Xamanismo, Bruxaria, Magia - 5ª parte

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Estivemos nestes artigos anteriores abordando aspectos importantes destes caminhos. Hoje gostaria de comentar um dos aspectos mais importantes, uma das diferenças mais fundamentais que existe entre esses caminhos e tantos outros do chamado misticismo.

O conceito de Divindade.

É muito importante, a meu ver, percebermos como o conceito que temos de divindade interfere muito na forma de sentirmos e percebermos o mundo.

Recebemos uma educação religiosa vinda do meio onde fomos criados, isso acontece numa fase bem imatura da percepção. Na maior parte das vezes aprendemos a identificar conceitos complexos como inicio, criadores, poderes primordiais com projeções de nossas carências e medos.

Na maior parte de nós os conceitos religiosos vieram de nossos pais e a igreja a qual estavam ligados. Mas esses conceitos têm uma historicidade, foram gerados por situações diversas, por grupos que em sua luta pelo poder não tiveram receio de alterar e deturpar conhecimentos, desde que continuassem no poder.

Estes dados são importantes para melhor compreendermos o deus único, que é tido como evolução quando os uga-uga primitivos deixaram de ser politeístas e evoluíram para o nível monoteísta. Será real isso? Os povos ancestrais sentiam a divindade em tudo, suas várias faces, na chuva, no vento, no trovão, na Terra que dá o alimento, no Sol, na Lua, era o um manifesto no múltiplo.

É muito importante compreender isso, pelos meus estudos e contatos com tradições nativas tenho notado que o saber ancestral se manifesta em matrizes com muitas dimensões, então podemos ter um povo que tem um conhecimento em comparação com o nosso, menos sofisticado em alguns aspectos, como os Maias que não usaram as rodas, mas que em outros níveis podem extrapolar muitos de nossos limites, como os já citados Maias e sua matemática com nove dimensões , seus calendários exatos e tudo mais.

Assim o conceito de divindade nos povos ancestrais era bem amplo e variado, não podemos limitar o pouco que sabemos das crenças de algumas partes da população como o todo da forma de lidar com tais realidades, por parte desses povos. O cidadão simples, o comerciante, o homem e a mulher do povo egípcio com certeza tinham uma concepção da divindade bem diferente dos sacerdotes e sacerdotisas dos templos e das escolas iniciáticas que ali existiam.

Da mesma forma entre todos os povos vamos ter o exoterismo religioso, as crenças e cultos de domínio público e o esoterismo, reservado a quem fosse iniciado nos mistérios. Os povos ancestrais lidavam com as várias faces da ETernidade, em suas multiplas manifestações. Mas pegar um deus tribal de um povo e elegê-lo deus único é evolução? Um deus único que sendo de fora da terra, a regendo de fora não inspira nenhuma atitude ecológica ou equilibrada, coisa que acontece com os povos nativos e suas superstições. Quando falamos deus o conceito de deus é algo muito complexo. Quando falamos de um deus criador estamos num paradigma e em minhas investigações sobre estes caminhos que estamos estudando encontrei um conceito diferente, uma forma de falar da ETERNIDADE sem limitá-la a padrões antropomórficos ou fazer da mesma uma tela onde projetamos carências e medos.

Ao invés de um deus que cria, de fora, depois cria testes além da capacidade dos testados e depois os castiga, os deixa confusos, ao invés de uma família primordial onde o homem é um fraco, a mulher é uma que vai atrás da primeira serpente que aparece, um filho é assassino e tudo dá tão errado que destrói tudo e começa de novo, existem outras histórias de como o mundo veio a ser o que é.

Existem cosmogonias, antropogêneses e cosmogêneses que abordam outras possibilidades, um universo que emana, que surge de uma outra realidade pré-existente, num ciclo infindável. É interessante observar que quanto mais avança a astrofísica e a física de partículas, mais as visões de realidade que surgem dos experimentos realizados, são similares as visões dos antigos mitos, dos povos ancestrais e pouco relacionadas com as histórias moralistas que nos ensinaram na religião oficial. Um só deus, uma só verdade, um só rei , foram argumentos sempre usados pelos tiranos de várias épocas.

Perceber isso é perceber que a abordagem religiosa da realidade tal qual a concebemos hoje está ligada a conversão, basta ver o fervor com que vários homens e mulheres matam outros em vários países do mundo em nome de suas crenças. Interessante a intolerância religiosa, ela não admite a diversidade, todos devem se reduzir a uma nauseante homogeneidade. Como se as células do fígado resolvessem converter as células do coração a serem como elas e depois de cumprida sua missão teríamos um corpo com dois fígados, mas que morreria em seguida, sem o coração que bombearia o sangue.

Esses são os perigos da conversão, o fato de surgir de povos gananciosos e desrespeitar o fato que a diversidade sempre foi necessária à vida. Somos seres que fazemos parte de um vasto esquema cósmico. Estamos na periferia da galáxia, estamos num lugar que indica que somos novos e imaturos se comparados com formas de vida que já se desenvolveram bilhões de anos antes de nós. Mas temos nosso papel.

Assim o que julgo errado e fora de propósito para mim, pode ser justamente o papel que outra pessoa deve desempenhar. Este é um perigo dos pseudos agrupamentos iniciáticos, a vontade caprichosa de um (a) pseudo líder é seguida, isto falseia tudo. O trabalho de um grupo é que cada um desperte sua essência que se torne o mais profundamente o que trás em seu interior, quem auxilia nisso deve agir como um jardineiro, ajudar a desabrochar, nunca impor seus próprios modos.

