Umbanda e Xamanismo

quinta-feira, 22 de julho de 2010

“Enquanto a Umbanda é a farmácia o Xamanismo é a medicina”.

Essa frase não me desceu bem quando a ouvi pela primeira vez. Pareceu-me mais uma forma de preconceito com relação a Umbanda, pois vamos a farmácia quando precisamos comprar um remédio receitado pelo médico. A Umbanda não é um balcão comercial onde se pode comprar remédios, mesmo que alguns a queiram torná-la nisto, pois ela própria é capaz de receitar os remédios apropriados para certos males da alma e do corpo humano sem cobrar mais que a consciência necessária para tal, afinal, boa parte das pesquisas de laboratório de novos fármacos surgem da sabedoria ancestral. É verdade que quando a coisa aperta o ser humano procura recorrer àquilo que está mais a mão, da mesma maneira que quando um dor física surge recorre-se a emergência hospitalar. Mas a Umbanda não é uma medicina espiritual de emergência, apesar de no imediatismo para resolvermos os nossos problemas, supostamente espirituais, que nós mesmos geramos, na maioria das vezes, recorrermos a um templo umbandista. Sendo assim ao escrever sobre Umbanda e Xamanismo quero dizer que Umbanda é Xamanismo. E se Xamanismo é Medicina, Umbanda também o é. A meu ver Umbanda é um dos Xamanismos que existem.

Mas há muita incompreensão nessa área.

Xamanismo é um conceito muito vasto e plural, pode-se falar em Xamanismos, mas todos os estudiosos reconhecem que essa pluralidade possui elementos comuns, tornando-se uma unidade na diversidade. Assim não há Xamanismo sem o culto à Terra e suas forças espirituais e sagradas. Um xamã é alguém que é capaz de dizer, sentir e perceber a Terra como sua e a si mesmo como pertencente à Terra, é alguém plenamente consciente de sua ligação com a Terra e suas forças espirituais. Ele diz: - Tudo isto é meu, toda a Terra é minha. E a própria Terra lhe responde: - E tu és meu. Isso confere uma consciência da responsabilidade para com a Terra e suas forças espirituais que é a marca do xamã.

E sendo o Xamanismo um conhecimento vasto e plural, a Umbanda também o é, assim existem diferentes Umbandas. Isso é sabido e notório. Mas entre todas as diferentes Umbandas existem elementos comuns. São eles, em nosso modo de ver, os seguintes:

1 – o culto as forças espirituais da Natureza: Os Orixás

2 – o cultivo do poder espiritual do ser humano

As diferentes formas de culto aos Orixás são:

1 - através de trabalhos mágicos que usam o magnetismo humano, animal, vegetal, mineral e do próprio ambiente natural, dentro de uma geometria, em conformidade com os pontos cardeais da Terra e outros pontos de poder da Terra.

2 – através das chamadas de poder ou pontos cantados onde são usados instrumentos musicais como o tambor ou atabaque.

As diferentes formas de cultivo do poder espiritual do ser humano são:

1 – a mediunidade, da qual a incorporação é apenas um tipo, mas é o tipo preponderante na Umbanda praticada hoje em dia e através da qual são realizadas as consultas, isto a nosso ver contribui para aquele quadro de atendimento que molda a Umbanda dentro de uma visão de farmácia, pois na maioria das vezes as pessoas vão em busca de resolver problemas imediatos e materiais de ordem emocional ou profissional, ignorando a busca pela sabedoria dos Orixás.

2 – a sintonização: a capacidade de concentrar-se e vibrar dentro de uma freqüência de energia para se alcançar certos estados alterados de consciência que nos conduzam a um estado de iluminação plena, nossa perfeita integração com nós mesmos e com a Natureza.

Não há na prática diferença entre a mediunidade e a sintonização, mas estamos usando os dois conceitos para criar uma diferença intencional que é a seguinte:

Em nosso modo de entender, na Umbanda, o progresso espiritual do ser humano não consiste em receber entidades porque nesse caso são elas que estão vindo até nós. O verdadeiro progresso espiritual consiste numa ampliação da consciência onde somos capazes de ir até as realidades onde as diversas entidades vivem e estar mais conscientes de nossas próprias realidades interiores (padrões de comportamento). Assim, a mediunidade que é entendida, normalmente, como processo de incorporação é diferente da sintonização que entendemos como um processo de ampliação da consciência, que envolve a conexão com o nosso deus interior.

Para que a sintonização ocorra o processo de desenvolvimento espiritual tem que estar assentado em nossa capacidade de administrar a nossa própria energia. Isso se dá em três passos estratégicos simples:

1 – acumular

2 – recanalizar

3 – ampliar

Assim, a Umbanda pode ser definida como uma medicina xamânica que usa a força dos Orixás para o processo de ampliação da consciência humana e não um atendimento de balcão espiritual para tão somente resolver questões imediatas e materiais. Está na hora do ser humano acordar de vez para urgência de assumir a responsabilidade sobre sua própria vida e não querer que outros a resolvam para si. Antes ele deve buscar estar consciente do que nele promove os problemas nos quais ele próprio se envolve.

