Guerra dos Sexos: a Mitologia da Doença – Parte II

sábado, 23 de maio de 2009

Escrever sobre mulheres sempre me parece mais fácil. Apesar de sempre ter me sentido meio deslocada do universo feminino oficial, as atitudes femininas me parecem sempre óbvias. Vejam bem: o fato de as mulheres agirem de uma forma muito mais variada que os homens não quer dizer que elas sejam muito originais nesta variação. O homem é minimalista. A mulher é rococó. Mas basta a observação e o feeling para perceber que as curvas fazem sempre os mesmos trajetos.


Mas já que o desafio de hoje é falar dos homens e da sua mitologia, terei que apelar para a memória e localizar alguns “deuses” que encontrei pelo caminho. Mas já adianto que tal qual o sistema reprodutor e a sexualidade, a mitologia masculina é mais básica do que a feminina. Creio que isso aconteça pelo fato de o homem ser mais discreto em seus movimentos amorosos. Um homem pode estar sofrendo de amor e a todos parecer que está somente com algum problema de estômago ou que o barbeador elétrico quebrou. Já uma mulher que sofre por amor parece carregar um outdoor da sua dor para todo lugar que vai. Precisamos aprender a arte de sofrer discretamente com os homens.


Bem, em primeiro lugar, gostaria de esclarecer qualquer mal-entendido: sim, os homens amam! A questão é que eles não amam como mulheres, amam como homens. Simples assim. E talvez seja aí que toda a confusão começa: mulheres querem ser amadas como mulheres amam e homens querem só ser amados, sem muita frescura.


Talvez o que os homens jamais compreendam na relação com as mulheres seja o fato de as mulheres pensarem o amor. Sim, as mulheres pensam o amor, analisam o amor, projetam o amor. E os homens, de um modo geral (lembrem-se que a exceção sempre existe), simplesmente sentem o amor. A grande confusão provavelmente é resultado de uma mentira que é pregada há anos e anos e que diz que homens pensam e mulheres sentem. Isso faz com que tenhamos a impressão que as mulheres são seres de alma simples, capazes de sentir sem questionar ou racionalizar, e que os homens, por outro lado, são eternos pensadores, criaturas que não vivem sem aprofundar suas experiências, sem desenvolver reflexões relativas a tudo que os cerca.


A verdade é bem diferente. Falando de uma forma crua e simplista: a mulher eleva o amor, o amar e o relacionar-se ao patamar filosófico antes de qualquer coisa. Antes mesmo de encontrar alguém por quem possa se apaixonar, ela foi capaz de refletir por horas sobre a importância do amor na sua vida, se ela quer se casar ou não, se pretende ter filhos, onde gostaria de morar e como gostaria que fosse a relação. Penso que o homem é, de um modo geral, pego de surpresa pelo amor. Um belo dia ele começa a sentir coisas estranhas e inexplicáveis e quer só se livrar daquilo, o mais rápido possível. Por isso que há um número enorme de “homens em fuga”. Eles acreditam que estão fugindo de uma mulher, de um compromisso ou de um casamento, mas a verdade é que estão fugindo das inexplicáveis sensações que o amor causa e que parecem absolutamente assustadoras. Talvez se ele menstruasse ou tivesse TPM já estivesse acostumado com coisas inexplicáveis e assustadoras...rs


Então, começamos a localizar alguns tipos mitológicos masculinos, inclusive, construídos a partir deste temor de se entregar ao amor. Um bom exemplo é o Pan-Plantonista, o cara que está 24 horas sempre pronto para o sexo... Quem olha toda a sua movimentação, acredita de verdade que o cara vive para o sexo: agenda de telefone sempre em dia, bom papo, academia, fã-clube masculino (homens adoram ouvir mentiras uns dos outros!) e as cantadas mais calientes do bairro. O cara é capaz de enfrentar as mais exaustivas maratonas sexuais, só não é capaz de amar. Não que não possa! É que ele realmente não quer! O medo é arrebatador! E se algum dia alguma mulher consegue deixá-lo ao menos confuso, o primeiro sintoma vai direto ao “âmago da questão”: ele pára de funcionar! E nada parece desesperar mais um homem! Até o seu fígado pode parar de funcionar, mas o seu sagrado falo, jamais!


