Da linguagem das coisas

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A gente costuma pensar que gente conversa com gente mas gente conversa consigo mesmo muitas e muitas vezes. É o tal do diálogo interno, que se fosse externalizado revelaria publicamente a nossa loucura.

Se toda gente que fala consigo mesmo verbalizasse seus pensamentos a loucura ficaria plenamente exposta. Mas já não está? Basta ver a sociedade em que vivemos.

Já vi também gente conversando com coisa. É, com coisa, com a TV, por exemplo. Tem gente que bate na tv, esbraveja e se revolta com a telinha. Tem gente até que dá tiro na TV. Dizem que o Elvis "que não morreu" "matou" várias TVs a tiro. Gente doida num mundo louco. Tão louco que até as coisas podem conversar com a gente.

Há vezes, e elas não são raras, basta prestar atenção, que quem conversa com a gente não é gente mas é coisa.

É, as coisas conversam com a gente. Meio louco isso, não? As coisas que nós falamos que são nossas conversam com a gente. Mas não com fala ou como nos animados desenhos da tv. Elas conversam do seu próprio jeito, como coisas que são, e cada coisa tem a sua linguagem.

As coisas que nós dizemos que são nossas gostam de nos dar avisos, alertas. Elas refletem nosso estado. Elas por serem nossas ficaram tão impregnadas de nós que é como se fossem uma extensão de nós, de nossa energia. Estão cheias de nossas impressões digitais, nosso cheiro, nossa oleosidade, nossa pele, nossas escamas mortas. Talvez por isso os antigos, inclusive os antigos egípcios, enterravam os mortos com seus pertences.

Carregar algo de um defunto é carregar um pouco do defunto junto de si. Quando o defunto foi gente boa nada há de mal, apenas a saudade e o laço de afeto.

As coisas que são nossas deixam de ser coisas para serem parte de nós numa relação de criador e criatura. É assim que magos e xamãs criam os objetos de poder.

Parece louco mas é real. Só parece louco porque supera o paradigma da normalidade. Aliás, loucura é ficar preso a qualquer paradigma, preso numa percepção do mundo que não se percebe. É aí que de certa forma o humano vira coisa. Uma coisa manipulada por uma percepção de mundo limitada. É triste ver o humano transformado em coisa, encadeado numa percepção de mundo que ele diz ou pensa ser racional. Há razões que a razão desconhece.

Mas qualquer coisa pode conversar com a gente, as vezes melhor que os humanos transformados em coisas.

Coisas como as cartas, os búzios, os dados, as varetas, o pêndulo, a varinha, as folhas, a borra de café e tantas mais. Lembrei-me da chama da vela também. A chama da vela do altar que mantenho em casa conversa comigo, tal como naquela cena do filme Hero quando o Imperador percebe a intenção assassina de "Sem Nome".

Alguns diriam: - Coisa de gente maluca!

Mas essas coisas podem articular toda uma construção de significados muito coerente.

Que coisa, hein! - diriam outros.

Agora mesmo ao escrever estou conversando com essa coisa chamada computador e não apenas escrevendo através dela. Pois nesse momento não escrevo para ninguém. Não tenho mesmo nem se quer a garantia de ser lido. Escrevo no máximo para mim mesmo. E por vezes ao enviar a mensagem o computador se nega a fazê-lo. Isso acontece. Podemos dizer que é um defeito da máquina ou do programa ou uma falha da conexão, mas quem me garante de que isso não é um sinal para que a mensagem não seja enviada?

A razão é um sistema de cognição, mas não é o único. Nosso cérebro mesmo se divide em lado esquerdo (racional) e direito (intuitivo).

O instinto é um sistema de cognição.

E a intuição é um outro sistema cognitivo.

Os xamãs possuem um sistema cognitivo diferente do homem ocidental de formação racional.

Nele as coisas se comunicam conosco.

