As Religiões Esquecidas: a religião Maia

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Maias, por Alexandre Navarro

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"As Religiões que o mundo esqueceu" AQUI.


Quando os espanhóis chegaram à América, encontraram uma religião que sobrevivia há 3500 anos. A religião maia é dividida em três grandes períodos, cada um deles com suas peculiaridades. A era Clássica, por exemplo, foi marcada pela escrita e por suas grandes pirâmides. Há elementos comuns a todas elas, como o culto à serpente, princípio de unidade do cosmos maia. Ela representa o céu, a terra, a fertilidade e encarna o princípio de unidade do mundo. Aparece como uma corda ou laço que simboliza a união entre o homem e a natureza.

A região em que se desenvolveu a civilização maia corresponde ao que é hoje a península do Iucatã, no México, englobando os atuais estados de Campeche, Tabasco, Chiapas, Iucatã e Quintana Roo; as terras baixas e altas da Guatemala; Belize; e a porção ocidental de Honduras e El Salvador, reunindo territórios que pertencem à área denominada Meso-américa. A história dessa civilização pode ser dividida em três períodos principais: Pré-Clássico (800 a.C.-300 d.C.), Clássico (300-900 d.C.), Pós-Clássico (900-1520 d.C.). Cada período possui um contexto cultural próprio, ainda que alguns conceitos de cosmovisão e o modo de construir as cidades continuem respeitando os traços gerais dessa civilização. Para facilitar a maneira de apresentar a informação deste capítulo, a religião maia será discutida de acordo com esses três períodos culturais principais. E como seria impossível falar de todos os aspectos da religião maia, destaco os principais conceitos conhecidos e trabalhados na literatura especializada.

Religião: o que entendemos

Como mencionado na introdução desta obra, falar de religião é um assunto bastante complexo em qualquer sociedade, já que corresponde a um conjunto de práticas sociais específicas e arraigadas à cultura de um determinado grupo humano ao longo de sua existência. Assim, a religião pode ser definida como um conjunto específico de crenças em um ou mais poderes divinos ou sobre-humanos com o objetivo de render culto ao Criador ou ao regente do universo.

Para entendermos a religião maia, concebemos a religião como:

— Uma função da cultura que está conectada e integrada com as demais fun­ções da mesma cultura;

— Um complexo de noções sociais com regras conectadas a um sistema cultu­ral ao qual pertence o homem e o mundo em que vive. Demanda a crença em um ou mais seres superiores, e a presença de seus poderes influencia aqueles que crêem em sua existência;

— Um conjunto de crenças em que a influência religiosa é expressa em no­ções, sentimentos, disposições e comportamentos dos crentes. Nesse sentido, os rituais e os cultos são ações coletivas ou individuais que se referem aos seres divinos e legitimam a religião;

- Uma ação social em que o comportamento religioso é a manifestação dos propósitos culturais resgatados como significado e ajustados à estrutura re­ligiosa por um grupo de pessoas que crêem na propagação da crença e em seus fundamentos. Logo, a ação religiosa é uma ação simbólica.

A perspectiva adotada aqui é antropológica e visa a entender os quatro aspectos mencionados.

O Pré-Clássico

Esse é o período de formação da civilização maia. Durante essa época, há in­dícios de herança de conceitos religiosos daquela que é considerada a primeira ci­vilização da Meso-américa: a olmeca. Traços da iconografia olmeca são encontrados em sítios arqueológicos do litoral do Pacífico e das Terras Altas maias, como Abaj Takalik, Kaminlajuyú e Izapa.

Pela sua extensão, organização espacial e iconografia, o centro de Izapa é o principal sítio do Pré-Clássico para o entendimento da religião maia durante esse período. A iconografia de Izapa é uma complexa união entre as formas naturais e as simbólicas que expressam uma estruturada concepção religiosa de mundo, que gira em torno de certos conceitos relacionados com as formas realistas de alguns animais, como o jaguar, o crocodilo, as aves, o peixe e a serpente. Os maias encontraram nas qualidades naturais e sobrenaturais desses animais uma explicação de mundo em que a relação entre o homem e a natureza foi essencial para a existência da vida.