Temos também um outro personagem muito conhecido: o Hermes the Flash. O cara realmente parece um daqueles experimentos científicos de hipnose, basta falar uma determinada palavra que ele surta e faz coisas que normalmente não faria. As palavras normalmente são: compromisso, casamento e afins; mas também existem variantes compostas como “ajudar a limpar a casa”, “ficar com o bebê para eu sair com minha amiga” e, talvez a pior de todas “vamos discutir a relação”. Este tipo não tem nada contra a relação em si e muito menos contra o amor, mas ele é hiper-sensível a certos temas e quando eles surgem, ele simplesmente sai correndo! Sem deixar pistas!


Há também um tipo muito interessante chamado Zeus DASA. Esse cara até ama, até se relaciona, até casa. O problema é que ele é compulsivo e acredita, de verdade, que homens “precisam de sexo” mais do que as mulheres. O engraçado é que parece que os homens precisam de mais parceiras também, porque ele, provavelmente, não aceitaria fazer uma maratona diária de sexo com a mesma mulher. O fato é que eu levei muitos anos para compreender a razão que leva um homem que ama a sua mulher a traí-la com tanta freqüência e sem alguma razão mais consistente como paixão ou real interesse por outra pessoa. A resposta é: medo. Ouvi isso de um Zeus DASA de carteirinha certa vez: “eu sei que ela vai me trair, mais cedo ou mais tarde... Todas traem! Então, que seja eu primeiro!” Sim... É verdade... O cara tem tanto medo de ser traído, que trai primeiro, numa espécie de disputa para ver quem se deu mais mal na história. Não percebe que essa é uma história sem vencedores.


Existem alguns tipos clássicos e tenho certeza que toda mulher já conheceu pelo menos um em toda a sua vida: os Narcisos, os Édipos, os Ulisses... Vamos refrescar a memória?


O Narciso é aquele que quando vocês se encontram para sair, ao invés dele comentar sobre o fato de você estar linda, com um vestido sexy ou com cabelos perfumados, fica chateado porque você não notou que ele aumentou o tríceps em meio centímetro... É o cara que na piscina ao invés de olhar para a sua bunda ou para seus peitos, fica olhando para o seu próprio peitoral sarado, se esfregando diante de um público atônito. Ele costuma achar que as mulheres estão admirando seu físico malhado, mas isso raramente acontece! De um modo geral são os outros homens que estão admirando seus músculos desenvolvidos, as mulheres estão se questionando se ele é gay. A mulher que se relaciona com um homem assim nem precisa ter ciúme de outras mulheres, esse é um exemplo típico de auto-homoafetivo. O cara se ama, caramba! Deixa ele! rs


O Édipo é vulgarmente conhecido como “filhinho da mamãe”. Mas nem sempre ele é mimadinho pela mãe... Às vezes acontece um efeito inverso: pelo fato da mãe não dar a atenção que ele gostaria de receber, ele fica buscando, eternamente, a mãe em outras mulheres. Então, ele é do tipo carente, acha que você tem que se sentir honrada em servi-lo, agradá-lo, fazer sua comida preferida, adivinhar seus desejos e concretizá-los. Caso você ouse não agir assim, ele fica profundamente magoado e acredita firmemente que você é a criatura mais egoísta e desalmada do planeta. A dificuldade em lidar com um Édipo nem é a de agradá-lo, mas o fato de isso ser uma obrigação. Isso sem falar que ele se sente um pobre coitado, sacrificado, sempre que precisa fazer algo por você... Ou então se acha o tal só porque preparou uma sopinha no dia em que você estava gripada, de cama.


Ulisses é o cara que nunca está em casa, até quando está, não está... A verdade é que a vida a dois é muito monótona pra ele. Ele sonha com desafios e aventuras em algum lugar distante. Muitas vezes, ele pára de enxergar a mulher que está ao seu lado e só consegue perceber o quanto a ama quando está distante. O cara é muito confuso! Quando está longe, morre de saudade e quer estar perto... E quando está perto, não se dá conta do que acontece em volta porque está sonhando com seus grandes e desafiadores projetos. Nem preciso dizer que este tipo de homem acaba atraindo para o seu lado uma Encantadora de Serpentes, não é mesmo? Lógico! Diante da realidade da ausência, a mulher acaba se transformando em uma sedutora compulsiva. Talvez seja uma forma concreta dela perceber que existe, está viva e é capaz de ser notada por algum homem. Aliás, é bem interessante analisar a relação entre os tipos mitológicos masculinos e femininos, porque – vocês sabem... – as doenças se encaixam!


