Psicologia da Evolução Possível do Homem - 2ª parte

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Por que nem todos os homens podem desenvolver-se e tomar-se seres diferentes?

A resposta é muito simples. Porque não o desejam. Porque nada sabem a respeito e ainda que se lhes diga, não o compre­enderão antes de uma longa preparação.

A idéia essencial é que, para tornar-se um ser diferente, o homem deve desejá-lo intensamente e por muito tempo. Um desejo passageiro ou vago, nascido de uma insatisfação no que diz respeito às condições exteriores, não criará um impulso suficiente.

A evolução do homem depende de sua compreensão do que pode adquirir e do que deve dar para isso.

Se o homem não o desejar, ou não o desejar com bastante intensidade e não fizer os esforços necessários, jamais se desen­volverá. Não há, pois, injustiça alguma nisso. Por que haveria de ter o homem o que não deseja? Se o homem fosse forçado a tomar-se um ser diferente, quando está satisfeito com o que é, aí sim, haveria injustiça.

Perguntemo-nos, agora, o que significa um ser diferente. Se examinarmos todos os dados que podemos reunir sobre essa questão, encontraremos sempre a afirmação de que, ao tornar-se um ser diferente, o homem adquire numerosas qualidades novas e poderes que antes não possuía. Essa afirmação é comum a todas as doutrinas que admitem a idéia de um crescimento inte­rior do homem.

Isso, porém, não basta. As descrições, ainda que as mais detalhadas, desses novos poderes não nos ajudarão de modo algum a compreender como aparecem nem de onde vem.

Falta um elo nas teorias geralmente admitidas, mesmo na­quelas de que acabo de falar e que têm por base a idéia da possibilidade de uma evolução do homem.

A verdade é que antes de adquirir novas faculdades ou novos poderes, que não conhece e ainda não possui, o homem deve adquirir faculdades e poderes que tampouco possui, mas que se atribui, isto é, que crê conhecer e crê ser capaz de usar e de usar até com maestria.

Esse é o “elo que falta”, e aí está o ponto de maior im­portância.

No caminho da evolução, definido como um caminho ba­seado no esforço e na ajuda, o homem deve adquirir qualidades que crê já possuir, mas sobre as quais se ilude.

Para compreender isso melhor, para saber que faculdades novas, que poderes insuspeitados pode o homem adquirir e quais são aqueles que imagina possuir, devemos partir da idéia geral que o homem tem de si mesmo.

E encontramo-nos, de imediato, ante um fato importante.

O homem não se conhece.

Não conhece nem os próprios limites, nem suas possibili­dades. Não conhece sequer até que ponto não se conhece.

O homem inventou numerosas máquinas e sabe que, às vezes, são necessários anos de sérios estudos para poder ser­vir-se de uma máquina complicada ou para controlá-la. Mas, quando se trata de si mesmo, ele esquece esse fato, ainda que ele próprio seja uma máquina muito mais complicada do que todas aquelas que inventou.

Está cheio de idéias falsas sobre si mesmo.

Antes de tudo, não se dá conta de que ele é realmente uma máquina.

O que quer dizer: “O homem é uma máquina”?

Quer dizer que não tem movimentos independentes, seja interior, seja exteriormente. É uma máquina posta em movimento por influências exteriores e choques exteriores. Todos os seus movimentos, ações, palavras, idéias, emoções, humores e pensa­mentos são provocados por influências exteriores. Por si mesmo, é tão-somente um autômato com certa provisão de lembran­ças de experiências anteriores e certo potencial de energia em reserva.

Devemos compreender que o homem não pode fazer nada.

O homem, porém, não se apercebe disso e se atribui a capa­cidade de fazer. Ë o primeiro dos falsos poderes que se arroga.

Isso deve ser compreendido com toda a clareza. O homem não pode lazer nada. Tudo o que crê fazer, na realidade, acon­tece. Isso acontece exatamente como “chove”, “neva” ou “venta”.

Infelizmente, não há em nosso idioma verbos impessoais que possam ser aplicados aos atos humanos. Devemos, pois, continuar a dizer que o homem pensa, lê, escreve, ama, detesta, empreende guerras, combate, etc. Na realidade, tudo isso acontece.

O homem não pode pensar, falar nem mover-se como quer. É uma marionete, puxada para cá e para lá por fios invisíveis. Se compreender isso, poderá aprender mais coisas sobre si mes­mo e talvez, então, tudo comece a mudar para ele.

Mas, se não puder admitir nem compreender sua profunda mecanicidade, ou não quiser aceitá-la como um fato, não po­derá aprender mais nada e as coisas não poderão mudar para ele.

O homem é uma máquina, mas uma máquina muito sin­gular. Pois, se as circunstâncias se prestarem a isso, e se bem dirigida, essa máquina poderá saber que é uma máquina. E se se der conta disso plenamente, ela poderá encontrar os meios para deixar de ser máquina.

