Dancem macacos, dancem!

domingo, 28 de setembro de 2008

Documentário instigante e super-engraçado sobre a condição humama.

“Há bilhões de galáxias no universo observável e cada uma delas contém centenas de bilhões de estrelas, em uma dessas galáxias orbitando uma dessas estrelas há um pequeno planeta azul e este planeta é governado por um bando de macacos. Mas esse macacos não pensam em si mesmos como macacos. Eles nem se quer pensam em si mesmos como animais, de fato, eles adoram listar todas as coisas que eles pensam separá-los dos animais: Polegares opositores, autoconsciência, eles usam palavras como Homo Erectus e Australopithecus. Você diz to-ma-te eu digo to-ma-ti. Eles são animais, certo? Eles são macacos. Macacos com tecnologia de fibra ótica digital de alta velocidade mas ainda assim macacos. Quero dizer, eles são espertos, você tem que conceder isso. As pirâmides, os arranha-céus, os jatos, a Grande Muralha da China, isso tudo é muito impressionante, para um bando de macacos…”

A História das Coisas

sábado, 27 de setembro de 2008



Desde a sua extração até à venda, uso e disposição, todas as coisas que compramos e usamos na nossa vida afetam a sociedade no nosso país em outros países, mas a maioria disto é propositadamente escondido dos nossos olhos pelas empresas e políticos. A História das Coisas é um documentário de 20 minutos, rápido e repleto de fatos, que olha para o interior dos padrões do nosso sistema de extração, produção, consumo e lixo. A História das Coisas expõe as conexões entre um enorme número de importantes questões ambientais e sociais, demonstrando que estamos destruindo o mundo e auto destruindo-nos, e assim apela a criarmos um mundo mais sustentável e justo para todos e para o planeta Terra. Este documentário vai nos ensinar algo, e acabará por mudar para sempre a maneira como olhamos para todas as coisas que existem na nossa vida e que CONSUMIMOS.

Veja o documentário excelente AQUI!

O Duelo

Isso é como um duelo,
(ou seria um dueto?)
mas confesso,
sinto-me já vencido,
derrotado sem ser humilhado,
rendido em êxtase,
como um samurai pronto para morrer.
De joelhos,
lágrimas de cristal escorrem,
enquanto contemplo o brilho de tua espada,
feliz por tua vitória.
Se fosse no tempo daqueles guerreiros antropofágicos,
seria por ti devorado,
assim, vencido, incorporaria-me à vencedora
e, no final, não haveria vencedora nem vencido,
só o brilho feroz de um par de olhos
que se tornariam minhas janelas,
só o par cortante de caninos sangrentos
que se tornariam minhas presas,
só vinte garras afiadas
que se tornariam minhas úngulas,
só o cabelo longo e negro como um véu,
recobrindo nossa face.
E tua (nossa) boca diria num meio sorriso:
- Só pode haver um:
Um grito, um desejo, uma aspiração.

F.A.

Idiota

É aquele que é sempre igual a si mesmo - F.A.

Entrevista com os Instrutores de Tensegridade

sábado, 20 de setembro de 2008

Os praticantes sentem um desejo de comunicação e aproximação com vocês, sem cair na socialização. Em certo momento esta proximidade se converteu em um tabu que tem gerado certa timidez que se manifesta como uma dificuldade de formular perguntas e dúvidas de maneira direta.

Pois vençamos essa timidez, todos nós. Os instrutores são responsáveis por isso, e é tempo de nos movermos à uma nova direção. É uma nova era, e todos estamos navegando juntos. As percepções e experiências de vocês são chaves. Nos ajudam a assinalar uma direção em que todos nós temos que nos mover. É a cola que nos manterá unidos ao navegar pelo afeto abstrato.

Queremos perguntar se vocês tem a consciência clara no tonal, sobre o curso ou a nova direção; lêem vocês no infinito, ou como o sabem?

Estamos navegando. O nagual o comparou com estar na parte dianteira de um trem, enfretando o tempo como vem até nós. Este trem é um pouco diferente da maioria porque não existem trilhos, os encontramos ao andar. Lemos a energia e a seguimos para onde ela flui no dia de hoje, não para onde ela fluía no dia de ontem. Como sabemos se estamos seguindo esse fluir ? Porque quando nos movemos nessa direção as coisas funcionam. Se não funcionam, não vamos ali e mudamos de direção no mesmo instante. O nagual nos deu certas pautas. Imbui cada um de nós em facetas específicas de seu conhecimento, guiando a cada um de nós a ler a energia conforme sua predileção. Isto significa que nenhum de nós pode ver por si mesmo a direção em que estamos nos movendo; temos que trabalhar juntos; e ainda assim, cada um de nós tem que carregar seu próprio peso e estar, como dizia o nagual, energeticamente disponível, vigiando a frente do trem. "Sejam meus olhos e ouvidos.", nos dizia. Agora temos que ser os olhos e ouvidos para os demais. O infinito é que assinala a direção a tomar. E seguir seu fluir é um desafio que todos estamos enfretando, os praticantes e os instrutores. As estudantes de Don Juan nos estão supervisionando neste esforço, o mesmo que fez Florinda Matus com os estudantes de Don Juan depois que ele havia partido. Para os praticantes, o participar em um grupo de prática de Tensegridade é uma maneira de impulsionar-se a parte dianteira do trem. Estamos acostumados a ter um líder que nos dê ordens. Assim que ao trabalhar juntos, sem esse líder, estamos entrando em um terreno novo; estamos movendo nossos pontos de aglutinação. Podemos estar na parte dianteira do trem em nosso trabalho, em casa, em cada faceta de nossa vida .Este não é um caminho fácil de tomar. O nagual nos disse que manter o propósito sem que alguém nos mande, dizendo-nos a título pessoal o que fazer, requer uma valentia de aço . Estamos estagnados se dependemos de uma autoridade para interpretar as coisas por nós, que se encarregue dos detalhes e nos dê ordens.

Existe muita nostalgia, saudade pela presença das bruxas que se manifesta de muitas maneiras, desde dúvidas até tristezas . Existe alguma possibilidade que voltemos a ve-las?

As estudantes de Don Juan nos disseram que aquele que deseja encontra-las pode faze-lo no lugar da não-compaixão (posição do ponto de aglutinação). Isto não significa dureza, mas significa falta de auto-piedade ou falta de piedade (pena) por outra pessoa, baseado na idéia de que estamos em melhores condições. Também significa que estamos de pé lado a lado, não buscando que nos carreguem ou resgatem e sim olhando a mesma direção: até o Infinito.

Disseram que este é o nosso tempo. Elas só podem guiar-nos, nós é que temos que AGIR.

Existem pessoas que estiveram próximas ao nagual e frente a sua ausência tem a sensação de perda, como se o pássaro da liberdade tivesse ido embora.

Se o pássaro da liberdade tivesse ido embora, não existiria abertura para que nós falássemos abertamente, nem tampouco para seminários a respeito dos passes mágicos. O mesmo Carlos Castaneda se sentiu desalentado quando Don Juan se foi, e escreveu sobre isso na roda do tempo, porém não se permitiu entregar-se à sua dor: " Um guerreiro reconhece a sua dor, lhe disse uma vez Don Juan, porém não se entrega a ela . O estado de ânimo do guerreiro que penetra no desconhecido não é de tristeza. pelo contrário, ele se alegra porque sua grande sorte o faz sentir-se humilde."

Como "corpo unificado de praticantes" estamos entrando no desconhecido. Cada um de nós tem que decidir se o quer fazer: correr com regozijo atrás do pássaro da liberdade, sem garantias de poder alcança-lo. Para nós, isto é algo esquisito.

Muita gente sente que o interesse em fazer negócio ou ganhar dinheiro é mais importante que o interesse em sustentar as premissas do Nagual, especialmente a busca da Liberdade fora da ordem social, onde o dinheiro domina sobre a vida.

O Nagual nos disse: A única empresa para um guerreiro é a liberdade. De modo que não estamos atados a nenhuma política de fazer dinheiro, nem tampouco a nenhuma outra política. Seguimos a energia tal como flui no Universo. Neste momento, a abertura para apresentar os passes mágicos e trazer a luz tudo o que Carlos Castaneda nos ensinou, coisas que temos começado a abordar, é através de seminários sobre os passes mágicos. E apresentar um seminário implica em certos custos.

O Nagual nos contou que por muitos anos havia ensinado os passes mágicos gratuitamente. Ninguém os praticava. Tomaram como uma novidade, nada mais. Descobriu que quando as pessoas pagavam para aprender os passes mágicos então prestavam atenção. As pessoas começaram a pratica-los com fervor e a formar grupos de prática. E seguir o caminho do guerreiro converteu-se em algo que distinguia-se de um esforço isolado e secreto ou de um tênue desejo que parecia impossível de realizar. Isto marcou o começo de uma nova era: um corpo unificado de praticantes .

A proposta do Infinito é um conceito ou uma possibilidade real?

Vários de nós em algum momento fizemos essa pergunta ao Nagual. Não acredite em mim, dizia , não viajes em tua mente , investigue por ti mesmo !

