Uma explicação sobre a vaidade

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A vaidade não é algo simples e ingênuo — explicou. — De um lado, é o núcleo de tudo que é bom em nós e, por outro, o núcleo de tudo que não presta. Livrar-se da vaidade que não presta requer prodígios de estratégia. Através dos tempos, os videntes renderam homenagens àqueles que conseguiram - O Fogo Interior, de Carlos Castaneda.


"Na vaidade há Narciso e Dionísio".


Dizer isso é dizer que há duas vaidades, uma que presta e outra que não presta.


Narciso pode ser visto como a vaidade que não presta, representa a pessoa fascinada por si.


Dionísio é a vaidade que presta, está a serviço da pessoa, a auto-estima se encontra valorizada, a pessoa se ama, mas não está fascinada por si mesma.


Mas porque ligar o mito de Dionísio com a vaidade que é benéfica?


Dionísio se veste como uma pele de leão e conduz um carro puxado por leões, segundo o mito. Leão é o 5º signo do zodíaco, regido pelo sol, e representa aquele que é, o ser, o self, o centro da atenção. Isso nos liga a vaidade, um dos defeitos de Leão e também uma de suas qualidades. Defeito quando é expressão de carência, a pessoa distanciada do seu próprio centro buscando ser o centro da atenção de alguém, a auto-piedade.


E qualidade quando é uma legítima afirmação de si mesmo, a auto-estima.


A busca incessante por reconhecimento social é a vaidade que não presta, a tranqüila aceitação de si e o reconhecimento do próprio valor, essa consciência de si, é a verdadeira auto-estima, que não nasce do reconhecimento social, nasce da compreensão que ninguém é superior ou inferior a coisa alguma, mas que cada um possui o seu valor, sem comparação, sem inveja.


No mito, Dionísio conduz os leões, isso significa que a vaidade não lhe fascinou ou devorou, mas está a servico dele, a serviço do ser.


Dionísio, no mito, é quem assegura o retorno da Primavera, que já se anuncia por aqui.


É o deus da embriaguez divina e do êxtase, nascido da coxa do próprio Zeus após a morte da mãe consumida no fogo da visão divina.


O xamanismo pode então ser visto como a arte do êxtase, é a arte de Dionísio e a superação de Narciso, é a arte de sair fora de si (vendo nesse "si" como os limites da auto-reflexão enfeitiçadora do ego) para além dos limites da vaidade que não presta.


Fernando Augusto

2 comentários:

CHÎNÅ .3Ө disse...

7 vezes Obrigado!

beijamim disse...

Muito bom mesmo, e equilibrado. Não dá para amar a si mesmo e ao mundo, se a visão que temos de nós mesmos for superlativa e ilusória. Mas também não dá para amar e interferir beneficamente em qualquer coisa se a gente se detesta. Nosso olhar reprograma o mundo em que vivemos.