Conversas com o Diabo

quarta-feira, 6 de outubro de 2010


- Conheço apenas uma pessoa capaz de dizer:

- Eu sou invejosa.

E eu diria: - E também corajosa. Possuidora daquela coragem que deriva da honestidade consigo mesmo.

A inveja que se vê perde muito do seu poder.

Faz anos me interesso pelo estudo da inveja por ser o pecado mais comum, mais popular, mais temido e menos aceito.

Nem mesmo no inferno tal pecado é aceito.


Descobri isso lendo o livro de Zuenir Ventura intitulado “Inveja”. A certa altura o autor pergunta por que dentre todos os círculos infernais concebidos por Dante Alighieri, autor de “A Divina Comédia”, não havia um círculo para a inveja, já que a inveja é um dos pecados capitais (luxúria, orgulho, ira, cobiça, preguiça e gula são os outros).

Escrevi para o Zuenir, mas dei uma resposta por demais elaborada, pois na época estava com a cabeça envolta em estudos esotéricos, herméticos e ocultistas, e ele agradeceu de forma muito gentil a minha resposta, que em resumo foi:

Não há nenhum círculo dantesco (no Inferno concebido pelo iniciado e poeta Dante Alighieri) próprio para a inveja porque no Hades seus moradores não têm a quem invejar.

É como se o inferno fosse o modelo perfeito da socialização da desgraça, e, assim sendo, não há a quem invejar. Os desgraçados habitantes do submundo unidos marcham na direção da morte segunda.

Obviamente não acredito em inferno como um local para onde se vai em função dos pecados. Penso que o inferno é uma representação mítica de um estado de (in) consciência gerador de sofrimento.

O verdadeiro inferno do invejoso não está no Hades, mas sim na Terra, onde ele padece por causa da alegria e do sucesso dos vivos.

Assim minha tendência é encarar o invejoso como um neurótico, um doente mental, que tende a contagiar os outros lhes explorando as possíveis fraquezas.

Uma estória que ilustra bem isso é Otelo, de Shakespeare, com o astuto e invejoso Iago. Também vale citar o filme Amadeus (Mozart), com outro maravilhoso pérfido, Salieri. Na história da Branca de Neve a Rainha é outra acometida pela inveja. Não podendo ser mais bela que a outra ela quer envenená-la.

Todos nós se olharmos bem no espelho veremos ali que temos muito ou pouco de Iago, de Salieri e da Rainha malvada da Branca de Neve.

Aquele que for sem inveja que atire a primeira figa!

Mas há casos verdadeiramente doentios, que são dignos de um tratamento terapêutico para o resgate da auto-estima.

Como a inveja é o socialismo da desgraça eles, os invejosos, ficam mais satisfeitos na desgraça alheia do que na própria felicidade. É como aquele torcedor fanático que torce mais pela derrota do time adversário do que pela vitória do próprio time.

Há uma história que pode ser entendida dentro da ótica da inveja que é a do escorpião que numa enchente precisa atravessar um rio e pede ajuda a rã.

A rã lhe diz: - Mas você é um escorpião. Vai me picar e matar.

O escorpião responde: - Se eu fizer isso também morrerei.

Convencida a rã carrega o escorpião nas costas e no meio da travessia é picada.

Ela diz:

- Mas agora nós vamos morrer!

- O que você esperava? Sou um escorpião.

Assim o invejoso é um paradoxo de emoções, pois vive feliz na infelicidade do outro, e é por isso que no inferno ele não encontra lugar específico, o espaço já lhe pertence como um todo. Por outro lado, a solidariedade na desgraça é o paraíso do invejoso. E, ao contrário, a felicidade do outro lhe é profundamente dolorosa, infernal.

Tinha um amigo, que para prevenir-se da inveja, só contava desgraças, só reclamava da vida, só vivia a chorar as pitangas. Assim ela ganhava solidariedade, compaixão e evitava a inveja.

Vivemos numa sociedade muito louca, muito estranha, profundamente doente. Infelizmente o senso comum só entende doença como uma expressão de sintomas físicos.

Vemos a inveja organizada até em partidos políticos. Notem como certos partidos quando na oposição não param de criticar os poderosos, a situação. Mas quando assumem o poder passam a assumir a atitude daqueles que criticavam. Claro, tal crítica era apenas motivada por inveja. No fundo, eles queriam o poder. E então a coisa se inverte.

A crítica é uma arma muito usada pelo invejoso, interessado apenas na destruição do objeto de seu desejo. É praticamente uma declaração de paixão invertida, neurótica, doentia. Ele critica o objeto de seu desejo porque no fundo gostaria de ser ou de estar na posição do mesmo.

Se pudermos olhar profundamente em nós mesmos, se tivermos essa coragem, perceberemos dentro de nós mesmos aquilo que tememos ou acreditamos não ter mas que estranhamente nos ronda. Quando tememos, quando criticamos podemos estar aparente ou veladamente contagiados por uma emoção que não queremos reconhecer, algo que faz parte de nossa sombra e que projetamos.

Nesse sentido há um pensamento de Nietzche muito interessante:

Aquele que leva a vida a caçar monstros

deve cuidar de si para não tornar a si mesmo um monstro.

E quando se olha tempo demais para o abismo, o abismo lhe retorna o olhar.

Haja Ho’oponopono.

Eu te amo, sinto muito, me perdoe, obrigado!

F.A.

Um comentário:

Rosane disse...

Boa noite
Adorei,Fernando:"Aquele que for sem inveja que atire a primeira figa!!"

Essa postagem leva a uma reflexão,uma oportunidade
de melhorar nossa conduta,pensamentos..

Eu sinto muito,me perdoa,te amo, obrigada

Rosane Peon