As Testemunhas do Nagual - Prólogo

sexta-feira, 31 de julho de 2009

O editor solicitou meu testemunho para um livro sobre Carlos Castaneda. Minha opinião é que já entreguei tudo o que podia em meu livro “Encontros com o nagual”. De maneira que, no lugar de lhe conceder uma entrevista, me ofereci para realizar o prólogo desta obra.


Antes de tudo, gostaria de felicitar aos participantes pela decisão de tornar públicas as memórias e experiências vividas com Castaneda. No meu modo de ver, essa é uma forma de lhe agradecer o que recebemos, e ao mesmo tempo reconhecer o titânico trabalho que ele levou a cabo para nos ajudar a tomar consciência de nossas possibilidades ocultas.


Carlos nos ensinou que somos livres para empreender nossa própria batalha pela evolução, e que o que importa é saber escolher em quais batalhas nos convém entrar e quais não. Nesse sentido, ele trabalhou ativamente, tentando nos convencer a aceitar o caminho dos guerreiros, o caminho da atitude impecável diante da vida. Também aplicou em nós técnicas que foram elaboradas pelos antigos feiticeiros do México para nos ajudar a apagar nossa importância pessoal, entrando num caminho de economia energética e auto-realização.


Um de seus ardis favoritos era nos cortar da lista de convidados. Creio que, a esse respeito, quase todos que estivemos próximos a ele temos nossas histórias. A minha aconteceu justamente no início de nossa relação, numa época em que eu andava buscando mestres para me orientarem. Sentia-me muito feliz de poder assistir a suas palestras, e também orgulhoso porque, de alguma forma, tinha ou acreditava ter um acordo secreto com ele.


Tudo aconteceu repentinamente, quando soube que Carlos havia estado no México e dado uma conferência na catedral, e eu não tinha sido avisado. O incidente se repetiu outras duas vezes.


Primeiro, tive uma terrível sensação de desconcerto, de abatimento. Lembro-me que passei longas horas conjecturando qual poderia ser o motivo pelo qual o nagual estava me dando as costas dessa maneira. Tinha eu feito algo de errado?


Um dia, bateram à minha porta e, para minha completa surpresa, era ele. Convidou-me a jantar numa churrascaria de que gostava muito. Enquanto conversávamos, queixei-me de que ele já não me chamava para suas reuniões. Ele riu, falou sobre o pássaro da liberdade, e me deu a entender que, se eu não levasse a sério seus conselhos, poderia perdê-lo para sempre.


Desde esse dia, aprendi a dar o melhor de mim no que quer que o nagual me sugerisse. Nunca lamentei essa decisão, já que me ajudou de forma determinante em meu caminho.


Meu conselho aos buscadores do conhecimento é que não sejam apenas guerreiros de escritório, envelhecendo ao som de contos de poder protagonizados por outros. Atrevam-se a experimentar! Carlos nos deixou seu conhecimento, nos presenteou com os exercícios de Tensegridade para preparar nossos corpos físicos e energéticos para o que virá, e nos disse que a liberdade não é um objetivo teórico, mas uma possibilidade real ao alcance da mão.


Ainda que não acreditemos em todos os postulados dos naguais, isso não tem nenhuma importância, porque o que nos liberta não são as crenças, e sim o fato de começarmos a agir, economizando energia e sendo impecáveis. Isso modifica tudo.


Uma das coisas que aprendi em meus passos por esse mundo é que cada um de nós é um bruxo em potencial, quer saibamos ou não. No mais profundo de nós há um ser que sabe com uma voz silenciosa. Já conhecemos o caminho, fomos testemunhas de eventos prodigiosos e basta recordá-los para recuperar nossa dimensão mágica.


Também aprendi que, para que nossa vida valha a pena, é preciso fazer dela algo especial, porque viver de forma medíocre e tediosa não é nosso destino. O que nos impede de dar um passo além do comum? O que importa é converter nossos sonhos em realidade, e viver a vida forte do guerreiro que tem um propósito e sabe como alcançá-lo.


Nunca é tarde para empreender a batalha pela consciência. Enquanto estamos vivos, sempre há uma possibilidade para retornar no caminho e reclamar de volta aquilo que por direito nos pertence: nossa plenitude energética, a herança guerreira, a capacidade de nos assombrar e maravilhar, para assim penetrar na aventura do desconhecido.


Tomar a decisão de aceitar os preceitos do caminho dos bruxos é somente a metade. Depois disso, vem o trabalho duro: nos transformar, de simples humanos, cheios de debilidades, em guerreiros impecáveis com pleno controle sobre si mesmos. Isso se consegue através de uma revolução interna, em que o ser que vai morrer luta destemidamente para cumprir com sua parte na tomada de consciência.


Deixo meu reconhecimento a cada um dos amigos que narram aqui suas histórias junto ao nagual. Carlos dizia que enquanto há memória, há consciência, e eu creio firmemente que, com esses relatos, não só estamos reconhecendo o que dele recebemos, como também contribuindo para o engrandecimento da obra que ele começou. Estou certo de que ele gostaria de verificar como seus aprendizes se põem de acordo para reconstruir “o mapa”, e empreendem um trabalho conjunto que só pode ser qualificado como o ressurgimento do nagualismo como um fenômeno social.


Agradeço ao Espírito por me haver dado a oportunidade de participar deste trabalho e poder compartilhar o conhecimento do plano cósmico para a evolução da nossa espécie. Vejo a chegada de um tempo quando o ser humano poderá buscar livremente, experimentar sem pressões e encontrar seu caminho neste labirinto de energia. Vejo nascer um homem novo, mais preocupado com seu destino como ser que vai morrer do que com as exigências da ordem social.


O nagual não morreu. Carlos partiu para essa fantástica viagem em que todos nós embarcaremos algum dia, mas o nagual permanece, posto que é imortal.


Com desejo de plenitude para todos,


Armando Torres.

3 comentários:

JOCAOSP disse...

adorei seu poste parabens.
meunagual

CÍRCULO DE IPANEMA disse...

Como posso estudar com um nagual, ou alguem com a sabedoria? acredito na necessidade de mestres.

Fernando Augusto disse...

A presença do nagual não é uma escolha pessoal ou humana, depende de forças impessoais que os naguais definem como o Poder, ou o Espírito ou o Mar Escuro da Cosnciência. Quem sabe é teu destino encontrar um nagual? Mas se não for é teu próprio poder pessoal o teu mestre, aliás o termo mestre não é tão usado quanto o termo benfeitor, um termo mais de acordo com o espírito dos naguais.

Sinto muito, me perdoa, te amo, sou grato!

F.A.