Assim, a principal forma animal aparece de maneira fantástica. Trata-se da com­binação de vários desses animais, ao que se tem designado o nome de dragão. A idéia central da concepção religiosa dos maias desse período foi expressa como a regeneração da natureza, que figura como a essência que fundamenta o dinamismo do mundo e fornece a vida ao homem, na expressão de um ser dragoniano (em forma de dragão).

As estelas são monumentos verticais de pedra onde eram registradas as inscri­ções maias ou simplesmente a figura do rei. Outras culturas do mundo antigo tam­bém possuíram estelas, e são monumentos comemorativos associados a algum tipo de escrita. Nas esteias de Izapa encontram-se desenhos lineares superiores e infe­riores que provavelmente representam as bocas de um ou mais seres felino-serpentinos, em cenas associadas a seres humanos em episódios míticos, sobretudo sobre a criação do mundo. Essas cenas simbolizam o céu e a terra, dois lugares importantes na religião maia, na qual deuses e homens aparecem agindo nesses dois espaços.

A serpente ocupa um lugar preponderante na concepção religiosa de Izapa, e é o principal componente da esfera dragoniana. O mais freqüente é que se repre­sente somente a cabeça do animal. Às vezes, as serpentes aparecem voando ou com plumas. A serpente emplumada, um importante elemento da religião maia, apare­ce já no Pré-Clássico. Por exemplo, na estela 10 de Kaminaljuyú e na estela 1 de Chocola, as serpentes aparecem com cabeças de aves e plumas nos corpos.

Desse modo, considera-se que a serpente é o princípio de unidade do cosmos maia e que mantém esse status até o período de contato com os espanhóis. A ser­pente representa o céu, a terra, a fertilidade e encarna o princípio de unidade de mundo. Geralmente aparece como uma corda ou laço que simboliza a união entre o homem e a natureza. Por exemplo, nas estelas 22 e 67 de Izapa esculpiu-se uma figura humana sentada em uma canoa que está sobre a água que se une ao céu por meio de serpentes com formas de corda.

A forma mais complexa da religião maia durante o Pré-Clássico aparece na es­tela 25 de Izapa, onde se nota na parte inferior da escultura um crocodilo com uma concha ao redor de seu nariz. A parte posterior de seu corpo levanta-se para se con­verter em uma árvore (princípio da vida), sobre a qual pousa uma ave. Na parte su­perior da estela existe a imagem de um homem de pé olhando para cima e susten­tando uma haste sobre a qual pousa um pássaro mascarado. Rodeando o corpo do crocodilo existe uma serpente realista, cujo corpo também enlaça a haste, passando pela mão da figura humana e levantando-se em direção ao pássaro com máscara.

A serpente, desse modo, aparece como a união da água terrestre (crocodilo-concha), da vegetação (crocodilo-árvore) e do céu (ave mascarada) com o homem, que estabelece a unidade que dá essência ao funcionamento da vida e da natureza a que pertence e em cujo centro se localiza ao agarrar o corpo da serpente e a haste.

A época Clássica

O Clássico é o período de esplendor da civilização maia. É a época em que os centros alcançam seu apogeu quanto ao urbanismo e à organização espacial, destacando-se as construções monumentais, formadas principalmente pelas pirâ­mides, que chegaram a medir mais de 60 metros de altura. Além disso, o cresci­mento populacional caracteriza essa época, em que cidades como Tikal, na atual Guatemala, e Calakmul, no México, chegaram a ter mais de 60 mil habitantes. Durante o Clássico também surge o sistema de escrita, o aperfeiçoamento do ca­lendário e a Contagem de Tempo Longo, e incrementam-se o comércio de longa distância e as guerras.

A religião maia do Clássico, continua a desenvolver os elementos religiosos do Pré-Clássico, como o motivo serpentino e dragoniano. No entanto, novos princí­pios religiosos ganham maior destaque. Sabe-se que a religião maia está associada com a concepção de tempo cíclico, que possivelmente originou-se durante o Pré-Clássico. Os maias outorgaram uma grande importância aos augúrios e às profecias, já que acreditavam que certos períodos do seu calendário tinham um caráter fasto ou nefasto. Assim, o universo era representado verticalmente e dividido em três níveis e horizontalmente repartido em quatro direções cardeais, a que se deveria agregar uma quinta direção, o centro. Cada uma dessas direções estava associada com uma cor, uma árvore e uma ave e certos seres sobrenaturais, que podiam ser espíritos, heróis míticos ou deuses, que geralmente assumiam quatro aspectos, um por cada direção cardeal, e eram representados como seres híbridos com atributos de diversos animais.