Ah... Já ia me esquecendo! Tem também o Apolo Dissimulado. Esse cara deixa as mulheres completamente confusas! Em primeiro lugar, ele não segue um padrão em termos de atitude. Quer ser o bonitão, mas não chega a ser um Narciso... Quer ser paparicado, mas não chega a ser um Édipo... Vive suas “viagens” particulares, mas não chega a ser um Ulisses... Talvez aquilo que consiga distinguir da melhor forma o Apolo Dissimulado seja o fato de ele querer ter o controle sobre tudo. Assim, mais agradável do que conquistar uma mulher, é fazer com que uma mulher não entenda porque ele não foi conquistado por ela. E ele adora isso! Totalmente imprevisível... Lidar com esse tipo requer um tanto de paciência, em especial quando a sua imprevisibilidade não é tão grande assim...rs


Assim como no caso das mulheres, a Mitologia Masculina também pode se estender infinitamente, basta olharmos em volta. Mas é interessante perceber que os personagens masculinos, normalmente, se caracterizam mais pelas atitudes, enquanto os personagens femininos possuem toda uma extensa e complexa filosofia e psicologia por trás de si. É como se os homens fossem mais diretos até mesmo na mitologia, enquanto as mulheres trilhassem caminhos mais sinuosos até chegar “do lado de fora”.


Quando nós, homens e mulheres, conseguirmos olhar para esses personagens, identificando nossos padrões de comportamento, e rir de nós mesmos, boa parte do processo de cura já terá se desenvolvido. Então, estaremos mais próximos de uma relação equilibrada e harmoniosa entre homem e mulher, como Deus e Deusa primordiais. Individualidades completas que multiplicam ao se somarem. Ou algo assim...


Cláudia Mello

7 comentários:

Beta disse...

e quando a peste é um tiquim de cada uma dessas coisas...nói faiz o que?!

haha

Bjos

LENA disse...

Adorei a pergunta...
e os exemplos mitológicos...dá tema pro próximo assunto...
sobre casamentos ....ando escrevendo sobre a real dos casamentos....
embora só percebi depois...para variar...rs

Daniele disse...

Você me faz viver de rir quando escreve Cláudia. Vamos observando e nos divertindo. Tem outro jeito? Se não tiver eu invento. Rsrs.

Cláudia Mello disse...

Beta,

Quando o peste é um tiquim de cada coisa é sinal de que ele é normal!!!! rsrsrs Porque nós tb temos nosso momento de cada uma das personagens femininas. O problema não é ser um pouquinho de cada, mas ser somente aquilo. Isso configura a doença.

Viu? O peste ainda tem solução! rsrsrsrs


Lena,

Costumo dizer que se, logo quando somos crianças, nos contassem com todos os detalhes como é um casamento, como é parir e educar um filho, a Humanidade já teria entrado em extinção!!!! rsrsrsrsrs

Piadinhas a parte, não podemos esquecer que somos nós que fazemos as relações e somos nós que fazemos os casamentos. Eu sempre fui mais modesta e sempre afirmei que se o casamento não dá certo ou se somos infelizes no casamento temos, ao menos, 50% de responsabilidade sobre isso, não importa quão insuportável possa ser nosso parceiro ou nossa parceira. O Ho'oponopono veio para detonar com tudo de vez e me faz parecer até boazinha (rs), dizendo que somos 100% responsáveis. Bem... Eu prefiro o meu método, mas o Ho'oponopono funciona melhor, fazer o que? Se render à tradição havaiana...rs

beijos, meninas!

Cláudia Mello disse...

Dani.

Vc nem imagina o quanto eu rio daqui tb, escrevendo esses artigos! rs Aliás, isso é uma mania de infância: rir de tudo, a começar de mim mesma. Creio que esse tenha sido o dispositivo que me permitiu alcançar alguns benefícios, apesar de fazer tanta besteira no resto do tempo...rs

beijão!

LENA disse...

Estou imprensionada com o Apolo Dissimulado e com a parte dele Ulisses que faz com que qualquer menina se sinta uma mulher....
e o Édipo..sinseramente fingir troca de personagem já deu...
É isso...
E agora José ? toda Essa mitologia me fez lembrar alguém...

Cláudia Mello disse...

Lena,

Não se engane... Os homens - às vezes - ainda conseguem nos surpreender! rs

beijo!