Antes de tudo, o homem deve saber que ele não é um, mas múltiplo. Não tem um Eu único, permanente e imutável. Muda continuamente. Num momento é uma pessoa, no momento seguinte outra, pouco depois uma terceira e sempre assim, quase indefinidamente.

O que cria no homem a ilusão da própria unidade ou da própria integralidade é, por um lado, a sensação que ele tem de seu corpo físico; por outro, seu nome, que em geral não muda e, por último, certo número de hábitos mecânicos implantados nele pela educação ou adquiridos por imitação. Tendo sempre as mesmas sensações físicas, ouvindo sempre ser chamado pelo mesmo nome e, encontrando em si hábitos e in­clinações que sempre conheceu, imagina permanecer o mesmo.

Na realidade não existe unidade no homem, não existe um centro único de comando, nem um “Eu’, ou ego, permanente

Eis aqui um esquema geral do homem:

EU
EUE
EUEU
EUEUEU
EUEUEUEU
EUEUEU
EUEUE
EUE
EU

Nota do digitador: No esquema original

Lia-se a palavra EU inscrita em vários quadrados inscritos em um círculo.

Cada pensamento, cada sentimento, cada sensação, cada desejo, cada “eu gosto” ou “eu não gosto”, é um “eu”. Esses eus” não estão ligados entre si, nem coordenados de modo algum. Cada um deles depende das mudanças de circunstâncias exteriores e das mudanças de impressões.

Tal “eu” desencadeia mecanicamente toda uma série de outros eus”. Alguns andam sempre em companhia de outros. Não existe aí, porém, nem ordem nem sistema.

Alguns grupos de “eus” têm vínculos naturais entre si. Fa­laremos desses grupos mais adiante. Por enquanto, devemos tratar de compreender que as ligações de certos grupos de “eus” constituem-se unicamente de associações acidentais, recordações fortuitas ou semelhanças completamente imaginárias.

Cada um desses “eus” não representa, em dado momento, mais que uma ínfima parte de nossas funções, porém cada um deles crê representar o todo. Quando o homem diz “eu”, tem-se a impressão de que fala de si em sua totalidade, mas, na reali­dade, mesmo quando crê que isso é assim, é só um pensamento passageiro, um humor passageiro ou um desejo passageiro. Uma hora mais tarde, pode tê-lo esquecido completamente e expres­sar, com a mesma convicção, opinião, ponto de vista ou inte­resses opostos. O pior é que o homem não se lembra disso. Na maioria dos casos, dá crédito ao último “eu” que falou, en­quanto este permanece, ou seja, enquanto um novo “eu” — às vezes sem conexão alguma com o precedente — ainda não tenha expressado com mais força sua opinião ou seu desejo.

E agora, voltemos às outras perguntas.

O que se deve entender por “desenvolvimento”? E o que quer dizer tornar-se um ser diferente? Em outras palavras, qual é a espécie de mudança possível ao homem? Quando e como se inicia essa mudança?

Já dissemos que a mudança deve começar pela aquisição desses poderes e capacidades que o homem se atribui, mas que, na realidade, não possui.

Isso significa que, antes de adquirir qualquer poder novo ou qualquer capacidade nova, o homem deve desenvolver nele as qualidades que crê possuir e sobre as quais ele cria para si as maiores ilusões.

O desenvolvimento não pode se basear na mentira a si mesmo, nem no enganar-se a si mesmo. O homem deve saber o que é seu e o que não é seu. Deve dar-se conta de que não possui as qualidades que se atribui: a capacidade de fazer, a individualidade ou a unidade, o Ego permanente, bem como a consciência e a vontade.

E é necessário que o homem saiba disso, pois enquanto imaginar possuir essas qualidades, não fará os esforços necessá­rios para adquiri-las, da mesma maneira que um homem não comprará objetos preciosos, nem estará disposto a pagar um preço elevado por eles, se acreditar que já os possui.

A mais importante e a mais enganosa dessas qualidades é a consciência. E a mudança no homem começa por uma mu­dança em sua maneira de compreender a significação da cons­ciência e continua com a aquisição gradual de um domínio da consciência.

Que ‘é a consciência?

Na linguagem comum, a palavra “consciência” é quase sempre empregada como equivalente da palavra “inteligência”, no sentido de atividade mental.

Na realidade, a consciência no homem é uma espécie muito particular de “tomada de conhecimento interior” independente de sua atividade mental — é, antes de tudo, uma tomada de conhecimento de si mesmo, conhecimento de quem ele é, de onde está e, a seguir, conhecimento do que sabe, do que não sabe, e assim por diante.