Os edifícios teratomorfos (em forma de monstro) foram muito utilizados nessa época. Esses templos, que também podem ser interpretados como covas artificiais, têm a entrada em forma de boca aberta de algum réptil, geralmente serpente, que, como se disse antes, é um animal associado à terra e à fertilidade.

Esse tipo de tem­plo aparece de maneira mais recorrente no Iucatã, em sítios como Xpuhil e Becán, em uma área geográfica conhecida como rio Bec. Esses edifícios também possuem a fachada totalmente decorada com motivos serpentinos e geralmente descansam sobre uma plataforma, que pode ser ou não elevada. Esses monstros estão associados ao culto dos antepassados e ao princípio de criação do universo.

Talvez a principal manifestação religiosa durante o Clássico se dê na forma de uma pirâmide. Geralmente a pirâmide é escalonada e possui uma estrutura na parte superior a qual se chega por uma escadaria. Essa estrutura tem uma entrada prin­cipal e uma fachada decorada que versam sobre diversos temas relacionando o go­vernante que a construiu com sucessos míticos, como a criação do universo e dos homens. Em sua parte superior existe uma decoração em pedra, o que se conhece como crestería (qualquer tipo de ornamentação construída no topo ou cume dos edifícios), em que geralmente se encontra a representação do governante sentado em um trono. Nessas pirâmides podem existir a escrita e iconografia destacando diversos temas míticos ou reais, como as guerras entre diferentes centros urbanos.

Hoje se sabe que esses edifícios também estão relacionados ao governante e serviram de tumba após a sua morte, sendo por isso considerados templos dinásticos pelos arqueólogos. Sendo assim, esses edifícios são importantes fontes de estudo para compreender as concepções religiosas que envolviam a elite maia. Por exemplo, em Palenque, a tumba do rei Pacal encontra-se dentro da Pirâmide das Inscrições e uma escadaria interior conduz à cripta do templo. O templo possui cinco entradas, e em uma delas aparece modelada em estuque a imagem de um rei de pé com uma criança nos braços, em que uma das pernas da criança é em realidade uma serpente.

Esse rei é Chan Bahlum, herdeiro direto e sucessor do soberano enterrado na pirâmide. O sarcófago do rei Pacal continha os restos mortais do soberano, além de uma rica coleção de jóias de jade, símbolo da vida e renascimento, formada por máscaras, diademas, brincos, colares, peitorais, pulseiras e anéis. A iconografia do sarcófago retrata Pacal e seus ancestrais relacionados com a "árvore cósmica", sím­bolo da criação do mundo. O programa iconográfico da tumba versa sobre a morte do rei e a promessa de renovação da vida, em que o soberano é a representação das divindades na Terra e do eixo da cadeia dinástica como a metáfora da criação do universo.

A manifestação religiosa maia também pode ser evidenciada pela maneira como o espaço foi organizado dentro dos centros urbanos. Como em toda sociedade que desenvolveu a arquitetura monumental, as construções obedeciam a esquemas cognitivos específicos que respondiam às práticas religiosas. Por exemplo, em Tikal existem conjuntos arquitetônicos em forma de cruz orientados segundo os pontos cardeais que foram construídos para comemorar o fim de um período Katún. Esse período corresponde a vinte anos do calendário cristão e está associado à edificação de novos edifícios como metáfora da renovação da vida e do universo.

