A questão da Sombra - 3ª parte

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Um monte de gente vive preso a seus antepassados interiores e nem sabe.

Seus antepassados interiores lhe ditam como agir, como fazer tudo em sua vida e o "nós mesmos" é apenas um vozinha ainda frágil em nosso interior, por falta de uso, quase não é ouvida.

Mas é essa voz ainda nascente que é a única coisa que somos e se lhe dermos atenção, se começarmos a ser mais "nós mesmos" do que "o que fizeram de nós" vamos ampliar muito essa singular presença.

Temos que tomar muito cuidado para não sermos marionetes nas mãos das forças ancestrais que trazemos em nós.

Podemos ser uma vasta janela, pela qual nossos ancestrais masculinos e femininos espiam para a existência, mas não podemos ser fantoches manipulados pelas lutas e batalhas que quem nos antecedeu criou.

Somos livres para gerar um mundo novo e neste sentido precisamos de energia e de coragem.

A tremenda força que vem da Sombra pode ser usada, pode ser canalizada para este tremendo propósito, gerar uma nova realidade existencial para nós.

Isso é magia pura, parar de tentar mudar o mundo e mudarmos de mundo.

A sutileza da ARTE é que quem está ao nosso lado, pouco ou nada deve perceber disso.

Se estiverem mesmo entendendo o que estou escrevendo aqui verão que a proposta de "mudar de mundo" passa por mudar nossa relação com o mundo a nossa volta.

A forma pela qual nos relacionamos com o mundo a nossa volta revela muito se estamos mesmo prontos (as) ou não para trabalhar nossa Sombra.

Se tu és agressivo (a) responde no soco com as pessoas, mesmo que sejam só algumas, se tudo te irrita, se tem vontade de agredir pessoas, tudo isso indica uma personalidade que está precisando se trabalhar antes de ir ao encontro da Sombra.

A Sombra é para ser visitada quando já resolvemos estes lados mais superficiais nossos.

Podemos dizer que estes conflitos são a "ponta do iceberg" do que é a Sombra, resolve-los é gerar energias tremendas que serão fundamentais no processo de integração da Sombra.

O xamanismo, em sua praticidade, levou os (as) xamãs a investigarem muito sobre o comportamento humano.

Descobriram algumas coisas úteis.

Quem melhor nos revela se tamos bem ou não?

Nossa família.

Lidar com nossa família e as pessoas próximas é o mais complicado.

Por que nos conhecem, porque sabem usar tons de voz, expressões, tudo que pode ir além das barreiras que sabemos ter com os "de fora".

Um Sifu me contou que lutadores de certos clãs no antigo Cantão quando tinham um oponente muito forte procuravam antes estudar o tom de voz da mãe deste (na época era fácil isso, as famílias viviam juntas, numa mesma casa várias gerações).

O tom de voz da mãe atravessa as barreiras defensivas em nós porque o ouvíamos como vibração, quando estávamos no útero.

Assim é preciso a gente estar bem tranqüilo com a gente (mesmo) prá ter uma boa relação com a mãe e o pai, entender nossos ancestrais não quer dizer que cedemos e somos o que eles querem, significa que conseguimos harmonizar em nós a energia deles.

Se seus pais são crentes é claro que eles nunca vão ficar numa boa pelo fato de seres um (a) bruxo(a) mas podes evitar a crise agindo com equilíbrio, agindo com uma esperteza que a sombra, quando integrada e bem trabalhada nos dá.

Eu sempre que posso passo uns dias perto da minha família prá sacar como é importante ter resolvido isso.

Temos muita influências de nossos pais.

Me parece que numa época isso gera certos atritos, quando cada um quer impor seu caminho.

A forma de lidar com isso precisa ser harmônica, quando conseguimos entender que nossos pais sempre querem o melhor prá gente, mas o melhor deles nem sempre é o nosso, a gente passa a respeitar aquela insistência que parece chata de nos "aconselharem" sobre certas coisas.

Um dos segredos para ir além dessas crises é ver, além da forma às vezes chata e insistente que apresentam suas propostas de vida, que ali está um desejo sincero de nos ajudar, ver que além da forma está uma chama de verdadeiro amor por nós, isto pode mudar tudo, é sutil, muito sutil compreender isso.

Especialmente nós da Bruxaria, vejam só o termo, imagine o que muitos dos pais e mães pensam quando vêem que o (a) filho (a) tá envolvido com "bruxaria".

E tem gente que num show de insensibilidade, querem "sentir elementais", se dizem "unidos a Deusa" mas não sacam o quanto são agressivos (as) quando querem obrigar que os pais e outras pessoas "aceitem" que são "bruxos(as)".

Sério, dava prá rir se não fosse tão caótico o resultado.

Acham que eles vão entender como a gente entende o que é bruxaria?

Claro que não.

Eles passaram a vida sendo condicionados que o mal, o diabo, tudo que é de mais ruim tem chifres e tal, aí entra no quarto encontra o filho ou filha com um caldeirão, fogo aceso, imagem do diabo na parede.

Dá prá rir, mas prá cabeça deles é terrível, agora tem certeza que o próximo passo é algo muito ruim e é claro que vão brigar de unhas e dentes para que "saiam dessa".

E qualquer zica que acontecer na área, culpa de quem?

Então quando a gente tá falando de resolver nossas energias ancestrais o primeiro passo é não dar bobeira de viver em crise com os pais é ir com calma , é explicar o que dá prá explicar, mostrar que a bruxaria não vai te fazer mal, não vai te levar a ser um(a) "louco"(a), um(a) "drogado" (a), que são esses os medos que pintam nas cabeças de quem foi criado numa sociedade cristã e descobre que o (a) filho (a) crê em Deus chifrudo, usa caldeirão e se diz pagão.

