Xamanismo e Magia - Uma perspectiva histórica - 1ª parte

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Para abordar as relações entre Xamanismo e Bruxaria seria interessante começarmos por uma breve retrospectiva da nossa história, da história dessa sociedade na qual vivemos, suas bases, suas origens.

Enquanto vc lê esta mensagem está usando os resultados de inúmeros campos de estudo que foram se desenvolvendo, até chegar a esta maravilha moderna, pura magia cibernética que é o computador e a net.

Nossa sociedade se desenvolveu a partir de toda uma série de influências e efeitos e temos que estar atentos a este ponto, pois o paganismo, a bruxaria, a magia é um retorno, uma mudança de paradigmas rumo a outro estado de consciência.

Um retorno que não é uma regressão, mas um resgatar de uma visão orgânica, holística e plena da vida, perdida nessa sociedade fútil de consumistas.

A sociedade contemporânea é completamente utilitarista em relação a natureza. Uma floresta é vista como reserva de madeira, a terra é rasgada e violentada para que tirem metais, os animais são apenas fonte de alimentos, os rios fonte de água e por aí vai. Esta tendência de ver a natureza como algo morto, algo mecânico é antiga. A briga, para nós no ocidente começa na Grécia antiga. Na Ilha de Creta a Sociedade era matriarcal. Então vieram os nômades pastores, conquistaram o local e impuseram sua estrutura patriarcal. Vejam um exemplo do que acontece: Em Creta as deusas principais eram Hegéia e Panacéia. Então os povos patriarcais mudaram tudo, impuseram Asclépio como o deus da cura e transformaram Hegéia e Panacéia em deusas menores.

Isto aconteceu em muitas mitologias e as Deusas passaram a ser mulheres e filhas dos Deuses, que passaram a ser dominantes. Isso aconteceu em muitos povos, aqui mesmo no Brasil em certas tribos eram as mulheres que presidiam as festas sagradas, como a festa das flautas. Conta a lenda que veio Jurupari e tomou das mulheres esse sacerdócio e as proibiu de participar da festa das flautas, com a pena de morte para as que ousassem desafiar tal proibição.

Hoje sabemos que as primeiras estátuas de culto a divindade não eram de Deuses mas de Deusas.

E é fácil entender.

Imagine para o homem simples, primevo, que nada sabia de "óvulo", " espermatozóide" ,"genética", ver, de repente, a mulher inchando, inchando e de repente "brotava" um ser humano novo... Magia pura.

Com as sociedades influenciadas pelos povos pastores a posse do rebanho e mais tarde nas sociedades agrícolas, a posse da Terra era o sinal de poder. Tais sociedades desenvolvem a luta como forma de se firmar e assim, como dono do rebanho, dono da terra, guerreiro e senhor dos exércitos o homem vai firmando seu poder. A mulher é relegada cada vez mais a uma posição servil e secundária.

Mas a ligação com a Terra e seus ciclos ainda é profunda.

A magia ainda é presente nessas sociedades.

O problema é que a história que temos foi quase toda adulterada, principalmente, pela Igreja Católica Romana, que era uma das únicas a dominar a escrita na Idade Média. Queimando e matando os herdeiros do saber, adulterando os livros, assim a Igreja Católica Romana deturpou a história profundamente.

Só hoje estamos começando a recuperar um pouco a verdadeira história do passado.

Assim para realmente mergulharmos na história desses povos antigos temos que entrar nas tradições orais dos mesmos.

Os grandes ritos pagãos são antes de mais nada festas da natureza, comemorando a época da colheira, a época das chuvas, a época do plantio...

Em harmonia, Terra e humanos.

E outra coisa muito importante. Existe uma diferença em ritualizar para celebrar e adorar.

Quando um religioso moderno se ajoelha está sendo subserviente, se humilhando frente a um deus que pune, que castiga, temível.

Uma das frases: Ser Temente a deus!

Para um pagão é totalmente diferente.

Ajoelhar-se é aninhar-se, ficar mais perto da terra, como uma criança no colo da mãe. Nunca com medo, nunca servil, mas parte integrante.

Há dois níveis para a religião de todos esses povos, dos Egípcios aos Caldeus, dos Babilônicos aos Sumérios, dos Celtas aos Vikings, dos Maias aos Toltecas.

Um nível é a religião "popular" aquela praticada pelos camponeses em geral. Cheia de simbolismos mas também cheia de superstições própria de um povo simples e de vida sem muitos questionamentos.