Os Orixás são os Deuses da Natureza, forças impessoais e conscientes (que foram antropomorfizadas por determinado nível de compreensão humana), que no Egito Antigo eram chamados de Néteres e que possuem diferentes nomes conforme a tradição mística de cada povo.


É bom definirmos o que entendemos por Orixá. Orixá é uma força cósmica que atua através de uma determinada potência da Natureza. Assim, por exemplo, Iemanjá é uma força cósmica que atua através do Mar.

Há sete Orixás essenciais dos quais os outros são desdobramentos. Como as sete notas musicais são capazes de comporem infinitas melodias, os 7 Orixás são capazes de criar infinitas formas naturais, gerando um tipo de informação ou conhecimento que pode ser acessado através da própria Natureza e que está codificado no próprio ser humano.

Cada elemento da Natureza é influenciado por um Orixá. Assim cada Orixá possui uma ou mais plantas que lhe são pertencentes porque energeticamente compatíveis. O mesmo vale para as pedras, os metais e os animais, incluindo o ser humano, que possui como atributo peculiar a capacidade de sintonizar em diferentes freqüências vibratórias mesmo tendo uma que lhe é própria ou que prepondera em seu campo de energia.

O que habilita o ser humano a vibrar em diferentes freqüências vibratórias é um elemento de seu corpo de energia que xamãs, tal como Carlos Castaneda, chamam de o ponto de aglutinação. A grosso modo o ponto de aglutinação é uma espécie de “dial” que nos permite sintonizar em diferentes faixas vibratórias porque atravessado por infinitos campos de energia vibratória do nosso multiverso.

Essa capacidade de sintonização do ser humano lhe permite um nível de realização pessoal que é profundamente mágico, pois o habilita a transformar-se num ser capaz de mudar sua estrutura energética, fazendo-o assim um xamã, após árduo treino e disciplina de uma vida inteira.

Essa capacidade mágica do ser humano de vibrar em diferentes freqüências de energia o vincula a uma força cósmica de uma maneira muito peculiar, a um Orixá de forma muito especial, que é um Orixá síntese, por que congrega em si os outros Orixás: Oxalá ou Orixalá, que significa o Orixá dos Orixás. Assim o ser humano é capaz de seguir a trilha do orixalato, pois é capaz de transitar conscientemente entre diferentes faixas vibratórias, mesmo tendo em si uma faixa onde vibra mais facilmente e que prepondera em seu campo de energia.

Dentro da Umbanda existem antigos xamãs de origem índia e africana que compõem a sua egrégora e guardam consigo os segredos ancestrais. Eis uma outra razão para se compreender que Umbanda é Xamanismo, pois sua egrégora espiritual está formada por xamãs de diferentes procedências unificados através Dela, Umbanda.

Um desses segredos ancestrais é o culto da Jurema, Yurema, árvore sagrada em diferentes culturas, que se faz referência em pontos cantados de Umbanda e que está sendo resgatado.

A própria Bíblia lhe faz referência. Na própria Bíblia a árvore do conhecimento ocupa um papel central porque proibida ao homem. Porque haveria de ser o acesso ao conhecimento algo proibido? A quem interessa manter o homem na ignorância? Há um conhecimento que foi perseguido, proibido, reprimido e que precisa ser revelado para que o homem possa reconquistar seu lugar no Jardim do Éden.

Assim, uma das funções da Umbanda é o resgate desses antigos conhecimentos ancestrais que foram destruídos devido ao processo de colonização que o Brasil sofreu por parte de Portugal, patrocinado ideologicamente pela Igreja Católica.

Esse processo de colonização deixou marcas severas na alma do povo brasileiro e uma dessas cicatrizes ainda não devidamente fechada é o preconceito com relação à própria Umbanda. E nem nela, na própria Umbanda se vista como farmácia, poderíamos encontrar um remédio que possa sanar o preconceito, já que a ignorância é um vírus que assume diferentes formas, mutável, e de antídoto ainda a ser encontrado. Por outro lado, se estamos executando o resgate desse conhecimento ancestral é porque fomos criando a necessária resistência contra a ignorância e a dominação ideológica em suas diferentes manifestações viróticas.

Axé!

F. A.

3 comentários:

oanonimo disse...

Ótima música...
http://www.youtube.com/watch?v=pBswXtzEXfs

F.A. disse...

Excelente!

E além das cantoras serem ótimas o pessoal no atabaque arrebenta! Vou incluir no post. Grato!

No intento,

F.A.

benjamin disse...

Muito esclarecedor e em muitos sentidos. Pude entender melhor meu próprio trabalho dentro do Daime através deste texto, não compreendia que era o que chamam de sintonização.
Fico um pouco preocupado: esses caminhos são tão ricos e verdadeiros, ao mesmo tempo tem tanta coisa indo contra...tanta ignorância consolidada, outras se consolidando.
Talvez a vantagem de quem busca seja o não ter muita escolha: ou busca ou definha e morre junto às ignorâncias que se consolidam.
Vejo tantas luzes como esta que brilha no texto, e ao mesmo tempo tanto empenho em eclipsar essas luzes.
Aqui no Acre, cuja população é de 90% de evangélicos, aumbanda ou Daime são sinônimos de magia negra. Se fosse no século retrasado, entenderia.