Acusá-los de loucos, pirados ou viajantes é apenas reflexo de uma presunção de superioridade em termos de apreensão do mundo por determinado sistema cognitivo.

Olhando para a sociedade racional, ocidental, governada por cientistas de diferentes formações e vemos que ela está muito longe de ser equilibrada. A tecnologia forjada pelo homem ocidental está levando ele a própria auto-destruição. O maior exemplo disso é a bomba atômica. EUA e Rússia recentemente entraram em acordo para diminuir o arsenal nuclear pela metade. Atualmente eles podem destruir a Terra 34 vezes, querem reduzir isso pela metade. Isso é chamado de racionalidade, tecnologia, política de alto nível, diplomacia de 1º mundo. Pra mim isso sim é loucura, coisa de gente doida.

E quando dizem que sou doido por considerar que as coisas falam conosco através de sua própria linguagem me lembro de um experimento científico realizado na Universidade de Princeton - http://noosphere.princeton.edu/, feito através de computadores que geram números aleatórios, que está sendo capaz de descobrir padrões inusitados poucas horas antes, durante e depois de um grande acontecimento que venha a abalar o planeta inteiro. Por exemplo, o atentado do 11 de setembro de 2001, o atentado de Madri em 2004 e a catástrofe asiática do Tsunami registraram nos computadores do Projeto Consciência Global um padrão peculiar, que foge ao resultado mais provável num experimento usando números produzidos aleatoriamente por um programa de computador, horas antes do acontecimento.

Como explicar que uma máquina pode captar o que vai impactar a consciência coletiva da humanidade horas antes do acontecimento traumático? Lembrei-me que os animais antes do Tsunami já tinham saído da área.


É interessante ver no vídeo um cientista da Nasa questionando os resultados. Como se pode questionar os resultados? Os resultados são uma conseqüência do método empregado. Pode-se questionar o método, mas o método é elogiado pelo cientista porque é o método que ele usa em seu trabalho, o método científico. Interessante o comportamento de alguns cientistas quando não conseguem explicar algo.





Há uma loucura na ciência? Sim, se não houvesse o mito do cientista maluco não teria surgido. Uma das loucuras da ciência está bem estampada no mito de Frankenstein, onde se quer dar vida as coisas e as coisas acabam por se apossar da vida.

Já pararam para pensar porque uma obra de arte tem o seu valor reconhecido após a morte do artista? Muitos artistas em vida viveram na miséria e depois de sua morte sua criação é ostentada em salões de arte, museus e exposições particulares com altíssimo valor monetário. A morte do homem dá valor as coisas que ele criou.

O dinheiro é o melhor exemplo de coisa que se apossa da vida. As pessoas buscam ter a posse da coisa chamada dinheiro para poder possuir outras coisas, mas ninguém percebe que a coisa chamada dinheiro não tem valor por si, tem valor apenas porque lhe atribuímos valor.

Com dinheiro compra-se sexo, força de trabalho e tempo das pessoas. A coisa se apossa da vida. Mas nesse caso a coisa se apropria da vida para fazê-la coisa e assim o homem também se torna uma coisa. E não entende mais a si mesmo e nem a própria natureza das coisas. Ele precisa passar pela perda da coisa para ter a chance de um resgate de si.

Mas aqui já falamos de uma coisa diferente.

Falamos que o homem tornado coisa não se entende, nem entende nada mais.

Quando o homem é tão somente homem ele é capaz de entender a si mesmo, e as próprias coisas em sua linguagem.

Porque é diferente quando as coisas se tornam uma extensão do poder do homem e quando elas se apossam de sua própria alma.

Um comentário:

Daniele disse...

Saravá F.A
Ou simplesmente sente a si mesmo consciêntemente quando deixa de ser coisa.
E devemos ser mesmo loucos, já que para a maioria aprendizado é a capacidade de se adaptar ao meio. Eu por minha vez tento aprender a maifetar este mesmo meio. Rsrs.