A morte dos outros

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Quando a gente fala morte é sempre e necessariamente a morte dos outros: a extinçao da vida de um corpo, de um ser.

Quase ninguém pode falar da própria morte. A morte pessoal é uma inteira desconhecida.

E mesmo diante da morte do outro não tomamos conhecimento dela em nós.

Assim a morte se associa ao desconhecido. E mesmo que forjemos teorias ou explicações, metafísicas ou religiões elas são um consolo que apenas amortecem o impacto do desconhecido.

A morte é uma ilustre desconhecida.

Deparar-se com o desconhecido é deparar-se com a morte.

Assim conhecer alguém é deparar-se com a morte em vida no outro.

A timidez é o medo de deparar-se com o desconhecido no outro.

O medo é o sentimento de insegurança que o desconhecido provoca.

A morte é sempre o(a) desconhecido(a) e o desconhecido provoca temor.

Temor é um anagrama da morte.

Assim até na palavra morte e temor se entrelaçam.

Morte, temor e desconhecido.

E inevitavelmente vamos sempre na direção do desconhecido, da morte e, portanto, do medo.

E a despeito de termos medo, avançamos na direção do desconhecido.

O desconhecido exerce uma força magnética muito poderosa.

Se negarmos tal força, em nome da segurança, do conforto e da comodidade, negamos também a vida. E por mais que nos refugiemos o inevitável sempre se faz presente.

Assim tentamos prever o desconhecido, que podemos chamar de futuro, através de técnicas ou métodos divinatórios tais como o Tarot, a fim de melhor administrarmos o medo, a ansiedade de nos deparar com o desconhecido.

Mas dentre as cartas do Tarot lá também encontramos a morte, o desconhecido. Conheço tarólogos e cartomantes que são incapazes de jogarem para si mesmos e isso em parte prova a tese de que é difícil lidarmos com a nossa morte pessoal, o nosso desconhecido, somos capazes de ver a morte do outro, mas dificilmente a nossa mesma.

Mesmo quando jogo para mim sinto o frio na barriga, o toque da morte.

Tornei-me ao longo dos anos especialista numa técnica de Tarot chamada Jogo da Lua ou da Magia e percebo que ela revela não só processos de enfeitiçamento, mas processos psicológicos pessoais que estão ocultos em nós mesmos, nos enfeitiçando, num certo sentido. Posso assim dizer que certos complexos, traumas ou neuroses atuam como hipnotizadores ou enfeitiçadores da psique.

Ser capaz de deparar-se com o próprio desconhecido em si, lidar com sua própria morte pessoal é uma tarefa e tanto, uma prova iniciática, uma forma de quebrar o auto-enfeitiçamento psíquico do eu.

Olhar para si mesmo e perceber profunda e intensamente certos defeitos, qualidades, características das quais não se estava consciente é uma forma de morte, morte psicológica.

Assim deparar-se com o desconhecido em si é morrer. É nesse sentido que a morte é uma companheira para um(a) guerreiro(a). É nesse sentido que estar consciente da própria morte é um resgate do ser. É nesse sentido que estar consciente da própria morte é pertencer a si mesmo, pois nos coloca na perspectiva de perceber aquilo que tem verdadeiramente valor.

É por isso que um(a) guerreiro(a) grita seu intento para o infinito e invoca essa consciência:

- Quero a responsabilidade de quem vai morrer!

Tão somente por isso, para dar valor ao que tem, de fato, valor.

Você não tem nada que possa chamar de seu, a começar pela vida que pode ser finalizada a qualquer momento sem qualquer aviso prévio.

Você não pertence ao mundo das coisas, pois ao pensar que você possui algo esse algo te possui.

Você pertence ao mundo do ser, pertence a si mesmo. Pertencer a si mesmo é estar consciente de sua própria morte. Então você estará livre de toda possessividade, ciúme, ambição, sofreguidão, ira e ânsia.

Poderá agir livremente porque não terá nada a perder.

F.A.


8 comentários:

Nancy Passos disse...

Boa tarde Fernando !

como sei do que você falou aqui..., é dá medo, mas não é o medo de enfrentar, cutucar, pelo menos não para mim rs... é um medo rápido quase um susto, na hora em que se vê tudo que ainda estava escondido dentro da gente...

Você percebeu com certeza, que ando quieta depois do jogo da Lua, que foi muito bom, eu sabia que haveria algo para me ajudar no que estava bem mais escondido rs...e agora vou cada dia me defrontando com mais pedaços e o quebra-cabeça vai se formando.

Adorei o post, adorei A Torre no Via, e ontem me lembrei dos sonhos que eu tive tempos atrás onde podia de algum modo 'identificar' A Torre Nancy rs...e ver quem estava lá para me dar uma forcinha rs...

Obrigada mais uma vez.

F.A. disse...

Oi, "madrinha" querida!

Esse é um efeito do Jogo da Lua, ele trabalha também com o que está no que podemos chamar de lado oculto de nossa lua psicológica, ou inconsciente. Aquilo que não se vê, que está na penumbra, mas que está ali, em nós, e por vezes se disfarça de outras maneiras, provocando certos sintomas que o consciente pode vir a interpretar a sua própria maneira.

Fico feliz, e vamos que vamos no batidão do h'oponopono.

No intento,

F.A.

Nancy Passos disse...

Vamos para batidão rsrsr...

Jayah disse...

Estamos na ilusão da segurança da falsa segurança...
Quando se dá conta que existe somente o agora...e que este Agora se foi na sua última respiração...e assim sucessivamente...até..a opção pela mudança dimensional...o elemento morte passa a não existir...

Beijos Luminosos e Coloridos!
No amor,

F.A. disse...

Oi, Jayah!

A palavra morte tem muitos significados.

Isso traz uma confusão no diálogo.

O senso comum acha que a morte é o que ocorre no fim.

Para um guerreiro(a) ela ocorre a todo instante e a qualquer momento.

O agora é morte, é um morrer.

Simples assim.

No intento,

F.A.

Daniele disse...

Saravá F.A
O xamanismo trouxe pra mim a noção da morte que esta intimamente ligada a vida, são complementares como dia e noite, amor e ódio, enfim. E isso me deu um presente que é ao mesmo tempo uma maldição maravilhosa: Não são teorias, podemos viver cada conceito aprendido. É o que venho tentando fazer a cada dia. A primeira vez que experimentei a morte fui parar no hospital dizendo estar enfartando. Rsrs. Mas senti em cada célula do meu corpo e com toda energia do meu Ser. É uma descoberta constante é uma água de fogo, um prazer-dor. Não posso mais escrever porque na verdade não existem palavras. Realmente o que Oriah Mountaim Dremer diz em o Convite é maravilhoso: é como cavalgar o dragão de fogo. Não há nada que não seja dragão, temo que ele me rasgue a carne e ele o faz e eu sou o dragão, o calor e a queimadura.

beijamim disse...

Tem duas mortes: uma que a gente vive por acatar mudanças e riscos para seguir em frente, e outra onde a gente prefere o conforto à mudança, e assim morre-se silenciosamente, mesmo estando-se vivo.

Clara disse...

Não sei se vou conseguir vencer o "MEDO DA MORTE" nesta Encarnação.