Os maias acreditavam que ao se aproximar o fim de um Katún, desgraças natu­rais e sociais podiam assolar a vida em sociedade. A construção de novos edifícios batizados com seus rituais salvaria as pessoas de catástrofes. Em Tikal, esse grupo de templos é conhecido como Grupos de Pirâmides Gêmeas. Cada conjunto inclui quatro edifícios dispostos em torno de uma praça mais ou menos retangular, com as construções orientadas em função dos quatro pontos cardeais. As pirâmides gê­meas, colocadas num eixo leste-oeste, são semelhantes em seu plano e dimensões. Ambas são radiais, ou seja, possuem escadarias nos quatro lados. Cada escadaria tem 365 degraus, que correspondem ao número de dias do calendário solar. Ao sul da praça se ergue um edifício retangular e alongado, cujas nove portas dão acesso, nesse caso, a um só recinto. Essas portas simbolizariam os Nove Senhores da Noite, divindades do infra-mundo maia ou Xibalbá, um lugar onde os deuses foram criados e criaram o mundo. Por fim, no lado norte da praça existe uma pequena estrutura com porta abobadada que contém a estela 22. Essa estela mostra o rei Chitam le­vando a cabo um dos ritos para celebrar o fim de um Katún. Com a mão direita o rei espalha as gotas de sangue resultantes do auto-sacrifício de seu pênis. Na outra mão leva um cetro e uma sacola de incenso está pendurada em sua munheca. Em cima de seu toucado, ricamente ornamentado, está um ancestral. Nas costas, o rei leva um cosmograma do universo, prolongado por seu calção.

O jogo de pelota ou de bola (de borracha ou hule, em espanhol) foi uma outra atividade religiosa importante no mundo maia. Hoje em dia discute-se se a quadra de jogo realmente foi utilizada para os jogos, já que suas dimensões em alguns sítios são muito pequenas ou excessivamente grandes para a realização de tal prática. Por exemplo, a maior quadra de jogo de pelota não somente da área maia, mas de toda a Meso-américa, está em Chichén Itzá. Tem 168 metros de comprimento por 70 de largura. A iconografia do jogo mostra duas equipes que se enfrentam. Os jogadores são representados com uma indumentária elaborada: grandes penachos, roupas de algodão possivelmente para proteger o corpo, cintu­rão de pedra para o movimento da bola chamado yugo e um machado (hacha) que parece ter tido função ritual.

A interpretação mais aceita é que as quadras de jogo de bola são a metáfora do processo de criação dos homens e do universo pelos deuses. Em Chichén Itzá, por exemplo, parece que a quadra de jogo de bola serviu para rituais que envolviam a entronização de reis. As pinturas encontradas nas paredes internas de dois edifícios mostram os reis deixando o trono a seus sucessores em rituais que aconteceram na quadra de jogo. Dadas suas associações com renovação e criação, parece plausível que os reis utilizassem esses lugares como lugares de culto.

Assim, um outro aspecto importante da religião maia é sua associação com a transição de poder. Em vários sítios como Yaxchilán, Palenque e Tikal, nota-se que o rei, ao deixar o poder, realiza rituais com o seu sucessor. Esses rituais tinham como objetivo fazer com que o cosmos seguisse regendo a natureza e a vida dos homens no planeta. O novo rei, ao participar desses rituais, garantia de maneira efetiva o funcionamento do universo. O ritual é identificado quando o antigo rei oferece ao seu sucessor um bastão (cetro-maniqui), que é o símbolo máximo de poder na área maia.

Um dos principais elementos da religião maia antiga era o sacrifício, realizado com animais e seres humanos. O primeiro tipo não era muito comum, mas animais com certas partes incompletas do corpo foram encontrados em algumas sepulturas maias. A principal maneira de sacrificar o animal era através da decapitação. Por exemplo, em uma tumba de Toniná, sul do México, foram encontrados restos de três crianças do sexo masculino, os esqueletos de um jaguar e de um falcão, e dois crânios de codornas.

Já o sacrifício humano era mais recorrente. No entanto, existe a discussão para saber exatamente em quais ocasiões era realizado, com que freqüência e em que quantidade. A iconografia dos sítios mostra que muitos dos sacrificados eram cati­vos de guerra. A idéia do sacrifício provém, basicamente, da crença de que o san­gue era primordial para o funcionamento do universo, já que um dos elementos para a criação do universo é justamente esse líquido vital. Era dever do homem, por conseguinte, manter essa ordem cósmica. Homens e meninos eram sacrifica­dos, mas não se encontrou ainda evidência de que as mulheres também fossem. Essas crianças podiam ser mortas por decapitação ou pela extração do coração. Muitas escavações evidenciaram os esqueletos decapitados e seus respectivos crâ­nios. Por exemplo, na pintura mural de Chichén Itzá encontra-se a representação de um sacrificador que submete a sua vítima agarrando-a pelos cabelos e a degola com um machado de obsidiana.

