Quem sou eu? - final

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Há, porém, um outro aspecto da busca: o desenvolvimento de si. Vejamos um pouco como as coisas se apresentam nesse campo. É evidente que, entregue a si mesmo, um homem não pode aprender por dá cá aquela palha como desenvolver a si mesmo e muito menos aquilo que precisamente deve desenvolver.

Entretanto, pouco à pouco, ao encontrar pessoas que buscam, falando com elas, lendo livros sobre o desenvolvimento de si, ele é atraído para a esfera dessas questões.


Mas o que vai encontrar aí?

Primeiro um abismo de charlatanice desavergonhada, baseada inteiramente na avidez, no desejo de uma vida mais fácil mistificando as pessoas crédulas que procuram sair de sua impotência espiritual. Antes que tenha aprendido a separar o joio do trigo, passará muito tempo, durante o qual seu desejo de descobrir a verdade corre o risco de vacilar e se extinguir, ou se perverter. Privado do seu faro, pode então se deixar levar a um labirinto que desemboca diretamente nos cornos do diabo. Se conseguir escapar desse primeiro atoleiro, o homem corre o risco de cair num novo pântano, o do pseudo-conhecimento.

A verdade lhe será servida de forma tão vaga e indigesta, que produzirá a impressão de um delírio patológico. Indicarão a ele a maneira de desenvolver poderes e capacidades ocultos que – lhe serão prometidos, com a condição de que se for perseverante – lhe darão, sem muito trabalho, o poder e o domínio sobre tudo, tanto sobre as criaturas animadas quanto sobre a matéria inerte e os elementos. Todos esses sistemas, baseados nas mais diversas teorias, são extraordinariamente sedutores, sem dúvida devido ao seu caráter vago. Atraem de modo muito especial as pessoas "semi-educadas", parcialmente instruídas em matéria de conhecimento positivo.

Considerando que a maioria das questões estudadas do ponto de vista das teorias ocultas ou esotéricas ultrapassam os limites das noções acessíveis à ciência moderna, essas teorias consideram essa última com ares de superioridade. De tal forma, que embora rendendo justiça a ciência positiva, minimizam, por outro lado, a sua importância e deixam entender que a ciência é um fracasso e bem pior ainda.

Portanto, para que ir à universidade e se esgotar com os manuais oficiais, se teorias dessa espécie permitem desdenhar todos os outros saberes e se pronunciar sem apelação sobre todas as questões científicas?

Há, no entanto, uma coisa importante que o estudo dessas teorias não dá: menos ainda do que a própria ciência, ele não dá origem à objetividade em matéria de conhecimento. Ele tende a obscurecer o cérebro do homem e a diminuir sua capacidade de raciocinar e pensar de maneira sã, conduzindo-o dessa forma a psicopatia. Tal é o efeito dessas teorias sobre o homem semi-educado, que as toma por verdadeiras revelações. Aliás, sua ação não é muito diferente sobre os próprios cientistas, que podem ter sido tocados, mesmo levemente, pelo veneno da insatisfação com as coisas tais como existem.

Nossa máquina de pensar tem a propriedade de ser persuadida de tudo que vocês quiserem, quando é influenciada, por pouco que seja, de maneira repetida e persistente na direção desejada. Uma coisa que pode parecer absurda no momento, acabará por ser racional à medida que é repetida com insistência e convicção suficientes. Certo tipo de homem repetirá frases feitas que lhe permanecem no espírito, outro irá procurar provas e paradoxos sofisticados para justificar suas afirmativas. Ambos são igualmente lamentáveis. Todas essas teorias enunciam afirmações que, tais como os dogmas, não podem ser verificadas – pelo menos através dos meios que dispomos.

São então sugeridos certos meios e métodos de desenvolvimento de si, que se supõem, conduzam a um estado no qual essas afirmações possam ser verificadas. Em princípio não haveria nada a censurar nisso. Mas, de fato, a prática prolongada desses métodos põem o pesquisador exageradamente zeloso em risco de ser levado a resultados muito indesejáveis. Um homem que adere as teorias ocultas e que acredita ser dotado nesse domínio será incapaz de resistir a tentação de colocar em prática os métodos que estudou, isto é, passará da teoria à ação. Talvez aja com prudência, evitando os métodos, a seu critério, que contenham riscos, e escolhendo os meios mais seguros e autênticos. Talvez os examine com o maior cuidado. No entanto, a tentação que sentirá de empregá-los, a insistência do seu ambiente sobre a necessidade de que faça uso deles, sobre a natureza miraculosa dos seus resultados, enquanto os aspectos danosos são cuidadosamente dissimulados, tudo isso o levará a experimentá-los.