Sabemos que a tarefa do celibato é individual, porém, existem passes mágicos ou respirações que facilitem a mudança de direção quando a pressão dos hormônios se faça demasiado ? Os praticantes masculinos se sentem fortemente atraídos pelas mulheres e queremos ouvir comentários acerca desse tema e como deixar de lado a socialização .

Por sua natureza similar vamos responder essas perguntas conjuntamente. O Nagual nos disse que não há maneira de desfazer-se de nossos anelos e desejos, e que tampouco poderíamos deixar de lado nossa socialização . Simplesmente nos esquivamos e os usamos de forma vantajosa, estratégica . Porque não trabalhar juntos como homem e mulher para aumentar nossa consciência em vez de nos mantermos encerrados, presos dentro de papéis rígidos e comportamentos que nos impedem de sonhar ou de atuar com um nível de consciência mais intenso ? O desafio de interatuar um com outro sem tratar de controlar-se ou possuir-se mutuamente é muito maior que o de seguir no costumeiro caminho do cortejo. Requer de nós muito mais imaginação .

Os videntes recomendam o celibato para praticantes jovens porque estamos condicionados a enfocar a sexualidade desde o ponto de vista de um investidor . "Faço isto por ti se tú fizeres aquilo por mim." ou "Te amo loucamente e para sempre até que olhes para outra pessoa." Carlos Castaneda considerava isso uma paródia, uma espécie de comédia : mesclar o melhor de nossa energia com outro ser, como um relacionamento comercial ? Não, dizia. Para os videntes a única forma de ter uma união sexual com outro ser era desde a posição de afeto total, sem expectativas . Dizia que isto exige uma valentia de aço e que não é para guerreiros-bebês (!)

No ato sexual formam-se linhas de energia, linhas de afeto que se criam entre os parceiros . Se os dois não se encontram vazios de expectativas pessoais, estas linhas se rompem e provocam tumulto no corpo, especialmente para a mulher . Ocorrendo envolvimento com dois ou três parceiros sexuais, ou ainda mais, vai ocorrer um verdadeiro problema aqui .

Todos os passes mágicos nos ajudam a estar mais conscientes da natureza de nossos anelos, afetos, muito particularmente a série de passes mágicos chamada "O código dos Xamãs do México Antigo", que vamos apresentar e praticar nesse seminário . Esses passes mágicos nos dão a consciência que cada um de nós tem a "mamãe" e o "papai" dentro de nós mesmos , em nosso ADN . Nos ajudam a sair do padrão da relação sexual energeticamente pobre ( "concepcion aburrida" ou transa chata ), do ser que busca fora de si a vitalidade que já possui, porém que não utiliza . Os cientistas nos dizem que sómente utilizamos uma pequena porcentagem de nosso ADN, menos de 5% . E os outros 95% ? Porque não verificar o que há ali ?

Existem estratégias específicas para nos mantermos enfocados durante a recapitulação ? Como romper nossa resistência a recapitulação ?

Podemos aumentar nosso enfoque e romper nossa resistência a recapitular rompendo nosso costume de fazer da recapitulação uma carga dolorosa . Desfrutem-na ! ( Com certeza é o melhor canal para sintonia... r* ).

O Nagual as vezes nos sugeria uma tarefa nova. Se era um dia quente, ou se estávamos cansados, sucedia que respondíamos, "está bem, tratarei de faze-lo." Não, diria ele. Os guerreiros não tratam. Intentam . Fazem e não invertem ( não pensam o que vão ganhar com isso ).

Ao recapitular nos liberamos de nossa carga, desfazendo-nos de nossa estória pessoal e de nossos costumes, fazendo com que nossos pontos de aglutinação tornem-se fluidos . Como poderia ser isto algo aborrecido ou pesado ? Porque nos aproximamos a tarefa com nossas velhas opiniões, que nos levam a crer que nos encontramos recompensa apenas como consequencia de um profundo sofrimento . O Nagual nos ensinou que tudo o que nos rodeia poderá ajudar-nos em nossas vidas, filmes, interações, memórias, comidas, fantasias ( e até mesmo uma listinha de discussão virtual... r*). Cada um deles é como uma fotografia instantânea de nossos próprios padrões . Que foi que te comoveu nessa película ? Que foi esta coisa que deixaste passar e que alguém mais notou ? O que foi que te molestou, incomodou na conversação que tiveste na hora da comida. Estes são sinais claros para guiar-nos a ver nossas próprias ações. Antes de julgar as outras pessoas, tenhamos a disciplina de promover uma visão de nós mesmos e perceber o que estamos fazendo .

Qual é a atitude que devemos ter na vida cotidiana em relação ao abuso da natureza ? Qual é nossa postura em relação a isso ? Que significa tratar a Terra para vocês ? Sem sermos aficcionados do Greenpeace, sentimos que se temos que ter respeito pela Terra e cuidar de Pacha Mama, no sentido de amor que tinha Don Genaro e não porque vamos salva-la, simplesmente por gratidão .

Sim, exatamente . Para os videntes, a Terra é um ser sensível que se trata com profundo afeto e admiração, com o mesmo respeito que sentimos quando nos dirigimos a alguém como "Senhora". Então não desperdicemos as coisas que nos dá a Terra, assim como não desperdicemos nossa própria vida . Não somos mais importantes que os outros seres que vivem na Terra, como as árvores que nos dão o papel, por exemplo . Usamos o papel quando necessitamos, porém não o desperdicemos, fazendo cópias adicionais de algo apenas para a nossa conveniência, escrevendo em metade da folha e logo destruindo-a . E se temos algo que não podemos usar, o descartemos da melhor forma possível, com um espírito leve, sem obsessões e sem tratar de convencer a outros para que façam o mesmo .

Para cultivar a atenção durante o sonhar se requer manter a atenção no entrecenho, existem coincidências com certas áreas geográficas ? Como o fazem ?

Existem certas áreas do corpo mais fáceis para manejar a atenção do sonhar e outras mais difíceis . Podem por a atenção em diversas áreas do corpo, como, por exemplo, as panturrilhas . Vamos explorar esta avenida, este caminho, no seminário do México, em uma série de passes mágicos chamada "cartografar o corpo" ( áreas de mistério ?!).

Em um nível mais básico, a atenção da vida diária tem um efeito direto sobre a atenção do sonhar . Se estamos preocupados acerca do que pensa o chefe ou acerca dela gostar mais de outro que de mim, então não poderemos encontrar nem uma taça ou um objeto qualquer para fixar nossa atenção nos sonhos, nem muito menos entrar no verdadeiro sonhar . Por outro lado, se vivemos artisticamente em nossas vidas diárias, então vamos nos encontrar sonhando artisticamente.

O esforço diário de recordar os sonhos ordinários ajuda a cultivar a atenção do sonhar ?

É uma pergunta muito oportuna. Ajuda sim, como uma forma de exercitar a atenção em vez de servir para análise ou engrandecimento do eu . Vamos abordar isso no seminário, existem passes mágicos específicos que devem ser feitos para recordar os sonhos .

A prática de Tensegridade há facilitado a percepção de nossos corpos, porém as vezes a mente linear interrompe a percepção . Como podemos estabelecer esse fluxo ( é o tipo de situação quando teu corpo te diz para fazer, porém começas a titubear, a duvidar. Quando isto ocorrre sentimos que o corpo permanece passivo ) ?

O Nagual nos disse que este é o vício de ser produto de uma relação sexual chata , aborrecida e energeticamente pobre : duvidar. Nos disse que uma das curas mais simples para o nosso estado de ser frutos de uma transa aborrecida é o respirar, que permite ao corpo conectar-se com o ar que está fora dele e com novas percepções que isto nos traz . "Temos que aguçar o corpo, afia-lo, disse, para que o intento de perceber possa prevalecer sobre o intento de duvidar ."

Disse que não há maneira de duvidar e sonhar ao mesmo tempo . Disse que nunca nos desfazemos da dúvida . Apenas a colocamos atrás da fila de modo a não ficar com a rédea solta .

Queremos um esclarecimento a respeito dos passes para mudar de "filum" ( filamento, no sentido da percepção e não no sentido puramente biológico ) . Trata-se de converter-se em um inseto ? Alguns entendemos que tem a ver com o alinhamento da percepção e com a maneira como os insetos ao alinhar a percepção como grupo a maneira de um organismo, um só ser, para a sua sobrevivência, e isto lhe dá outras possibilidades evolutivas . Pensamos que pode ser oportuno abordar agora qual o motivo dos sons de inseto que apresentam-se nesse seminário .

Que pergunta mais encantadora. Os passes mágicos promovem a mudança de "filum"( filamento energético do ovo luminoso ) em termos de energia, praticam-se para trazer-nos uma nova visão que vem com uma nova posição do ponto de aglutinação . A verdade é que não sabemos todas as implicações que nos trazem os passes mágicos . Estamos descobrindo ao pratica-los .

