Da Liberdade

sábado, 28 de novembro de 2009

Saudações!

A compreensão que temos da palavra liberdade é correta? O que é liberdade? É fazer tudo o que se quer? Se for, então temos que nos perguntar: possuo realmente a capacidade de querer? Tenho uma vontade real? O que é vontade?

Vontade é diferente de desejo. Desejo liga-se ao prazer, faço algo ou não faço pelo prazer que esse algo me oferece. Será que quando sou capaz de fazer algo independente do prazer que possa obter toco a esfera da vontade? Será que quando refino o desejo por mais e mais adentro a esfera da vontade?

Vontade é diferente do capricho egóico que diz: eu, eu e eu! Isso eu não quero, isso eu não faço, etc. Vontade nada tem a ver com a reatividade da criança mimada.

Não raras vezes iniciantes no caminho acreditam já terem um certo grau de liberdade e de vontade. Pura ilusão. São escravos de seus hábitos e rotinas. Quantas vezes nos propomos algo e não cumprimos?

Existe uma forte ligação entre liberdade e vontade. Quem não tem vontade não pode ser livre porque estará sujeito a vontade de outro (s). Sem vontade não há rumo, meta, propósito e assim sendo como poderíamos nos tornar livres?

Vontade, intento, poder pessoal, a sombra do feiticeiro. Temas importantes para refletirmos, na verdade, um único tema.

Vontade é um tema central dentro do xamanismo guerreiro. É também um tema central em Thelema. A própria palavra Thelema significa Vontade.

Segue um texto escrito por Aleister Crowley à respeito, afinal, o romance com o conhecimento proposto por Don Juan é antes de tudo um ato de vontade, já que muitos poderão querer não ler (ou ler) em função de suas próprias idiossincrasias.

Da Liberdade

É sobre Liberdade que eu primeiro quereria vos falar; pois a não ser que sejais livre para agir, não podeis agir. No entanto, todas as quatro dádivas da Lei devem ser, algum grau, exercidas, já que as quatro são na realidade uma, mas para o Aspirante que vem ao Mestre, a primeira necessidade é Liberdade.

O maior de todos os grilhões é a ignorância. Como há um homem livre para agir, se ele não conhece seu próprio propósito? Vós deveis portanto, antes de mais nada descobrir que estrela, de todas as estrelas, vós sois: vossa relação com as outras estrelas em vossa volta, vossa relação, e identidade com o Todo.

Em nossos Livros Santos são descritos diversos métodos de realizarmos esta descoberta; e cada um deve realizá-la por si mesmo, alcançando uma absoluta certeza através de experimentação direta; não apenas raciocinando e calculando o que é provável. Então, a cada um de vós virá o conhecimento de sua vontade finita, através da qual um é poeta, outro profeta, outro ferreiro, outro escultor. Mas também, a cada um virá o conhecimento de sua Vontade infinita: se Verdadeiro Ente. Desta Vontade deixai-me, pois, falar claramente a todos, já que ela é de todos.

Compreendei antes de mais nada, que existe em vós um certo descontentamento. Analisai-a bem a natureza: no final chegareis, em qualquer caso, a uma mesma conclusão. Esse descontentamento surge na crença em duas coisas diversas, o Ente e o Não-Ente, em conflito entre elas. Também isto é restrição da Vontade. Aquele que está doente está em conflito com seu próprio corpo; aquele que é pobre está em conflito com a sociedade; e assim por diante. No fim, portanto, o problema consiste em como atingir esta percepção de unidade.

Ora suponhamos que vieste à presença do Mestre, e que Ele vos declarou o Caminho a esta consecução. Que vos impede? Ai! existe ainda muita liberdade ao longe.

Compreendei isto claramente: que se estais certos de vossa Vontade, e certos de vossos meios, então quaisquer pensamentos ou atos que contrariam esses meios contrariam também aquela Vontade.

Se, portanto o Mestre vos urgisse a que aceitásseis um Voto de Santa Obediência, concordar em fazer isto não seria uma entrega da Vontade, mas um cumprimento desta.

Pois vede, o que vos impede? Ou vem de fora ou vem de dentro, ou de ambas as coisas ao mesmo tempo. Pode ser fácil para o buscador de mente forte calcar aos pés a opinião pública, ou arrancar de seu forte coração o que ele ama, em um senso; mas permanecerão sempre nele muitas afeições discordantes, como também os laços do hábito; e também estes deve ele conquistar.

Em nosso mais Santo Livro está escrito: "tu não tens direito senão fazer a tua Vontade. Faze aquilo e nenhum outro dirá não." Escreverei tal também em vosso coração e em vosso cérebro: pois esta é a chave do assunto inteiro.

Aqui a Natureza mesma seja vosso orientador: pois em cada fenômeno de força e movimento ela proclama aos gritos esta verdade. Mesmo num assunto tão pequenino como o ato de pregar um prego numa tábua, eis este mesmo sermão. Vosso prego deve ser duro, liso, aguçado, ou não se moverá rapidamente na direção desejada. Imaginai então um prego de madeira podre, e rombudo, em verdade, isso nem mais é um prego. No entanto, praticamente a humanidade em peso é assim. Eles desejam uma dúzia de diversas carreiras; e a força que poderia ter sido suficiente para atingir eminência em uma, é desperdiçada nas outras: todas ficam anuladas.