Talvez que, experimentando-os, descubra métodos inofensivos para si. Talvez até tire daí algum benefício. Mas, geralmente, os métodos de desenvolvimento de si que se propõem para serem experimentados, quer como meios, quer como fins, são contraditórios e incompreensíveis. Como são aplicados a uma máquina tão complexa e tão mal conhecida como o corpo humano e, ao mesmo tempo, a esse aspecto de nossa vida intimamente ligado a ele e que chamamos de psiquismo, o menor erro de aplicação, o menor excesso de pressão, podem causar danos irreparáveis à máquina. Feliz daquele que escapar quase ileso de tal enrascada!

Infelizmente, a maior parte dos que se dedicam ao desenvolvimento dos poderes psíquicos terminam a carreira num sítio de alienados, ou arruínam a saúde e o psiquismo a ponto de se verem reduzidos a enfermos, incapazes de se adaptarem à vida. Suas fileiras são engrossadas por aqueles a quem a nostalgia do mistério e do miraculoso levam ao pseudo-ocultismo. Há ainda os indivíduos com uma vontade excepcionalmente débil e que são fracassados na vida, e que, visando a ganhos pessoais, sonham desenvolver em si o poder e a capacidade de subjugar os outros. E, finalmente, há os que procuram simplesmente a novidade na vida, um meio de esquecer as preocupações ou então de encontrar uma diversão para seu tédio, a sua rotina diária e escapar assim a todo o conflito.

A medida que se dissipam suas esperanças de obter as qualidades com que contavam, eles caem facilmente num charlatanismo mais ou menos intencional. Lembro-me do exemplo clássico de certo buscador de poder psíquico, um homem abastado e muito instruído, que havia corrido o mundo à procura do milagroso. Finalmente, se arruinou e, ao mesmo tempo, ficou completamente desiludido com suas pesquisas.

Para encontrar novos meios de vida, teve a idéia de utilizar o pseudo-conhecimento em que havia gasto tanto dinheiro e energia. Dito e feito. Escreveu um livro, dando-lhe um desses títulos que enfeitam as capas dos livros de ocultismo, algo como Método de Desenvolvimento das Forças Ocultas do Homem.

A obra consistia de sete conferências e constituía pequena enciclopédia de métodos secretos para o desenvolvimento do magnetismo, do hipnotismo, da telepatia, da vidência, da clariaudiência, das incursões pelo mundo astral, da levitação e outras atividades sedutoras. Lançado com grande publicidade, esse método foi posto à venda por um preço excessivamente elevado, embora no fim tenha sido concedido um desconto apreciável de 95% aos compradores mais recalcitrantes ou mais acanhados, com a condição de que o recomendassem aos amigos.

Devido ao interesse geral despertado por esses assuntos, o sucesso ultrapassou todas as expectativas do autor.

Pouco tempo depois, ele recebeu numerosas cartas em termos entusiasmados de compradores, que respeitosos, reverentes, se dirigiam a ele como "Caro Mestre" e "Mui Sábio Iniciador" ( hahaha...), exprimindo a mais profunda gratidão por sua notável exposição das preciosíssimas instruções que lhes haviam permitido desenvolver diversas faculdades ocultas, de maneira espantosamente rápida.

Em pouco tempo, ele reuniu uma considerável coleção dessas cartas e cada uma delas era uma surpresa para ele. Finalmente, chega uma carta informando-o de que, graças ao seu método, alguém chegara, em menos de um mês, a levitar. Foi a gota d’água que transbordou seu espanto.

Eis palavra por palavra o que ele disse nesse momento:

"Estou estupefato com o absurdo que ocorre. Eu, o autor desse método, já não tenho uma idéia clara da natureza dos fenômenos que ensino. E esses idiotas, não só saem dessa embrulhada, como dão um jeito de tirar dela qualquer coisa. E agora eis que um super-idiota aprendeu até a voar. Que inépcia...que vá para o inferno! Dentro em pouco vão vestir-lhe uma camisa de força em plena levitação e será bem feito. Vive-se melhor sem tais imbecis."

Senhores ocultistas, apreciaram bem as conclusões do autor desse manual de psico-desenvolvimento? Em casos semelhantes, não está excluído o fato de que se possa encontrar acidentalmente algo numa obra desse gênero, porque acontece com freqüência que um homem, embora ignorante, seja capaz de falar com singular justeza sobre diversas coisas, sem saber como. Ao lado disso, realmente, ele diz tantas tolices, que todas as verdades que possa exprimir ficam completamente enterradas e é absolutamente impossível extrair a pérola de verdade desse monte de disparates.

"Como compreender esse enigma?" perguntarão vocês.

