Sonhar

domingo, 15 de junho de 2014

O sonhar (o controle deliberado e consciente dos sonhos, termo usado dentro da linhagem xamânica de Carlos Castaneda) é o caminho para sair do ostracismo energético, do isolamento psíquico pois ele te proporciona a oportunidade de encontrar os "seus", o seu grupo nagual, a sua turma em termos de configurações energéticas, gente que ao se unir gera uma energia, uma alegria e uma calma que dão o impulso tão necessário para irmos além de nós mesmos e escaparmos da matrix ou do sonho do planeta - F.A.

O tema do sonhar é de grande interesse. Poderíamos começar definindo o que é sonhar. Para o xamanismo, sonhadores são os(as) que atuam conscientemente com o corpo de energia. Temos esse corpo físico que desenvolvemos, melhor dizendo, que se desenvolve até o estado maduro, depois começa a envelhecer e "morre", isto é, deixa de atuar com a força da vida, deixa de existir enquanto organismo e retorna a entropia, retorna ao solve para depois coagular em outras formas.


Existe outra parte nossa, outra "natureza" que para ser desenvolvida necessita trabalho consciente, embora algumas pessoas tenham um "talento sonhador" em estado latente.


Operamos na realidade cotidiana com nossa natureza física, atuamos com nosso corpo e este atuar também é "mais ou menos" pois atuamos com pouca consciência do que é realmente nosso corpo, das imensas possibilidades que trazemos.


Existem disciplinas como o Rolfing, os trabalhos de Moshe Fedelkreins, Mathias Alexander, Gurdjieff e outros que lidam com esta questão do uso limitado e robótico que fazemos de nosso corpo, como tensionamos partes desnecessárias, como usamos mal nosso corpo e como temos pouca consciência do mesmo.


Mas apesar de tudo isso o corpo físico é que nos dá esta sensação de continuidade, quando acordamos todas as manhãs vamos nos lembrando de coisas que já foram e temos uma solução de continuidade, algo que gera o que chamamos "eu".


Nos sonhos comuns a consciência é errática, não há solução de continuidade, não há uma "vida", mas várias ocorrências, em mundos espectros ou mesmo fugidios mergulhos em realidades efetivas, mas sem o corpo de energia ter sido totalmente desenvolvido estamos apenas vivenciando erráticos deslocamentos do ponto de aglutinação.


Assim como o corpo cria o sentido de existência nessa realidade, o corpo de energia, o corpo "sonhador" cria a continuidade que permite a percepção operar com foco e precisão em mundos outros que não esse.


Quando sonhamos estamos em outra condição da realidade, demos um salto quântico, mesmo que andemos pelos lugares daqui, até que o corpo de energia esteja plenamente pronto e sejamos capazes de sonhar com este mundo, nossas incursões aqui são feitas como entidades de energia.


Um dos problemas chaves da viagem para outros estados de ser é que quando existimos enquanto entidade energética pura perdemos a habilidade de atuar sobre a matéria dessa dimensão.


Entes diversos que se projetam através dos mundos passam pelo mesmo.


Atuar no mundo físico a partir do corpo energético se faz possível apenas quando "sonhamos acordado" , ou seja, atuamos num estado de consciência onde o ponto de aglutinação se desloca para uma posição onde o corpo de sonho e o corpo físico se fundem, tendo um partilhado o poder do outro.


Esse estado é conhecido como "fundindo as duas identidades" e é atingido após um longo caminho de disciplina e trabalho.


Por isso quando assistimos filmes como "O tigre e o dragão" fica parecendo pueril e exagero o estilo de luta dos adeptos do estilo interno, quando na realidade estão apenas operando com outros níveis, mais que o corpo apenas, embora este profundamente treinado seja a porta primeira para esse estado.


Quando comecei a trabalhar com o corpo de sonho usava a idéia de olhar em lugares onde não olhava, em cima de um guarda roupa, na face superior de um lustre, em cima da porta, o desenho da madeira ali, em cima do telhado, para depois ir no outro dia ver se o que vi estava lá.


Muito interessante essa idéia de mexer os objetos enquanto no corpo de energia. Apenas o cuidado de não ficar absorvido me parece recomendável.


Quando no sonho estamos sempre noutra camada da cebola, pois estamos noutra condição de realidade e de percepção.


Afetar esta realidade a partir de outra realidade é possível?


