O guerreiro e a morte

terça-feira, 21 de junho de 2011

Meu benfeitor dizia que, quando um homem toma os caminhos da feitiçaria, torna-se consciente, aos poucos, de que a vida comum ficou para trás para sempre; que na verdade o conhecimento é uma coisa assustadora; que os meios do mundo comum não são mais um escudo para ele; e que tem que adotar um novo modo de vida, para poder sobreviver. A primeira coisa que ele deve fazer nesse ponto é desejar tornar-se um guerreiro, um passo e uma decisão muito importantes. A natureza assustadora do conhecimento não nos deixa outra alternativa se não nos tornarmos um guerreiro.

Quando o conhecimento se torna uma coisa assustadora, o homem também compreende que a morte é o companheiro insubstituível, que se senta ao lado dele na esteira. Cada pouquinho de conhecimento que se torna poder tem a morte como sua força central. A morte dá o último toque, e o que for tocado pela morte torna-se realmente poder.

Um homem que segue os caminhos da feitiçaria se defronta com a aniquilação iminente a cada passo do caminho, e é inevitável que tome fortemente consciência de sua morte. Sem a consciência da morte, ele seria apenas um homem comum, praticando atos comuns. Não teria a necessária potência, a necessária concentração que transforma o tempo comum da pessoa na Terra num poder mágico."

Uma Estranha Realidade , pg. 174 , Carlos Castaneda

13 comentários:

oanonimo disse...

Isso é incrível! Quando eu vivo o meu recapitular, sempre me encontro com minhas antigas crenças.. agora me resta viver como um guerreiro!

no intento.

F.A. disse...

É isso aí, amigo...fico muito feliz que você esteja nesse processo do recapitular.

Pra mim foi e é muito importante a compreensão quase óbvia e simples, mas de efeito tremendo, de que não estamos recapitulando a nossa vida, estamos recapitulando aquilo que o amigo Nuvem que passa chama de "aquilo que fizeram de nós", ou seja, não estamos recapitulando a nós mesmos mas uma série de padrões comportamentais que servem ao propósito de nos manter presos.

Recapitular é como olhar para algo estranho a nós mesmos, pois nós mesmos não somos esses padrões implantados, somos, em essência, um ponto de aglutinação.

No intento,

F.A.

Madalena disse...

F.A.,
lindo texto! Muito poético e inspirador. Isso me faz lembrar o acontecimento marcante de ter tido a Morte como arcano do dia em meu aniversário. Esse processo é sem dúvida dos mais importantes em nossa vida.
É bonito ver como podemos tirar, de dentro de nós, a capacidade mágica da reinvenção. :)
Beijos inaugurais de minha passagem pelos comentários de teu blog (pq na verdade já sou leitora há tempos, ao lado do Via Tarot!) :)
da Ju

Daniele disse...

Que sincronia com o via tarot, o pistas e minha vida. A morte tem sido minha companheira, para abandonar o que não me diz respeito, sem ela não seria possível descobrir o que sou, o que quero para onde vou. O poder esta em deixar morrer, para poder renascer. Corri tanto da morte/transformação, hoje sei que morro todo dia, assim como também renasço. Que sensação assustadora de liberdade!!!!! Sinto que tudo o que mais desejei em minha vida: alegria, liberdade, conexão com minha essência é também tudo o que eu mais temi. Tudo isso é muito poderoso mesmo.

Grata pelo espaço.

F.A. disse...

Então, minhas queridas Ju e Daniele, vamos comemorar colocando um post em homenagem a Claudinha e ao Via Tarot...e é pra já!

No intento,

F.A.

Sartriani disse...

Mais uma vez obrigado.
Intento!

beijamim disse...

Fê, porque a morte é a melhor conselheira? Eu gostaria de entender melhor o que a consciência da morte nos traz. Eu sei que o negativo, o telúrico, é combustível de realizações se for transmutado. A cosnciência da morte pra mim ajuda no sentido de mostrar-me que preciso ser eu mesmo, autêntico, fazer aqui o que vim fazer, porque daqui à pouco posso não estar mais aqui. Fora isso, não compreendo. Dá uma mãozinha?

Fernando Augusto disse...

Vamos lá, Beijamin.

