Quem sou eu? 1ª parte

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Ao abordar diversos assuntos, notei o quanto é difícil comunicar sua própria compreensão a uma pessoa que você conheça bem, embora seja a respeito do assunto mais corriqueiro. Nossa linguagem é pobre demais para uma descrição exata e completa. E descobri que essa falta de compreensão entre um homem e outro é um fenômeno matematicamente ordenado, tão preciso quanto a tábua de multiplicação. De modo geral, a compreensão depende do que se denomina a "psique" dos interlocutores e, de modo mais particular, do estado dessa "psique" no momento dado.

Pode-se verificar a cada passo a exatidão dessa lei. Para ser compreendido por outro homem, não basta que o que fala saiba como falar; é necessário também que aquele que ouve saiba como escutar. Por esse motivo, posso dizer que, se me pussesse a falar da maneira que considero exata, todos os que aqui estão, quase sem exceção, pensariam que estou louco. Mas como, nesse momento, devo falar ao meu auditório tal como ele é, e como esse auditório deve me escutar, é preciso que, antes de tudo, estabeleçamos as bases de uma compreensão comum.

Durante nossa conversa, deveremos fixar certos pontos de referência para que ela seja eficaz. Tudo o que queria propor agora a vocês é que tentassem olhar as coisas, os fenômenos que os cercam e especialmente a si mesmos de um ponto de vista diferente do que lhes é habitual ou natural. Tentar olhar apenas, porque fazer mais só é possível com a vontade e a cooperação do ouvinte, quando ele para de escutar passivamente e começa a fazer, quer dizer, quando ele entra num estado ativo.

Em uma conversa encontramos, com muita freqüência, expressa mais ou menos abertamente, a idéia de que o homem, tal como o encontramos na vida comum, seria de alguma forma o centro do Universo, a "coroa da criação", ou, pelo menos, uma vasta e importante entidade; que suas possibilidades são quase ilimitadas, seus poderes quase infinitos. Esse ponto de vista, entretanto, comporta em si mesmo certo número de restrições. Diz-se que para isso é preciso condições excepcionais, circunstâncias especiais, a inspiração, a revelação e assim por diante.

No entanto, se estudarmos essa concepção do homem, veremos de imediato que ela é feita de um conjunto de traços que não pertencem a um único homem, mas a certo número de indivíduos reais ou imaginários. Jamais encontramos tal homem na vida real, nem no presente nem como personagem histórico no passado, porque todo o homem tem suas próprias fraquezas e, se você olhar mais de perto, a miragem de potência e grandeza se desintegra.

Aliás, o mais interessante não é que as pessoas revistam as outras com essa miragem, mas que , devido a um traço particular de seu psiquismo, a transfiram para si mesmas, se não na totalidade, ao menos em parte, como um reflexo. De modo que, embora sendo nulidades ou quase isso, imaginam que correspondem a esse tipo coletivo ou que não se afastam muito dele.

Mas, se um homem sabe como ser sincero em relação a si mesmo - não sincero como a palavra é compreendida habitualmente, mas impiedosamente sincero -, então não contará com uma resposta tranquilizadora à pergunta "Quem é você" ? Em conseqüência, sem esperar que tenham se aproximado por si mesmos da experiência que falo, e para que compreendam melhor o que quero dizer, sugiro que cada um faça a si mesmo a pergunta : "Quem sou eu?" Estou certo que noventa e cinco por cento de vocês ficarão pertubados e responderão com outra pergunta : "O que é que o Sr. quer dizer ?"

Isso prova que um homem viveu toda a sua vida sem se fazer essa pergunta e considera perfeitamente normal que ele seja "algo", e até mesmo algo muito precioso, algo que jamais pôs em dúvida. Ao mesmo tempo é incapaz de explicar a outra pessoa o que esse algo é, incapaz até de dar a menor idéia desse algo, porque ele próprio não o sabe. E se não o sabe, não será porque simplesmente porque esse "algo" não existe , mas apenas supõe existir? Não é estranho que as pessoas dêem tão pouca atenção a si mesmas, ao conhecimento de si mesmas? Não é estranho que fechem os olhos, com tão tola complacência, ao que realmente são, e passem a vida na agradável convicção de que representam algo de precioso? Esquecem de ver o vazio insuportável por trás da soberba fachada criada por seu auto-engano e não se dão conta de que essa fachada só tem um valor puramente convencional.

Na verdade, não é sempre assim. Nem todo mundo se olha tão superficialmente. Há homens que buscam, que tem sede da verdade do coração e se esforçam para encontrá-la, que tentam resolver os problemas colocados pela vida, alcançar a essência das coisas e dos fenômenos e penetrar em si mesmos. Se um homem raciocina e pensa judiciosamente, qualquer que seja o caminho que siga para resolver seus problemas, deve inevitavelmente voltar-se para si e começar a resolver o problema do que ele próprio é, de seu lugar no mundo que o cerca, pois, sem esse conhecimento, não terá centro de gravidade em sua busca. As palavras de Sócrates: "Conhece-te a ti mesmo" permanecem o lema de todos os que buscam o verdadeiro conhecimento e o ser.

