O homem cuja vida era inexplicável

sábado, 23 de abril de 2011

À noite, pedi a um velho sábio que me contasse todos os segredos do universo. Ele murmurou lentamente em meu ouvido:

- Isto não se pode dizer, isto se aprende.

Rumi

Havia uma vez um homem chamado Mojud. Vivia numa cidade onde obtivera um emprego como pequeno funcionário, e tudo parecia indicar que terminaria sua vida como Inspetor de Pesos e Medidas.

Certo dia quando caminhava ao longo dos jardins de um antigo edifício próximo à sua casa, Khidr, o misterioso Guia dos Sufis, surgiu diante dele, vestido de um verde luminoso. Então Khidr disse:

- Homem de brilhantes perspectivas! Deixe seu trabalho e se encontre comigo na margem do rio dentro de três dias. - Dito isso, desapareceu.

Excitado, Mojud procurou seu chefe e lhe disse que ia partir. E todos na cidade logo souberam do fato e comentaram:

- Pobre Mojud! Deve ter ficado louco.

Mas como havia muitos candidatos ao posto vago, logo se esqueceram de Mojud. No dia marcado, Mojud encontrou Khidr, que lhe disse:

- Rasgue suas roupas e se lance no rio, talvez alguém o salve.

Mojud obedeceu, embora se perguntasse se não estaria louco.

Já que sabia nadar, não se afogou, mas ficou boiando à deriva um longo trecho da corrente antes que um pescador o recolhesse em seu bote, dizendo:

- Homem insensato! A corrente aqui é forte. Que está tentando fazer?

- Na verdade eu não sei - respondeu Mojud.

- Vejo que perdeu a razão, mas o levarei à minha cabana de juncos junto ao rio e aí veremos o que se pode fazer por você - disse o pescador.

Quando o pescador descobriu que Mojud era bem instruído, passou a aprender com ele a ler e escrever. Em troca, Mojud recebeu alojamento e comida e ajudou o pescador em seu trabalho diário.

Transcorridos uns poucos meses, Khidr apareceu novamente, desta vez ao pé do leito de Mojud, e disse:

- Levante-se e deixe a cabana deste pescador. Será provido do necessário.

Vestido como um pescador, Mojud deixou imediatamente a humilde cabana e perambulou sem rumo certo até alcançar uma estrada.

Ao romper da aurora, viu um granjeiro montado num burro, a caminho do mercado.

- Procura trabalho? - perguntou o agricultor. - Estou precisando de um homem que me ajude a trazer algumas compras da cidade.

Mojud o acompanhou então. Trabalhou para o granjeiro durante quase dois anos, ao fim dos quais aprendeu muita coisa, mas somente sobre agricultura.

Uma tarde quando estava ensacando lã, Khidr fez nova aparição e lhe disse:

- Deixe esse trabalho, dirija-se à cidade de Mosul, e empregue suas economias para se converter em mercador de peles.

Mojud obedeceu.

Em Mosul tornou-se logo conhecido como um negociante de peles, sem voltar a ver Khidr durante os três anos em que exerceu seu novo ofício. Tinha reunido uma considerável quantia e estava pensando em comprar uma casa, quando Khidr lhe apareceu e disse:

- Dê-me seu dinheiro, afaste-se desta cidade rumo à distante Samarkand e lá passe a trabalhar para um merceeiro.

Foi o que Mojud fez. E logo começou a demonstrar indícios indubitáveis de iluminação. Curava os enfermos, servia a seu próximo no armazém e nas horas de lazer, e seu conhecimento dos mistérios da vida tomou-se cada vez mais profundo.

Sacerdotes, filósofos e outros o visitavam e indagavam:

- Com quem você estudou?

- É difícil dizer - respondia Mojud.

Seus discípulos perguntavam:

- Como iniciou sua carreira?

E ele retrucava:

- Como um pequeno funcionário.

- E deixou o emprego para dedicar-se à automortificação?

- Não, simplesmente abandonei a carreira.

Eles não o compreendiam.

Pessoas dele se acercavam, desejosas de escrever a história de sua vida.

- Que tem feito em sua vida? - indagavam.

- Em me atirei a um rio, fui salvo por um pescador com quem morei e trabalhei. Certa noite, abandonei a sua cabana de juncos. Depois, me converti num agricultor. Quando estava ensacando lã, larguei meu trabalho e me dirigi para Mosul, onde me tornei mercador de peles. Economizei algum dinheiro ali, mas o doei. Então fui para Samarkand, passando a trabalhar para um merceeiro. E aqui estou agora.

- Mas esse comportamento inexplicável não esclarece de modo algum seus estranhos dons e exemplos edificantes - observaram os biógrafos.

- Assim é - disse Mojud.

E foi assim que os biógrafos teceram em torno da figura de Mojud uma história maravilhosa e excitante. Porque todos os santos afinal devem ter sua história, e esta deve estar de acordo com a curiosidade do ouvinte, não com as realidades da vida.

E a ninguém é permitido falar de Khidr diretamente. É por isso que esta história não é verídica. É uma representação de uma vida. A vida real de um dos maiores sufis.

O Xeque Ali Farmadhi (falecido em 1078) reputava importante este conto para exemplificar a crença sufi de que o 'mundo invisível' está todo o tempo, em vários lugares, interpenetrando a realidade comum.

Coisas - diz ele - que encaramos como inexplicáveis são, de fato, devidas a tal intervenção. E mais, as pessoas não reconhecem a participação desse 'mundo' no seu, por acreditarem conhecer a causa real dos acontecimentos. Mas não a conhecem. Somente quando advertem a possibilidade de outra dimensão que atua às vezes sobre as experiências comuns, é que tal dimensão pode tornar-se acessível a elas.

O Xeque é o décimo Xeque e Mestre instrutor da Ordem dos Khwajagan ('mestres'), conhecida depois como o Caminho Naqshbandi.

A presente versão é do manuscrito do século XVII de Lala Anwar, Hikayat-i-Abdalan ('Histórias dos Transformados').

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