Da mesma maneira, o auto-sacrifício também foi uma prática religiosa muito importante entre os maias. Há evidências de que essa prática ritual tinha os mes­mos fundamentos do sacrifício humano, mas a diferença está em que somente era realizada pelos reis em rituais muito mais específicos. O sangue, valioso líquido, podia ser obtido de várias partes do corpo e gerava graus variáveis de dor. Talvez a cena mais notável desse ritual provenha do dintel 24 (verga superior da porta ou da janela, que assenta sobre as ombreiras) do edifício 23 do sítio de Yaxcbilán, em que uma soberana ajoelhada diante do rei passa por sua língua uma corda eriçada de espinhos. Uma das extremidades da corda descansa em uma cesta que contém tiras de papel manchadas de sangue. As inscrições do monumento corroboram a cena: narra-se um ritual de auto-sacrifício envolvendo um rei e sua esposa.

As sepulturas também são importantes fontes de estudo para se conhecer na religião maia o tema da morte. As diversas maneiras de sepultar, que vão desde a inumação direta na terra até a tumba abobadada, correspondem a diversos níveis sociais. Por exemplo, vejamos como estava organizada a sepultura 10 de Tikal, de­dicada a um rei que governou o centro urbano. A tumba data do Clássico inicial, segundo indica a idade da cerâmica. Está ocupada pelo esqueleto — coberto de hematitas — de um homem de idade avançada, deitado de costas e com a cabeça orientada para o norte (esse ponto cardinal está associado ao poder real na área maia). Ao seu redor, e também debaixo dele, foram colocados os restos de oito meninos entre 8 e 14 anos, sacrificados para a ocasião. Sobre o corpo do ancião foram postas várias conchas de espôndilo, além de contas e orejeras de jade (adornos de orelha que cobrem todo o lóbulo inferior). Seu penacho constava de conchas e portava uma máscara composta de um mosaico de diversos materiais. Sobre sua perna direita foi depositado um espelho de pirita em cima de um disco de arenito. Debaixo de sua mão direita havia uma cauda de arraia e uma conta. Na altura da pélvis, encontraram-se mais oito caudas de arraias. Perto de seu esqueleto foram achados ainda cinco tartarugas e um crocodilo, todos decapitados, noventa ossos de aves (principalmente corujas), trinta vasilhas de cerâmica, treze conchas de água doce e objetos de madeira. Ao preencher a fossa, colocou-se uma grande quanti­dade de sílex (quase 10 mil), distribuída em diferentes níveis. Esse é somente um caso de sepultura de um rei maia; muitas outras, ricamente ornamentadas, também foram encontradas pelos arqueólogos.

Quanto ao sistema religioso em si, não há evidências de uma religião monoteísta na área maia. Os maias cultuavam vários deuses e realizavam diferentes rituais para cada um deles. No entanto, durante o Clássico terminal (cerca de 800 a 1050 d.C.), os maias teriam passado a cultuar algumas divindades de maneira especial.

É o caso de Itzamná, Chaac e Kukulcán. Essa última divindade, que apa­rece representada na iconografia na forma de uma serpente emplumada, adqui­riu uma grande importância no sítio arqueológico de Chi. Temos que sublinhar, no entanto, que esse processo é fruto de uma cosmovisão que se construiu ao longo de séculos, e foi uma opção às mudanças sociais por que passam todas as civilizações. Se os maias caminhavam para o monoteísmo também é um assunto discutido na literatura.

Um importante aspecto da religião no norte da península de Iucatã durante o Clássico terminal é a gruta de Balankanché, situada a 20 quilômetros de Chichén Itzá. Trata-se de uma cova de mais de 1.000 metros de longitude onde foram de­positadas centenas de incensários com a forma do deus Chaac ou Tláloc, com o objetivo da celebração de cultos destinados a fomentar a chuva, muito escassa nessa região. Esses incensários têm forma cilíndrica e representam a cabeça do dito deus, caracterizado por seus grandes olhos circulares e bigodeira com algumas presas.

