Intentar e espreitar

sexta-feira, 23 de abril de 2010

- A intensidade, sendo um aspecto do intento, está co­nectada naturalmente ao brilho dos olhos dos feiticeiros. Para relembrar essas ilhas isoladas de percepção, os feiticeiros ne­cessitam apenas intentar o brilho particular de seus olhos associados com a localização à qual desejem regressar. Mas já ex­pliquei isso.


Devo ter parecido perplexo, Don Juan olhou-me com uma expressão séria. Abri minha boca duas ou três vezes para fazer perguntas, mas não consegui formular meus pensamentos.


— Porque a sua taxa de intensidade é maior do que o nor­mal — disse Don Juan —, em poucas horas um feiticeiro pode viver o equivalente a uma vida normal inteira. Seu ponto de aglutinação, mudando para uma posição não familiar, absorve mais energia do que o normal. Esse fluxo extra de energia é cha­mado intensidade.


Compreendi aquilo com perfeita clareza, e minha racio­nalidade titubeou sob o impacto da tremenda implicação. Don Juan fixou-me com seu olhar e então preveniu-me para me cui­dar de uma reação que afligia tipicamente os feiticeiros: um de­sejo frustrante de explicar a experiência da feitiçaria em termos coerentes, bem raciocinados.


— A experiência dos feiticeiros é tão bizarra — continuou Don Juan — que os feiticeiros a consideram um exercício inte­lectual, e usam-na para espreitar-se. Seu trunfo como esprei­tadores, entretanto, é que permanecem agudamente conscientes de que são os perceptores de que a percepção tem mais possi­bilidades do que a mente pode conceber.


Como único comentário, exprimi minha apreensão sobre as possibilidades bizarras da consciência humana.


— Para proteger-se daquela imensidade — disse Don Juan — os feiticeiros aprendem a manter uma mistura perfeita de implacabilidade, astúcia, paciência e doçura. Essas quatro bases estão inexplicavelmente interligadas. Os feiticeiros cultivam-nas intentando-as. Essas bases são, naturalmente, posições do ponto de aglutinação.


Continuou dizendo que qualquer ato executado por qual­quer feiticeiro era por definição governado por esses quatro princípios. Assim falando propriamente, cada ação de cada fei­ticeiro é deliberada em pensamento e realização, e tem a mis­tura específica dos quatro fundamentos da espreita.


— Os feiticeiros usam as quatro disposições da espreita como guias — continuou. — Trata-se de quatro estruturas men­tais diferentes, quatro mesclas distintas de intensidade que os feiticeiros podem usar para induzir seus pontos de aglutinação a se moverem a posições específicas.


Subitamente, Don Juan pareceu aborrecido. Perguntei-lhe se era a minha insistência em especular o que o preocupava.


— Estou apenas considerando como nossa racionalidade nos coloca entre uma pedra e um lugar rijo — retrucou. — Nossa tendência é ponderar, questionar, esclarecer. E não há como fazer isso na disciplina da feitiçaria. Ela é o ato de atin­gir o lugar do conhecimento silencioso, e o conhecimento si­lencioso não pode ser raciocinado. Pode ser apenas experi­mentado.


Ele sorriu, seus olhos brilhando como dois pontos de luz. Disse que os feiticeiros, num esforço para se protegerem do avassalador efeito do conhecimento silencioso, desenvolveram a arte de espreitar. A espreita move o ponto de aglutinação di­minuta mas firmemente, propiciando, desse modo, tempo aos feiticeiros e, portanto, a possibilidade de se escorarem.


— Na arte de espreitar — continuou Don Juan — há uma técnica que os feiticeiros usam muito: loucura controlada. Se­gundo eles, a loucura controlada é a única maneira que têm de lidar consigo mesmos, em seu estado de consciência e percep­ção expandidas, e com todos e tudo no mundo dos afazeres diários.


Don Juan explicou a loucura controlada como a arte do engano controlado ou a arte de fingir estar profundamente imerso na ação — fingindo tão bem que ninguém pudesse distingui-lo da coisa real. A loucura controlada não é um en­gano direto, mas um modo sofisticado, artístico, de estar se­parado de tudo permanecendo ao mesmo tempo uma parte de tudo.


— A loucura controlada é uma arte — continuou Don Juan. — Uma arte que causa muitas preocupações, e muito di­fícil para se aprender. Muitos feiticeiros não suportam isso, não porque haja alguma coisa inerentemente errada com a arte, mas porque é preciso muita energia para exercê-la.


O Poder do Silêncio, de Carlos Castaneda

3 comentários:

Paco Bailac disse...

Te dejo un saludo, amigo..

pacobailacoach.blogspot.com

F.A. disse...

Oi,Paco!

Grato pela visita, muito bacana podermos estar conectados assim, viajando até a Espanha pela rede para encontrar pessoas que partilham de buscas comuns.

No intento,

F.A.

Mercius SBO disse...

Ola irmãos, deem uma olhada nesse livro, A profecia de Thiaoouba, pode ser baixado livremente no site http://www.thiaoouba.info/

Link directo para download: http://www.thiaoouba.info/profecia_ebook.pdf

!!!É fantastico!!!