Objeto de pecado, objeto de mercado

sábado, 24 de julho de 2010

Em termos da sexualidade humana na Idade Média o corpo era objeto do pecado e ficou assim até a revolução sexual dos anos 60, que foi anunciada antes por gente com Freud, Wilhem Reich, Aleister Crowley e Samael Aun Weor, os dois primeiros no campo da Psicologia e da Psicanálise e os dois últimos no campo da Magia e da Gnose.

Esse paradigma ainda permanece mas já está bastante abalado: o corpo como pecado.

Na Idade Pós-Moderna, não se pode dizer que o corpo é objeto do pecado.

De objeto do pecado passou a ser objeto de mercado.

O corpo, de gerador de culpa passou a ser gerador de lucro.

Assim a revolução sexual se desvirtuou, não levou o ser humano a liberação, mas a um novo encadeamento, do encarceramento do pecado para a prisão do mercado.

Tal revolução ainda está por vir e a doença emocional ainda grassa por aí, se assim não fosse Reich não teria morrido na cadeia, nem Osho envenenado.

O corpo, antes objeto de pecado passou para objeto de mercado, mas ainda assim permanece objeto, não é parte da totalidade do ser, é coisa (objeto) possuída pelo ego, que ao ter parte de si tornada objeto se aliena de si mesmo, de sua totalidade e, portanto não pode ser feliz e completo.

Quase parafraseando Crowley com seu "pecado é restrição", o mercado diz: "pecado é não lucrar, ter prejuízo, fracassar". Assim os canalhas que se dão bem são perdoados e para o fracassado, o "looser" resta apenas a culpa. Eis a lógica de mercado, a ética do lucro. E o gozo do mercado é o lucro, assim os poderosos desse mundo incrementam seu "sex appeal". Assim o dinheiro no bolso se torna o viagra dos investidores e o carrão do ano potencializa o desejo de seus donos.

Ser liberado sexualmente, dentro do paradigma vigente e doente, é não ter culpa para gozar dos prazeres do objeto de mercado no qual o corpo se tornou. Corpo dotado de extensões, que do carrão, passa pelo dinheiro, chega ao implante, todas como muletas do falocratismo.

A "liberação sexual" é a nova escravidão aos padrões impostos pelo mercado.

A "liberação sexual" tornou o corpo da mulher um objeto que pode, por exemplo, ser amputado pela medicina oficial com facilidade, lhe arrancando útero, trompas, seios e glândulas sob a desculpa de prevenir certas doenças. Uma mulher que menstrua aos 50 é vista como abominação por certos médicos. O próprio homem não percebe que ele sempre foi um objeto também. Seu poder seminal, que carrega em cada ejaculação o poder de repovoar países inteiros se para cada espermatozóide houvesse um óvulo, não é se quer visto, dentro de uma perspectiva energética e de ecologia do habitat que é o corpo, como um enorme desperdício, para não dizer um genocídio seminal. Quando se fala nisso as pessoas nem se quer compreendem. Estão presas em certos paradigmas e se consideram liberadas.

E o mercado não pode atender as reais necessidades humanas por totalidade, porque o mercado trata tudo como objeto, objeto com uma finalidade: o lucro. Assim continuamos insatisfeitos, ansiando, ansiosos, neuróticos, consumindo pílulas, viagras, camisinhas, lubrificantes, antidepressivos e por aí vai.

Assim a maior dificuldade hoje nos relacionamentos é a capacidade de interagir sem usar o outro. Para tal é necessária uma sexualidade que destituída de culpa e também da idéia de objeto, que veja a si mesma como uma expressão da totalidade humana que não se manifesta apenas no nível genital. A capacidade de prazer se estende por todo o corpo, por todos os corpos, por todos os chacras e se apresenta em sua totalidade como um êxtase que remete a um orgasmo universal. Para tal é preciso quebrar paradigmas relativos a expressão da sexualidade, aprender a concentrar, ampliar e potencializar a força vital que há em homens e mulheres.

Numa época que se fala e se faz em ecologia, qualidade de vida, cuidado com a Natureza, reflorestamento, cultivo de árvores, plantio de sementes, devemos também cuidar de nossa semente, cultivar a nossa energia, despertar e desenvolver a seiva da Vida em nós mesmos para que possamos irrigar o nosso corpo e o nosso cérebro afim de manifestar toda a sua potencialidade.

Mas o primeiro passo começa por nos libertarmos da noção de coisa, de objeto, relativo ao próprio corpo e resgatarmos a noção de corpo como um templo vivo da Natureza onde se manifesta a própria Divindade. Assim precisamos de uma ecologia do espírito que passa pelo corpo, numa espécie de ecologia holística de nós mesmos.

Ao intentar meditar não se está buscando uma auto-terapia anti-stress, na verdade o que se está buscando é manifestação plena do espírito que há no corpo em íntima comunhão: êxtase, iluminação, satori, shunyata.

Num primeiro momento o meditar é a capacidade de sentir a própria vibração do corpo como um primeiro êxtase, a própria satisfação em estar vivo, a satisfação que brota espontânea do corpo que pulsa em sua própria força vital, para então, mais a frente sentirmos a pulsação da própria força vital do Outro, da Vida, do Cosmos, da Terra, do Universo.

obs: a imagem do post é de Salvador Dali, O Espectro do Sex Appeal.

F.A.

2 comentários:

Sílvio Moura disse...

Engraçado... acabei de sair de um blog que tinha um texto que falava essas coisas, não exatamente isso, coisa parecido.

Pulcro,
http://www.pulchro.blogspot.com/

benjamin disse...

A análise feita é bem verdadeira, melhor seria "uma sexualidade destituída de culpa e também da idéia de objeto, que veja a si mesma como uma expressão da totalidade humana que não se manifesta apenas no nível genital".
Ocorre que somos viciados nesta abordagem genital e, a tal ponto, que muito sofrivelmente se consegue uma abertura para a totalidade de si mesmo, o que se dirá do outro.
Sendo um fator humano tão importante e catalisador, a maioria de nós está como o par da carta 15 do tarot, amarrados por uma energia (ou abordagem da mesma) que poderia ser usada para se ter mais força, precisão, liberdade e amor.
Por isso considero importante que as práticas e abordagens válidas para um trabalho com a sexualidade sejam profusamente divulgados, é uma questão essencial que estrapola a simples perspectiva do prazer. É uma energia que adoentada, vai matando um indivíduo.