A questão da Loucura

sábado, 11 de maio de 2013

Permitam-me divagar um pouco sobre a loucura.


Já acompanhei esta questão algumas vezes.


Vi pessoas saindo da realidade convencionada.


O que caracteriza-se por loucura a meu ver é a perda da capacidade de retornar a estes paradigmas usuais, de integrar neste contexto que vivemos as descobertas dos estados mais amplos de consciência.


A sua colocação de liberdade como critério é interessante e real. Dharmicamente a loucura estaria na nossa crença no ilusório, na nossa tentativa de nos apegarmos ao mundo e as situações do mundo dando-lhe uma continuidade que na realidade não possui.


Me parece que a percepção da impermanência de tudo é um dos batentes da porta do despertar e o apego a qualquer coisa um dos grilhões mais fortes. Essa falta de liberdade é algo inquietante, profundo.


Trabalho com vários projetos educacionais e a idéia piagetiana que educar é fornecer subsídios para permitir ao ser tornar-se moral e intelectualmente autônomo fica terapêutica dentro dessa abordagem.


Um ser moral e intelectualmente autônomo é então um ser saudável? Alguém um dia me falou a respeito da colocação de certo lama sobre o equívoco de se confundir a mera loucura com algum tipo de iluminação. Creio que esta confusão vem do fato que ambos, o louco e o iluminado, deixaram os limites que lhes foram impostos enquanto entes perceptivos, isto é, ambos conseguiram ir além dos limites perceptivos que lhes foram impostos pelo sistema. A diferença que o louco afundou, apenas saiu desse espectro perceptivo e sem controle algum está a vagar por sensações e percepções confusas não integradas de outros mundos, enquanto o que desperta para a luz consegue de fato ampliar a percepção da realidade, integrando sua experiência num todo complexo, que parecerá por vezes desconexo a quem observa a partir dos paradigmas ainda limitados do que chamamos realidade.


Assim concordo que a semelhança entre a loucura e a iluminação é só aparente, por tratarem-se de estados onde a cognição opera fora das faixas convencionais, mas enquanto na loucura há uma imersão não integrada na totalidade, na iluminação há o atingir de um estado.


Opinião pessoal:


Fora do silêncio, estamos sempre na "falação", tão contaminada de preconceitos, condicionamentos, etc... etc... etc... que a verdade só poderia aparecer nesta lista na forma de computadores desligados, sem mensagens.


Mas dentro dessa "falação", talvez compense dirigir um pouco nossa atenção aos arquétipos místicos, se tentarmos juntar os pedaços, expor claramente que tipo de representação arquetípica o ataman, atma men, anataman, buda, isso ou aquilo, Nossa Senhora da Aparecida, etc... etc... etc... representam.


No fundo, do que se trata?


O que nos une é a pergunta mais difícil de responder, parece que preferimos enfocar as diferenças óbvias que nos distinguem.


Certa professora titular de cadeira de biologia na USP comentava que, vez por outra, obriga pesquisadores briguentos a usarem modelos matemáticos universais ao exporem suas teorias, em especial quando há claras divergências. Diz a mesma que é muito engraçado verificar depois dessa transposição que a briga acadêmica de meses termina quando os beligerantes (que chique...) percebem que estavam falando a mesma coisa...


Devemos avaliar com profundidade a qualidade dos termos que estamos usando e os sentidos efetivos que queremos dar, para evitar esses comuns mal entendidos.


Uma sugestão:


Existem dificuldades emocionais com pessoas que se dispõe a realizar meditação. Digo melhor, existem contra-indicações, existem vivências perigosas.


Gostaria de ouvir dos leitores se já tiveram experiência pessoal com pessoas que de algum modo "pioraram" ou "não toleraram" a meditação.


Este tema é interessante e já tive oportunidade de trabalhar muito com ele.


Todos os trabalhos mais sérios que conheço na linha de auto-desenvolvimento começam por uma reestruturação da psiquê.


Quando alguém se aproxima de um desses caminhos embasados para o auto-conhecimento noto que a escola procurada sempre expõe o (a) neófito (a) a um processo de reavaliação da própria vida e de como está agindo.


Paralelo a isso acontece sempre um trabalho de equilíbrio orgânico e psicológico. Certos exercícios, que noto enfatizarem o equilíbrio nas glândulas endócrinas e uma reavaliação muito similar a proporcionada por uma boa terapia são comuns a vários caminhos que estudei.


Daí que a pessoa só vai ser levada a lidar com estados alterados de consciência quando estas fases preliminares forem de fato trabalhadas.


Ai entra a questão. Meditar.


Encarando meditar como ampliar a sensibilidade ao aqui e agora não creio que existam contra-indicações.


Toda e qualquer psicopatia é antes de mais nada uma interpretação desequilibrada da relação com o aqui e agora. Concorda?


Assim levar o ser a perceber melhor sua relação com o momento pode ter um valor terapêutico imenso. Assim como um organismo doente não pode se alimentar de qualquer coisa como faria um corpo saudável, tendo que se submeter a uma dieta adequada ao tipo de enfermidade que padece e ao tipo de tratamento que está tendo, creio que uma psique muito desequilibrada também pode ser mais instabilizada por certas práticas, que a outros seriam no máximo inócuas.