Pelo que me contaram da história dos antigos povos que desenvolveram sofisticadas civilizações, vivendo nestas camadas da cebola, o fato de atuarem apenas nestas outras camadas os levou a deixar de lado este aspecto da realidade.


Quando os povos invasores vieram a grande maioria foi dizimada, a casca grossa dos limites perceptivos destes conquistadores não permitia que a percepção destes (as) feiticeiros deslocassem seus pontos de aglutinação para posições onde vivenciariam o poder do (a) feiticeiro.


Protegidos por uma mente que limita e veda a percepção atacaram com ferocidade e civilizações inteiras quase foram dizimadas.


Mais tarde outros conquistadores viriam, ainda mais violentos e destruidores.


Cá estamos na civilização resultante destas ondas de conquista.


Sabemos quem perdeu as batalhas.


Só os (as) dotados (as) de poder pessoal conseguiram sobreviver, com eles (as) a magia funcionou.


Poder pessoal parece ser a chave da ponte entre o corpo de energia e o corpo físico.


Tudo isso que falei é a opinião de um homem falando do sonhar.


Para as mulheres é completamente diferente, tendo útero as mulheres sonham diretamente, sem toda essa elocubração que nós homens nos enredamos.


Mas tal compreensão tem seu valor também, a mente é um escudo eficiente frente aos ataques da ETERNIDADE.

Nuvem que passa

9 comentários:

a.mar disse...

Olá, Nuvem que passa!

Ontem estava a observar um senhor que eu estava a acompanhar até à marquesa do tratamento. Ele ía muito devagar, com muita dificuldade arrastava um e outro pé. Um braço não mexia e o outro meio deformado a pegar na bengala.
Este cérebro assimilou este corpo e esta pessoa não tem vontade de mudar isso, está a viver esta experiência. Ele não quer sair dali. Por mais que a fisioterapeuta se esforce.
Este espírito e este corpo estão a viver o seu tempo. Um condiciona o outro.
Nós temos muitas vezes a noção que curamos as pessoas, mas o que as cura é a sua própria vontade. Quantas pessoas já me passaram pelas mãos (e não passaram porque) que não se querem curar, estão agarradas aquela fisicidade espiritual.

Estou a ler o livro de que falaste aqui "Porta para o infinito".
Vou entrar no capítulo em que preciso acreditar.
Ai... como eu sou desconfiada em relação a tudo... como eu ponho tudo em questão... mas isso também é meio caminho andado para saber que tudo é muito mais do que aparenta ser.
A curiosidade e a insatisfação em relação aos vários assuntos com que nos deparamos no dia a dia leva-nos a abrir a nossa cabeça. O nosso corpo torna-se mais fléxivel e mais fácil é ultrapassar os limites que o nosso quotidiano desenhou nele.
Ao fazer yoga percebi que o corpo está mesmo muito limitado pelo uso que lhe damos quotidianamente e que estes exercícios em que alongamos para além do habitual (que provocam muitas dores) nos mostram isso mesmo, o quanto estamos limitados.
(quotidiana mente... eh eh)

Interessante isso de sonhar ser diferente para o homem e para a mulher (menos os cavalos marinhos, esses são os machos que geram dentro deles a cria).
Ainda não fui mãe, ainda não sei o que isso de útero criativo, gerador de sonhos.

Um Abraço de Bom Dia!

F.A. disse...

Aloha, A.Mar!

Curiosa a sua observação. A vontade de mudar isso...

É natural que um homem queira se curar, não? Pois a saúde é a nossa condição natural, estamos sempre buscando o bem-estar, o equilíbrio, a felicidade e quando olhamos para a Natureza é o que vemos: uma contínua vontade de mudar para a manutenção da homeostase: dia e noite, as estações, as fases lunares, o giro do planeta, o espiralar das galáxias e a dança atômica do elétron em torno do núcleo como um micro Vishnu.

Por outro lado talvez aquele homem tenha apenas uma vontade: a vontade de morrer pois morrer também é mudar e vontade, mudar de condição, abandonar o corpo velho e adoentado, tal como a folha outonal que não se sustenta mais na árvore e vem ao funeral do chão.

Talvez aquele homem pense que morrer é a sua única chance de mudança por que a intenção cega do mundo diz para todos nós que inevitavelmente teremos que enfrentar a decrepitude do corpo e, então, esse homem sem outra opção, entrega-se. Entrega-se para a única opção que o mundo oferece, morrer. Isso é o que o mundo acredita ou nos faz acreditar, que a morte é uma inevitabilidade.

