A animadora de esqueletos

domingo, 31 de maio de 2009

Desde criança, tal qual uma Ofélia, sempre percorri meus Labirintos do Fauno internos. Morrendo de medo, mas seguindo passo-a-passo em direção ao centro, ao fundo, ao cerne, à essência. Esse processo se apresentava explícito através de sonhos e pesadelos que sempre povoaram as noites da infância, da adolescência e da vida adulta. Nunca foi excesso de valentia, como alguns imaginavam, mas sim a única alternativa para quem se sentia tão inadequada em seu meio e tão insuficiente para o modelo que lhe era apresentado. Somente as constantes descidas ao interior do Labirinto é que foram capazes de permitir uma sobrevida na superfície, sem que ninguém suspeitasse de qualquer coisa.


Acostumada com os freqüentes encontros com os esqueletos de dentro do armário, os monstros debaixo da cama, os leões presos nas portas e pequenos ratos tocadores de piano nas noites silenciosas, nada mais que habitasse o mundo das emoções, mesmo aquelas que se encontravam dentro da gaveta do inconsciente, parecia me assustar. Pelo menos não o suficiente para me fazer calar. Durante alguns anos, cheguei a confundir o público e o privado, acreditando que todos compartilhavam de maneira ampla as suas emoções e mesmo suas fragilidades. Então, não podia perceber a cara de espanto daqueles que me ouviam falar tais coisas, de maneira tão natural.


Admito que em alguns momentos forçava a dose de sinceridade para ver se conseguia arrancar de meus ouvintes palavras de apoio ou ao menos um balançar de cabeça solidário. Ao contrário, o que sempre acabava acontecendo era que o ar tornava-se tão pesado quanto aquele que antecede um temporal, e era possível ouvir tanto murmúrios incompreensivelmente dissimulados quanto expressões de constrangimento explícito. Mas o mais freqüente, ainda mais entre família e amigos próximos, era a tentativa desesperada de interromper ou pelo menos abafar a minha fala. Mil explanações com overdoses de racionalidade eram jogadas sobre a mesa, cabeças balançantes em negativo com imaginários balões de diálogo declaravam seu dissabor diante de colocações tão... tão... tão... (tão o que?) Tão emocionais – que disparate! Que heresia! Quanto desequilíbrio! – da minha parte.


Meu pecado nunca foi sentir. Porque isso todos fazem... Meu pecado foi querer mostrar aquilo que afligia minha alma, nem que fosse para saber se mais alguém sofria do mesmo mal. Meu pecado foi, sem dúvida, querer mexer em coisas imexíveis, que permaneciam escondidas dentro do armário de cada um. Então, quanta falta de sutileza da minha parte!, enquanto todos se esforçavam por trancar suas emoções, fragilidades, carências e seus pontos de interrogação – seus enormes pontos de interrogação! – eu simplesmente destrancava a minha porta e fazia praticamente um bazar de mudança de estação, trazendo as tranqueiras todas para o lado de fora, expostas à luz do dia. Que criatura incômoda eu fui! Sou... Serei...?


Com tudo isso, o óbvio se fez prática: eu passei a andar com um enorme alvo desenhado no peito. E para lidar com isso, precisei gastar montes de energia e agilizar pensamentos, afiar argumentações e treinar o palavratório. Coisa bem fácil de se fazer, levando-se em conta de onde eu vim... Virei um tipo de menina prodígio, sempre muito esperta e bem adestrada na arte de conversar com os outros. Sabia dizer com licença e obrigada. Sabia ser agradável e simpática. E ter conversas de adulto em um tempo em que nem as crianças conversam entre si.


No entanto, vira e mexe, acontecia. Eu era desagradável. Eu colocava meus esqueletos para fora do armário e forçava as outras pessoas a lidarem com os seus. Em um mundo em que o bonito é ser duro como rocha e mentalmente frio, eu vomitava minhas dores, minhas dúvidas, minhas inseguranças, eu chorava, eu sofria a olhos vistos! Eu era definitivamente desagradável. Então, depois que eu era contida em meu desespero e me era mostrado, de variadas formas, o tamanho do meu desequilíbrio e o quanto aquilo havia ferido a todos os presentes, eu me jogava na cama e chorava até que o pesadelo acordado se desfizesse e eu dormisse e sonhasse com o meu mundo de faunos e fadas.


Os anos passaram e fui aprendendo a conter meus impulsos de exposição pública das emoções. Aprendi que mocinhas bem comportadas não fazem isso. Mocinhas bem comportadas são intelectuais, equilibradas, ponderadas, possuem uma lucidez a toda prova, mesmo quando suas entranhas se esfacelam de dor. Mocinhas bem comportadas se entregam ao sacro-ofício, permanentemente, em benefício da boa educação e dos bons modos. Mocinhas bem comportadas não repetem de ano na escola, se formam, trabalham, são exemplarmente responsáveis, honestas até o limite territorial da bobice. Mocinhas bem comportadas parecem ser inimigas da sociedade, pois enquanto os amigos recebem TUDO, elas ficam somente com a Lei. Mocinhas bem comportadas fazem tudo muito certinho, mas nunca recebem muitos elogios, pois, no fundo, estão fazendo simplesmente o que todos já esperam delas.


Mas assim como a velha história do escorpião e do sapo, a animadora de esqueletos também não pode fugir a sua natureza. E é por isso que, vez por outra, em meio aos dias exemplares de mocinha bem comportada, ela volta a ser desagradável, incômoda... Volta a remexer seus esqueletos empoeirados dentro do armário e quando olha em volta percebe que todos vão saindo de fininho, um a um. E depois de algum tempo restam apenas ela, seus esqueletos e um novo candidato a emprego na funerária. Ela pode então chorar, sofrer, sorrir, gargalhar, voltar a ser criança ou ser velhinha. Ela pode ser o que ela bem quiser! Porque os esqueletos e o rapaz da funerária não estão ali para julgá-la. Então, ela pode dançar pela madrugada, até que o sono seja mais forte e a leve para o lugar de onde nunca deveria ter saído. No dia seguinte tudo volta ao normal e, tirando uma ardência nos olhos devido ao choro da noite anterior, ela realmente parece ser somente mais uma mocinha bem comportada, que sabe muito bem quais são as suas obrigações e que tem um longo dia pela frente.

Cláudia Mello

Um comentário:

eu sou anfibia disse...

é claudia, acho que vc encontrou a medida para estar na superfície sem ignorar as catacumbas por onde andamos, algumas de nós, ou todas?

já eu ainda estou sendo desagradável, dessa forma quixotesca que vc descreveu. acho que temos períodos de disfarces melhores e piores. mas nosso ofício de osseiras, não tem como negar.

gostaria que desse uma olhada nos meus últimos posts e falasse um pouco de destino, de superação de leis individuais, de hubris, de humildade pra perceber o que podemos ou não ultrapassar.

grandes beijos!