O homem na gaiola

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Certa noite, o soberano de um país estava de pé, á janela. Estava cansado da recepção diplomática a que acabara de comparecer e olhava pela janela, pensando sobre o mundo em geral e nada em particular. Seu olhar pousou sobre um homem que se encontrava na praça, lá embaixo, aparentemente um elemento da classe média.

O rei começou a pensar como seria a vida desse homem. Imaginou-o chegando em casa, beijando distraidamente a mulher, fazendo sua refeição, indagando se tudo estava bem com as crianças, lendo o jornal, indo para a cama, dormindo e levantando-se para sair novamente para o trabalho no dia seguinte.

E uma súbita curiosidade assaltou o rei, esquecendo-se por um momento de seu cansaço. Que aconteceria, se conservassem uma pessoa numa gaiola, como os animais do zoológico?

No dia seguinte, o rei chamou um psicólogo, falou-lhe de sua idéia e convidou-o a observar a experiência. Em seguida, mandou trazer uma gaiola do zoológico e o homem de classe média foi nela colocado.

A princípio, esse homem ficou apenas confuso, repetindo para o psicólogo, que o observava do lado de fora: preciso pegar o trem, preciso ir para o trabalho, veja que horas são, chegarei atrasado! Á tarde, começou a perceber o que estava acontecendo e protestou, veemente: o rei não pode fazer isso comigo! É injusto, é contra a lei!  Falava com voz forte e os olhos faiscantes de raiva.

Durante a semana, continuou a reclamar com veemência. Quando, diariamente, o rei passava pela gaiola, o homem protestava contra o monarca. Mas esse respondia-lhe: “você está bem alimentado, tem boa cama, não precisa trabalhar. Estamos cuidando de você. Por que reclama? “Após alguns dias, as reclamações do homem começaram a diminuir e acabaram por cessar totalmente.

Passaram-se mais algumas semanas e o prisioneiro começou a discutir com o psicólogo, se seria útil dar a alguém alimento e abrigo; afirmava que o homem tinha de viver seu destino de qualquer maneira e que era sensato aceitá-lo. Assim, quando um grupo de professores e alunos veio um dia observá-lo na gaiola, tratou-os cordialmente, explicando que escolhera aquela maneira de viver. Disse-lhes que havia grandes vantagens em estar protegido; que eles veriam com certeza quanto era sensata a sua maneira de agir, etc. Que coisa estranha e patética, pensou o psicólogo. Por que ele insiste tanto em que aprovem sua maneira de viver?

Nos dias seguintes, quando o rei passava pelo pátio, o homem inclinava-se por detrás da gaiola, agradecendo-lhe o alimento e o abrigo. Mas quando o monarca não estava presente e o homem não percebia estar sendo observado pelo psicólogo, tornava-se impertinente e mal-humorado. Sua conversação passou a ter um único sentido: em vez de complicadas teorias filosóficas sobre as vantagens de ser bem tratado, limitava-se a dizer frases simples como: É o destino! E repetia isso infinitamente. Ou então murmurava apenas: é! 

É difícil dizer quando falou a última frase, mas o psicólogo percebeu que, um dia, o rosto do homem não tinha expressão alguma; o sorriso deixara de ser subserviente, tornando-se vazio, sem sentido. Em suas raras conversas, deixou de usar a palavra “eu". Aceitara a gaiola. Não sentia ira nem zanga; não raciocinava. Estava louco.

Naquela noite, o psicólogo instalou-se em seu gabinete, procurando escrever o relatório final. Tinha dificuldade de encontrar termos corretos, pois sentia um grande vazio interior. Não podia afastar a idéia de que alguma coisa se perdera e fora roubado ao universo naquela experiência. E o que restava era vazio.

Rollo May, O Homem a procura de si mesmo.

5 comentários:

Nancy Passos disse...

Obrigada !

Beijo,
Nancy

F.A. disse...

Imagine. Imagine que não há mais carma. Então não há mais dívidas emocionais, nem espirituais, nem quaisquer tipos de dívidas. Se não há mais passado também não há mais futuro. Apenas imagine isso, sinta isso, não argumente sobre isso. Se não há mais carma, não há mais destino. Não há necessidade de perdão, nem de esperança. Se não há mais carma, destino, necessidade de perdão, nem de esperança, o que é de você? Como você se sente? O passado se foi e o futuro já não pode ser, há apenas um momentum. Um momento especial onde não há culpa, nem acusação. Você caminha sentindo a brisa e torna-se a brisa. Você ouve o vento e vai com ele. Não mais carma, não há mais lei. Não há mais deus ou deuses, apenas você, vagando por aí, andando sobre a Terra no meio do Infinito. Como você se sente?

a.mar disse...

...e se eu comentasse em branco?

Descobri que não posso fazer um comentário em branco. Este sistema não deixa.
O vazio não serve para comunicar aqui.

Olá, Boa Tarde!
Como é que me sinto?
Não faço a mínima idéia!
Nem sequer se sente alguma coisa porque não se terá noção de nada, nem nada com o que comparar para descrever, nem escrever porque não há palavras.
Um homem vazio ainda é um homem?
O que é um homem sem a expressão?

F.A. disse...

Aloha, A.Mar!

É justo o espaço, esse vazio, que permite as palavras. Ele, o vazio, também está entre as palavras e lhe dá sentido e permite que elas se manifestem. O próprio contorno de cada letra está rodeado de um enorme espaço, um silêncio que permite ao som e a palavra existir.

No intento,

F.A.

a.mar disse...

A utilidade do pote está no seu vazio.