O Pós-Clássico

O período Pós-Clássico maia foi considerado, durante muito tempo, uma época de declínio da civilização já que a escrita e o sistema de contagem de tempo quase não foram registrados, a população decresceu e os centros urbanos já não possuíam a complexa organização espacial de antes. No entanto, hoje os arqueólogos sabem que o Pós-Clássico é resultado de uma série de ações sociais, positivas e negativas, pelas quais passaram os maias, assim como outras civilizações mundialmente conhecidas.

O culto oficial já não se encontrava nas mãos de uma autoridade máxima e so­berana como no Clássico, e sim dividido entre as principais linhagens. Cada centro urbano, cada linhagem e cada família tinham uma ou várias divindades tutelares. A descentralização política que caracteriza esse período contribuiu para a proliferação de ídolos e deuses de diferentes origens.

A principal fonte de estudos da religião maia para esse período consiste nos códices, livros dobrados em forma de biombo confeccionados em papel amate da espécie Fícus ou então de pele de veado. Sabe-se que os maias escreveram vários deles, mas durante o processo de conquista os espanhóis os queimaram como tá­tica de conversão dos indígenas ao cristianismo. Sobraram somente três deles, que atualmente se encontram nas cidades em que foram achados: Códice de Dresden (Alemanha), Códice de Paris (França) e Códice de Madri (Espanha).

Esses documentos eram almanaques adivinhatórios. Foram escritos pelos sacer­dotes e versavam sobre vários eventos astronômicos, como as revoluções sinódicas de Marte e Vênus, associados com a prática de rituais. Esse último planeta foi muito importante na cosmovisão maia, já que estava associado a rituais realizados para a vitória nas guerras. Acredita-se que os maias combatiam em determinados mo­mentos para que Vênus garantisse o sucesso do embate.

Esses almanaques pictográficos contêm pinturas com muitas cores diferentes e representam vários deuses menores cultuados durante o Pós-Clássico. Esses deuses têm o corpo antropomorfo, aparecem de maneira repetida nos códices, têm traços físicos bem definidos e uma indumentária específica. Para muitos estudiosos dos códices, a principal divindade representada é Itzamná, deus da criação, responsável por todas as formas de vida. Essa divindade aparece com vários nomes e formas nos códices: Itzamná Kauil (Colheita Abundante), Itzamná T'ul (Coelho, aspecto malig­no do céu que obstaculiza as chuvas), Itzamná K'inich Ahau (Senhor com Rosto de Céu, ou seja, o Sol), Itzamná Kabul (Criador), Itzamná Cab Ain (Terra Crocodilo).

No entanto, a principal fonte de estudo da religião maia no Pós-Clássico são os livros escritos em língua maia com alfabeto espanhol, durante o processo de con­quista. Os mais conhecidos deles são os de Chilam Balam e Popol Vuh. O primeiro documento, originário do Iucatã, narra que os maias do Pós-Clássico acreditavam que o seu mundo atual havia sido sucedido por outros, e que cada criação foi precedida por uma destruição. Nesse livro se registra que o Ser Supremo ao criar o mundo colocou quatro seres, chamados bacabes, nas quatro esquinas do mundo, para que sustentassem o céu, evitando, desse modo, que ele caísse. Segundo o livro de Chilam Balam, a era anterior havia sido destruída por um dilúvio. Assim, os ba­cabes erigiram "Árvores de Abundância" nas quatro esquinas do universo para que absorvesse a água caso o mundo voltasse a ser destruído dessa maneira.

Já o Popol Vuh, proveniente da Guatemala, narra com detalhe a história da formação do universo. No princípio, eram apenas o céu e o mar. Então, os deu­ses criadores fazem surgir a terra mediante a palavra, e aparecem, desse modo, as montanhas e as planícies. Em seguida, os deuses criaram a vegetação e a fauna. Por último, decidem criar o homem, de terra e barro. Como se pode notar, ainda que esses livros conservem as tradições indígenas, muitos elementos ocidentais podem ser identificados neles, sobretudo no Popol Vuh, que guarda uma grande semelhan­ça com o livro do Gênesis da Bíblia. A religião maia ainda sobrevive em algumas comunidades do México.

