O que é esoterismo? 2ª parte

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016



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Nada é mais indecifrável, "esotérico", que o Zen. Será? Há duas historias que mostram com clareza quase brutal que o esotérico não o é por si mesmo, mas talvez por que aqueles que buscam entendê-lo o fazem a partir de um suposto conhecimento sobre o próprio esoterismo.

O Elefante e a Pulga


Roshi Kapleau (um mestre Zen moderno) concordou em falar a um grupo de psicanalistas sobre Zen. Após ser apresentado ao grupo pelo diretor do instituto analítico, o Roshi quietamente sentou-se sobre uma almofada colocada sobre o chão. Um estudante entrou, prostrou-se diante do mestre, e então sentou-se em outra almofada próxima, olhando seu professor.


"O que é Zen?" o estudante perguntou. O Roshi pegou uma banana, descascou-a, e começou a comê-la.


"Isso é tudo? O senhor não pode me dizer nada mais?" o estudante disse.

"Aproxime-se, por favor." O mestre replicou. O estudante moveu-se mais para perto e Roshi balançou o que restava da banana em frente ao rosto do outro. O estudante fez uma reverência e partiu.

Um segundo estudante levantou-se e dirigiu-se à audiência:

"Vocês todos entenderam?"

Quando não houve resposta, o estudante adicionou:

"Vocês acabaram de testemunhar uma completa demonstração do Zen. Alguma questão?"

Após um longo silêncio constrangido, alguém falou.

"Roshi, eu não estou satisfeito com sua demonstração. O senhor nos mostrou algo que eu não tenho certeza de ter compreendido. DEVE existir uma maneira de nos DIZER o que é o Zen!"

"Se você insiste em usar mais palavras," o Roshi replicou, "então Zen é um elefante copulando com uma pulga...".

Uma xícara de Chá

Nan-In, um mestre japonês durante a era Meiji (1868-1912), recebeu um professor de universidade que veio lhe inquirir sobre Zen. Este iniciou um longo discurso intelectual sobre suas dúvidas. Nan-In, enquanto isso, serviu o chá. Ele encheu completamente a xícara de seu visitante, e continuou a enchê-la, derramando chá pela borda.

O professor, vendo o excesso se derramando, não pode mais se conter e disse:

"Está muito cheio. Não cabe mais chá!"

"Como esta xícara," Nan-in disse, "você está cheio de suas próprias opiniões e especulações. Como posso eu lhe demonstrar o Zen sem você primeiro esvaziar sua xícara?"

3 comentários:

Daniele disse...

"Não adianta nem me abadonar, porque mistério sempre há de pintar por aí." Rsrs.
F.A Meu trabalho diário é o de esvaziar a chícara, porque senão não escolho nada, reajo a tudo e não aprendo nada. E o novo passa longe. É uma imagem que fez muito sentido pra mim. Mas como eu não resisto vamos lá: O Todo é o nada que contém tudo. Acho que estou começando a pegar o jeito deste movimento, esvaziar sem esvaziar. E descobrir a importância pessoal foi essêncial, já que ela acaba preenchendo tudo, não sobra espaço pra mais nada.É isso. Valeu.

F.A. disse...

Oi, Daniele!

Para algumas tradições o papel de esvaziar-se para poder assimilar o novo passa pela capacidade de silenciar a mente discursiva. Como notei que você citou em outros coments (no Via) o trabalho do autor do Poder do Agora, vejo que você deve estar pegando o jeito da coisa, afinal estamos todos tentando e intentando pegar o jeito da coisa. Dá trabalho e é um trabalho que vale a pena. É muito bacana estarmos trilhando juntos essa estrada!

A Claudinha vai se amarrar se ler essa frase que vc escreveu pois ela tem uma versão própria:

O Todo é o nada que contém tudo.

Mas deixemos que ela se manifeste.

Talvez o significado de esoterismo esteja profundamente ligado a capacidade de silenciarmos internamente e as ferramentas ditas esotéricas (Tarot, inclusive) são apenas um meio para alcançarmos tal realização silenciosa.

Há palavras que apontam para tal realização, vamos continuar "apontando aqui o nosso lápis".

Já que falamos em Tarot...

Há uma carta no Tarot que aponta para tal realização silenciosa e ela está profundamente ligada ao mistério do feminino: a Sacerdotisa. Ela parece uma imagem perfeita para o conceito de esotérico.

Obrigado!

No intento,

F.A.

Cláudia Mello disse...

Ouvi meu santo nome sendo usado... apesar de não ter sido em vão...rsrsrs

Dani, há anos ouço piadas sobre minha profunda divagação filosófica que aconteceu em pleno quiosque na casa dos meus pais: "tudo é tudo e nada é nada..." É claro que eu estava tentando falar de algo além que engloba toda a existência, inclusive o conceito da não-existência ou do nada, mas creio que um lampejo de tão grande sabedoria não foi lá muito bem interpretado...rsrsrsrs

beijos!