Guerra dos sexos: a mitologia da doença

terça-feira, 12 de maio de 2009

Em tempos idos, na transição dos mil e novecentos para os dois mil, surgiram várias listas de discussão que falavam sobre bruxaria, xamanismo e magia em geral. Em algumas delas surgiram os maiores (e melhores) debates sobre o sagrado feminino, o sagrado masculino e a interação entre ambos. Tive o prazer de participar desse “tempo áureo” das listas de discussão da Internet.

Foi nesta época que percebi o quanto o assunto me interessava e, olhando para o passado, pude perceber que desde sempre fui uma atenta observadora do comportamento humano e em especial das questões que envolviam homens e mulheres e seus afetos. Também foi nessa época que inventei algumas expressões que entraram para a história dos cyber-debates, como “dar um pitaco” (termo muito utilizado pelo meu avô, que guardei na memória) ou “afrodites sádicas”, terminologia que eu usava para definir as mulheres que gostavam de manipular os homens, seduzindo-os para depois ficar espalhando pelos quatro cantos o quanto eles são tolos, fracos, facilmente enganados...

Pensando nesses “velhos tempos”, tive vontade de ampliar e explicar em detalhes essa mitologia da doença que ataca os relacionamentos entre homens e mulheres. O mais interessante é que olhamos para dentro e em volta e vemos isso por toda parte! É interessante ver como as pessoas caem em suas próprias doenças-armadilhas o tempo todo e, caso não tenham chance de observar suas próprias atitudes com um certo distanciamento, fazem isso de forma inconsciente pelo resto da vida. Depois não entendem o que dá errado nos seus relacionamentos...

E quem seria a Afrodite Sádica? Com certeza você já a viu em algum lugar: olhar dissimulado de Capitu, bonita ou ao menos do tipo que “sabe valorizar o que tem”, essencialmente sedutora do tipo “oferece, mas não dá” (técnica antiqüíssima, do tempo das nossas bisavós). Ela costuma ter uma corte masculina ao seu redor, mas ao contrário de outras bonitonas de plantão, ela também preserva um bom número de aliadas do sexo feminino: são amigas, fãs e ouvintes, que adoram apreciar seus relatos quase épicos! Seu passatempo preferido é descrever em detalhes as atitudes patéticas dos homens que ficam em volta dela, se achando caçadores, conquistadores, mas que no fundo são uns coitados. Bem, pelo menos é assim que ela os descreve. Pode parecer que ela gosta dos homens, mas no fundo ela os despreza. Acredita que tem o poder absoluto sobre eles e no fundo faz da relação sexual um exercício de poder e não um momento de prazer.

Outro tipo muito conhecido por aí é a Ninfa Lésbica. Nossa! Eu conheci várias!!!! E devo confessar que elas me incomodam bastante... A Ninfa Lésbica é aquela criatura que apesar de pensar que está por aí atrás de um homem, sua preocupação é mesmo uma outra mulher. Não sei se esse lesbianismo é concreto, uma compulsão sexual reprimida, ou se é um lesbianismo abstrato, baseado somente na obsessão que nutre por outras mulheres. A pista mais óbvia de reconhecimento de uma Ninfa Lésbica é o fato de – por uma incrível coincidência – ela só se interessar por homens comprometidos. Se está sozinho, não tem graça. Mas se tem namorada, noiva, mulher, caso, enrosco, cacho, aí sim: perfeito! Isso acontece por duas razões: 1) porque talvez ela acredite que se o homem tem uma mulher, ele tem um selo de controle de qualidade...claro, se ele estiver sozinho é porque nenhuma mulher o quis, então não deve prestar 2) ela não está verdadeiramente interessada no homem, ela quer mostrar para ela mesma e para quem estiver em volta que ela é melhor do que a mulher dele. Em ambos os casos, o foco é outra mulher e não o homem. A Ninfa Lésbica é extremamente competitiva e fará de tudo – não duvidem, é TUDO mesmo – para conseguir conquistar o cara ou, ao menos, deixar a mulher dele com ímpetos homicidas...rs

Outra personagem famosíssima é a Encantadora de Serpentes. E, por favor, me poupem de explicar os detalhes...rs Essa criatura do sexo feminino é uma sedutora compulsiva. No fundo, é infeliz do ponto de vista afetivo. Se sente carente, sozinha e abandonada. Mas é mais forte do que ela: ela está com a máquina de seduzir ligada 24 horas por dia! Como dizia uma amiga: “tem pessoas que não satisfeitas em seduzir outras pessoas, começam a seduzir as cadeiras, as mesas, as portas...” É por aí. A Encantadora de Serpentes não pode ver um homem pelo caminho. Algumas não deixam escapar mulheres também, sem que isso nada tenha a ver com uma opção sexual inovadora ou com a politicamente correta homo-afetividade. É que simplesmente ela não consegue parar de seduzir tudo e todos que encontra na vida.