Quando um médico disse para a minha mãe, quando eu era criança, que devido ao câncer mamário, ela só tinha seis meses de vida, ela não aceitou isso como única opção. Ela desafiou a palavra do médico, a autoridade científica e o doutorado alheio. Ela resolveu fazer uma outra opção, que não a opção do mundo, uma opção pessoal, baseado num intento próprio. E isso foi mais do que acreditar, isso aproximou-se do que os xamãs chamam de "TER DE ACREDITAR". E ela viveu por mais 30 anos.

Ter de acreditar é contemplar todas as opções e escolher aquela que lhe é mais interessante, não como fuga ou auto-engano, porque você contemplou todas as opções que haviam, mas por uma predileção pessoal.

Isso levou tais xamãs ao conhecimento que a morte não é uma inevitabilidade, mas um caminho para o sublime, assim o caminho de tais xamãs, que é chamado de o caminho do guerreiro, também ficou conhecido como o caminho dos desafiantes da morte. Não por que eles são loucos, e sim porque através de seu intento afiado eles contemplam as possibilidades da razão e as que existem para além dela.

Sua desconfiança é fundamental, inclusive para questionar as certezas do mundo. Por nada ser certo para os xamãs é que eles podem contemplar as vastas possibilidades.

Para eles o útero é um segundo cérebro, que não estando condicionado pelo processo de socialização pode permitir a mulher que ela entre em partenogênese de si mesma, ressurgindo como uma fênix que ruma para o Infinito e realizando suas vastas possibilidades perceptivas.

No intento,

F.A.

obs: O Nuvem que passa não está mais nessa realidade, opera numa outra faixa de consciência e manda para você um aloha! Que é ao mesmo tempo oi e tchau. Além de outros significados mais ricos que valem a pena ser conhecidos.

a.mar disse...

Olá!

As pessoas encontraram a sua homeostase na doença.
A doença é a sua bengala para a vida, é o passaporte para a atenção dos outros, etc.
É verdade que se entregam à espera da morte, mas muitas vezes não é o que querem, porque em momentos críticos agarram-se à vida. Críticos mesmo, que penso mesmo: o que é que está a agarrar esta pessoa à vida? o que ela está aqui a fazer ainda?
Mas isso é outra história...

Hoje, aos bocadinhos, tentei imaginar as coisas vistas por outros ângulos, fora dos meus olhos.
Como é díficil sair daqui de dentro...
Tinha a sensação que dantes vivia sempre no mundo das ilusões (parece que afinal estamos sempre neste estado) e dos sonhos, muito afastada do presente.
Agora que cheguei aqui ao presente falas em sonhar...
Este sonhar é o quê? É para quê?
Qual é a finalidade de chegarmos a outros estados de consciência?
A onde nos leva o auto-conhecimento?
Sonhar é muito parecido com sou no ar...
Não tenho dúvida que sonhar a dormir tem sido uma parte importante da minha vida. Lembro-me de sonhos que tive quando era pequena, tão bem como lembranças de vivências, que são muito poucas.
E ultimamente os meus sonhos são muito acerca de algo que pensei nesse dia ou na véspera, bastante parecidos com a realidade, sem ficção ou efeitos especiais.

Bem vou trabalhar mais um bocadinho, massagem ao meu tio,
está com cancro, já se está a começar a espalhar pelos ossos, caminha a passos largos.
Ele não sabe, ainda não tem muitas dores.
É uma massagem muito leve, a terapia da presença e do acompanhamento é a principal.
Até logo!

F.A. disse...

Aloha, A.Mar!

Aprofundamos mais tarde, mas como as questões de saúde são urgentes talvez isso ajude o seu tio:

A vida está nas suas mãos.

Sugestivo para quem faz delas um meio de cura.

Eis o link:

http://alimentacaoviva.blogspot.com/2008/11/sua-vida-est-nas-suas-mos-pela.html

No intento,

F.A.

F.A. disse...

Aloha, A.Mar!

Agora mesmo estou a sonhar, mesmo de olhos abertos, escrevendo nesse teclado de bits e bytes. E pode ser que tu estejas a sonhar, de olhos fechados, a escrever em teu computador.

Dentro ou fora tudo é sonho. E isso me foi revelado num sonho dentro de outro sonho quando uma voz me disse:

Tudo é ilusão, estar consciente da ilusão é poder.

Pode-se controlar o sonho então nos tornamos aquilo que somos, sonhadores.

Quando não temos controle do sonho somos apenas o sonhado.