O nagual nos advertiu para não especular demasiado sobre os efeitos dos passes mágicos . Disse que nos encantava tratar de converter as coisas em algo familiar, como turistas que levam todas as comodidades para a casa de campo . Disse que a experiência direta é muito mais valiosa que a especulação . Simplesmente façam os passes mágicos, nos dizia, e averiguem aonde os levam .

Os passes mágicos de Olinda que praticaremos serão numa forma chamada "A Partícula do Infinito". Eles nos trazem uma estranha consciência de um ser parecido a uma polilla ( traça, cupim, inseto) . Uma consciência que requer uma nova sintaxe. Estamos verificando os efeitos desses passes mágicos . O Nagual nos disse : "Pode ser que notem uma nova linha de pensamento, podem encontrar-se formulando frases que em nada se parecem com nenhuma formulada antes .

Pode ser que nos encontremos comunicando-nos entre nós, como um corpo de praticantes em uma sintaxe diferente . Os insetos tem uma sintaxe e para os videntes os seres humanos não tem prosperado tanto no uso da mesma . Não abandonamos a que temos aprendido, porém porque não aprender algumas outras e ser fluidos em muitas linguagens ?

Muitos praticantes nos tem perguntado o que entendemos por corpo unificado de praticantes ou sonhar conjunto . Qualquer um que esteja energeticamente disponível está dentro do sonhar que o Nagual teve para nós, e através do sonhar mandamos sinais de consciência uns aos outros e nos encontramos em nosso caminho caminhando juntos . Estes sinais se podem mandar desde onde estejamos, não necessitamos da proximidade geográfica para nos escutarmos mutuamente . Necessitamos apenas de disciplina : A Arte de Sentir Assombro .

" O que faz um ato xamânico é o intento por trás dele ".

Decisão

domingo, 14 de setembro de 2008

Existe na vida de todo homem e de toda mulher momentos cruciais, momentos de escolha e de decisão.

Eles se vêem diante de uma encruzilhada existencial onde devem decidir por si o seu destino e direção.

São momentos únicos.

Talvez não se trate de uma escolha, mas de uma aceitação. Aceitação de um destino a cumprir envolvendo poderes que transcendem a condição humana e que ainda assim exigem a participação de seres como nós sem nenhuma importância e que estão caminhando para a morte.

O passado todo se vai e há apenas o presente desconhecido pela frente . É uma manobra muito difícil essa, pois exige abandono de si e desapego total . É como um desprender-se, como uma folha solta no ar , como uma esperança verde, uma esperança de nova vida que aguarda paciente aquilo que por direito lhe pertence e que luta dentro da trilha do dever para conquistar a si mesmo.

Observando a obra do NOVO NAGUAL podemos notar isso.

Quando escrevemos "Obra", estamos nos referindo a sua obra de vida, da qual os livros são um espelho , pois ele não era meramente um escritor, mas um homem envolvido com atividades pragmáticas e seus livros foram frutos de sua tarefa enquanto buscador . O intento que permeia seus livros indica isso de forma bastante sensíve.

O termo novo nagual referindo-se à Dilas Grau opõem-se a expressão velho nagual referente à John Michael Abelar . Novo e velho aqui não se referem a diferenças cronológicas, pois para os xamãs tais diferenças não contam . O que conta é o seu vínculo com o Abstrato.

O novo e o velho referem-se ao fim de um ciclo e o início de um outro ciclo, referem-se a um giro completo na Roda do Tempo . Referem-se a uma nova direção na trilha do Conhecimento Como se num certo momento, usando uma metáfora, o conhecimento fosse um incêndio na floresta a queimar e a crepitar numa certa direção e um novo vento fizessem as chamas reluzirem e queimarem em outro rumo.

A linhagem de Don Juan Matus encerrou-se com Carlos Castaneda. Carlos Castaneda não possuía as condições energéticas apropriadas ao prosseguimento da mesma. Restou à ele e as suas companheiras definir o que fazer com o conhecimento de Don Juan Matus. O que fazer?

Eis o momento da escolha. Deixar esse conhecimento envolto para sempre em mistério ou torna-lo acessível através de um conjunto pragmático e articulado de ensinamentos? Eis a questão.


Carlos Castaneda escolheu tornar acessível esse conhecimento à todos. Será que realmente escolheu? Suas obras já não estavam delineando o horizonte do que estava por vir? Assim encerrou o velho ciclo e deu início ao novo ciclo, assim, o nagual de três pontas tornou-se o novo nagual. Ele fez essa passagem, esse trânsito, essa mudança bem no estilo da configuração energética que o molda . Enquanto o número quatro é um número de estabilidade, temos no número três uma dinâmica e uma força que traz algo à tona, à manifestação.

A característica do velho ciclo era seu caráter fechado, hermético, onde o conhecimento era passado de lábios à ouvidos, seguindo uma longa cadeia de naguais que se perde no tempo. A linhagem de Dom Juan estava formada por 27 gerações. Don Juan e sua linhagem não estavam interessados em ensinar, apenas em perpetuar sua linhagem seguindo o Regulamento ou a Lei definida pelo próprio Abstrato.

A característica do novo ciclo é seu caráter aberto e desconhecido, justamente, por representar uma trilha nova e acessível à todos os praticantes interessados no conhecimento. O novo ciclo constitui-se num desafio inteiramente diferente onde a somatória dos praticantes interessados nesse conhecimento visa gerar um novo sonho "o sonho dos mil gatos ". Vale reenfatizar que o novo ciclo constitui-se numa trilha inteiramente nova devido as implicações relativas a prática conjunta dos Passes Mágicos. Uma trilha nunca dantes percorrida.

Aqui temos novamente um divisor de águas. A própria obra do novo nagual enquanto espelho de sua Obra viva indica isso . Suas quatro últimas obras : A Roda do Tempo, A Arte do Sonhar , os Passes Mágicos e O Lado Ativo do Infinito, representam exatamente isso , o novo ciclo.

Referindo-se as obras anteriores o novo nagual certa vez disse que elas estavam cheias de bobagens e que eram para serem deixadas de lado.

Tal afirmativa é capaz de chocar os mais apaixonados leitores e admiradores da obra de Carlos Castaneda. O próprio CC diz que os livros que escreveu como A Erva do Diabo até O Poder do Silêncio estão cheios de besteiras . Isso marca bem claramente o fim de um ciclo e o início de outro. Demonstra também o desapego e a compreensão do momento resultante de sua decisão de divulgar o conhecimento de Don Juan abertamente. E, mais ainda, indica e demonstra o avanço do próprio CC ao longo da trilha do conhecimento. Suas obras são como que passos dados na direção de um cume, descrevando diferentes etapas de sua maturação como homem comum e cientista social, aprendiz, guerreiro e homem de conhecimento ( tolteca ).

Podemos observar ao longo de suas obras as diferentes maneiras como o conhecimento de Don Juan foi lhe apresentado e definido. Num certo momento Don Juan diz a Castaneda que todo o guerreiro pensa num certo estágio que está aprendendo xamanismo, bruxaria ou feitiçaria, mas em realidade ele está aprendendo fundamentalmente a economizar energia e sendo convencido do poder que já existe nele mesmo. Assim vemos que xamãs como Don Juan são antes de tudo seres altamente pragmáticos, tremendamente sóbrios e espreitadores incríveis capazes de espreitar o próprio conhecimento.

Ele nos diz: " Em essência, o caminho dos feiticeiros é uma cadeia de escolhas de comportamento ao lidar com o mundo, escolhas muito mais inteligentes do que aquelas que nossos pais nos ensinaram . Essas escolhas dos feiticeiros destinam-se a recompor nossas vidas alterando nossas reações básicas com relação a estarmos vivos."

Assim, o conhecimento não é a sua definição, assim como o nome não expressa a totalidade de uma pessoa ou de um sentimento. A medida que o conhecimento cresce no ser, a sua compreensão muda e, também, o próprio ser. O conhecimento é vivo quando é expressão do ser em sua manifestação e totalidade. Os nomes e as definições são adaptações feitas em função do próprio fluxo de Energia ao longo da trilha do conhecimento.

Ao longo do caminho tudo vai mudando, isso é da natureza do caminho, o próprio guerreiro "paga um preço por estar à serviço da Energia": crises de identidade.

Tantas e tantas vezes Don Juan tentou dar nome ao conhecimento de sua linhagem: feitiçaria, bruxaria, mestria do intento, busca da liberdade total, nagualismo, mas como definir a verdade que surge da prática e do ser, ainda mais quando ela tem que ser reatualizada diante das novas gerações e da modalidade do tempo?

Há uma estória sobre isso. Essa estória de origem oriental aborda de uma forma toda própria o primeiro (as manifestações do espírito), o segundo (o assalto do espírito) e o terceiro (as artimanhas do espírito) cerne abstrato das estórias de feitiçaria. O novo nagual apresentou apenas seis em suas obras, de um total de 21 cernes abstratos, sendo que desses ele teve acesso à dezoito dos mesmos. Só por aí pode-se tentar imaginar a magnitude do conhecimento tolteca, sua espantosa complexidade e seu incrível nível de especialização.


Vamos à estória, que é um conto de poder em seu próprio direito.

