Os quatro inimigos

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

- Um homem de conhecimento - disse Don Juan - é aquele que seguiu honestamente as dificuldades da aprendizagem; um homem que sem se precipitar ou hesitar, foi tão longe quanto pôde para desvendar os segredos da sabedoria.

- O que é preciso para se tornar um homem de conhecimento?

- O homem tem que desafiar e vencer seus quatro inimigos naturais. Um homem pode chamar-se um homem de conhecimento somente se for capaz de vencer seus quatro inimigos.

- Mas há algum requisito especial que o homem tenha de atender antes de lutar contra esses inimigos?

- Não. Qualquer pessoa pode tornar-se um homem de conhecimento; muitos poucos o conseguem realmente, mas isto é natural. Os inimigos que um indivíduo encontra no caminho do saber para tornar-se um homem de conhecimento são realmente formidáveis; a maioria dos homens sucumbe a eles...

Quando eu estava me preparando para partir, tornei a lhe perguntar acerca dos inimigos do homem de conhecimento. Argumentei que ia passar algum tempo sem voltar, e que seria uma boa idéia escrever as coisas que ele tivesse a dizer e pensar a respeito enquanto estivesse fora. Hesitou um pouco, mas depois começou a falar.

- Quando um homem começa a aprender, ele nunca sabe muito claramente quais são seus objetivos. Seu propósito é falho; sua intenção, vaga.
Espera recompensas que nunca se materializarão, pois não conhece nada das dificuldades da aprendizagem. Devagar ele começa a aprender... a princípio, pouco a pouco, e depois em porções grandes. E logo seus pensamentos entram em choque. O que aprende nunca é o que ele imaginava, de modo que começa a ter medo.


Aprender nunca é o que se espera.


Cada passo da aprendizagem é uma nova tarefa, e o medo que o homem sente começa a crescer impiedosamente, sem ceder. Seu propósito torna-se uma batalha. "E assim ele depara com o primeiro de seus inimigos naturais: o medo! Um inimigo terrível, traiçoeiro, e difícil de vencer. Permanece oculto em todas as voltas do caminho, rondando, à espreita. E se o homem, apavorado com sua presença, foge, seu inimigo terá posto um fim à sua busca."

- O que acontece com o homem se ele fugir com medo?

- Nada acontece a não ser que ele nunca aprenderá. Nunca se tornará um homem de conhecimento. Talvez se torne um tirano, ou um pobre homem apavorado e inofensivo; de qualquer forma, será um homem vencido. Seu primeiro inimigo terá posto fim a seus desejos.

- E o que pode ele fazer para vencer o medo?

- A resposta é muito simples. Não deve fugir. Deve desafiar o medo, e, a despeito dele, deve dar o passo seguinte na aprendizagem, e o seguinte, e o seguinte.
Deve ter medo, plenamente, e no entanto não deve parar. É esta a regra! E o momento chegará em que seu primeiro inimigo recua. O homem começa a sentir seguro de si. Seu propósito torna-se mais forte. Aprender não é mais uma tarefa aterradora. Quando chega esse momento feliz, o homem pode dizer sem hesitar que derrotou seu primeiro inimgo natural.

- Isso acontece de uma vez, Don Juan, ou aos poucos?

- Acontece aos poucos, e no entanto o medo é vencido de repente e depressa.

- Mas o homem não terá medo outra vez, se lhe acontecer alguma coisa nova?

- Não. Uma vez que o homem venceu o medo, fica livre dele o resto da vida, porque, em vez do medo, ele adquiriu clareza... uma clareza de espírito que apaga o medo. Então, o homem já conhece seus desejos; sabe como satisfazê-los.
Pode antecipar os novos passos na aprendizagem e uma clareza viva cerca tudo. O homem sente que nada lhe oculta. "E assim ele encontra seu segundo inimigo: a clareza! Essa clareza de espírito, que é tão difícil de obter, elimina o medo, mas também cega. Obriga o homem a nunca duvidar de si. Dá-lhe a segurança de que ele pode fazer o que bem entender, pois ele vê tudo claramente. E ele é corajoso, porque é claro; e não para diante de nada, porque é claro. Mas tudo isso é um engano; é como uma coisa incompleta. Se o homem sucumbir a esse poder de faz de conta, terá sucumbido ao seu segundo inimigo e tateará com a aprendizagem. Vai precipitar-se quando devia ser paciente, ou vai ser paciente quando devia precipitar-se. E taterá com a aprendizagem até ser incapaz de aprender qualquer coisa mais."

