mesmo, enquanto nos outros começa a vê-las. (...) Mas é claro que, para ver-se a si mesmo nas falhas de seus companheiros e não simplesmente ver as falhas deles, deve manter-se alerta sem trégua e ser muito sincero consigo mesmo.

Deve lembrar-se de que não é um; que uma parte dele mesmo é o homem que quer despertar-se e que a outra - "Ivanoff", "Petroff" ou "Zacharoff" - não tem o menor desejo de despertar e deverá ser despertada à força .

Um grupo é, comumente, um pacto feito entre os Eus de certo número de pessoas para travarem a luta contra todos os "Ivanoff", "Petroff" e "Zacharoff", isto é, contra suas "falsas personalidades".

Tomemos "Petroff". Ele é formado por duas partes - Eu e "Petroff". Mas Eu não tem força diante de "Petroff". Petroff é o amo. Suponhamos que haja vinte pessoas; vinte Eus começam então a lutar contra um só Petroff. Podem agora revelar-se mais fortes que ele. Em todo o caso, podem pertubar seu sono, impedi-lo de dormir tranquilamente quanto antes. E assim atinge-se a meta."

Pags. 256 e 257 do "Fragmentos ", de Ouspensky.

Daniele disse...

Temos percebido isto. Com ajuda caminhamos. Nos vemos no espelho. Mas também percebi que não precisa ser uma instituição, e até melhor que não seja, me distraio em meio a competição e fora dela olho em mim através dos que caminham comigo. Ai que dor.
Saravá F.A.