A chave é controle de nós mesmos, de nossa atenção, uma disciplina muito fina, artística mesmo da sabedoria ancestral e indígena.

Para eles nós somos o sonhado que pode se tornar sonhador, assim para eles, e para mim, perguntar para que serve o sonhar é como perguntar para que serve o viver.

O sonhar dos xamãs não é o mesmo sonho comum e corrente que é projeção da mente inconsciente.

O sonhar dos xamãs é um despertar, um acordar para um outro nível de atenção porque para eles vivemos todos distraídos, a tal ponto que nem se quer divisamos a fronteira entre um sonho e outro. Não temos consciência de nós quando sonhamos porque não estamos conscientes de nós quando acordados. Isso parece absurdo para o senso comum, mas esse senso comum é apenas um condicionamento mental que não percebe a si. A prova irrefutável é que não temos controle de nós mesmos no sonho e nem se quer entendemos as mensagens cifradas do inconsciente.

Estamos encerrados no castelo da mente enquanto o desconhecido explode em bombas a nossa volta querendo nos chamar a atenção, querendo romper nossa rígida percepção racional.

A chave é uma certa qualidade da atenção, estarmos na presença e nós mesmos, a disciplina do aqui e agora.

É algo difícil de explicar não porque seja complexo, mas porque parte de uma visão de mundo muito diferente da visão oficial da realidade.

Bons sonhos e despertares,

No intento,

F.A.

a.mar disse...

Bom Dia!
Aliás, aqui já é tarde, 12h20.

Ontem o meu tio falou-me dum sonho que teve com pintainhos lá no canto do quarto.
Engraçado como falamos aqui de sonhos e ele contou-me o que tinha tido de noite, assim por acaso.

Isto dos produtos lácteos é interessante. Nós continuamos a beber leite depois da nossa mãe já não ter para nos dar.
De facto, há-de conter substâncias bastante nutritivas para o crescimento e nós apartir de certo momento paramos de crescer.

E falando em sonhos, esta noite sonhei com a sombra de uma pessoa a andar de bicicleta projectada na Lua e acordei estava a Lua na minha janela.
ontem contei ao meu tio o sonho que tinha tido mais engraçado que tinha sido com um contentor do lixo a andar de bicicleta numa avenida aqui de Torres Novas.
Primeiro eu vi-o passar à minha frente. Depois quando embateu contra uma parede já era eu que ía em cima da bicicleta. Não sei até que ponto eu estaria a sentir-me um lixo, já foi há muitos anos, não me lembro do que estava a viver.

O meu quarto tem uma orientação muito boa para apanhar banhos de Luar. É um privilégio ser acordada pela Luz da Lua.

Há uns tempos, num sonho a dormir, tive a nitida sensação de me deixar levar pela minha vontade de voar, sem medo. Não pús entrave nenhum. Ía a voar com a minha carrinha no céu. Como uma nave.

Vou tentar perceber melhor esse sonhar acordado controlado.

Obrigada pela tua atenção.
Um Abraço!

Martyn disse...

A Arte de Sonhar - Carlos Castaneda

http://www.viagemastral.com/gva/viewtopic.php?f=9&t=9684

Mikkan Ponkkan disse...

Olá,
Por falar em útero, gostaria de saber o quê os ensinamentos xamânicos dizem a respeito de gerar filhos. Faço a pergunta pois já tenho um filho e qdo decidi tê-lo foi porque senti muito desejo de gerar um filho. Sinto algumas pressões a respeito do segundo filho: A idade uterina, pressão de familiares e amigos. Gostaria de sentir a mesma vontade de ter como tive no primeiro filho... mas no momento não sinto vontade de planejar o segundo...

Gostaria de saber os pensamentos xamânicos a respeito de filhos.

Obrigada

Fernando Augusto disse...

Olá, Mikkan!

O Xamanismo é plural, isto significa que dependendo da linhagem, do clã a que se pertença ou da trilha que se percorra dentro do Xamanismo haverá ensinamentos específicos para os praticantes daquela trilha.

Em geral ter filhos é visto como um momento de poder e realização da mulher e do homem.

É princípio geral no Xamanismo nós respeitarmos a vontade real de nosso corpo, pois há nele uma sabedoria, então se você não sente a vontade corporal de ter outro filho você deve respeitar antes de tudo esta "vontade", afinal o corpo é o templo onde o espírito manifesta-se.

De forma bem simples e resumida é isto.

Vos amo, sou grato.

F.A.