Vou dar um exemplo pessoal. Faz uns anos atrás eu tava no maior "merdelê", todo endividado. Isso vai parecer aqueles testemunhos evangélicos: então Castaneda me salvou....hahahahaha, mas sério, tava devendo 60 mil reais em dívidas, desempregado, trilhando como o Louco do Tarot um caminho à margem, me virando do jeito que podia, sendo assolado pela depressão e preocupação. Sentia-me completamente derrotado. Sem amigos ou parentes com quem pudesse contar, até por que tinha intensa consciência de minha própria responsabilidade no processo. E como tudo estava perdido só me restava uma alternativa, simples, óbvia, clara, transparente como abrir os olhos pela manhã: viver.

Me pergunto por que as pessoas pensam as vezes em suicídio nessas horas, cheguei a pensar, confesso, e descobri que esse pensamento era decorrente da vaidade e de uma construção falsa de mim mesmo, uma auto-imagem ilusória.

Afinal, é a velha estória, se eu estava acabado, no fim do poço, sem nada para me apoiar, então me restava apenas uma alternativa: viver, arriscar, pois o fracasso rotundo é uma forma de morrer para muitos. E aquele fracasso, monumental para mim, expressão viva de minha incompetência existencial me libertou.

Me lembrava da frase lida tantas vezes, na adolescência, no muro que ficava na entrada do túnel que ia para São Conrado - RJ:

Por que temer se a morte é o fim de todos?

A morte tem muitas faces, tantas quantas são as pessoas. Basta invocá-la, intentá-la e ela surge como conselheira.

A conselheira usual do homem moderno é outra. É a vaidade, em suas infinitas variações, por que a vaidade tem tantas faces quanto as penas da cauda do pavão.

Então a consciência da morte nunca é um procedimento intelectual, mas um processo existencial daqueles que viram seu ego estilhaçado pelas artimanhas do espírito.

Por mais que leiamos nosso querido "Padim" Castaneda, ao qual quase tenho veneração (risos) só vamos adquirir a consciência efetiva da morte através de circunstâncias cruciais da vida, e cada um de nós tem esse momento de encontro se intentar tê-lo, por isso o aspirante ao caminho proclama seu intento ao infinito:

Quero a responsabilidade do homem que vai morrer!

As vezes a morte, como aquela bela mulher que não prestamos atenção, já nos sorriu tantas vezes e não nos demos conta disto...

Acho também o óbvio, que a nossa cultura "satanizou" a morte, quando na verdade ela implica numa tremenda liberação independente de se acreditar num pós vida ou não, pois nela está a cessação de todo o sofrimento. Isso inviabiliza o uso dela como conselheira, pois é como o "Padim" Castaneda diz:

Quando você achar que está tudo perdido, olhe para a sua morte, que está a sua esquerda a um braço de distância e pergunte:

- Está?

Ela vai dizer:

- Eu ainda não o toquei.

Para entrar nesse caminho a pessoa só pode entrar obrigada, tangida, que nem boi, pela própria morte. É por isso que se diz que neste caminho não há voluntários.

Mas vou postar outros textos aqui para refletirmos mais sobre esta questão.

Abraços,

F.A.

Sartriani disse...

Hei F.A.
Sugiro colocar o seu comentário como Post, é inspirador.
Inté

beijamim disse...

Concordo, eu mesmo não estaria procurando saídas há uns 25 anos se a "morte", entendida como a falta total de sentido da atual sociedade, não tivesse me tocado e quase enlouquecido quando era ainda muito jovem pra compreender.
Acho que a tive como uma companheira constante, passei por muitas mortes e confundi com alguma espécie de perseguição. Agora compreendo o quanto ando junto dela, o tempo todo. Acredito que já dá para sermos mais amigos,uma vez que seus intentos me parecem mais claros. Abraços. Obrigado. Legal ver teu rosto.

Fernando Augusto disse...

Oi, Sartriani!

Grato pela sugestão ;-) Vou ver se trabalho um pouco mais o texto e utilizo ele como um exercício particular de recapitulação dentro do tema Morte.

Aliás não será esta uma sugestão interessante, um tema galvanizador para recapitular: morte e situações de vida onde nos deparamos com ela em suas diferentes faces?

Abraços,

F.A.

Fernando Augusto disse...

Oi, Beijamim!

Essa idéia no comentário acima de recapitular a vida em face dos momentos em que nos deparamos com a morte pode ser interessante para conseguirmos "pegar" corporalmente como a morte funciona como uma conselheira, pois talvez nesses instantes de encontro com Ela tenhamos conseguido obter uma maior clareza daquilo que importa em nosso caminho ;-)

Abraços,

F.A.

beijamim disse...

Valeu, meu velho. Eu compreendi isso mesmo. A gente tem mais é de ser grato, porque tem forças empurrando a gente pra frente. Fique com muitas delas, mas sem dor!