A Arte da Espreita

terça-feira, 11 de outubro de 2011

"Os feiticeiros espreitam a si mesmos constantemente - comentou com uma voz reconfortadora, como se tentando acalmar-me com o tom de sua voz.

Desejei dizer que meu nevorsismo tinha passado e que provavelmente havia sido causado pela falta de sono, mas ele não me permitiu dizer coisa alguma.

Assegurou-me de que já havia me ensinado tudo o que tinha para saber sobre espreitar, mas eu ainda não recuperara meu reconhecimento da profundeza da consciência intensificada, onde o tinha armazenado. Disse-lhe que seria a desagradável sensação de estar arrolhado. Parecia haver algo trancado em mim, algo que me fazia bater portas e chutar mesas, algo que me frustrava e me tornava irascível .

- Essa sensação de estar arrolhado é experimentada por todo o ser humano. É um lembrete da existência de nossa conexão com o intento. Para os feiticeiros essa sensação é ainda mais aguda, precisamente porque seu objetivo é sensibilizar seu elo de conexão até que possam fazê-lo funcionar à vontade.

Quando a pressão do seu elo de conexão é grande demais, os feiticeiros aliviam-na espreitando a si mesmos.

- Ainda acho que não compreendo o que quer dizer por espreitar - falei. - Mas em certo nível penso que sei exatamente o que quer dizer.

- Tentarei ajudar você a esclarecer o que sabe, então. Espreitar é um procedimento, um procedimento muito simples. Espreita é um comportamento especial que segue certos princípios. É um comportamento secreto, furtivo, enganoso, designado a provocar um choque. E quando você espreita a si mesmo, você choca a si mesmo, usando seu próprio comportamento de um modo implacável, astucioso.

Explicou que quando a consciência de um feiticeiro ficava enredada pelo peso de suas aquisições perceptivas, o que estava acontecendo comigo, o melhor, ou talvez nosso único remédio, era usar a idéia da morte para proporcionar esse choque de espreita.

- A idéia da morte é de importância fundamental na vida de um feiticeiro - continuou D. Juan. - Mostrei-lhe coisas inumeráveis a respeito da morte para convencê-lo de que o conhecimento de nosso fim pendente e inevitável é o que nos dá sobriedade. Nosso engano mais caro como homens comuns é não se importar com o senso de imortalidade. É como se acreditássemos que , se não pensássemos a respeito da morte, nos pudéssemos proteger dela.

- Precisa concordar D. Juan que não pensar sobre a morte protege-nos de nos preocuparmos a respeito.

- Sim, isto serve a tal propósito, mas tal propósito não tem valor para homens comuns e representa uma caricatura para os feiticeiros. Sem uma visão clara da morte, não há ordem, nem sobriedade, nem beleza. Os feiticeiros lutam para ganhar essa percepção crucial de modo a ajudá-los a perceber no nível mais profundo possível que não tem segurança sequer de que suas vidas continuarão além do momento. Essa percepção dá aos feiticeiros a coragem de serem pacientes e no entanto entrarem em ação, coragem de aquiescer sem serem estúpidos. Don Juan fixou seu olhar em mim, sorriu e balançou a cabeça.

- Sim - continuou -, a idéia da morte é a única coisa que pode dar coragem aos feiticeiros. Estranho, não é ? Dá aos feiticeiros coragem de serem atenciosos sem serem vaidosos, e acima de tudo dá-lhes coragem de serem implacáveis sem serem convencidos.

Sorriu outra vez e cutucou-me. Disse-lhe que estava absolutamente aterrorizado pela idéia de minha morte, que pensava a respeito com freqüência, mas que certamente isso não me dava a coragem ou me incentivava a entrar em ação. Apenas me tornava cínico ou fazia com que eu caísse em estado de profunda melancolia.

- Seu problema é muito simples - disse ele. - Você fica facilmente obcecado.

Estive lhe dizendo que os feiticeiros espreitam a si mesmos para quebrar o poder de suas objeções. Há muitas maneiras de espreitar a si mesmo. Se não deseja usar a idéia de sua morte, use os poemas que lê para mim para espreitar a si mesmo.

- Como disse ?

- Disse-lhe que há muitas razões pelas quais gosto de poema - retrucou ele. - O que eu faço é espreitar a mim mesmo com ele. Provoco um choque em mim mesmo com eles.

Escuto, e enquanto você lê, calo meu diálogo interno e deixo meu silêncio interior ganhar impulso. Então a combinação do poema e do silêncio desfecha o choque.