Essa diferença sutil nos leva ao cerne deste trabalho: A concepção de divindade. Se imponho a quem aprende minha forma de perceber este algo transcendente que de fato existe, vou estar limitando a um conceito, a um dado informacional, mas se crio situações para que quem aprende vivencie por si mesmo então teremos outro tipo de aprendizado. Por isso é difícil colocar em palavras o que vai além das palavras. Palavras vêm do racional, do arquivo da memória, do já vivido. E o novo é não vivido, tem que surgir pela experiência. Assim, cientes da limitação das palavras, da sintaxe, vamos ainda assim abordar o fato que a percepção da divindade e da vida por parte dos caminhos naturais, dos caminhos pagãos, dos caminhos mágicos obedece a outra profundidade.

Temos quando crianças, sempre a presença de um adulto por perto. Qualquer perigo e um adulto virá nos proteger, nos salvar. Ao crescermos descobrimos que tal salvamento é relativo e papai e mamãe são crianças como você. Isso muda tudo e surge uma carência aí, que grande parte ao invés de superar extrapola e cria um papai do céu e uma mamãe do céu. Os messianismos diversos tem aí uma de suas raízes, a crença que alguém lá fora virá nos salvar.

Para grande parte das pessoas é isso a divindade, uma transferência dos sentimentos confusos da relação com pai e mãe para uma pretensa entidade cósmica que nos criou e pode nos julgar, ajudar ou castigar.

Esta relação imatura com a realidade é ampla e notável nas religiões não pagãs, que centralizam seu poder numa divindade fora do mundo e temível. A divindade sempre existe, cria um mundo, cria os humanos, a sua imagem e semelhança. Não seria mais correto dizer que os seres humanos criaram um deus a sua imagem e semelhança?

A Bruxaria, a Magia e o Xamanismo aos quais me refiro não estão nessa linha. Tem a noção de seres, de forças, de entes, de poderes que vivem neste mundo e nos mundos além desse, mas mesmo os mais poderosos, são nitidamente entes, que podem parecer deuses e deusas, mas mesmo na proporção de uma estrela para uma vela não precisamos adorá-los, ou crer que os servindo vamos ter tudo resolvido.

Os deuses e deusas são entes amplos, podemos fazer parte deles, podemos ser como células das vastas realidades que eles e elas compõe, mas em todos os níveis são seres com começo e fim, entes que também brotaram em um certo momento da existência e vão chegar a um fim um dia. Como nós.

A DIVINDADE em seu sentido mais amplo é algo que extrapola a compreensão, é para ser sentida diretamente, experiência direta do numinoso, do que vai além do conceitual.

Por isso ao sentir a força de uma árvore, de uma montanha, de um rio ou do vento e expressar isso como divindades, com suas particularidades não pode ser confundida com uma abordagem supersticiosa da realidade.

Rezar com medo para deuses e deusas numa tempestade é diferente da postura pagã de reconhecer nestas forças se manifestando facetas da Amplitude e buscar encantar tais poderes.

A relação que temos conosco mesmo, a relação que temos com as outras pessoas, a relação que temos com o mundo circundante, tudo isso está envolto em nosso conceito de divindade. É interessante meditar sobre isso, perceber se ainda temos uma relação de pai psicológico ou mãe psicológica com a ETERNIDADE, se continuamos apenas projetando carências ou estamos mesmo começando a ir além dos medos que nos plantaram e ousando sentir a ETERNIDADE em toda sua incompreensível vastidão.

Para mergulharmos mais fundo nos temas Bruxaria, Magia e Xamanismo precisamos compreender que estes caminhos abordam a questão da Vida, da Divindade, de ter uma alma, de conseguirmos nos eternizar, tudo isso com outros paradigmas e não podemos cair no erro da moda esotérica em voga que pega os mesmos temas já gastos e nitidamente ineficazes e os fantasia com outras roupagens. Pecado agora é carma, outras vidas substitui céu e inferno, os ascensionados são os novos santos e ministros de deus e por aí vai.

Se ficarmos presos aos conceitos estereotipados nascidos durante esta era de dominação vai sempre nos escapar o sentido profundo dos caminhos que estamos estudando. Creio que isto é um fato muito importante, temos que ir além da sintaxe imposta pelo mundo atual, isto não é fácil, nem simples, mas pode ser feito.

A prior prisão das muitas que nos deram neste mundo, é a perceptiva, sermos obrigados a concordar e participar de um só tipo de realidade, com variações de interpretaçòes subjetivas, mas normatizada e linearizada em várias estâncias.

Então questionar profundamente os pretensos dogmas, mesmo dos esoterismos de plantão é não só um hábito saudável como necessário, questionar, questionar tudo e buscar uma nova resposta.

O que eu tenho percebido até aqui é que o Xamanismo, a Magia e a Bruxaria não te dão respostas prontas, te ensinam a fazer melhores perguntas.

Nuvem que passa

3 comentários:

Rosane disse...

Boa noite Fernando
Será que entendi a postagem,a idéia de Deus perde seu caráter antropomórfico(ao qual se atribuem seu caráter semelhantes as humanas,ainda que a nível supremo)possa ser único,transcendente,do qual o universo e a vida (inclusive o ser humano) são manifestações fenomênicas para um fim que o ser humano não pode conhecer, porque transcende suas percepções e concepções.

Um grande abraço
Sinto muito,me perdoa, obrigada,te amo.

Rosane Peon

Fernando Augusto disse...

Oi, Rosane!

Saber o que Deus é, é mais difícil, muito mais, do que saber o que ele não é, não acha? ;-)

Sinto muito, me perdoa, te amo, sou grato!

F.A.

Rosane disse...

;-) Acho.Valeu,e obrigado por partilhar os seus

aprendizados.O jardineiro ajuda a desabrochar...

Grande abraço.
Rosane Peon