A razão é simples. Como já disse, não temos conhecimentos que nos sejam próprios, quer dizer, conhecimentos fornecidos pela própria vida e que não nos possam ser tirados. Todos os nossos conhecimentos que não passam de simples informações, podem ter ou não valor. Absorvendo-os como uma esponja, podemos facilmente restituí-los e falar deles de maneira lógica e convincente, embora sem compreender nada deles. É igualmente fácil perdê-los, porque não nos pertencem, mas foram despejados em nós como um líquido num recipiente. Migalhas de verdade estão espalhadas por toda a parte e, para os que sabem e compreendem, é espantoso como as pessoas vivem perto da verdade e como, no entanto, são cegas e impotentes para penetrar nelas. Para o homem que a busca, é preferível não se engajar de nenhum modo nos sombrios labirintos da estupidez e da ignorância humanas a se aventurar por eles sozinho, pois, sem orientação de alguém que saiba, ele pode sofrer a cada passo um imperceptível deslocamento de sua máquina, que obrigaria depois a passar muito mais tempo a repará-la do que o despendido para danificá-la.

O que vocês pensariam de um homem corpulento que se apresentasse como um "ser de doçura angelical", acrescentando que ninguém a sua volta é capaz de julgar seu comportamento, visto que ele vive num plano mental a que não se aplicam as normas da vida física? Na verdade, há muito que esse comportamento deveria ter sido submetido ao exame de um psiquiatra: eis um homem que "trabalha" sobre si mesmo com consciência e perseverança, todos os dias durante horas, isto é, que dedica todos os seus esforços a aprofundar e reforçar uma deformação psíquica já tão séria que, estou convencido, irá levá-lo em breve a um asilo de loucos.

Poderia citar centenas de exemplos de buscas mal dirigidas e mostrar a vocês a que isso conduz. Poderia dar o nome a vocês de pessoas bastante conhecidas na vida pública que ficaram malucas por causa do ocultismo e que vivem entre nós e nos surpreendem por suas excentricidades. Poderia lhes dizer exatamente qual o método que as desequilibrou, isto é, em que domínio "trabalharam" e se "desenvolveram", como e porque esses métodos afetaram o psiquismo delas.

Essa questão constituiria por si só assunto de uma longa conversa e, por falta de tempo, não me permitirei nela me deter agora.

Quanto mais um homem se dá conta dos obstáculos e enganos que o espreitam a cada passo nesse terreno, mais se convence de que é impossível seguir o caminho do desenvolvimento de si segundo instruções dadas ao acaso por pessoas com que cruza, ou segundo certas informações colhidas aqui e ali em leituras e conversas fortuitas.
Começa ao mesmo tempo a distinguir de início como um tênue clarão, depois cada vez com mais clareza, a luz viva da verdade que não cessou de iluminar a humanidade através dos tempos. As origens da iniciação se perdem na noite dos tempos. De épocas em épocas, surgem culturas e civilizações saídas das profundezas dos cultos e dos mistérios, que, em perpétua transformação, aparecem e desaparecem para reaparecer novamente.

O Grande Conhecimento é transmitido sucessivamente, de época à época, de povo à povo, de raça à raça. Os grandes centros de iniciação na Índia, na Assíria, no Egito, na Grécia, iluminam o mundo com uma Luz Viva. Os nomes venerados dos grandes iniciados, portadores vivos da verdade, são transmitidos com reverência de geração à geração. A verdade, fixada por meio de textos simbólicos e lendas, é transmitida às massas para ser conservada sob a forma de costumes e cerimônias, de tradições orais, de monumentos, de arte sacra, pela mensagem secreta da dança, da música, da escultura e dos ritos diversos. Ela é comunicada abertamente, através de provações determinadas, àqueles que a buscam e é guardada intacta por transmissão oral ao longo da corrente daqueles que sabem. Mas, no fim de certo tempo, os centros de iniciação se extinguem uns após os outros e o antigo conhecimento se retira para subterrâneos, dissimulando-se aos olhos dos buscadores.

Os portadores desse conhecimento também se dissimulam, fazendo-se desconhecidos daqueles que os cercam, mas não deixam de existir. De tempos em tempos, vêm à tona correntes isoladas, mostrando que em algum lugar das profundezas, mesmo em nosso dias, FLUI a poderosa corrente do antigo conhecimento do ser.

Abrir passagem até essa corrente, encontrá-la, é a tarefa e objetivo da busca; porque, depois de tê-la encontrado, o homem pode confiar-se com audácia ao caminho em que se engaja; em seguida resta-lhe apenas "conhecer" a fim de "ser" e de "fazer".

Nesse caminho o homem não estará inteiramente só;

Nos momentos difíceis receberá apoio e orientação, porque todos os que seguem esse caminho estão ligados a uma cadeia ininterrupta.