Explicou que os poetas anseiam inconscientemente pelo mundo dos feiticeiros. Por não serem feiticeiros no caminho do conhecimento, os anseios são tudo o que tem.

(...)

...este incessante morrer obstinado,

esta morte vivente,

que te retalha, oh Deus,

em tua rigorosa obra

nas rosas, nas pedras,

nos astros indomáveis e na carne que se queima,

como uma fogueira acesa por uma música,

um sonho,

um matiz que atinge o olho.

...e tu, tu próprio, talvez tenha morrido eternidades de eras aí fora,

sem que saibamos a respeito, nos refúgios , migalhas , cinzas de ti;

tu que ainda estás presente,

como um astro imitado por sua própria luz,

uma luz vazia sem astros

que nos alcança,

escondendo sua infinita catástrofe.

" Quando ouço as palavras - manifestou-se D. Juan quando terminei de ler -, sinto que aquele homem está vendo a essência das coisas e posso ver com ele. Não me importo sobre o que seja o poema. Importo-me apenas sobre o sentimento que os anseios do poeta (filósofo) trazem até mim. Empresto seus anseios, e com eles empresto a beleza. E me maravilho diante do fato de que ele, como um verdadeiro guerreiro, derrame-o sobre os receptores, os espectadores, retendo para si mesmo apenas sua ansiedade. Esse impuxo, esse choque de beleza, é espreitar."


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A arte de espreitar é aprender todas as peculiaridades de teu disfarce, e aprende-las tão bem que ninguém saiba que estás disfarçado. Para consegui-lo, necessitas ser desapiedado, astuto, paciente e gentil . Ser implacável não significa aspereza, a astúcia não significa crueldade, ser paciente não significa negligência e ser gentil não significa ser estúpido. Os guerreiros atuam com um propósito ulterior, que não tem nada a ver com o interesse pessoal. O homem comum atua apenas se há possibilida de de ganância. Os guerreiros não atuam por ganância e sim pelo espírito.

Citações extraídas do livro O Poder do Silêncio, de Carlos Castaneda

10 comentários:

a.mar disse...

Não sei se pode ter alguma coisa a ver com morte, mas hoje a meio da tarde, vi-me na semana que vem a já não poder dizer até para a semana aos pacientes. Acaba o estágio.
Estou a gostar muito de estar a trabalhar ali... até me deu uma tristeza imensa de repente...
hoje acho que vou ficar a curtir esta tristeza um bocadinho a ver se a gasto logo... já estou com saudades... é um bocadinho o anúncio da morte...
É a minha primeira experiência de trabalho com a massagem, assim todos os dias, horário fixo, colegas de trabalho, o caminho para o trabalho, a farda, etc.
Até agora, na pintura, o trabalho é incerto, em lugares diversos, muito solitário, a maior parte das vezes e muito seco de relações e emoções. Era eu e a tela ou eu e a parede. Só comigo e as cores.

Hoje a minha Estrela é o brilho da lágrima que corre dos meus olhos...

Um Abraço!

F.A. disse...

Aloha, A.Mar!

O mistério da morte não nos deixa saber se estaremos aqui amanhã ou semana que vem ou em 2012.

Ela é a única segurança que temos.

Estar nessa consciência é uma liberdade em relação a todo e qualquer apego ou preocupação ou ansiedade.

A consciência da morte elimina o "e se..."

Uma frase pichada num muro lá do Rio de Janeiro sempre me chamou a atenção porque era parte de meu caminho para o trabalho:

Se a morte é certa o que temos a temer?

Nossa cultura de origem européia, ocidental, renega a morte em vez de usá-la como um elemento positivo de reflexão sobre a nossa maneira de viver.

No intento,

F.A.

Nana Odara disse...

Achismo... ou livre pensar...
Há por aí tantas pessoas se sentindo iluminadas e muito sábias, e não passam de seres doentes criando fantasmas de solidão pura com se animais de estimação fossem, do tipo dos fofinhos, q se põe no colo enquanto ve tv... Prefiro aprender alguma coisa observando um mendingo ou as formigas no meu quintal do q ficar olhando pasmada para pessoas q constroem falsos altares pra si mesmo, e acham q todos q não lhes prestam cultos são doidos varridos... Casa de bruxo não pode ter espelho? está em falta em alguns casos... Esse espreitar é fabuloso... imagino q alguns devam se espreitar bem devagarinho, pra não se assustar muito... se visse logo o tamanho da trave no seu olho entendia q não pode soprar o cisco do olho de ninguém...

esse espreitar anda em falta no mercado onde abundam os enviados divinos...

ja pensou se um dia o edir macedo acordasse e se visse ao espelho "nu"?
ou eu?
ou vc?
ui, que susto!!!