Uma fábula sobre a fábula - Lenda Oriental

Allahur Akbar! Allahur Akbar! (Deus é grande! Deus é grande!).


Quando Deus criou a mulher criou também a fantasia. Um dia a Verdade resolveu visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harun Al-Raschid.

Envolta em lindas formas num véu claro e transparente, foi ela bater à porta do rico palácio em que vivia o glorioso senhor das terras mulçumanas. Ao ver aquela formosa mulher, quase nua, o chefe dos guardas perguntou-lhe:

- Quem és?

- Sou a Verdade! - respondeu ela, com voz firme. - Quero falar ao vosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid, o Cheique do Islã! O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, apressou-se em levar a nova ao grão-vizir:

- Senhor, - disse, inclinando-se humilde, - uma mulher desconhecida, quase nua, quer falar ao nosso soberano, o sultão Harun Al-Raschid, Príncipe dos Crentes.- Como se chama?

- Chama-se a Verdade!

- A Verdade! - exclamou o grão-vizir, subitamente assaltado de grande espanto. - A Verdade quer penetrar neste palácio! Não! Nunca! Que seria de mim, que seria de todos nós, se a Verdade aqui entrasse? A perdição, a desgraça nossa! Dize-lhe que uma mulher nua, despudorada, não entra aqui!

Voltou o chefe dos guardas com o recado do grão-vizir e disse à Verdade:

- Não podes entrar, minha filha. A tua nudez iria ofender o nosso Califa. Com esses ares impúdicos não poderás ir à presença do Príncipe dos Crentes, o nosso glorioso sultão Harun Al-Raschid. Volta, pois, pelos caminhos de Allah! Vendo que não conseguiria realizar o seu intento, ficou muito triste a Verdade, e afastou-se lentamente do grande palácio do magnânimo sultão Harun Al-Raschid, cujas portas se lhe fecharam à diáfana formosura!

Mas...

Allahur Akbar! Allahur Akbar!

Quando Deus criou a mulher, criou também a Obstinação. E a Verdade continuou a alimentar o propósito de visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harun Al-Raschid...

Cobriu as peregrinas formas de um couro grosseiro como os que usam os pastores e foi novamente bater à porta do suntuoso palácio em que vivia o glorioso senhor das terras mulçumanas. Ao ver aquela formosa mulher grosseiramente vestida com peles, o chefe dos guardas perguntou-lhe:

- Quem és?

- Sou a Acusação! - respondeu ela, em tom severo. - Quero falar ao vosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid, Comendador dos Crentes!

O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, correu a entender-se como o grão-vizir.

- Senhor - disse, inclinando-se humilde, - uma mulher desconhecida, o corpo envolto em grosseiras peles, deseja falar ao nosso soberano, o sultão Harun Al-Raschid.

- Como se chama?

- A Acusação!

- A Acusação? - repetiu o grão-vizir, aterrorizado. - A Acusação quer entrar nesse palácio? Não! Nunca! Que seria de mim, que seria de todos nós, se a Acusação aqui entrasse! A perdição, a desgraça nossa! Dize-lhe que não, que não pode entrar! Dize-lhe que uma mulher, sob as vestes grosseiras de um zagal, não pode falar ao Califa, nosso amo e senhor!

Voltou o chefe dos guardas com a proibição do grão-vizir e disse à Verdade.

- Não podes entrar, minha filha. Com essas vestes grosseiras, próprias de um beduíno rude e pobre, não poderás falar ao nosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid. Volta, pois, em paz, pelos caminhos de Allah!

Vendo quem não conseguiria realizar o seu intento, ficou ainda mais triste a Verdade e afastou-se vagarosamente do grande palácio do poderoso Harun Al-Raschid, cuja cúpula cintilava aos últimos clarões do sol poente.

Mas...

Allahur Akbar! Allahur Akbar! Quando Deus criou a mulher, criou também o Capricho.

E a Verdade entrou-se do vivo desejo de visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harun Al-Raschid.

Vestiu-se com ríquissimos trajos, cobriu-se com jóias e adornos, envolveu o rosto em um manto diáfano de seda e foi bater à porta do palácio em que vivia o glorioso senhor dos Árabes.
Ao ver aquela encantadora mulher, linda como a quarta lua do mês de Ramadã, o chefe dos guardas perguntou-lhe:

- Quem és?

- Sou a Fábula - respondeu ela, em tom meigo e mavioso. - Quero falar ao vosso amo e senhor, o generoso sultão Harun Al-Raschid, Emir dos Árabes! O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, correu, radiante, a falar com o grão-vizir:

- Senhor, - disse, inclinando-se, humilde - uma linda e encantadora mulher, vestida como uma princesa, solicita audiância de nosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid, Emir dos Crentes.

- Como se chama?

- Chama-se a Fábula!

- A Fábula! - exclamou o grão-vizir, cheio de alegria. - A Fábula quer entrar neste palácio! Allah seja louvado! Que entre! Benvinda seja a encantadora Fábula: Cem formosas escravas irão recebê-la com flores e perfumes! Quero que a Fábula tenha, neste palácio, o acolhimento digno de uma verdadeira rainha!

E abertas de par em par as portas do grande palácio de Bagdá, a formosa peregrina entrou.

E foi assim, sob o aspecto de Fábula, que a Verdade conseguiu aparecer ao poderoso califa de Bagdá, o sultão Harun Al-Raschid, Vigário de Allah e senhor do grande império mulçumano!

Uma outra definição apresentada pelo novo nagual à respeito do conhecimento de Dom Juan encara-o como a PRÁXIS DA FENOMENOLOGIA.

Numa definição sucinta e simples, podemos dizer a fenomenologia é uma filosofia que ocupa-se da realidade entendida como uma descrição e que entende que essa descrição é fruto da interação indissociável entre o observador e o observado. Assim não percebemos os eventos em si, antes os percebemos como uma interpretação decorrente da interação entre o percebedor e o percebido. Assim para entendermos a "realidade" precisamos entender os processos da consciência humana , segundo a fenomenologia.

Isso não signifca que para entendermos à respeito do conhecimento tolteca temos que nos tornar filósofos, basta-nos pensar na figura esplêndida de Don Genaro, o mestre da consciência, mas nos indica que um guerreiro pode ser um guerreiro filósofo em sua busca pelo conhecimento silencioso . Daí podemos perceber que a fenomenologia vem a se constituir numa base filosófica para construir aquilo que Dom Juan chamou de "ideologia de feiticeiro".

Nas quatro últimas obras temos:

A Roda do Tempo como uma síntese das obras anteriores.

A Arte do Sonhar como um conjunto completo de ferramentas para o desenvolvimento sistemático de tal capacidade.

Os Passes Mágicos como a obra mais pragmática e funcional escrita por CC sobre o conhecimento dos xamãs do México Antigo.

O Lado Ativo do Infinito como uma coleção dos momentos sublimes de CC ao longo de sua caminhada.

É claro que não podemos esquecer das obras de Florinda e Taisha pois elas também pertencem ao novo ciclo.

Pergunto-me: ao nos referirmos as obras pertencentes ao ciclo antigo não poderemos estar nos apegando ao passado ? Para usar uma metáfora de Castaneda, não estaremos olhando os trilhos pela parte traseira do trem em vez de nos posicionarmos a parte dianteira e ver o que vem pela frente? Não é o desapego uma das características buscadas por aqueles que visam enfrentar o desconhecido? Porque e para que olhar para trás? Por que nos agarramos a uma descriçao do passado quando o presente desconhecido está aí para ser vivido? O caminho não é uma descrição do caminho. O mapa não é o território. Isso é simples e tremendo. Mesmo os livros mais recentes são em parte como mapas atualizados de um território vivo e em contínua mutação.

Por outro lado, a realidade atual é uma descrição e ao mesmo tempo um desafio vivo.

Aqui também vale à pena notar que apesar desse conhecimento hoje estar disponível a bem da verdade, sua disponibilidade em termos de compreensão depende da disponibilidade e nível de energia de cada praticante ou buscador, pois a mera leitura das obras confere apenas entendimento intelectual ( talvez nem isso seja possível pois os relatos das experiências ali contidas fogem ao entendimento linear ) e não a compreensão real . Assim, de certa maneira o conhecimento real revela-se apenas para aqueles que possuírem a adequação energética para tal decorrente da prática.

Daí a definição sofisticada do novo nagual para o conhecimento tolteca: PRÁXIS DA FENOMENOLOGIA.

O novo nagual se foi e deixou à porta aberta para quem quisesse e tivesse a condição energética para seguir o rastro de energia através do afeto abstrato . Suas companheiras (conhecidas como "Las Brujas") permanecem e zelam pelo esforço conjunto de praticantes em todo o mundo.

Outra diferença crucial que marca o antigo e novo ciclo é a estrutura do grupo do novo nagual. Uma estrutura incomum . O grupo é formado por cinco praticantes : Carol Tiggs (a mulher nagual que após dez anos desaparecida retorna e abre para o nagual uma nova possibilidade), Florinda Donner-Grau ( a sonhadora ), Taisha Abelar (a espreitadora), o Batedor (a) Azul (um ser inorgânico) e o próprio nagual. Uma formação totalmente incomum, pequena e com um membro que é um ser inorgânico. Tal grupo, numa referência de um de seus integrantes, talvez seja chamado de "a aranha de cinco patas".