- O que acontece com um homem que é derrotado assim, Don Juan? Ele morre por isso?

- Não, não morre. Seu inimigo acaba de impedi-lo de se tornar um homem de conhecimento; em vez disso, o homem pode tornar-se um guerreiro valente, ou um palhaço. No entanto, a clareza, pela qual ele pagou tão caro, nunca mais se transformará de novo em trevas ou medo.
Será claro enquanto viver, mas não aprenderá nem desejará mais nada.

- Mas o que tem de fazer para não ser vencido?

- Tem de fazer o que fez com o medo: tem de desafiar sua clareza e usá-la só para ver, e
esperar com paciência e medir com cuidado antes de dar novos passos; deve pensar, acima de tudo, que sua clareza é quase um erro. E virá o momento em que ele compreenderá que sua clareza era só um ponto diante de sua vista. E assim ele terá vencido seu segundo inimigo, e estará numa posição em que nada mais poderá prejudicá-lo. Isso não será um engano. Não será um ponto diante de sua vista. Será o verdadeiro poder. "Ele saberá a essa altura que o poder que vem buscando há tanto tempo é seu, por fim. Pode fazer o que quiser com ele. Vê tudo o que está em volta. Mas também encontra seu terceiro inimigo: o poder! O poder é o mais forte de todos os inimigos. E, naturalmente, a coisa mais fácil é ceder; afinal de contas, o homem é realmente invencível. Ele comanda; começa correndo riscos calculados e termina estabelecendo regras, porque é um senhor. Um homem nesse estágio quase nem nota que seu terceiro inimigo se aproxima. E de repente, sem saber, certamente terá perdido a batalha. Seu inimigo o terá transformado em um homem cruel e caprichoso."

- E ele perderá o poder?

- Não, ele nunca perderá sua clareza e seu poder.

- Então, o que o distingue de um homem de conhecimento?

-
Um homem que é derrotado pelo poder morre sem realmente saber manejá-lo. O poder é apenas uma carga em seu destino. Um homem desses não tem domínio sobre si, e não sabe quando ou como usar o poder.

- A derrota por algum desses inimigos é uma derrota final?

- Claro que é final. Uma vez que esses inimigos dominem o homem, não há nada que ele possa fazer.

- Será possível, por exemplo, que o homem derrotado pelo poder veja seu erro e se emende.

- Não. Uma vez que o homem cede, está liquidado.

- Mas se ele estiver temporariamente cego pelo poder, e depois o recusar?

- Isso significa que a batalha continua. Isso significa que ele ainda está tentando ser um homem de conhecimento. O indivíduo é derrotado quando não tenta mais e se abandona.

- Mas então Don Juan, é possível a um homem entregar-se ao medo durante anos, mas no fim vencê-lo?

- Não, isso não é verdade. Se ele ceder ao medo, nunca o vencerá, porque se desviará do conhecimento e nunca mais tentará. Mas se procurar aprender durante anos no meio de seu medo, acabará dominando-o, porque nunca se entregou realmente a ele.

- E como o homem pode vencer seu terceiro inimgo, Don Juan?

-
Também tem de desafiá-lo propositadamente. Tem de vir a compreender que o poder que parece ter adquirido na verdade nunca é seu. Deve controlar-se em todas as ocasiões, tratando com cuidado e lealdade tudo o que aprendeu. Se conseguir ver que a clareza e o poder, sem controle, são piores do que os erros, ele chegará a um ponto em que está tudo controlado. Então, saberá quando e como usar seu poder. E assim terá derrotado seu terceiro inimigo. "O homem estará, então, no fim de sua jornada do saber, e quase sem perceber, encontrará seu último inimigo: a velhice! Este inimigo é o mais cruel de todos, o único que ele não conseguirá derrotar completamente, mas apenas afastar. É o momento em que o homem não tem mais receios, não tem mais impaciências de clareza de espírito... um momento em que todo seu poder está controlado, mas também um momento em que ele sente um desejo irresistível de descansar. Se ele ceder completamente a seu desejo de se deitar e esquecer, se ele se afundar na fadiga, terá perdido a última batalha, e seu inimigo o reduzirá a uma criatura velha e débil. Seu desejo de se retirar dominará toda sua clareza, seu poder e sabedoria. Mas se o homem sacode sua fadiga e vive seu destino completamente, então poderá ser chamado de um homem de conhecimento, nem que seja no breve momento em que ele consegue lutar contra seu último inimigo invencível. Esse momento de clareza, de poder e conhecimento é o suficiente."


