Crise de identidade

terça-feira, 14 de julho de 2009

Nas consultas de tarot que faço, em sua grande maioria para mulheres, tenho escutado constantemente a seguinte pergunta: "o que está acontecendo com os homens?" E em alguns momentos eu confesso que fico sem ter o que responder. Mas para falar sobre isso, tenho que voltar um pouquinho a história e tentar compartilhar algumas percepções que venho tendo.

Não é novidade que homens e mulheres andam passando por uma crise de identidade. Já saímos há décadas da guerra dos sexos, provavelmente agora estamos na guerra fria (frígida e impotente também). Tenho visto muita teoria, muita conversa psico-modernosa, muita demagogia do tipo "somos mulheres da nova era, somos irmãs e não brigamos por causa de homem" e muito papo cabeça, mas o que vejo na hora do "vamos ver" é algo muito básico, com pequenas variações: de um lado, mulheres a beira de um ataque de nervos, de outro homens se equilibrando eternamente em cima do muro.

Primeiramente, acho que vale a pena descrever um pouco as variações sobre o mesmo tema, até para exercitar o rir de si mesmo e relaxar com as desventuras do ser humano.

As mulheres a beira de um ataque de nervos se apresentam em diversas variações. Existem aquelas que estão, de fato, totalmente desequilibradas. Elas respiram, comem, bebem, vivem o objeto do seu desejo. Seriam capazes de cometer as maiores atrocidades para conquistar o homem amado, se tivessem a garantia do anonimato. Elas podem estar casadas com esse homem ou podem ser "a outra" e, acreditem, elas podem nunca ter tido nada com ele, mas ainda assim esse homem consome cada minuto do seu dia.

Existem as mulheres que são as amantes eternas, das eternas promessas de separação. Existem as mulheres que não aguentam mais esperar por um homem que encarna o "vir a ser" de uma forma perfeita: o cara parece estar profundamente interessado naquela mulher, mas é incapaz de dar o primeiro passo. Existem as insatisfeitas de plantão, para elas nada, nunca, está bom, não importa o que o cara faça, elas torturam ele mentalmente com pilhas e pilhas de cobranças. E, claro, existem aquelas que na falta do que fazer ficam cobiçando os homens alheios... são uma versão humana do cachorro que corre atrás da roda do carro e quando o carro pára ele não sabe o que fazer.

O que todas essas mulheres têm em comum? Elas estão profundamente insatisfeitas; elas projetam no homem a possibilidade de serem felizes; elas acumulam uma ansiedade tão grande que não conseguem simplesmente viver um dia de cada vez; elas transferem, muitas vezes, a responsabilidade da sua infelicidade para outra mulher (a esposa do cara, ou a amante do cara, ou a mulher pela qual o cara está interessado) porque é mais fácil ter raiva de outra mulher do que do homem que elas querem/amam.

O que difere umas das outras? Algumas ficam na condição de coitadinhas infelizes; outras querem vigiar cada passo do cara e tornam a relação impossível; outras ficam quietas, perplexas diante do que acontece (ou não acontece); outras abrem guerra contra todas as mulheres, acreditando que se detonarem a "concorrência" terão acesso mais fácil ao "público alvo" e algumas, claro, usam de magia e outras técnicas de efeitos especiais para detonar tudo aquilo que está entre ela e "O cara".

Quando olhamos este quadro, a impressão que fica é que as mulheres estão todas enlouquecendo e que todos os pensadores que atribuíram à mulher qualidades demoníacas ou descontroladas estavam corretíssimos. No entanto, essa análise é por demais simplista e confortabilíssima para a formatação machista que modelou nossa sociedade.

Então, o que vemos quando olhamos para o outro lado, para o lado oposto dessa massa de mulheres tão stressadas e a beira de um ataque de nervos? Vemos homens omissos, sem postura e sem decisão. Homens que parecem viver esparramados em seus sofás, com uma cerveja do lado, um controle remoto na mão e uma tela de 42 polegadas na frente, preferencialmente com TV a cabo, com pacote de todos os jogos do brasileirão.

Com todo respeito aos homens (e sei que existem muitas, mas muitas exceções mesmo), mas eu tenho visto uma quantidade absurda de seres do sexo masculino adeptos da não-ação e, definitivamente, não estou falando de sabedoria taoísta!!!!! Os caras simplesmente não fazem. Nada. Se estão casados e o casamento está ruim, nem se separam e nem tentam melhorar a relação. Se estão solteiros, não arrumam compromisso mesmo que gostem de alguém. Se estão comprometidos, mas se apaixonam por outra mulher, são capazes de deixar a mulher ir embora porque não trocam "o certo pelo duvidoso".

Outro dia comentei com uma cliente, que estava totalmente pasma com a falta de decisão e iniciativa de um homem, que tenho a impressão que os homens resolveram fazer o seguinte: ficam esperando a mulher tomar uma atitude porque aí se algo der errado a culpa é dela... se ele é casado e a mulher chega junto, depois ele diz "eu nunca te prometi nada, você é que veio"... se ele é solteiro, ele afirma: "em momento algum eu falei de compromisso". E assim, o homem não assume responsabilidade alguma, não toma uma decisão e encara os desafios, não "honra as calças que veste", como dizia meu avô.

A covardia emocional masculina não é, exatamente, uma novidade. Mas tem atingido um número cada vez maior de homens e de uma forma cada vez mais radical.