Enquanto eu ia me lembrando de algumas personagens, percebi (olha como o tempo é mestre!) que eu mesma já me encaixei em uma delas: a Ártemis Sonsa. Essa é aquela que se diz independente, com um “lado masculino forte”, tem muito mais amigos do que amigas, vive dizendo que não consegue ficar sozinha porque quando vê já apareceu mais um namorado (“eles caem de pára-quedas no meu colo”). Ela fala como se estivesse o tempo todo quietinha no seu canto, sem procurar confusão, é como se a confusão batesse a sua porta, no entanto, de certa forma ela usa o seu discurso masculinamente bem articulado e seu jeito de “não estou nem aí para feminilidades” como isca de sedução. E o mais incrível, e para espanto dela mesma: dá certo! rs

Ah, sim... Também temos a Hera Descompensada e a Atena Deprimida, ambas têm uma profunda mágoa dos homens, mas existem diferenças fundamentais. Enquanto a Hera Descompensada costuma ter um companheiro, do qual ela adora falar mal (mas não larga de jeito nenhum!), a Atena Deprimida normalmente está sozinha... Aliás, ela adora lembrar a todos sempre que há falta de homem no mercado, os homens não querem compromisso e outras lendas urbanas que promovem a campanha de valorização do homem através do mito da escassez. A Atena Deprimida é aquela mulher do livro: “Mulheres Inteligentes, Escolhas Insensatas”. Tenho certeza que todo mundo conhece pelo menos uma dezena delas... E todos nós sempre ficamos nos perguntando porque mulheres tão brilhantes e realizadas profissionalmente e intelectualmente são tão despreparadas quando o assunto é a vida afetiva. Ainda sobre a Hera Descompensada, lembramos de sua frase preferida “ruim com eles, pior sem eles”, seu passatempo preferido é falar mal dos homens, de todos: começando pelo marido atual, passando pelos ex até chegar no marido da vizinha. E de certa forma ela realmente acredita que tem que ser assim.

A lista de personagens da mitologia da doença é muito extensa e pode ser sempre reinventada. Também existem os personagens masculinos, que farei questão de apresentar a vocês em uma outra oportunidade. Mas hoje fico por aqui... Já temos um quantidade boa de material para a meditação.
Cláudia Mello

6 comentários:

Daniele disse...

Cláudia, estou vivendo de rir até agora. Que texto ótimo este. Eu confesso que andei por algumas delas durante meus processos de aprendizagem. Mas é tão legal ver que podemos nos curar. Relacionamentos não mais baseados em corpos de dor (aproveitando os vídeos do Tolle), mas na vida que corre por nossas veias neste exato instante. Valeu, ainda estou vivendo de rir.

Tati disse...

Concordo com o video, tudo nao passa de mascaras e comportamentos definidos pela ilusao mental para disfarçar, o medo, a carencia, e esse corpo sofredor, que adora se grudar na gente!!!
Eu ja fui quase todas essas, e se nao me controlo, qdo vejo, to seduzindo uma porta, uma maçaneta!!!hahahhaha
Bjs

LENA disse...

kkkkk,acabei de postar no via ,e terminei com :tudo bem vamos lá...!
e vim parar aqui ,pra se chamada de
Hera Descompensada...(somente em relação falar mal dos maridos ex e atual,não sobra tempo pra falar dos maridos alheios)....kkkk

Tudo Bem ,vou pensar nisso também...

Beijo Claudia!

LENA disse...

Pensando bem,nas ultimas semanas não tenho sido,Hera descompensada,pois ,ando falando muito é de mim mesma e expondo o meu corpo sofredor...será que estou seduzindo outros corpos sofredores....hiiiii....
vou pensar nisso também....

Nana Odara disse...

Quem é a mulher q vê todas essas mulheres? É tbm mulher? como elas?
ou está "acima" delas, enquanto mulher, "como um homem"?
ou está defendendo o seu homem de todas essas "outras" mulheres?

Afinal, pq ri e debocha da mulher, se tbm é mulher? e pq o parâmetro é sempre ter um homem, não ter um homem, falar mal de um homem, querer o homem da outra, defender o seu homem...


tcsss, tcsss

é sempre a mulher patriarcal, cuja referência é o homem...

e nunca a mulher, sua igual...

e, como sempre, no patriarcado, é sempre mais fácil atacar as outras mulheres (sem ver q isso é o espelho de mim mesma, enquanto mulher tbm...)

Reconheço as mulheres patriarcais, reconheço nas outras mulheres e principalmente em mim mesma...

mas reconheço tbm a ausência de uma verdadeira essência feminina... que vai na direção da conexão entre as mulheres, e não na tragicômica rivalidade, tão bem retratada na mídia, novelas e romances todos... o corpo de dor da mulher, pisada pelo sistema, e pisada pelas suas irmãs... que riem do seu (próprio) corpo de dor...

Eu tbm costumo retratar mulheres patriarcais como uma medusa ensandecida, mas agora de repente, isso me pareceu muito patriarcal para uma verdadeira mulher...

A verdadeira questão é pq eu vejo a outra mulher diferente, e os homens, todos iguais, (a mim?), tadinhos... vítimas dessas deusas ensandecidas, deprimidas, descompensadas, lésbicas, sádicas... meu deus(macho!) será q ninguém se lembrou de fazer uma fogueira pra queimar essas mulheres todas???

ou serei eu, mulher, ginofóbica demais e pq???

Viviane Lopes disse...

Absurdamente interessante!!! Acabei de receber o link de um amigo e estou extasiada com o que li!
Fantástico! Estou seguindo, tá.
Bjs