Acrescente-se à isso o fato da participação (in)direta do ser conhecido como o "Inquilino" ou a desafiadora da morte. Um tolteca de tempos antiquíssimos, com milhares de anos, com um conhecimento inconcebível no que diz respeito a manipulação do ponto de aglutinação e da força rolante. Tal ser que sempre sustentou sua condição de vida através de eras pela troca energética com os naguais da linhagem de Dom Juan e tornou-se , portanto, parte importante de todo esse processo, além de ser, o protetor da linhagem e um dos responsáveis pela abertura dos Passes Mágicos.

O termo nagual é um termo muito rico, possui diferentes significados dentro da obra do novo nagual. Pode significar o espírito, o intento, o abstrato, o infinito ; o duplo, o outro, o corpo energético; bem como, o líder de um grupo de guerreiros que buscam adentrar à terceira atenção ou à liberdade total, um condutor impecável que por força de sua condição energética duplicada e de seu treinamento torna-se o passaporte vivo para o Infinito para todo um grupo de guerreiros.

Outra diferença crucial do novo ciclo é a idéia de liderança. Não há mais a figura do líder carismático. Há a idéia de um grupo com o propósito comum de sonhar um novo sonho através da prática conjunta dos Passes Mágicos. O fato de não existir um líder (o nagual ) exige de cada praticante uma disposição de busca completamente diferente, pois não há ninguém para guiá-los. Essa disposição exige uma coragem de aço, um propósito inflexível e uma contínua prontidão frente ao desconhecido. O praticante atual deve ser um praticante que não precisa ser levado pela mão. Há duas séries que passes mágicos que caracterizam bem essa disposição exigida do moderno praticante: A série do Intento e a série da Masculinidade.

Para o praticante atual a aprendizagem é tão intensa ou mais árdua do que antes pois possui os desafios e os riscos que são próprios a esse tempo e a realidade de vida de cada um Os passes mágicos, a recapitulação, a economia da energia sexual, os não-fazeres, a prática contínua de intentar o silêncio interior são esforços individuais para que os praticantes atuais possam estar sob o "guarda-chuva" do Intento dos xamãs do México antigo e para que possam alcançar o lugar da não-piedade (posição do ponto de aglutinação) tornando-se capazes de sonharem juntos.

Tal Intento torna-se o verdadeiro guia desses praticantes quando eles são "honestos consigo mesmos" não importando sob que condições eles estejam . Há um mestre moderno, conhecido como Gurdjieff que diz : "Quanto piores as condições do Trabalho, melhores serão os resultados, sob a condição de que lembremos continuamente do Trabalho".

Assim , para um guerreiro e/ou para o aspirante dessa trilha só existe o desafio.

Para tais praticantes as premissas básicas do Caminho do Guerreiro continuam extremamente válidas: adotar a morte como referência, como companheira; perder a importância pessoal; pagar suas dívidas para com o conhecimento e apagar a história pessoal; guardar por toda a vida e/ou por um período da mesma a energia sexual para liberta-la dos efeitos da socialização; aprender a agir por agir sem esperar recompensas.

Assim temos o Caminho do Guerreiro como um modo de vida, que norteia-se por uma ética da consciência e pelo uso estratégico da energia, adotado por aqueles que assim escolheram ou, talvez, fosse melhor dizer, que assim o aceitaram em seus corações e em seus atos.

Dessas premissas uma das quais podemos refletir no momento refere-se as dívidas que contraímos como decorrência de nosso contato com o conhecimento ou a responsabilidade frente ao mesmo.

Imaginem que estamos presos e não sabemos como fugir. De repente, nos vem à mão justamente a maneira de como podemos faze-lo e, apesar, de todo o nosso anseio de fuga e de liberdade não aproveitamos a oportunidade.

O que é um prisioneiro que conhecendo a maneira de libertar-se não o faz?

Uma das "brujas" conta que Don Juan divertia-se muito nos comparando à macacos que ficaram presos à uma cabaça por tentar colher algumas sementes que lá se encontravam . O macaco não podia tirar sua mão enquanto tivesse segurando as sementes dentro da cabaça. Os humanos são idênticos . Nossas expectativas sociais são as sementes que consomem nossa consciência. Tudo o que o macaco deveria fazer para libertar-se seria soltar as malditas sementes, porém não o fazemos, assim, não soltamos as sementes de uma situação onde estamos presos.

Há chegado o momento de soltarmos as sementes.

A eternidade está aí, ao longo da rua, inesperadamente .

F.A.

Maldição

sábado, 13 de setembro de 2008

Foi um golpe que fez tremer meu ser inteiro a despeito de aparentemente continuar impassível. Um medo interior tremendo sacudia todo meu corpo. Medo da verdade. Medo de ter encontrado o nagual e medo de tê-lo perdido. Medo de nunca mais poder escapar da maldição que marca o guerreiro que não aproveita sua boa sorte.

A verdade, antes de libertar, vos aterrorizará.

Revendo minha vida, percebi que a melhor fase dela foi quando encontrei ele. Não importa o nome dele. Ele era o nagual. Só podia ser, e isso vinha com claridade sem igual hoje enquanto olhava o azul único do céu da Serra da Mantiqueira. Tudo naquela fase do encontro fluía, a sorte me perseguia por todos os lados, tudo de bom se fazia acontecer e mesmo aquilo que não era bom transforma-se num desafio de onde eu tirava o melhor. Tenho certeza que outros companheiros e companheiras que conheci naquela época, se revirem suas vidas, poderão constatar o mesmo.

As coisas aconteciam, as pessoas se encontravam, mas a razão do encontro não era fechar um negócio, conhecer aquela garota ou trocar idéias interessantes. Algo em mim sabia que o que importava ali era o nagual, não tanto pela sua pessoa, mas pela sua presença, que fazia mover nossa percepção de uma forma que não nos dávamos conta. Sutil, muito sutil. Sem socos ou movimentos abruptos. Sofisticação e simplicadade em lidar com o outro como só agora começo a perceber.

Talvez nem mesmo ele se desse conta de tal. O Espírito tinha nos reunido. Por vezes e quase sempre a estupidez nos afastava. Mas hoje, depois de sua partida, graças a uma recapitulação espontânea enquanto relia pela enésima vez O Poder do Silêncio, pude ver, compreeender. Só assim posso explicar a maldição que me persegue, é algo assim como uma falta de sorte para colocar a última peça na organização da minha vida. Algo não flui quando tudo está prestes a ficar perfeito. É como se a liberdade-felicidade passasse ao largo, acenando. É aquela maldição que perseguiu o velho nagual depois de sua saída da casa do nagual Julian até a sua morte? Ou seria outra coisa? O mundo não nos deixará partir tão facilmente...

É um sentimento pior que a morte,
porque é o desespero de ficar preso a uma situação da qual não podemos escapar. A frase silen-ciosamente ecoa na mente: a única liberdade de um guerreiro é ser impecável. Isso é praticamente uma maldição. E um desafio. Um guerreiro não pode pisar na bola. Assumiu o compromisso e o que está em jogo em cada momento é a sua própria vida. Isso não é drama, nem efeito literário. É fato. É real. Analise sua própria vida depois de ter entrado para este caminho. Se não largarmos tudo aquilo que nos prende ao nosso passado, a nossa velha forma de ser, a uma sintaxe ultrapassada seremos aguilhoados de forma áspera ou sutil pela própria vida. O intento dos xamãs do México Antigo é profundamente poderoso e nos obriga a uma rendição total, não há mais como voltar para a velha vidinha de antes. Não há mais como se esconder por trás de outro caminho. Mas você já sabe disso ou pensa que sabe ou deveria saber. Em mudo desespero o tempo passa, a velhice chega e a morte torna-se um alívio e não mais um desafio.

F.A.

Novidades na Biblioteca Virtual

domingo, 7 de setembro de 2008


Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas - AQUI



Mitos, Sonhos e Religião, de Joseph Campbell - AQUI



O que é Ideologia, de Marilena Chauí - AQUI



A Condição Humana, Hannah Arendt - AQUI



Um trecho do Zen e ...

Chris e eu estamos viajando para Montana com um casal de amigos, que vão mais adiante. E pode ser que ainda cheguemos mais longe. Os planos são propositalmente vagos; queremos mais viajar do que chegar a algum destino. Afinal, estamos de férias. Preferimos vias secundárias. As melhores são as estradas pavimentadas municipais; depois, vêm as rodovias federais. As piores são as vias expressas. Queremos aproveitar o tempo, mas no momento concentramo-nos mais no "aproveitar" do que no "tempo". Com esta mudança de ên­fase muda também toda a perspectiva. As estradas sinuosas e íngre­mes são mais longas em termos de tempo, mas bem mais agradáveis de percorrer numa moto, onde a gente se inclina nas curvas, do que de carro, onde se é jogado de um lado para o outro dentro de um compartimento. As estradas menos movimentadas, além de mais agradáveis, são também mais seguras. As melhores estradas são aquelas sem drive-ins nem anúncios, onde se vêem arvores, pastos, pomares e capinzais que chegam até a beira do acostamento, onde crianças acenam quando a gente passa, onde as pessoas espiam das varandas para ver quem é, onde a gente pára para pedir uma orientação ou uma informação e a resposta geralmente é mais longa do que se espera, onde as pessoas perguntam de onde você vem e há quanto tempo está viajando.