As mulheres, por outro lado, que acreditaram que a tal da liberdade era algo mais que queimar peças íntimas em praça pública, já se perderam no meio do caminho. Já não sabem se devem agir como típicas mulheres e esperar que o homem tome uma atitude, ou se devem ser modernas e "tomar a iniciativa". Diante do conflito e da falta de atitude dos homens, elas acabam tendo uma crise de nervos.

E eu cá, com minha bagagenzinha de vida nas costas e minha experiência com o tarot, percebo que, na verdade, homens e mulheres estão passando por uma profunda crise de identidade. Enquanto não se redescobrirem, não compreenderem quem são e o que querem de verdade, não conseguirão se relacionar de forma saudável. Nem cada um consigo próprio e nem com o outro. Portanto, não conseguirão ser felizes. Como mudar isso? É a pergunta que deixo no ar...

Cláudia Mello (também conhecida como o lado B do Pistas)

4 comentários:

Moreth disse...

Concordo e assino embaixo.

Rafael F.C. disse...

Pelo o que pude observar C. de Fogo.. os homens que agem assim, coçando o falo.. vendo futebol e enchendo a cara... estão sendo considerados "legais"

Ou pelo menos, é assim que as mulheres mais novas, estão esperando que eles devem agir ..

Não sei se isto tem haver..
Mas ja dizia aquele ditado.. se não pode vence-lo junte-se a eles..
E fico vendo um monte de mulher indo as festas tomando todas, (ou até discutindo futebol..)

Sobre as festas,não sei.. se é pra liberar a "vontade" delas.. ou o que é..Nada contra o ato de celebrar..Mas ambos parecem um bando de macacos..

Homens e mulheres bebados..
Uns competindo por territórios..
Andando em grupo pra se protegerem..Outros brigando pela mesma fêmea..

Enquanto isto, continuo como um observador, nestas situações..onde essa normalidade.. é muito louca para mim.

Não sei se isto é tradição, mas prefiro estar aberto..e como você disse no 8 de paus.. esperar a hora certa de fazer algo - no lugar certo, do jeito certo.

Posso parecer outro adepto da não-ação, entretanto prefiro permnecer na espreita..

(Apesar de eu falar sobre isto, não significa que sempre tenha conseguido agir assim..)

No Intento..
Grato

Cláudia Mello disse...

Oi, Moreth

Cabe um "comentário estatístico"...rs Apenas para pensarmos...
Todas as vezes em que falei ou escrevi algo semelhante ao que se encontra neste texto (e olha que foram muitas!), pude observar que

100% das mulheres apoiaram integralmente tudo que foi dito

100% dos homens discordaram integralmente OU fizeram MUITAS ressalvas, colocaram vários poréns

Isso me leva a deduzir (me ajudem a pensar sobre... opinem) que homens e mulheres não somente não estão se entendendo muito na hora de agir, mas tb carregam em si conceitos, questionamentos e desejos que seguem caminhos diferentes. Talvez a única parte que seja uma unanimidade seja a seguinte: homens e mulheres não estão satisfeitos com a forma como as coisas estão indo.

Ao menos isso... É o que mantém a esperança de que homens e mulheres em algum momento resolvam se unir para melhorar suas vidas.

beijo!

Cláudia Mello disse...

Oi, Rafa! :-)

Um esclarecimento se faz necessário: o que eu chamo de adepto da não-ação (no sentido negativo e não sábio) é o cara que não se posiciona. O cara que não assume o que sente e quer porque não quer assumir a responsabilidade sobre isso. Não estou falando aqui do cara tímido ou do cara que tem uma forma mais suave de se aproximar.

Outra coisa e aí isso é conselho de mamãe desde muito tempo atrás: quando meu irmão era adolescente e reclamava que só encontrava, digamos, "moças desqualificadas" pelo caminho, minha mãe rebatia na mesma hora "pois bem, andando com as pessoas que vc anda, nos lugares que vc anda e nas horas em que vc anda, vc só podia encontrar isso mesmo!"

O que isso quer dizer (e não estou sendo nem um pingo preconceituosa, estou sendo extremamente pragmática)?

Se vc vai numa igreja vc costuma encontrar pessoas rezando, pessoas religiosas, pessoas que possuem regras morais rígidas. Se vc vai em uma partida de futebol vc costuma encontrar pessoas que gostam/praticam esportes, pessoas mais extrovertidas e que gostam de atividades em grupo. Se vc vai a uma exposição de arte vc costuma encontrar pessoas mais sensíveis, com gosto apurado, mais introspectivas ou com comportamento mais exótico. E por aí vai...

Resumindo: as pessoas (literalmente e metaforicamente) costumam querer encontrar o que elas desejam no lugar errado... algumas tb querem encaixar o seu modelo ideal interior no seu modelo ideal exterior (como dizia um amigo meu "dificilmente se encontra um cérebro de Einstein em um corpo de Tiazinha... é praticamente uma lei cósmica!" rs) E a vida não funciona exatamente assim, como podemos notar olhando em volta.

Já escutei alguns homens dizendo que só encontram mulheres que gostam de cafajestes e por isso não querem nada com eles... E já encontrei um outro tanto de mulheres dizendo que os homens não as tratam com respeito e carinho, parecem querer se relacionar com "profissionais do sexo" e não com mulheres... E eu me pergunto: por que esses dois grupos que reclamam, de homens e de mulheres, ainda não se encontraram? Porque eles combinariam muito bem e poderiam ser felizes juntos.

No final, Rafa, tudo isso parece discussão de cego com surdo, sabe como? Não há comunicação! E nem há receita pronta. Temos que descobrir o caminho no passo-a-passo.

beijo!