Estudando a alquimia dos sufis aprendi que temos 3 tipos de alimento, o ar, o alimento sólido/líquido e as impressões.


O ar e os alimentos são óbvios, o que poucos percebem é que tudo que recebemos pelos 5 sentidos nos alimentam também. Esse triângulo de nutrição precisa ser mantido bem equilibrado. Qualquer alteração na qualidade e/ou quantidade de um dos 3 tem que ser compensada. Pranayamas, exercícios respiratórios alteram a entrada do ar em nosso corpo. Realizá-los sem a orientação de um expert é perigoso e pode ser danoso a saúde e ao equilíbrio. Alterar a qualidade das impressões também causa mudanças efetivas na nossa "química" corporal. Creio que a meditação atua diretamente aí, portanto ela pode de fato causar problemas a praticantes já com quadro anterior de desequilíbrio psicológico.


Entretanto sempre que aplicada por alguém experiente acredito ser antes um caminho de cura do que de desequilíbrio.


Paz Profunda!!!


Nuvem que passa

11 comentários:

a.mar disse...

Bom Dia!
O cérebro está estimulado e educado a trabalhar num sentido, se o vamos mudar há sempre o risco de ele não se adaptar e rejeitaras novas directrizes. E o limite entre os estados não existe, o nosso cérebronão tem barreiras entre as zonas mais ou menos especializadas para cada função.
Basta que estamos a sonhar, corremos, ficamos cansados, com dores e não nos mexemos do sítio. A barreira entre o pensamento e a acção é quase impercéptivel.
O cérebro funciona com as ferramentas que tem e adquiriu ao longo da vida.
O "parar o cérebro" para meditar e ficar no aqui e agora respiro e o meu Coração marca o ritmo e o meu corpo sente pode ser uma via para o desvio.
O cérebro aprende esse caminho e lá vai por aí fora. E o limite entre a realidade e a ficção mistura-se num ápice, que nem damos conta.
Tudo depende muito da vontade, da intenção, dos projectos que estão lançados dentro da nossa cabeça interangindo com o meio.
Vem um bocadinho de encontro ao reflexo exterior do interior.
Consigo reconhecer-me, consigo viver em paz comigo, consigo reconhecer os outros e viver em paz com eles.
O processo cerebral define e é definido por esse processo interior/exterior.
Tudo é reflexo.
Tudo é relativo, até o absoluto. E pode-se traduzir por números, eh eh.
"Saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença".

Obrigada pelas tuas reflexões aqui.

Tatá disse...

Obrigada por compartilhar suas experiências e conhecimento de forma tão generosa... abraço grande!

F.A. disse...

Aloha, A.Mar!

É engraçado falarmos no cérebro como algo autônomo, com uma programação própria, capaz de rejeitar as diretrizes que nós mesmos definimos.

Por outro lado é necessário termos várias estradas abertas pelas diferentes sinapses para termos uma flexibilidade que permita a adoção de novas diretrizes.

O cérebro da criança é tão aberto ao novo e nós, adultos, que já treinamos tanto o cérebro não temos tanta flexibilidade de uso.

Como você escreveu, o silêncio é uma via para o desvio, para entrarmos por outros caminhos.

Estou percorrendo um caminho novo, relacionando conhecimentos de uma forma nova, associando por exemplo Tarot e Gestalt para realizar um trabalho de auto-conhecimento com os dois e uma das premissas da Gestalt é definir o relacionamento ou o limite de contato entre o que chamamos de exterior e interior, essa fronteira, essa reciprocidade como a verdadeira fonte para uma compreensão. Assim o auto-conhecimento não é apenas conhecimento do que se passa dentro de nós, mas o dentro e o fora revelam a nós mesmos, ao mesmo tempo. Duas faces da mesma moeda.

Isso parece óbvio, mas o paradigma vigente é diferente.

Por exemplo.

Quando falamos em meio-ambiente sempre o vemos como algo distinto de nós. Mas o nosso corpo também é um meio-ambiente, incluso o nosso cérebro. Falamos que temos que cuidar do meio-ambiente como se ele fosse algo separado de nós. Tenho uma amigo ambientalista que é um militante e tanto, mas que não para de fumar...ele não consegue se perceber como meio-ambiente agredido pela própria fumaça que inala/exala.

Vamos continuar nos refletindo, somos meio ambientes individuais dentro do corpo maior da Natureza, neurônios, células da Terra.

No intento,

F.A.

F.A. disse...

ALoha, Tatá!

Vc me lembrou um sonho que tive com um xamã sobre essa questão do compartilhar. Não dá pra contar o sonho agora, mas aprendi nesse sonho que o verdadeiro poder está em compartilhar. Sei que isso parece aquelas frases de "auto-ajuda" mas a percepção que tive disso a partir do sonho e pela prática do dia a dia a fazem uma percepção muito ampla.