A mais possantes forças do Universo para me manter neste intuito; se bem que agora o hábito mesmo me constrange à direção correta, no entanto eu não cumpri minha Vontade; diariamente eu me desvio da tarefa. Eu oscilo. Eu fraquejo. Eu me atraso.

Seja isto então de grande conforto para todos vós; que se eu sou tão imperfeito, e por simples vergonha eu não acentuei minha imperfeição, se eu, o Profeta, ainda mesmo se apenas me igualasséis, como seria grande a vossa consecução!

Alegrai-vos, portanto, já que tanto o meu fracasso quanto o meu sucesso são argumentos encorajadores para vós.

Examinai-vos bem, eu vos peço: analisai vossos pensamentos mais íntimos. E primeiramente abandonareis todos esses grosseiros e óbvios impedimentos à vossa Vontade: preguiça, amizades fúteis, condições ou diversões dispersivas; eu não enumerarei os conspiradores contra o bem estar de vosso Estado.

A seguir, determinai o mínimo de tempo diário que é realmente indispensável à vossa vida natural. O resto vós dedicareis aos Verdadeiros Meios da vossa Consecução. E mesmo aquelas necessárias horas de labuta mundana vós consagrareis à Grande Obra, dizendo conscientemente, sempre, enquanto ocupado com essas tarefas, que vós as executais apenas para preservar vosso corpo e mente em bom estado de saúde a fim de poderdes vos aplicar seriamente àquele sublime e único Objetivo.

Pouco tempo passará antes que comeceis a compreender que tal modo de viver é a verdadeira Liberdade. Vós percebereis as distrações de vossa Vontade como o são. Elas não mais vos parecerão agradáveis e atraentes; mas serão como laços, como vergonha. E quando tiverdes atingido este ponto, sabei que atravessastes o Portal do Meio. Vós unificates a vossa Vontade.

Da mesma forma, se um homem estivesse sentado em um teatro e a peça o entediasse, ele aceitaria de bom grado qualquer distração e se divertiria com qualquer incidente estranho às peripécias no palco; mas se a peça realmente lhe atraisse a atenção, qualquer incidente o aborreceria. Sua atitude para com estes seria uma indicação dele para com a peça mesma.

A princípio o hábito da atenção é difícil de adquirir. Perseverai, e experimentareis espasmos periodicos de revulsão. Vossa Razão mesma vos atacará, dizendo: como pode uma escravidão tão estrita ser o Caminho à Liberdade?

Perseverai. Vós nunca ainda conhecestes a liberdade. Quando as tentações tiverem sido sobrepujadas, quando a voz da Razão tiver sido silenciada, então vossa alma pulará avante, desimpedida, em seu curso escolhido; e pela primeira vez vós experimentareis o extremo deleite
de serdes Mestre de vós Mesmos, portanto do Universo.

Quando isto tiver sido plenamente conseguido, quando estiverdes sentados seguramente na sela, então podereis desfrutar também todas aquelas distrações que antes vos agradaram e depois vos irritaram. Agora elas não mais farão nem uma coisa nem outra; pois elas serão vossas servas e brinquedos.

Até que tenhais atingido este ponto, não sereis completamente livres. Vós deveis matar o desejo e matar o medo. O final disto é o poder de viver de acordo com vossa própria natureza, sem perigo de que uma parte possa se desenvolver em detrimento das outras; sem qualquer preocupação de que tal perigo possa se apresentar.

O beberrão bebe e se aturde; o covarde não bebe e treme de frio; o homem sábio, livre e corajoso, bebe e glorifica Deus Altíssimo.

Esta então é a Lei de Liberdade: vós possuis toda Liberdade como vosso direito intrínseco; mas tendes que fortificar o Direito com Poder: tendes que conquistar a Liberdade para vós mesmos em muitas batalhas. Ai dos filhos que dormem sobre a Liberdade conquistada por seus pais!

"Não existe lei além de faze o que tu queres": mas são apenas os maiores da raça que tem a força e a coragem necessárias para obedecer esta Lei.

Oh homem! olha-te a ti mesmo! Com que cuidado foste feito! Quantas idades levou tua construção! A história do planeta está entretecida com a substância do teu cérebro! Foi tudo isso sem motivo? Não há propósito em ti? Foste tu feito como és para que pudesses comer, e procriar, e morrer? Tal não penses! Tu incorporas tantos elementos, tu és o fruto de tantos aeons de esforço, tu fostes feito tal qual és, e não outro, para algum colossal Fito.

Cria então ânimo, e busca esse Fito, e faze-o. Nada pode te satisfazer senão o cumprimento de tua transcendental Vontade, que está oculta dentro de ti. Para isto, levanta-te, arma-te!

Conquista tua Liberdade para ti mesmo! Golpeia fundo!

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