Foi há alguns anos que minha mulher, eu e meus amigos começamos a compreender essas estradas. Entrávamos por elas de vez em quando, para variar um pouco, ou para alcançar outra via principal. Ao fazê-lo, gozávamos a paisagem magnífica e saíamos com uma sensação de relaxamento e prazer. Fizemos isso vezes sem conta, até percebermos o óbvio: essas estradas eram mesmo diferentes das principais. A personalidade e o ritmo de vida das pessoas que ali moravam eram completamente diferentes. São seres que não têm objetivos rígidos. Não estão ocupados demais para serem gentis. Sabem tudo sobre o "aqui" e o "agora" das coisas. Foram os outros, os que se mudaram para a cidade anos atrás e seus filhos perdidos que quase se esqueceram disto tudo. A descoberta foi um verdadeiro achado.

Dois documentários - Jardim de Deus e Ayahuasca

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

O Vinho das Almas

Documentário em espanhol sobre a experiência com a Ayahuasca.

Download via Dreamule AQUI

Acesso via Google AQUI



Jardim de Deus

Documentário em espanhol sobre plantas de poder

Download via Dreamule AQUI

O bruxo, homem só e sem pátria

Entrevista com Carlos Castaneda publicada em 1976
Fonte: Revista Veja nº356 -1976

O bruxo, homem só e sem pátria
Após quinze anos de lições, o brasileiro, talvez peruano ou americano, aprendeu a não ter biografia nem raízes.

Desde que começou a relatar em livros seus encontros com Don Juan, que remontam a 1960, Carlos César Aranha Castaneda transformou-se na mais invisível e impalpável personalidade literária da atualidade. Fragmentos incompletos de sua biografia apareceram nas duas únicas publicações a que concedeu entrevista, as revistas Time e Psychology Today, não se deixou fotografar nos últimos dez anos e não se preocupou em esclarecer algumas dúvidas cruciais. Assim, ele teria nascido no interior de São Paulo, no dia de natal de 1935, segundo disse ao Time. Mas, de acordo com a revista, o nascimento de deu dez anos antes numa cidade do Peru.

Comunicado desta descoberta, Castaneda reagiu de maneira impecável para um aprendiz de feiticeiro que aspira apagar sua identidade pessoal: "Estas estatísticas não significam nada. Importante o que nós somos, não o que éramos". Assim, com essa nacionalidade incerta e com uma idade que caminharia para os 40 ou 50 anos, embora certamente aparentasse menos, os únicos sinas da existência terrestre de Castaneda eram um Volkswagen e duas casas de sua propriedade, na Califórnia. No começo do ano passado, o estudante brasileiro Luiz André Kossobudzki, então bolsista de educação na Universidade da Califórnia (UCLA), encontrou-o num jantar beneficiente ao lado de personalidades literárias "normais", como Irving Stone e Irving Wallace. Quinze meses depois, no fim de março último, recebeu de Castaneda os negativos das fotos que o autor tirara no México, e que VEJA publica junto com esta entrevista exclusiva, à qual o entrevistado impôs a condição de que deveria ser publicada no Brasil antes de qualquer outro país. Kossobudzki recorda os seus encontros:

"Eu, minha mulher e mais quatro casais de bolsistas estrangeiros éramos talvez os únicos convidados ao jantar que não tínhamos os nomes gravados em alguma placa de honra. Tentamos, sem conseguir, um lugar na mesa de Castaneda, mas depois do jantar ele mesmo veio até nós. Disse-lhe logo que não acreditava ser ele brasileiro. Começamos a falar em inglês, mas logo depois ele se dirigiu até nós com lusitana fluência (inclusive sotaque) e afirmou ter nascido no interior do estado de São Paulo, numa cidade do vale do Paraíba, e que passara parte de sua infância em Juqueri* .Combinamos então nos encontrar novamente para uma feijoada, mas Castaneda desapareceu por vários meses. Um telefonema do seu agente literário informou que ele ainda estava interessado em me ver. Finalmente, conversamos três vezes, uma na minha casa e outras duas no campus da UCLA, onde ele trabalha de catorze a dezoito horas diariamente, em suas pesquisas sobre ético-hermenêutica (estudos da interpretação perceptiva de diferentes grupos étnicos). Castaneda aparenta ter 35 anos, 1,70 metros de altura e uns 70 quilos. Fisicamente, passaria por caboclo mato-grossense ou mesmo nordestino".

*Não existe nenhum município paulista com esse nome. Juqueri, no entanto, é o nome de um estabelecimento para doentes mentais no município de Franco da Rocha, na Grande São Paulo, que costuma ser confundido com o nome do hospital. Juquiri é o nome antigo do município de Mairiporã, também na Grande São Paulo.

Aprendendo a viver com a bruxaria

VEJA - Quando se lê sobre Don Juan, tem-se a impressão que ele é um homem pobre e com um vasto conhecimento da vida. O senhor poderia falar de sua surpresa ao encontrá-lo de terno em "Porta para o Infinito"?

CASTANEDA - Tremi de medo, pois estava acostumado a vê-lo somente em roupas de campo. Isto ocorreu na fase final dos ensinamentos e tinha uma razão de ser. Don Juan revelou-me que era proprietário de diversas ações na Bolsa de Valores, e tenho quase certeza que se ele fosse um homem tipicamente ocidental estaria vivendo em um apartamento de cobertura no centro de Nova York. Finalmente aprendi que as duas realidades poderiam ser divididas no que Don Juan denominava tonal (consciente) e nagual (que não se fala). Na realidade do consenso social, o bruxo, o homem de conhecimento, é um perfeito "tonal" - um homem do seu tempo, atual, que usa o mundo da melhor forma possível. Nós usamos história como uma forma de recapturar o mundo passado e planejar para o futuro. Para o bruxo, passado é passado e não existe história pessoal nem coletiva.

VEJA - O principal de seu encontro com Don Juan está escrito no livro "The teachings of Don Juan"(na versão brasileira, a Erva do Diabo"), mas em lugar nenhum existe menção de exatamente onde estiveram. Seria possível uma descrição mais detalhada do local?

CASTANEDA - Na fronteira entre os Estados da Califórnia (Estados Unidos) e Sonora (México) existe uma cidade chamada Nogales. Partindo de Nogales, a rodovia principal passa pela cidade de Hermosillo, capital de Sonora, pela cidade de Guayamas e finalmente cruza a Estácion de Vicam. A oeste da Estação de Vicam, em direção ao Pacífico, encontra-se a cidade de Vicam, habitada em sua maioria por índios yaquis. Vicam é o local onde pela primeira vez encontrei Don Juan. Perto de lá obtive os ensinamentos.

VEJA - Para não tirar a liberdade de Don Juan, até hoje o senhor não havia revelado este local. Como agora se sente livre en descrevê-lo com exatidão?

CASTANEDA - Porque agora ninguém conseguiria achar Don Juan; ele não está mais por lá, e Don Genaro também sumiu das montanhas do México Central (Sierra Madre Ocidental). Não existe jeito nenhum de encontrá-los. Don Juan me mostrou e ensinou tudo o que ele podia e por isso não há necessidade de que ele permaneça à minha disposição. Da mesma forma, você sabe que se quiser me encontrar é só ir até a UCLA, deixar um recado ou me procurar na biblioteca de pesquisas. Mas, se eu deixar de vir à UCLA, você não terá a mínima idéia de onde me encontrar. Como Don Juan, procuro viver como feiticeiro.

VEJA - Muitas pessoas, eu inclusive, encontram dificuldades em aceitar factualmente as descrições dos ensinamentos de Don Juan. O senhor se preocupa com o fato de as pessoas reagirem dessa forma?

CASTANEDA - Não, porque não dou ênfase na importância de minha pessoa. este é um ponto crucial dos ensinamentos que recebi de Don Juan. Raramente converso com alguém, e quando converso é face a face. Nada de gravadores ou fotografias, que trariam peso sobre a minha pessoa. Além de ferir uma das premissas básicas de feitiçaria e bruxaria, eu estaria tolhendo minha própria liberdade. Quando enfatizo a minha pessoa, estou me tachando a mim mesmo, estou colocando nas minhas costas um peso que vai além das minhas possibilidades de carregá-lo. Colocar tal peso nas costas é dar uma enorme importância à minha própria pessoa. Durante os ensinamentos, Don Juan fazia esboços na areia do deserto com o dedão do pé e preenchia os círculos com verbosidade. Ele dizia que "cargase a uno mismo" conduz a pessoa a um senso "importância personal" que combinados não permitem "acciones" por parte da pessoa. Quanto mais peso as pessoas acumulam, mais importantes elas se sentem, e menos ações elas executam.