Só a própria pessoa é capaz de saber se está consciente ou não em dado momento. Certa corrente de pensamento da psico­logia européia provou, aliás, há muito tempo, que só o próprio homem pode conhecer certas coisas sobre si mesmo.

Só o próprio homem, pois, é capaz de saber se a sua cons­ciência existe ou não, em dado momento. Assim, a presença ou a ausência de consciência no homem não pode ser provada pela observação de seus atos exteriores. Como acabo de dizer, esse fato foi estabelecido há muito, mas nunca se compreendeu real­mente sua importância, porque essa idéia sempre esteve ligada a uma compreensão da consciência como atividade ou processo mental.

O homem pode dar-se conta, por um instante, de que, antes desse mesmo instante, não estava consciente; depois, esquecera essa experiência e, ainda que a recorde, isso não será a cons­ciência. Será apenas a lembrança de uma forte experiência.

Quero, agora, chamar-lhes a atenção para outro fato per­dido de vista por todas as escolas modernas de psicologia.

É o fato de que a consciência no homem jamais é perma­nente, seja qual for o modo como é encarada. Ela está presente ou está ausente. Os momentos de consciência mais elevados criam a memória. Os outros momentos, o homem simplesmente os esquece. É justamente isso que lhe dá, mais que qualquer outra coisa, a ilusão de consciência contínua ou de “percepção de si” contínua.

Algumas modernas escolas de psicologia negam inteira­mente a consciência, negam até a utilidade de tal termo; isso, porém, não passa de paroxismo de incompreensão.

Outras escolas, se é possível chamá-las assim, falam de “es­tados de consciência”, quando se referem a pensamentos, senti­mentos, impulsos motores e sensações. Tudo isso tem como base o erro fundamental de se confundir consciência com funções psíquicas. Falaremos disso mais adiante.

Na realidade, o pensamento moderno, na maioria dos casos, continua a crer que a consciência não possui graus. A aceitação geral, ainda que tácita, dessa idéia, embora em contradição com numerosas descobertas recentes, tornou impossível muitas obser­vações sobre as variações da consciência.

O fato é que a consciência tem graus bem visíveis e obser­váveis, em todo caso visíveis e observáveis por cada um em si mesmo.

Primeiro, há o critério da duração: quanto tempo se per­maneceu consciente?

Segundo, o da freqüência: quantas vezes se tornou cons­ciente?

Terceiro, o da amplitude e da penetração: do que se estava consciente? Pois isso pode variar muito com o crescimento inte­rior do homem.

Se considerarmos apenas os dois primeiros desses três pon­tos, poderemos compreender a idéia de uma evolução possível da consciência. Essa idéia está ligada a um fato essencial, per­feitamente conhecido pelas antigas escolas psicológicas, tais como a dos autores da Philokalia, porém completamente ignorado pela filosofia e pela psicologia européias dos dois ou três últimos séculos.

É o fato de que, por meio de esforços especiais e de um estudo especial, a pessoa pode tornar a consciência contínua e controlável.

Tentarei explicar como a consciência pode ser estudada. Tome um relógio e olhe o ponteiro grande, tentando manter a percepção de si mesmo e concentrar-se no pensamento “eu sou Pedro Ouspensky”, por exemplo, “eu estou aqui neste momen­to”. Tente pensar apenas nisso, siga simplesmente o movimento do ponteiro grande, permanecendo consciente de si mesmo, de seu nome, de sua existência e do lugar em que você está. Afaste qualquer outro pensamento.

Se for perseverante, poderá fazer isso durante dois minutos. Tal é o limite da sua consciência. E se tentar repetir a experiên­cia logo a seguir, irá achá-la mais difícil que da primeira vez.

Essa experiência mostra que um homem, em seu estado normal, pode, mediante grande esforço, ser consciente de uma coisa (ele mesmo) no máximo durante dois minutos.

A dedução mais importante que se pode tirar dessa expe­riência, se realizada corretamente, é que o homem não é cons­ciente de si mesmo. Sua ilusão de ser consciente de si mesmo é criada pela memória e pelos processos do pensamento.

Por exemplo, um homem vai ao teatro. Se tem esse hábito, não tem consciência especial de estar ali enquanto ali está. E, não obstante, pode ver e observar; o espetáculo pode interessá-lo ou aborrecer-lhe; pode lembrar-se do espetáculo, lembrar-se das pessoas com quem se encontrou, e assim por diante.

De volta à casa, lembra-se de haver estado no teatro e, naturalmente, pensa ter estado consciente enquanto lá se en­contrava.

De forma que não tem dúvida alguma quanto à sua cons­ciência e não se dá conta de que sua consciência pode estar totalmente ausente, mesmo quando ele ainda age de modo razoá­vel, pensa e observa.

De maneira geral, o homem pode conhecer quatro estados de consciência, que são: o sono, o estado de vigília, a consciên­cia de si e a consciência objetiva.

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