Bom senso e canja de galinha não faz mal a ninguém (quem for vegetariano (a) tira a galinha da canja e faz uma sopa de legumes).

Engraçado que tem gente que acha que tem um ritual para lidar com a sombra, até tem, vou passar mais a frente, mas o primeiro passo é o ritual do dia a dia, o mais forte, pode ter certeza que é o mais poderoso.

Se harmonizar com seus ancestrais que tão aí, vivos, seus pais.

Este é um desafio verdadeiro com o qual não dá prá se enganar, ou dá certo ou não dá.

Por que tu podes fazer um rito todo pomposo para seus ancestrais, viajar que conseguiu harmonizar essa energia e ficar nessa, mas o fato de estar numa sintonia mais fina com sua família imediata é algo que ou é real ou não, sem fantasia.

Tem muito de vaidade em toda crise com os pais, quando a gente controla a importância pessoal e a vaidade e consegue estabelecer uma relação harmônica com os pais, tivemos que nos trabalhar muito, para falar certas coisas, não falar outras tantas, tudo isso reflete na nossa energia interior e na nossa VONTADE, então fique claro que trabalhar harmonia com os pais é um trabalho mágico de verdade, que gera energia e mexe mesmo com a realidade de nossa existência, é um fato.

Temos que cuidar bem da nossa energia ancestral, na magia sabemos que o poder da energia ancestral deve estar em harmonia prá gente trabalhar completamente a sombra.

E agora vamos ao rito, um rito prá ser feito quando a gente já trabalhou esta harmonia com os nossos pais.

Esse gerar harmonia com os pais não deve ser forçado, deve ser "cultivado", sem pressa, com tranqüilidade, deixar atos, momentos irem semeando este novo estilo de relação.

Estou falando de uma magia que tem o espírito das árvores e tudo que tem o espírito das árvores é assim, lento, mas profundo.

Não é amanhã fazer um discurso ou hoje mesmo sair correndo, acordar todo mundo ou invadir a sala de TV e dizer : "daqui prá frente, tudo vai ser diferente" risos...

É sutil, é se tocar todo dia de não "reagir" apenas, mas procurar gerar outro clima na relação, coisa que vão ver como às vezes é difícil, pois ninguém tá dizendo que pai e mãe as vezes não são muito chatos.

Só estamos descobrindo que a gente também às vezes é muiiiiito chato.

Então dá prá ser mais compreensivo com pessoas que foram educadas noutro século, noutro milênio.

Continua....
Nuvem que passa

5 comentários:

a.mar disse...

Bom Dia!
Sem dúvida... foi muito importante fazer as pazes com a minha mãe.
Eu andava sempre em guerra com ela (uma guerra silenciosa e inactiva)
e sentia-me o ser mais infeliz porque perdia todas as batalhas com ela. Ela é a mãe, ela é a mais forte e eu sempre a sentir-me mais e mais vítima dessa força que ela tinha.
Não sei se já ultrapassei tudo, mas que a coisa melhorou muito, melhorou. Aliás, não tem nada a ver.
Silenciosamente e muito, muito devagar vou passando à frente.
E esta "luta" deu-me uma outra formação para lidar com todas as outras pessoas.
Levei com tanta coisa da mãe que ganhei uma certa imunidade.
Entendo muito bem o que aqui falas.
E entendo as manobras dela e as minhas em certas ocasiões.

Beijinhos Bom Dia!

F.A. disse...

Buenas tardes por aqui, A.Mar!

Uma coisa que me ocorreu é que teu sonho e o sonho da Daniele tem uma estrutura muito parecida, o pano de fundo é muito, muito parecido. Me parece apenas que você está mais próxima de compreender um ponto a respeito de si mesma. Volto ao tema, pois me fez lembrar de um história da mitologia grega que eu acho muito importante para entender a questão do feminino.

No intento,

F.A.

Daniele disse...

Estou percebendo que a mudança engloba pais e também os mais próximos. sou filha única, mas minhas primas sempre foram muito próximas. Como eu sou a mais velha e nossas mães trabalhavam muito sempre teve uma certa projeção. Hoje, já adultas, ainda recorrem a mim. Fui percebendo o como isso ocorre, dando o famoso momento do silêncio para sacar tudo. E é muito interessante, sempre protegi uma da outra, quando algo acontecia já partia pra cima. E no almoço de dia das mãe aconteceu algo que me surpreendeu: Escutei as duas em meio a uma briga. Foi muito curador. E o problema não era nem pelo qual estavam brigando.
Quanto a meus pais também tenho observado minhas defesas e as defesas deles com relação a mim. E dia a dia procurando fazer diferente. Mas confesso que é mesmo o trabalho da árvore, lento. Mas hoje já consigo com maior frequ~encia perceber o momento de sair de cena, o momento de falar, o de calar. Rsrs.
E minha frase predileta. Vamos mudar de mundoooooooooo. Obaaaaaaa!!!!!!!!!!
"Isso é magia pura, parar de tentar mudar o mundo e mudarmos de mundo."
É isso o que eu sinto.
Grata pelos textos do Nuvem que passa.

Martyn disse...

é chato se identificar com esses textos da Sombra... já é um começo.

Fernando Augusto disse...

Hehehe...pai, mãe e família em geral são grandes treinadores, e nós para eles. Sem alcançar uma harmonia familiar não há como avançar no caminho iniciático, é necessário alcançar aquilo que Gurdjieff chamava de "bom dono de casa". Trata-se de deixar nosso tonal (mundo conhecido) organizado, limpo e leve para podermos adentrar no desconhecido ;-)

Vos amo, sou grato!

F.A.