Eu só sei q nada sei... no dia q eu tiver o nariz muito em riste a achar q já sei, melhor q caia cocô de pombo no meu nariz... pra eu sentir o cheiro do verdadeiro saber... de máscaras o inferno está cheio... triste isso... tenho medo de ficar doida por querer aprender mais, como "o homem q sabia demais"... e como diz o gasparetto: como q vc vai ajudar alguém se vc está matando cachorro a grito?

esse blog é muito zen... e eu não sou muito...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk...

assim sendo, fica esse desabafo cá entre nós... mas tbm pode publicar se quiser... afinal se eu comentei era pra ser vista? pra ser lida? pra ter atenção? pra passar o tempo? por falta de um tanque de roupa suja pra lavar? pra fazer vc rir? ou ter compaixão de mais uma alma? todas as alternativas? nenhuma?

Abreijos aos dois

F.A. disse...

Aloha, Nana Odara!

Uma vez me deparei diante de um espelho. Uma situação comum, corriqueira. Estava diante de um desses espelhos de corpo inteiro e me dei conta por um momento que estava sonhando. Não estava nesta realidade ordinária, mas na dimensão do sonho, numa enorme sala que possuía como único móvel um espelho. Não sei porquê mas percebi que estava sonhando, fiquei consciente que estava sonhando e isso provocou uma forte emoção, uma grande alegria. Estava olhando para o espelho enquanto tinha essa emoção e me vi multiplicado por vários de mim ao mesmo tempo, vi no espelho que eu não era eu e sim muitos: meu nome é legião. Perdi a consciência de mim mesmo e do sonho.

Outra vez estava saindo de casa para o trabalho todo arrumado e apressado e pisei na merda pastosa e saudável daqueles cães bem nutridos das madames da zona sul de Ipanema. Parei num poste para limpar o sapato e recebo uma cagada voadora de um pombo que estava sobre o fio, próximo ao poste. Fiquei cagado de cima abaixo.

Na 2ª vez que usei uma planta de poder estava tão cheio de mim, porque tinha tido uma experiência maravilhosa na primeira vez, que não tomei certos cuidados e tomei uma peia monumental onde a única iluminação que tive foi compreender na prática a seguinte frase escrita pelo nagual Carlos Castaneda:

- Você vai entender o que é cagar no teto com a bunda estando no chão.

Segundo um mestre zen, que tentava explicar o zen para alguns intelectuais ocidentais, zen é um formiga copulando com um elefante (ou vice-versa).

Vou postar essa historinha completa depois...risos...é muito boa.

No intento,

F.A.

Nana Odara disse...

É isso mesmo...
qdo a gente se acha cospe pra cima... já viu né...

Quem acha q já tá pronto, prepara o escapulário e deixa o inventário pronto, funeral pago... pq sua hora chegou!!!

Quem tá aqui é tudo farinha do mesmo saco... somos todos um...

oanonimo disse...

Quando era criança, passava horas antes de dormir me confrontando com a morte, refletindo como tudo seguiria para o infinito e que nenhum problema poderia me colocar em infelicidade ou tristeza! Me sentia em estado de transe, era um estado de profunda descoberta, aonde os medos desapareciam com a maestria do intento.
Usar a espreita para "ver/sentir" as manifestações do infinito é maravilhoso, me faz invocar ótimas energias e manter a harmonia.
Os livros do Carlos Castaneda são marcos, me fazem sincronizar novamente, viver o agora e ter acesso a outras realidades por meio da prática!
Estou lendo "O poder do silêncio", ótimo livro, recomendo a leitura!

na paz!

F.A. disse...

Aloha, OAnõnimo!

Uma forma muito efetiva de compreender o ensinamento contido nos livros do nagual Carlos Castaneda e que nos dá ao mesmo tempo um sentido de sobriedade, energia e excelente condição física e mental é a prática da Tensegridade ou Passes Mágicos. Tais movimentos são a expressão corporal da visão de mundo ou da sintaxe dos xamãs do México Antigo, eles são as portas de entrada para o estado de ensonho, silêncio interior, espreita e intentar.

No intento,

F.A.

Rafael F.C. disse...

Será que falam o que gostaria de ouvir?
(sinto muito, eu te amo, me perdoa, sou grato)

Tayná disse...

Gostei muito deste texto... Sobre a arte de espreitar... Sobre os anseios dos poetas... Muito interessante.

Rafael S. Arpelau disse...

Pesquisou além depois do texto ?