Um sonho

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Estava caminhando no mundo dos sonhos, que seria o mundo da mais absoluta solidão se não estivesse na companhia de mim mesma. É paradoxal para a lógica comum falar "na companhia de mim mesma", mas é assim que me sinto nos sonhos, só é completa, onde um outro eu em mim me faz sentir sempre acompanhada. Talvez, no mundo dos sonhos, eu me torne a minha própria sombra e nessa consciência dupla de mim mesma eu não consigo me perceber solitária tal como me sinto nessa ordinária realidade que chamam de mundo real. Nos sonhos a esquizofrenia do chamado real se esvai e a carência é uma palavra sem sentido. Não há uma parte de mim a clamar por outra, sou.

Andando por caminhos indefiníveis, vejo meu marido conversando alegremente com uma mulher e noto como aquela conversa alegre possui também um ar de sedução que visa provocar aquele velho sentimento: ciúme. Finjo que não vejo, e pareço dormir, mas já não estou dormindo na cama ao lado dele!? O que o sonho quer me dizer? Saio daquela cena e continuo a caminhar e ouço um grito de mulher. Olho e vejo uma mulher em lágrimas, uma amiga que ainda conheço pouco, e ela me diz como que pedindo socorro:

- Eu estou me sentindo tão só!

Toda a energia que ela joga em meu corpo de sonho trago para a consciência cotidiana quando acordo, em forma de nítida lembrança. E penso que se nós mulheres soubéssemos como sonhar um novo sonho de nós mesmas veríamos que não estamos sós, que temos a nós mesmas. Mas isso que parece tão óbvio e tão pueril, quase sem sentido, é uma verdade que só pode ser entendida na atmosfera misteriosa de nós mesmas, de onde nos arrancaram faz tempo e para onde devemos lutar para retornar, a cabaça mágica de nossos corpos, que na dimensão do sonhar cumpre a mesma função que na dimensão terceira, parir. Mas lá no sonho deve parir uma mulher de sonho, sem limites, onde não há solidão, pois faz tempo que já foi dito que tal como é em baixo é em cima. Pelo sonho vamos para o andar de cima de nós mesmas e escapamos da solidão da terceira dimensão, onde procuramos, sem encontrar, um homem que nos complete, quando nós mesmas somos completas, mas esquecemos disso. Sonhemos, e resgatemos a nós mesmas de nossa própria solidão.

FACS

7 comentários:

Daniele disse...

Nossa, belo texto, tem energia. Sinto o que é voltar para mim mesma. Ontem estava comentando com uma amiga, Pat, a respeito do útero e o que tinha lido a respeito. E ela me disse: realmente é um órgão mágico, muda o ponto de aglutinação mesmo, traz pra cá um ser que não estava aqui antes. E ainda brincou: é o elevador de Deus. Resgatar a nós mesmas, o aprendizado dos aprendizados. Quanto poder. Poucas palavras...

Daniele disse...

Desabafo:
Por que me contento com eese arremedo de mim mesma? Sempre pronta a agradar aos outros, sem saber o que quero por dentro?
Por que me satisfaço em rastejar se já saí do casulo, se já possuo asas? Que medo é esse de explodir em expansão sem fim e deixar de existir se ainda nem nasci pra vida?
Por que me esconder, defender o que não sou, dar os passos por mim e por todos a minha volta? Sou zumbi, convivo com zumbis. Mas estou acordando e tenho medo do que vejo. Mas não posso parar. Eu sou maior que eu mesma. Já não sei o que é real e me apego a ilusão de mim.
ainda me resta o sonho, lá não temo, sou inteira, instintos funcionam, ciclos são respeitados, pergunto e vejo.
Ainda me resta o sonho....

FACS disse...

Oi, Daniele!

De certa forma essa realidade nossa é uma realidade que é sonhada por tanta gente que ela se torna por demais inclusiva, possessiva, restritiva, nos separando de possibilidades mais vastas da consciência humana. Assim ela se torna o mundo da solidão, porque ficamos alijados de nós mesmos, através de uma prisão mental feita de ego. Ou seja, isso aqui também é sonho, um sonho do qual temos que acordar de uma forma muito própria, muito estratégica, com muito cuidado, sabendo lidar muito bem com o nosso aqui e agora, nossas relações, nossas obrigações, assim estaremos habilitados para lidar com outros níveis de complexidade de nossa própria consciência.

No intento,

FACS

Daniele disse...

Saravá F.A,
é mais ou menos isso, pq não da pra expressar em palavras. Mas quando sinto a experiência é uma dor intensa. Não importa se estou apenas comendo uma maçã. Estou intentando acordar com cuidado, e a não fugir deste sonho de agora. Estou percebendo que como na cebola é ter acesso a mais camadas, e não uma exclusão de camadas. Quando tento excluir me perco. É o máximo q consigo dizer por agora. Grata pela companhia. porque o que mais necessito ser lembrada é o acordar com cuidado, espreitar, sem movimentos bruscos, porque senão tudo some nas brumas.

Adriana disse...

Vc que escreveu, Fernando?

Muito bom!!!

Adriana disse...

Vc que escreveu, Fernando?
Muito bom!!!

FACS disse...

Oi, Adriana!

São aqueles textos que escrevemos mas que ao dizer: "eu escrevi", soa quase como uma mentira.

Certamente conheces essa sensação, não?

No intento,

FACS