VEJA - Por que então publicou seus livros?

CASTANEDA - Porque esta era a minha tarefa. O bruxo cumpre tarefas que são colocadas em lugar do peso sobre si mesmo e da importância pessoal. Meu trabalho não é feito de erudição, mas uma recoleção da vida que Don Juan colocou em seus ensinamentos. O bruxo cumpre as tarefas que lhe dão satisfação. Ele as cumpre sem esperar por reconhecimento da sociedade ou coisa que o valha, o que seria o "carregar-se a si mesmo" exercitado pelo erudito, com o objetivo de obter importância pessoal, o que não é meu caso. Por exemplo, se esta entrevista for tomada como um ato de bruxaria, ela se torna uma tarefa a ser cumprida.

VEJA - Esta entrevista, seu trabalho, sua obra, e mesmo o fato de trocarmos idéias por várias horas, tem um efeito que me parece ir além do simples cumprimento de tarefas. Elas lhe trazem satisfação, caso contrário não as faria. Além do mais, o senhor espera que sua mensagem, os ensinamentos de Don Juan, tenham um impacto sobre público. Não seria este o caso de cumprir tarefas e esperar pelo reconhecimento da sociedade?

CASTANEDA - Eu cumpro minhas tarefas tão fluidamente que elas não me afetam em termos de auto-importância, mas sim em termos de como vivo minha vida. Conheço dúzias de "professores" que se colocam numa torre de marfim de conhecimento: eles sabem tudo, e comandam o espetáculo para as galerias; quanto mais aclamados, ou quanto mais reconhecimento eles recebem, mais auto-importantes se sentem, mas esta mesma auto-importância se torna peso, a cruz a ser carregada, e eles como pessoas não são nada. O trabalho as afeta em termos de auto-importância, mas não em termos de vida pessoal. A mim o trabalho afeta em termos de vida pessoal, mas não de auto-importância. Don Juan me alertou e aconselhou que nunca me tornasse um pavão, "pavo real", que é o resultado à ênfase da importância pessoal. Quanto menos a pessoa pensa e "pseudo-age" em termos de auto-importância ela se torna mais completa. E quanto mais auto-importante se sente, mais incompleta se torna. O ser incompleto nasce da incessante procura por reconhecimento social.

VEJA - Mas se a pessoa age, não estaria automaticamente à procura de auto-reconhecimento?

CASTANEDA - Não, se estiver agindo como um bruxo. O bruxo vive a vida por si e para si e não para as galerias. Ele não se deixa influenciar pelas reações de consenso social, pois não age em termos de auto-importância. Ele sabe "parar o mundo", ou melhor, ele tem a capacidade de "não fazer".

O "mundo parado", por um passe de mágica.

VEJA - E que significa "fazer, "não fazer" e "parar o mundo"?

CASTANEDA - O objetivo final do bruxo é se tornar um "homem de conhecimento, mas antes ele tem que aprender a viver como um guerreiro-pirata. Ele tem que ser um impecável caçador à procura de coragem e disciplina. O guerreiro-pirata age por si mesmo, e assume a responsabilidade por suas ações. No processo de me tornar guerreiro-pirata eu encontrei poder pessoal, isto é, o poder da coragem e disciplina. Don Juan me ensinou a enxergar, ver o mundo ao invés de simplesmente olhar. Ele ensinou-me a interpretar o mundo não pelo que se apresenta na superfície, mas pela essência. Porém, antes poder enxergar e interpretar o mundo como um guerreiro-pirata, como um bruxo, tive que aprender como "não fazer", como "parar o mundo". Como você pode notar, é quase que uma taxinomia de tarefas. Para se ter o entendimento de "não fazer" é necessário explicar o significado de "fazer". "Fazer" é o consenso que torna o mundo existente. O mundo da nossa realidade é realidade porque estamos envolvidos no "fazer" dessa realidade. As pessoas nascem com uma auréola de força, poder, que se desenvolve e se entrelaça com o consenso dominante. As pessoas olham o mundo da forma como lhe foi ditada, com os olhos do consenso dominante. Por outro lado, "não fazer" é possível quando uma auréola extra de poder se desenvolve para formar a existência da realidade de um outro mundo. O guerreiro-pirata não escapa do "fazer" do mundo, mas luta dentro desta realidade, a realidade do consenso dominante. o que o auxilia na criação da auréola extra de poder. O ato de "não fazer" conduz ao "parar o mundo", que é o primeiro passo para "enxergar". O mundo da realidade ordinária, do dia-a-dia, nos parece do jeito que é por causa do consenso social. "Parar o mundo" significa interromper a corrente comum de interpretação do mundo, do consenso dominante, ou em outras palavras, parar o consenso é enxergar o mundo como bruxo, numa realidade não-ordinária. "Parar o mundo" é viver num espaço temporal mágico, enquanto que viver na realidade do consenso é viver num espaço temporal ordinário.

VEJA - Um bruxo é um pragmático, e o senhor mesmo se rotula assim. Qual seria a aplicação prática de "fazer", "não fazer" e "parar o mundo"?

CASTANEDA - Você fuma desbragadamente, como um desesperado. Eu fumava como você, e cheguei a fumar quatro maços de cigarros por dia, até que Don Juan sugeriu que eu usasse a minha compulsão para parar de fumar. Eu deveria ficar envolvido no "não fazer" de fumar. Para isso eu teria que observar o fazer de fumar. Comecei então a observar o "fazer" de levantar pela manhã e procurar imediatamente meus cigarros, o "fazer" de colocá-los no bolso, o "fazer" de apalpar o bolso da minha camisa com minha mão esquerda para ter certeza de que os cigarros lá estavam. O lugar do cigarro, o fumar de dois deles no caminho da universidade, e assim por diante, constituíam o meu "fazer" de fumar. Como eu, você pode observar o que constitui o seu "fazer" de fumar. Uma medida sistemática de fazer leva a pessoa a não executar os detalhes do ato de fumar. Para "parar o mundo" de fumar a pessoa tem que aprender a compulsivamente dizer não para o "fazer" de fumar.1 Este exemplo é grosseiramente uma aplicação dos ensinamentos, pois eu parei de fumar logo nos primeiros contatos com Don Juan, mas somente consegui "parar o mundo" da realidade ordinária depois de dez anos. A partir deste ponto Don Juan deixou de usar plantas alucinógenas como parte dos ensinamentos.

Guias para se acabar com o bom senso

VEJA - O senhor não fuma, não bebe e evita até café. Como então vê o uso de drogas como parte dos ensinamentos de Don Juan?

CASTANEDA - Don Juan usou psicotrópicos e plantas alucinógenas como um auxílio aos ensinamentos. Uma vez atingido o objetivo, estes veículos se tornaram desnecessários. As drogas são maléficas para o corpo, e não tem nenhum defeito além de uma certa qualidade que o bruxo necessita.

VEJA - De que modo as drogas serviam de instrumento auxiliar aos ensinamentos de Don Juan?

CASTANEDA - O mundo como nós o vemos é apenas uma descrição, e cada item da descrição é uma unidade, o que eu chamo de "gloss" (aparência externa") Uma árvore é um gloss, um quarto ou uma sala são glosses. Nós colocamos significado ao gloss-quarto como sendo a reunião de pequenos glosses - cama, cadeira, camiseira, armário. A realidade do consenso é formada por uma corrente infinita de glosses, os quais, por sua vez são formados e interligados por pequenos glosses. Esta corrente forma, na nossa realidade, um sentido comum, isto é, esta corrente de glosses tem que fluir em uma direção pré-concebida que nós chamamos com senso ou sentido comum. Para quebrar ou interromper a corrente, o bruxo usa drogas que criam um espaço vazio na corrente, implantando uma nova direção, a direção do sentido comum ou do bom senso da realidade não ordinária (realidade da bruxaria). Sentido comum e bom senso estão diretamente ligados ao nosso corpo. Com o uso de drogas, há uma interrupção no bom senso e abertura de uma nova direção, e essa nova direção só pode ser encontrada com um guia (bruxo), pois de outra forma o uso de tais drogas é sem valor. O homem geralmente tem a idéia de gozar a vida através dos vícios. Um viciado é uma criança profissional. Interromper a corrente de glosses, parar o mundo, com o uso de drogas só pelo prazer de interromper, só pode causar dano, além de ser uma brincadeira cujo preço é caro. Uma vez que o corpo aprendeu a interromper a corrente, não há mais necessidade de auxílio para tal interrupção. A pessoa interrompe pela própria vontade.

Uma estranha psicoterapia: sentir-se morto

VEJA - Acha que o processo de interrupção voluntária da corrente do "bom senso" seria eficaz se aplicado à psicoterapia?