No intento,

F.A.

Daniele disse...

Mas o lugar silencioso da conta de tudo. Da loucura, da ignorância, da auto-importância. Duro é estar sempre em contato com ele. Rsrs. E a consciência é poder mesmo. Assino em baixo.
Poder escolher,
poder Ser,
poder Viver...
não mais sede de poder.

oanonimo disse...

Esse assunto da loucura controlada é excelente! Quando iniciei a ler Carlos Castaneda tinha estudado por alguns anos PNL (programação neuro-linguística), sem dúvida me ajudou a compreender e alterar os diversos condicionamentos que temos.

muito obrigado pelos textos,
na paz

F.A. disse...

Oi, Anônimo!

A questão que sempre me coloco quando se trata de alterar, mudar certos condicionamentos em nós é "quem altera" e por que o faz.

Levanto esse questionamento porque em escolas tradicionais o tempo que se dedica a simplesmente observar a nós mesmos é longo, bem longo, antes de empreendermos qualquer mudança em nossa estrutura interna. Como decorrência desse olhar contínuo e longo sobre nós mesmos as mudanças tendem a acontecer naturalmente sem que sejam uma deliberação de um eu, talvez, não-maduro para empreender tal tarefa, pois isso é algo que exige cuidado e prudência.

Abraços,

No intento,

F.A.

obs: ainda matutando naquele nosso assunto, ok?

aryvljr disse...

"Não é uma demonstração de saúde estar bem ajustado a uma sociedade profundamente doente."
(Khrishnamurti)

bethancourt disse...

Olá Fernando, lendo este texto, lembrei de um artigo muito legal que gostaria de compartilhar logo após este adendo:
Na minha visão todos os caminhos levam a um só lugar: SOMOS TODOS UM, ou seja eu sou o outro vc !!!. Não conseguimos atingir esta verdade ainda por estarmos presos a nossos pensamentos. Para atingirmos esta consciência (Realidade) teríamos justamente que repousar a mente para que se atinja o estado de apenas ser (Deixar a energia fluir livremente), unindo assim o nosso lado negativo (sombra) com a nosso lado Positivo para que assim, surja a luz (Morte do Ego = Amor), sem separação, a eliminação dos conceitos, o estado de união com o Todo (Deus)? será que esta não seria a verdade absoluta e perfeita? Sem opostos? A mais humilhante e a mais Divina ação? O caminho Estreito? O mistério da ressurreição (pós morte do Ego) retratada em tantas culturas? "Eu e o pai somos um"?, "amai-vos uns aos outros como a si mesmo"?, lembra do conceito Maia de Hunab Ku onde somos a emanação do Todo? Pense o seguinte, nós todos vivemos de Imagens, conceitos que adquirimos ao longo de nossa existência, estamos impregnados destes conceitos, o que quer que vejamos no Próximo seriam apenas espelhos dentro de nós mesmos destes nossos próprios conceitos, ou seja, eu só reconheço aquilo que eu tenho dentro de mim (Não julgue para não ser julgado). Ninguém pode ser maior que o Mar (ou seja, si mesmo)
Será que esta não é a visão que aqueles que estão no poder não queiram que a gente saiba (Justamente por não haver hierarquização (escravos) ? Todas as tradições religiosas não teriam no fundo de seus Arquétipos este principio?
Dá uma lida no Salmos 82

Segue link do texto que queria te mostrar, e parabéns pelo conteúdo do blog, abraço. Paz:

http://www.xamanismo.com.br/Universo/SubUniverso1191191114It009

Jean Carlos disse...

Assim, eu tentei uma vez meditar de verdade, porém, depois de uns 40 min despertei de um transe intenso, e fui fumar um paiero!rs

Não cheguei a ter visão apenas um alto relaxamento, e mais libertação do ego...e tudo isso, num mÊs de muitas experiências com cogumelos azuis, será que interfere na meditação???

Há, uma dose boa de chá de cogumelo me curou da depressão e parte da paranóia ruim!

gostei dos coments tbm....e afirmo:

somos como maquinas, em constante manutenção,se não por nós mesmos, pelos outros!

Descartes ensina mais ou menos assim: tudo é objeto nesse mundo, e oque sentimos e pensamos nada mais é que, reflexos do que tocamos, vemos, ouvimos, falamos!

Ação e reação sacam?!

pois é, mas assim como o objeto e a máquina, podemos transformar tudo em coisas melhores para a eternidade de nosso fim!

abraços hermanos









Fernando Augusto disse...

Jean, tenho para mim que as plantas de poder nos jogam para reinos específicos e estados de consciência que operam na 2ª atenção. Tem a ver com a concentração, poderes e aliados.

Já a meditação é um estado de libertação mais amplo, que adentra à 3ª atenção. Mas isto tudo é conceitual, precisamos da experiência direta para entender. Contudo, porêm, todavia, como as palavras aqui são a ordem do dia, escrevo, e posto em seguida um texto interessante sobre concentração e meditação que possa, quem sabe, esclarecer este ponto que abordastes.

Abs no intento,

F.A.