Talvez o único resultado positivo de ter vagado nos meandros dos atalhos e dos caminhos do ocultismo será que, se tiver preservado a capacidade de pensar e julgar corretamente, desenvolverá em si a faculdade especial de discernimento que se pode chamar de FARO. Recusará os caminhos da psicopatia e do erro e procurará incansavelmente os caminhos autênticos. E nisso, como no conhecimento de si, o princípio que já mencionei continua soberano: "Para fazer, é preciso saber, mas, para saber, é preciso descobrir como saber ." Deve, inicialmente, encontrar aquele ao lado de quem poderá aprender o que significa de fato "fazer", quer dizer, um guia esclarecido, experimentado, que se encarregará de dirigi-lo espiritualmente e se tornará seu mestre.

E é nesse ponto que o FARO do homem adquire toda a sua importância.

ELE ESCOLHE um guia para si mesmo.

Naturalmente, a condição indispensável e que ele escolha um homem que sabe; do contrário, todo o sentido de sua busca estará perdido.

Quem sabe onde pode conduzi-los um guia que não sabe!

Todo aquele que busca no caminho do desenvolvimento de si sonha com um guia que SABE. Sonha com este guia, mas é raro que se pergunte objetiva e sinceramente:

"Sou digno de ser guiado? Estou pronto para seguir o caminho?"

Saia à noite, sob um vasto céu estrelado, e levante os olhos para esses milhões de mundos acima de sua cabeça. Em cada um deles provavelmente formigam bilhões de seres semelhantes a você, talvez de constituição superior. Olhe a Via Láctea, a Terra não pode ser chamada se quer de grão de areia nessa infinidade. Ela se dissolve , desaparece e, com ela, você também.

Onde está você?
Que quer você?
Aonde quer ir?
O que você empreende não será pura loucura?

Diante de todos esses mundos, interrogue-se sobre suas metas e suas esperanças, suas intenções e seus meios de realizá-las, sobre o que pode ser exigido de você, e pergunte a si mesmo até que ponto está preparado para responder essas perguntas.

Espera-o uma viagem longa e difícil; você se dirige a um lugar estranho e desconhecido. O caminho é infinitamente longo. Você não sabe se poderá descansar nem onde isso será possível.

Deve prever o pior.

Leve consigo tudo o que for necessário para a jornada.

Trate de não esquecer de nada, porque depois será muito tarde para reparar o erro: você não terá tempo de voltar para buscar o que tiver esquecido. Avalie suas forças. São suficientes para toda a viagem? Quando é que você poderá partir?

Lembre-se de que quanto mais tempo passar a caminho mais provisões precisará carregar, o que retardará proporcionalmente sua marcha e alongará até a duração dos preparativos. E cada minuto é precioso.

Uma vez que decidiu partir, porque perder tempo?

Não conte com a possibilidade de voltar. Essa experiência poderá lhe custar muito caro. O guia só se comprometeu a conduzi-lo; não é obrigado a reconduzi-lo. Você será abandonado a si mesmo e ai de você se fraquejar ou perder o caminho; jamais poderá voltar. E , mesmo que o reencontre, fica a pergunta : "Você poderá voltar são e salvo?"

Desventuras de toda espécie aguardam o viajante solitário que não conhece bem o caminho, nem as regras de conduta que ele impõe. Convença-se de sua vista tem a propriedade apresentar objetos distantes como se estivessem próximos. Iludido quanto à proximidade da meta para a qual você se encaminha, cego por sua beleza e ignorando a medida de suas próprias forças, você não se dará conta dos obstáculos que estão no caminho; não verá as múltiplas valetas que atravessam a senda. Numa pradaria verde, juncada de flores deslumbrantes, o mato espesso oculta um profundo precipício. É muito fácil tropeçar e cair nele, se seus olhos estão fixos em cada passo que está dando.

Não se esqueça de concentrar toda a atenção no que o cerca de perto.

Não se ocupe com metas distantes, se não quiser cair no precipício.

Entretanto, não se esqueça de sua meta. Lembre-se dela sem cessar e mantenha vivo seu ardor por atingi-la, para não perder a direção certa. E, tendo partido, esteja atento; o que você atravessou ficou para trás e não tornará a se apresentar: o que não observou num dado momento, não o observará nunca mais.

Não seja curioso demais e não perca tempo com o que atrai sua atenção, mas não vale a pena. O tempo é precioso e não deve ser desperdiçado com coisas sem relação direta com a sua meta.

Lembre-se de onde está e porque está ali.

Não se poupe e lembre-se de que jamais qualquer esforço é feito em vão.

E agora pode iniciar a caminhada.

Do livro "Gurdjieff fala a seus alunos" , Capítulo "Quem sou eu ?", Editora Pensamento .

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