CASTANEDA - O sucesso de Don Juan como psicoterapeuta é impressionante. Ele me fez cônscio de que era uma criança profissional, que eu estava colocando muito peso sobre mim mesmo, enfatizando minha importância de pessoal, e não transformando em ações minhas fantasias. Ele me ensinou a viver para o agora, a encarar a minha morte como um fato inevitável e existente em minha vida. O conceito de morte deve ser encarado como uma realidade. Don Juan me ensinou que, se eu me considerasse como morto, nenhuma das minhas ações teria importância pessoal, e com isso eu poderia mudar, ou mudanças poderiam ser feitas e tarefas serem cumpridas. O fato inevitável de morte é muito mórbido para o homem ocidental, e em conseqüência o Ocidente procura interação social com o objetivo de ajustamento ao "bom senso".

VEJA - Seria correto dizer que a pessoa, em nossa realidade rotulada de psicótica, para Don Juan seria apenas a pessoa que acidentalmente interrompeu a corrente do "bom senso" e não conseguiu fazer esta corrente?


CASTANEDA - Correto. O bruxo quebra a corrente do bom senso por vontade própria. não é uma coisa acidental. Nas primeiras experiências tenho quase certeza que sem um guia teria perdido o contato com a realidade do consenso; em outras palavras, eu não seria capaz de encontrar o caminho de volta a essa realidade. O guia orienta o aprendiz a sair da realidade do consenso e a entrar na estranha realidade da bruxaria, bem como sair daquela estranha realidade e voltar a realidade do consenso. Este exercício é repetido até que o aprendiz adquira o domínio da sua própria vontade. Para o psicótico, o exercício sobre a direção de um psicólogo clínico ou de um psiquiatra resume-se a retornar à realidade do consenso, e a permanecer conformado. O bruxo, além de guia, é o modelo de "homem do conhecimento". Para Don Juan, qualquer mudança somente é possível se a pessoa praticar seus próprio ensinamentos. Novamente a filosofia "eu faço o que eu digo" prevalece.

VEJA - "Porta para o Infinito" menciona o uso de sonhos como um exercício no domínio e controle da própria vontade. Seria este controle da mesma natureza do domínio da própria vontade ao que o senhor acaba de se referir?


CASTANEDA - Eu menciono neste livro os diversos exercícios para controle dos sonhos, ou seja, para que a pessoa possa colocar os sonhos a seu serviço e sonhar produtivamente. Este sonhos requerem o mesmo domínio da vontade que é necessário para sair e voltar à realidade ordinária. Sonhos para um bruxo não são simbólicos, mas frutos do controle que adquire através dos ensinamentos. Ele dorme sonhando sonhos produtivos, como que uma continuação do dia a dia, ao invés de sonhar sonhos ordinários comuns, e sem controle. Aos poucos, uma pessoa consegue se disciplinar, a ponto de, sonhando, ser capaz de ver a sua própria imagem dormindo a sonhar. O caso extremo deste controle pode ser exemplificado pelo que Don Genaro afirma ser capaz - materialização de uma duplicada da sua própria pessoa. Com o controle dos sonhos a pessoa pode aumentar a sua capacidade de ação. Todas essas realidades não exploráveis da realidade do consenso formam um todo - o "homem de conhecimento".

VEJA - O senhor acha que nós exploramos e usamos apenas parcialmente o nosso potencial por razões inerentes à nossa educação formal?

CASTANEDA - A educação formal e informal do homem ocidental não dá margem a nada estranho ou diferente do consenso social. O que é fora da norma do nosso bom senso é considerado anormalidade. Também falta ênfase na noção de responsabilidade para consigo mesmo: não falamos suficientemente da responsabilidade para as nossas crianças,e por esta razão poucos deixam de ser crianças, e vivem a vida como crianças-profissionais. Explicando melhor: a criança profissional é a pessoa que precisa de carinho e é recompensada por meio de atenção dispensada a sua pessoa. Ela é auto.importante, um eterno infant terrible. Queria deixar de uma vez por todas de ser criança, mas eu era muito querido por mim mesmo, e sempre tinha uma desculpa para que continuasse alimentando minha auto-importância. Não fazia nada, não produzia nada, ações eram abafadas pelos meus planos e decisões, e pelo meu senso de importância pessoal. Até que aprendi com Don Juan a deixar de ser criança profissional e me tornei guerreiro-pirata.. Ficar sentado, esperando que me dessem tudo ou sonhando acordado com a glória da minha auto-importância, não me trouxe nada. Eu tive que ir procurar coragem e disciplina.

De criança profissional a guerreiro-pirata

VEJA - O senhor vive como um bruxo, isto é, uma vida de anonimato, enquanto o seu trabalho é público e de muito sucesso. Qual é a satisfação pessoal que resulta deste aparente antagonismo entre autor e pessoa?

CASTANEDA - Minha satisfação vem de escrever impecavelmente e de apresentar minha pessoa à luz da verdade. Eu realmente não vejo antagonismo, pois minha vida pessoal é um reflexo da minha obra. Novamente afirmo que faço aquilo que digo, pratico aquilo que prego. E uma vez que sou honesto comigo mesmo, não me importa o que e como a galeria pensa ou reage. Desta forma, sou livre dos altos e baixos. Veja o exemplo de Tinothy Leary, o guru do ácido lisérgico. Ele é um exemplo típico de excesso de auto-importância. Lá pelas tantas o peso se tornou demasiado e ele teve que pagar o preço extremo. Muitos são os escritores que pregam mas não seguem a própria pregação, muitas são as pessoas que promovem um corpo forte e uma mente sadia, mas acabam destruindo gradativamente o próprio corpo e mente. Don Juan era o modelo que fazia e praticava tudo aquilo que era colocado como tarefa para mim, durante todos os anos da aprendizagem.

VEJA - O senhor mencionou o modelo de Don Juan, mas foi também exposto a um outro modelo: o consenso social. Como alia esses modelos em sua vida?

CASTANEDA - O modelo de Don Juan me deu os parâmetros de uma realidade diferente da do consenso social. Outro modelo me conduzia ao eterno enfant terrible. Ao longo dos ensinamentos, abandonei este último. Um modelo me conduzia à criança profissional, e outro ao verdadeiro guerreiro-pirata. Quando a pessoa tira o senso de auto-importância o senso de auto-importância do seu caminho e toma a consciência de que o homem que puxa a corda e trama os pauzinhos é tão humano quanto eu ou você, ela pode atingir aquilo que quiser. A pessoa pode ser ultra-inteligente e cheia de recursos, mas se somente espera que as coisas lhe venham às mãos, quando não é atendida pelo mundo cai num estado de ódio, remorso e medo. O guerreiro-pirata não tem medo, ele não espera que as coisas venham até ele. Ele age, cumpre suas tarefas, e ao mesmo tempo não se preocupa com as conseqüências.

Notas

1Em uma entrevista mais recente, concedida a Carmina Fort, Castaneda relata que Don Juan, para fazê-lo parar de fumar, certa vez levou ao deserto, avisando que iam passar lá vários dias. Castaneda fez um estoque de cigarros, com várias caixas embrulhadas. Enquanto dormiam, os cigarros sumiram. Castaneda, desesperado, procurava uma explicação. Don Juan disse que talvez tivesse sido os lobos. Rondaram as habitações próximas mas não acharam nada para Castaneda fumar. Esse acontecimento foi decisivo para ele largar o mau-hábito (nota do redator).


A cigarra e a formiga: versão alternativa

Era uma vez uma formiguinha e uma cigarra, muito amigas.


Durante todo o outono a formiguinha trabalhou sem parar armazenando comida para o período de inverno, não aproveitou nada do sol, da brisa suave do fim da tarde e nem do bate papo com os amigos ao final do expediente de trabalho tomando uma cerveja, seu nome era trabalho e seu sobrenome, sempre.


Enquanto isso a cigarra só queria saber de cantar nas rodas de amigos nos bares da cidade, não desperdiçou um minuto sequer, cantou durante todo o outono, dançou, aproveitou o sol, curtiu para valer sem se preocupar com o inverno que estava por vir.


Então, passados alguns dias começou a esfriar, era o inverno que estava chegando. A formiguinha exausta entrou para dentro de sua singela e aconchegante toca repleta de comida.


Mas alguém chamava por seu nome do lado de fora da toca.


Quando abriu a porta para ver quem era, ficou surpresa com o que viu, sua amiga cigarra dentro de uma Ferrari com um aconchegante casaco de vison.


E a cigarra falou para a formiguinha:


"Olá amiga, vou passar o inverno em Paris, será que você poderia cuidar da minha toca para mim ?"


E a formiguinha respondeu:


"Claro, sem problema, mas o que lhe aconteceu que você vai para Paris e está com esta Ferrari ?"


Respondeu a cigarra:


"Imagine você que eu estava cantando em um bar na semana passada e um produtor gostou da minha voz e fechei um contrato de seis meses para fazer Shows em Paris...
A propósito, a amiga deseja algo de lá?"


Respondeu a formiguinha:


"Desejo sim , se você encontrar um tal de La Fontaine por lá manda ele a merda".


Moral da historia : "Aproveite sua vida, saiba dosar trabalho e lazer, pois trabalho em demasia só traz beneficio em fábulas do La Fontaine ".