Crise de identidade - 2ª parte

terça-feira, 14 de julho de 2009

Vou aproveitar o tema e o texto abaixo da Claudinha, sob outra perspectiva.

Depois de tanto tempo na prisão (feita de papéis rígidos) estamos sofrendo de síndrome de liberdade?

Ou será que as exigências do mercado global estão nos tratando a todos como produtos com necessidades sexuais, emocionais e mentais onde o cliente-produto escolhe no balcão o que deseja e isso, ainda assim, nos deixa insatisfeitos, porque não há boneca inflável ou vibrador que substitua o amor?

Se ser homem ou mulher é uma construção social não há uma identidade por si mesma que defina os gêneros. Tal compreensão permite uma liberdade com a qual não estamos acostumados.


Mas essa compreensão pessoal é a outra face da apreensão geral.


Um amigo liga para o outro e diz:


- Estou deprimido.


- Por quê?


- Ninguém gosta de mim...


- Mas nem você mesmo?


- Nem eu mesmo.


- E de quem você gosta?


- Mas a questão não é essa! - E desliga o telefone.


Estamos encarcerados dentro de nós mesmos e não queremos salvar-nos mas que nos salvem, que nos amem, que gostem de nós. Um velho dilema sob novas roupagens que o mercado não resolve. Não sabemos quem somos e esperamos que os outros nos definam, isso fica claro nas relações, em particular na relação homem-mulher.


A liberdade de ser é a liberdade de não estar preso a nenhuma identidade.


Mas isso não significa não ter identidade, ficar em cima do muro, omitir-se ou não responsabilizar-se pelas decisões, posturas e atitudes diante do outro e da vida.


Identidade é uma coisa e estar identificado com um padrão arbitrário é outra.


Talvez nunca tenha ocorrido identidade real de gêneros mas apenas identificação forjada institucionalmente sobre o que é ser homem e ser mulher.


E como as instituições ficaram, estão e ficarão cada vez mais abaladas, as máscaras e identidades forjadas também caíram, caem e cairão por terra.


Significa que a partir de uma identidade construída socialmente (que é apenas uma máscara e não nossa identidade essencial) e desconstruída individualmente, através do trabalho sobre si, surge um novo ser, com uma nova identidade, que é mais ampla e mais flexível que a anterior.


Vou dar alguns exemplos simples:


O Félix, goleiraço da copa de 70, alguém imaginaria tal goleiro batendo faltas?


Hoje há goleiros batendo faltas e cobrando pênaltis mas isso não os faz menos goleiros, antes faz com que sejam jogadores mais completos.


Homens cozinhando e cuidando da casa e criando os filhos enquanto a mulher trabalha.


Alguém imaginaria tal coisa nos anos 70? E isso hoje acontece, isso os torna menos homens? Absolutamente não.


A violência é um subproduto da perda das máscaras. Pois o que salta de forma aterrorizante quando cai a máscara é a sombra da ira, da frustração. A violência é a perda do sentido falsamente contido na velha ordem que vai e se esvai. A pedofilia surge como a forma mais pervertida de resgate da essência onde acabamos por destruir o que mais amamos e desejamos.


O que ocorre é que hoje homens e mulheres estão perdidos porque não há mais papéis rígidos definidos para os gêneros. O desafio é buscar a identidade essencial, real, original, seja ela qual for. O que é ser homem? O que é ser mulher? O que é ser? Quem eu sou?


E essa liberdade assume uma polaridade. Liberdade pode nos levar por dois caminhos, o dilema do arcano 6 do Tarot, de certa forma: responsabilidade ou permissividade.


A liberdade envolve escolha e escolha sempre envolve renúncia e assim a liberdade enquanto opção diante de possibilidades exige sempre que enveredemos por um caminho em detrimento de outro, ocorre aí uma exigência de não olhar para trás, porque pela frente surgirão sempre novas decisões.


Liberdade é o reino das decisões.


E mesmo não decidir é uma decisão que cede poder e que se torna uma cessão de poder para quem por nós decide. Anular-se, anular o voto, omitir-se sob qualquer forma concede poder a outrem. Uma coisa é não querer jogar o jogo pelas regras que aí estão e outra é omitir-se e não lutar por novas regras do jogo denunciando a farsa do jogo atual.


Permissividade é o reino da sacanagem, onde a decisão tomada não é honrada pela ação e sim desvirtuada por tal sob a justificativa da liberdade, quando sou apenas escravo do meu próprio ego que num momento quer algo e num outro momento já quer algo diferentes e no meio de todas essas vontades não se pode honrar a vontade original, a decisão primeira.


Assim o que é ser homem ou mulher deve ser uma decisão nossa e não mais uma construção social imposta por uma ou outra instituição.


Uma decisão que devemos assumir com inteira responsabilidade, sem delegá-la a instituição A ou B e sem justificá-la pela falsa idéia de que tudo posso, pois se a lei da liberdade diz: Faz o que tu queres, é preciso que haja um ser verdadeiro, um “tu”, um ser real e maduro, capaz de querer de fato e na uma criança mimada a brincar no jogo do desejo sem saber o que quer de fato.


Assim homens e mulheres estão perdidos porque não sabem qual o seu real desejo, seu desejo se oculta em si mesmo, é como um desejo de completude que busca a resposta fora de si, sem perceber que a completude é um mistério do ser, de cada um.

2 comentários:

Nana Odara disse...

Engraçado como de vez em qdo os blogs ficam alinhados em assuntos parecidos... não, acaso já não é... ora bem... eles andam aí...

Cláudia Mello disse...

Oi, Nana Odara

Pois então... Em especial quando o assunto passa pelo sagrado feminino acontecem tais sincronias. Não é a toa que as mulheres que convivem diariamente costumam menstruar juntas.

Há um tempo atrás me comprometi em sempre trazer um texto sobre o feminino para o Pistas e o bacana tb é a democracia que reina nos nossos blogs, pois tanto o F.A. dá outras versões de algumas postagens minhas no Via, quanto eu lanço aqui alguns conceitos que não são endossados por ele.

Percebo (e inclusive comentei na resposta que dei na postagem anterior) que homens e mulheres estão insatisfeitos com a situação que existe neste universo masculino/feminino, mas ambos ainda possuem idéias e percepções bastante divergentes. Viva a diferença, claro! Mas creio que um dia ainda chegaremos ao equilíbrio dessas diferentes visões através da prática da convivência harmônica.