Este capítulo teve como preocupação mostrar ao leitor como a religião vai se transformando dentro de uma cultura. Nesse sentido, a religião maia de hoje não é a mesma que a da época Clássica, do mesmo modo que os maias de hoje não são os mesmos de antes do período da conquista. A aculturação desses indígenas por parte dos espanhóis culminou no abandono de suas crenças e na adoção de novas. No en­tanto, alguns elementos da antiga religião ainda podem ser vistos nas comunidades maias contemporâneas como um culto paralelo ao oficial, que não chega a suplantá-lo.

O sincretismo entre o catolicismo e as crenças pré-hispânicas ainda é praticado pelos atuais maias. Por exemplo, em meus trabalhos de campo no sítio arqueológi­co de Chichén Itzá, ouvi, em diversas ocasiões, os anciãos dizerem que os homens foram criados pelo Deus Supremo, dentro de um contexto cristão, com osso moído e sangue, elementos da religião maia anterior à chegada dos espanhóis no México.

Desse modo, a religião maia não deve ser vista como um bloco monolítico, pois possui uma história e ações sociais próprias, com suas correspondentes transforma­ções e continuidades, que incumbe ao historiador das religiões ou ao arqueólogo considerar e explicar.

As fontes

Assim como a religião pode ser conceituada de várias maneiras, o fenômeno religioso também pode ser observado de vários modos. Neste capítulo, utilizamos Arqueologia, inscrições, imagens e relatos etnográficos como fontes.

A Arqueologia fornece elementos, a começar pela arquitetura maia. A religião está formalizada, ou seja, necessita de um espaço para manifestar-se. Assim, o tipo de culto definirá o tipo de espaço e a arquitetura a ser elaborados. A arquitetura pode expres­sar conceitos religiosos ou cosmológicos. No aspecto maia, essa vertente de estudo é bastante frutífera já que essa civilização se caracterizou pela construção de lugares destinados aos diferentes cultos realizados para os distintos deuses de seu panteão.

As oferendas mortuárias encontradas nos enterramentos humanos contribuem para o entendimento da religião das sociedades que utilizaram como prática ritual a colocação de artefatos nas tumbas de seus mortos. No caso maia, o melhor exem­plo são as estelas, monumentos verticais comemorativos que alcançam até os dez metros de altura e que geralmente representam os governantes divinizados com insígnias de poder religioso.


A escrita é uma importante fonte para entender a religião, já que as diferentes culturas costumaram registrá-la geralmente sobre a superfície de pedras ou em livros de papel ou pele de animal. A civilização maia foi a única do continente americano que desenvolveu um sistema de escrita completo, chegando ao grau de fonetismo absoluto em que as palavras escritas representam os diferentes sons que compreendiam seu registro escrito. As pinturas retratando personagens, animais, plantas e seres sobrenaturais são importantes fontes para a expressão religiosa em diferentes culturas no mundo, pois revelam seus princípios de cosmovisão e tipos de rituais realizados.

Por fim, há que mencionar os relatos etno-históricos. Os espanhóis tiveram o primeiro contato com os maias no começo do século XVI, durante o processo de colonização espanhola no México. Um dos aspectos mais severos dessa colonização foi a conversão dos indígenas ao catolicismo. Responsáveis pela aculturação indí­gena, os bispos espanhóis registraram os diferentes costumes dos maias em obras de grande importância para o entendimento da religião e sociedade maias durante o século XVI.

Um comentário:

carlos jose de disse...

camo na cultra africana o homem foi feito do barro na cultura maia estes nesmos simbulos se emcotra nas cemelhanças maias astecas incas e muitos outras a sociedade tem uma erarquia um principio bassico que e a religio os tamores o medo a religiao com um recomeço de uma nova vida o sangue a agua as estrela a matureza fazem parte de um grande cistema de sobrevivencia do ser humana e sua preservaçao da vida no univerço axe de paula