Mas em cada uma dessas tradições há também o aspecto oculto, iniciático destas religiões.

Este aspecto é passado de boca para ouvido, transmitido sob a capa da iniciação.

Os festivais sagrados no Egito e na Grécia e em Roma antes da decadência, tinham dois momentos.

Um momento aberto ao público, em ritos e procissões.

As procissões católicas são cópias diretas dessa parte, apenas tiraram o lado esotérico das mesmas, trocando os deuses por santos.

Segundo os estudiosos mais profundos toda a ritualística católica é imitação direta das egípcias, inclusive a morte do deus feito carne e sua ressurreição.

Quando o catolicismo ri dos seguidores dos cultos africanos, por terem eles sincretizado seus deuses com os santos católicos deveriam se lembrar que foram eles, os católicos, que primeiro fizeram isso, pegando os deuses e deusas e transformando em seus santos.

Como devem saber Jesus não nasceu no dia 25 de dezembro, tal data foi adotada pela igreja para fazer frente aos ritos da luz dos pagãos.

A diferença é que nos antigos ritos, presididos por verdadeiros (as) iniciados(as) cada ato, cada cor, cada canto, tinha um rico simbolismo que mexia de fato com as energias grupais dos envolvidos.

Os que participavam dos rituais tinham sua psiquê trabalhada, através de símbolos arquetipais, o rito era uma reatualização do mito.

É importante lembrar que todos os povos, egípcios, babilônicos, sumérios, gregos, romanos, passam por uma fase de ápice, apogeu e outra de decadência. No período da decadência grupos de sacerdotes só interessados no poder tomam o controle dos mistérios menores e os deturpam, tendo os adeptos dos mistérios maiores que fugir e se transformar em sociedades secretas para fugir da corrupção e da perseguição.

Vou dar alguns exemplos dessa deturpação.

Um dos xamãs com os quais estudei, na Guatemala, me contou que os antigos Olmecas e Toltecas quando lançavam uma virgem num poço sagrado, esta NÃO chegava ao fundo do mesmo. Era levada para outro mundo, outra dimensão diríamos hoje, pois era este rito um momento iniciático que após todo um período levava a iniciada a este grau de realização.

Mais tarde os invasores destas terras, outros povos índios que invadiram Tula e destruíram o império Tolteca, tendo visto a forma, mas não sabendo da essência, tentaram repetir os ritos toltecas, em busca do poder dos mesmos, iniciando assim uma era de sacrifícios sangrentos que ia ficar mais forte com os Astecas.

Operações médicas registradas em pinturas, como uma que o sacerdote tira o coração de um doente o mostra ao sol, cura o mesmo e depois o coloca de volta, foram interpretadas pelos invasores como uma "oferenda" ao deus sol e aí começam os sacrifícios reais. Vejam que para nossa cultura ainda é difícil entender o grau de magia que possuíam esses antigos povos.

Pois bem, quando Roma caí surge um novo Império.

Sabendo que não conseguiriam mais dominar pela força das armas os "bárbaros" os líderes do Império Romano mudam de estratégia. Criam uma nova religião, misturando várias crenças, misturando ritos pagãos e crenças outras. Usam a figura de Jesus, o nazareno, para seus próprios fins e adulteram os escritos que existiam sobre ele na época.

Criam assim a Bíblia como ela é conhecida hoje.

Quem teve acesso aos chamados manuscritos do mar morto e aos evangelhos apócrifos sabe como foi deturpado tal livro para servir aos interesses desse grupo dominante. Roma cai, mas surge então a poderosa Igreja Católica Apostólica Romana. E ela persegue todos que ameaçam seu poder, mesmo dentro de sua doutrina. Cátaros, Albiginenses e os lendários templários são perseguidos e mortos.

A magia , o conhecimento ancestral é tido por diabólico.

Basta ler Brumas de Avalon para perceber a influência nefasta da Igreja sobre as antigas tradições.

Mais tarde vem algo pior.

A Inquisição, que tortura com requintes de crueldade e mata os que ousam questionar. Com a Inquisição a magia é ameaçada de ser expulsa do mundo ocidental. Mas secretamente, os bruxos e bruxas continuam transmitindo de boca para ouvido seus segredos. É na cozinha, com seus caldeirões e colheres de pau, que muitas mulheres mantém a magia viva, escondendo ervas mágicas entre seus temperos, transmitindo, com o risco da própria vida, aquilo que aprenderam.