Acabo de utilizar uma palavra nova: o "ser". Para nos assegurarmos de que todos compreendemos a mesma coisa por essa palavra, devo dar algumas explicações.

Acabamos de nos perguntar se o que um homem pensa de si mesmo corresponde ao que ele é na realidade e vocês se interrogaram sobre o que são. Eis aqui um médico, um engenheiro, um pintor. São realmente o que pensamos que são? Podemos considerar que a personalidade de cada um se confunde com sua profissão, com a experiência que essa profissão ou sua preparação lhe deu?

Todo homem vem ao mundo igual a uma folha de papel em branco, mas as pessoas e as circunstâncias que o cercam disputam para ver quem melhor sujará essa folha e a cobrirá de inscrições de toda a espécie. A educação, as lições de moral, o saber que denominamos conhecimento, intervêm - todos os sentimentos de dever , de honra, de consciência, etc. E todos proclamam o caráter imutável e infalível de todos os métodos de que se servem para enxertar esses galhos na árvore da "personalidade" do homem. Aos poucos a folha vai ficando suja, e quando mais suja por pretensos "conhecimentos", mais o homem é considerado inteligente. Quanto mais inscrições no lugar denominado "dever", mais o possuidor é considerado honesto; e assim com todas as coisas. E a folha assim suja, vendo que se toma sua sujeira por mérito, a considera preciosa. Aí está um exemplo do que designamos de "homem", acrescentando-lhe até, com freqüência palavras como "talento" e "gênio". No entanto, nosso "gênio" verá seu humor estragado para o resto do dia, se não achar seus chinelos ao lado da cama ao acordar de manhã.

O homem não é livre nem em suas manifestações nem em sua vida. Não pode ser o que gostaria de ser nem mesmo o que acredita ser. Não se parece com a imagem que faz de si mesmo e as palavras "homem, coroa da criação" não se aplicam a ele.

"Homem" - isso soa altivamente, mas devemos nos perguntar de que espécie de homem se trata. Não certamente do homem que se irrita com ninharias, que dá atenção a questões mesquinhas e se deixa envolver por tudo que o cerca. Para ter o direito de se chamar homem, é necessário ser um homem e "ser um homem" só é possível graças ao conhecimento de si e ao trabalho sobre si, nas direções que esse conhecimento de si lhe revela.

Vocês tentaram algum dia ver o que se passa com vocês quando sua atenção não está concentrada num problema definido? Suponho que para a maior parte de vocês esse é um estado muito habitual, ainda que uns poucos, sem dúvida, o tenham sistematicamente observado. Talvez se dêem conta de como o nosso pensamento procede por associações fortuitas, quando ele faz desfilar cenas e lembranças sem ligação, quando tudo o que cai no campo de nossa consciência ou simplesmente a toca de leve suscita em nós essas associações fortuitas. O fio dos pensamentos parece se desenrolar sem interrupção, tecendo entre si fragmentos de imagens de percepções anteriores, tiradas de diversos registros armazenados em nossa memória. E, enquanto esses registros rodam e se desenrolam, nosso aparelho formatório urde sem cessar, com esse material, a trama dos pensamentos. Os registros de nossas emoções desfilam da mesma maneira - agradáveis e desagradáveis, alegria e tristeza, riso e irritação, prazer e dor, simpatia e antipatia. Alguém o elogia e você fica contente; alguém o repreende e seu humor se deteriora. Qualquer coisa nova o atrai e você esquece imediatamente aquilo que o interessava tanto um instante atrás. Em breve o seu interesse o prende a essa coisa nova a ponto de você mergulhar nela da cabeça aos pés; e , de repente, não a possui mais, você desapareceu, você está ligado a essa coisa, dissolvido nela; de fato, é ela que o possui, que o mantém cativo, e essa alienação, essa propensão a deixar-se cativar é, sob múltiplas formas, a característica de cada um de nós. É isso que nos prende e nos impede de sermos livres. Além do mais, isso rouba nossa força e nosso tempo, nos tira toda a possibilidade de ser objetivos e livres - duas qualidades essenciais para quem decide seguir o caminho do conhecimento de si.

Devemos lutar para nos tornar livres, se quisermos lutar para nos conhecer. Conhecer-se e desenvolver-se é uma tarefa de tal importância e seriedade, exigindo tal intensidade de esforço, que tentá-la de maneira habitual, entre outras coisas, é impossível. O homem que empreende essa tarefa deve dar-lhe o primeiro lugar em sua vida, que não é tão longa que ele possa se permitir desperdiçá-la em futilidades.

O que tornará o homem capaz de consagrar utilmente seu tempo à sua busca, senão a liberdade a qualquer apego? (propósito inflexível diferencia-se da obsessão devido ao desapego).

Liberdade e seriedade. Não essa seriedade de sobrancelhas franzidas, lábios cerrados, gestos cuidadosamente medidos, palavras filtradas entre os dentes, mas a seriedade que significa determinação e persistência na busca, intensidade e constância, de modo que, mesmo nos momentos de repouso, o homem prossegue sua tarefa principal (afiar a espada).

Continua....

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