Trecho de livro "A Erva do Diabo" - (Don Juan / Carlos Castaneda) - 8 de abril de 1962


8 comentários:

Martyn disse...

"A Erva do Diabo" - (Don Juan / Carlos Castaneda)

Download do Livro

http://acasadoebook.blogspot.com/2008/11/download-erva-do-diabo-os-ensinamentos.html

benjamin disse...

Eu gostei muitíssimo destes três últimos textos sobre Xamanismo Guerreio. Especialmente, porque nestes últimos pude vislumbrar mais que teorias, mas dicas para a ação consciente. A questão de VER, muito bem explicada, além de outros direcionamentos, me "salvou a pele", nesta fase que estou vivendo. Mal conseguia me mover nas cidades, e agora percebo que posso e devo me mover percebendo as energias, e não deixar que elas me arrastem ou me afetem a ponto de me tirar a paz.
Quanto à questão do cristianismo, existe muita outra forma de entendê-lo e praticá-lo. O cristianismo gnóstico, por exemplo, ou o próprio Daime, que filtrou e direcionou os conteúdos do cristianismo para o Xamanismo. Assim, quando a gente evoca a Virgem Mãe pela força pessoal e da egrégora, estamos acessando a Rainha da Floresta, ou Virgem da Concepção, ou a mesma Entidade Terra/Lua/Feminina referida no texto.Mas é bom que se fale e se diga a que as distorções do cristianismo vieram.
O Nuvem que passa opera muita sincronicidade comigo. Fernando, ele já desencarnou, por acaso?

Fernando Augusto disse...

Oi, Benjamin!

O Nuvem desencarnou em 2003. Mas continua ativo e operante em outras realidades.

Ele costumava dizer que o grande desafio para o trabalho sobre si mesmo está nas grandes cidades.

No intento,

F.A.

benjamin disse...

Outra coisa que gostei muito foram as considerações sobre os mundos: tem aqueles que projetamos e tem aqueles que são naturais e, por isso, não nos esgotam. As egrégoras em si podem ser usadas também para acessar os mundos verdadeiros, não?

Fernando Augusto disse...

Em vez de mundos verdadeiros vou dizer mundos geradores de energia. As egrégoras pode acessá-los. Para descobrir se uma egrédora pode fazê-lo basta observar os efeitos de certas egrégoras em nosso corpo e em nosso nível de energia.

No intento,

F.A.

beijamim disse...

Pois é, Fernando. Existe o risco da corrente de sugar um pouco ou muito, fisicamente principalmente, à parte da cura que ela pode operar na consciência e nas emoções. E então, nesse caso (e é algo que tem ocorrido comigo), percebo cada vez mais que se deve ter uma conduta que cuide do físico, que se alimente bem, que durma bem, que não se tenha vícios, que pratique alguma arte com o corpo e o desenvolva, que não se gaste a energia sexual. E tudo isso, eu não tenho feito, e por isso fico cansado. A culpa não é da corrente. Mas o que foi muito bom de ler no teu artigo, foi a revelação pra mim de que corrente não é panacéia, é trabalho, e como qualquer trabalho, exige preparo e condições.
Obrigado pelas idéias e intentos. Se vc tiver qualquer outra informação à acrescentar, não vou achar ruim. Abraços.

Fernando Augusto disse...

Oi, Benjamin!

Se há algo que possa recomendar em termos corporais é a prática de Tensegridade = Passes Mágicos ou Hatha Yoga, tanto as âsanas tais como Saudação ao Sol ou Pouso sobre a cabeça bem como o pranayama polarizado diariamente, em especial porque é uma ferramenta poderosa de sublimação e controle sexual, além de sua prática simular a mistura alquímica da própria Ayahuasca.

No intento,

F.A.

Fernando Augusto disse...

Em tempo, há uma forma de escapar aos efeitos da egrégora, mas é preciso conservar um estado de silêncio mental durante todo o rito, isso fará com que terminado o rito e o "cerco energético da egrégora" o seu ponto "dispare" ao local próprio de seu intento pessoal.

No intento,

F.A.