As grandes festas de celebração da vida são proibidas.

A alegria dos camponeses é invejada pelos senhores feudais.

A igreja teme a alegria, quem ri não tem medo do deus punitivo dos cristãos. Vejam : "O nome da rosa" como exemplo. Agora surgem novos cultos: Culpa, medo, submissão. Servem melhor aos senhores feudais. Domesticam o povo para que sejam servos mais dóceis aos seus senhores. O elo parece quase rompido.Mas secretamente, em clareiras enluaradas, em cavernas secretas, correndo risco de vida, alguns homens e mulheres continuam a transmitir a arte, continuam a praticar seus encantos.

Continua.

Sobre a Lua

Como meu papel no meu grupo de xamanismo é ser um contado de histórias e um transmissor da tradição procuro observar muito e estudar muito para ser fiel nesse transmitir do que me ensinam.

E o mais difícil é transmitir algo que vc só observa.

É o caso dos aspectos femininos da tradição.

Homens e mulheres tem aspectos muito próprios nesse aspecto. A mulher tem o útero e os ovários que lhe dão um poder extra e uma sintonia tão profunda com a vida e com a Terra e a natureza. Nós homens precisamos de muito, muito treino para desenvolver esta sensibilidade a natureza e as forças da vida que as mulheres tem quase naturalmente. Com certeza observar o céu, olhar para o céu é algo vital para quem quer de fato fluir com a magia, já que a sintonia com a natureza é a base da magia. Segundo meus estudos é isso que um sacerdote e uma sacerdotisa aprendem durante sua iniciação.

A compreender em si, a sentir em si como a natureza, em suas fases e mudanças, age sobre nosso mais sagrado templo. Por isso nada substitui o tempo no processo iniciático. Os (as) aprendizes da ARTE são levados a perceber como se sentem em cada fase da lua por exemplo, a sentir como é diferente uma lua cheia na primavera de uma lua cheia do Outono, uma lua cheia no Verão, com toda a chuva que nele há, de uma lua Cheia no Inverno, época de seca. Entre os antigos magistas conhecer astrologia e música era vital para se tornar um(a) magista. Creio que o mesmo vale para hoje em dia.Por exemplo, você acorda se sentindo de tal ou qual jeito. Vai na tábua de efemérides, ou mesmo num jornal que tenha onde os planetas estão. A partir destes dados interpreta seus próprios sentimentos e assim vai aprendendo a linguagem pela qual sua mente, seu corpo e seus sentimentos dialogam com o cosmos.

No Xamanismo, para um aprendiz ou uma aprendiz que começa bem nova na arte, com 16, 17 anos, consideramos que só aos 28, 29 anos (retorno de Saturno) o processo atingiu uma primeira etapa, pois aí quem está aprendendo tem bagagem para entender em si o que é influência da lua, influência das estações, ação das forças dos astros, matéria prima com a qual o(a) magista trabalha.

Como estou colocando no meu artigo sobre xamanismo não há diferenças reais entre xamanismo e magia. São ambos caminhos naturais, oriundos de povos que não perderam a visão orgânica com Terra e com a vida.

O xamanismo é a magia de povos índios, assim como a bruxaria vem de celtas, vikings e outros povos. Por isso, na minha opinião, um (a) guia durante o aprendizado é muito importante. É alguém que pode ajudar a desenvolver essa habilidade de observação. O (a) verdadeiro (a) mestre não impõe suas idéias ou estilos ao(a) aprendiz. Ao contrário, ajuda que desabroche o mais profundo e singular que cada um traz em si.

Nuvem que passa

4 comentários:

Lagoa Verdusca disse...

Gostei deste texto. Elucidou-me bastante. Cumprimentos.

F.A. disse...

Oi, Verdusca!

Obrigado pelo coment! Estamos sempre publicando textos do Nuvem que passa aqui no blog, que é, alías, o foco central nosso.

Abraços na paz e na luz,

F.A.

Giovani disse...

o blog está cada dia melhor.. parabéns... textos muito elucidativos ... abracos
Giovani Zambelli

Fernando Augusto disse...

Obrigado, Giovani, estes textos do amigo que já se foi, Nuvem que passa ou Júlio César Guerrero, foram escritos com uma intensidade xamânica que era próprio do Júlio.

Namastê,

F.A.