A Utopia do Amor Perfeito

domingo, 11 de outubro de 2009

Aproveitando o título de mais esse Café Filosófico (os links estão no final do post), a Utopia do Amor Perfeito, podemos perguntar:

- Quem aqui pretende um amor perfeito?

E na seqüência lógica da pergunta surge:

- Como pretendemos avaliar o que é perfeito sendo como somos?

A maça celestial


Nasrudin está sentado no meio de um círculo de discípulos, quando um deles lhe pergunta que relação existe entre as coisas deste mundo e as de uma dimensão diferente. Diz Nasrudin:


— Você precisa compreender a alegoria.


O discípulo retruca:


— Mostre-me alguma coisa prática. Por exemplo, uma maça do paraíso.


Nasrudin pega uma maçã e estende-a ao homem.


— Mas esta maçã está estragada de um lado. Uma maçã celestial com certeza seria perfeita.


— Uma maça celestial seria perfeita — concorda Nasrudin; — mas, na medida em que você é capaz de julgá-la, situados como estamos nesta morada de corrupção, e com suas faculdade atuais, esta é a mais parecida com uma maçã celestial que você conseguirá ver em toda sua vida.


Eis uma história perfeita. Mostra que obtemos o amor perfeito de acordo com o nosso grau de perfeição. Perfeição é uma palavra perigosa sujeita que está a tantos significados. Nem a palavra é perfeita. Consulto rapidamente o dicionário em busca de socorro:

Perfeito

adjetivo
1 em que não há defeito; que apresenta as melhores qualidades
2 que se caracteriza por ser completo; cabal, rematado, total
3 que se destaca por ser notável; magistral

Amor perfeito é amor total, o amor que nos completa.

Mas parece-me que uma coisa óbvia nos escapa na prática dos relacionamentos.

Sempre pensamos o amor perfeito pelo objeto e não pelo sentimento.

Vou repetir, até para ver se não estou escrevendo besteira, as vezes entro numa espécie de paranóia quando acredito estar vendo algo aparentemente óbvio, afinal, o que se percebe fácil nos deixa desconfiados com a facilidade mesma da percepção.

Sempre pensamos o amor perfeito pelo objeto e não pelo sentimento.

Vou até refazer o pensamento de forma menos exigente.

Quase sempre pensamos o amor pelo objeto e não pelo sentimento.

Assim quando perdemos o objeto do nosso amor o nosso sentimento vai com ele e se converte num sentimento diferente: perda, abandono, tristeza.

Pregamos o nosso sentimento de amor no objeto tal como Jesus na cruz. Estranho isso, muito estranho, porque o sentimento é nosso.

Vou contar uma outra historinha:

Em uma sala de aula, havia várias crianças, quando uma delas perguntou à professora:

- Professora, o que é o amor?

A professora sentiu que a criança merecia uma resposta à altura da pergunta inteligente que fizera. Como já estava na hora do recreio, pediu para que cada aluno desse uma volta pelo pátio da escola e que trouxesse o que mais despertasse nele o sentimento de amor.

As crianças saíram apressadas e, ao voltarem, a professora disse:

- Quero que cada um mostre o que trouxe consigo.

A primeira criança disse: - Eu trouxe esta flor, não é linda?

A segunda criança falou: - Eu trouxe esta borboleta. Veja o colorido de suas asas, vou colocá-la em minha coleção.

A terceira criança completou: - Eu trouxe este filhote de passarinho. Ele havia caído do ninho junto com outro irmão. Não é uma gracinha? E assim as crianças foram se manifestando.

Terminada a exposição, a professora notou que havia uma criança que tinha ficado quieta o tempo todo. Ela estava vermelha de vergonha, pois nada havia trazido.

A professora se dirigiu a ela e perguntou: - Meu bem, por que você nada trouxe?

E a criança timidamente respondeu:

- Desculpe, professora. Vi a flor e senti o seu perfume. Pensei em arrancá-la, mas preferi deixá-la para que seu perfume exalasse por mais tempo. Vi também a borboleta, leve, colorida! Ela parecia tão feliz que não tive coragem de aprisioná-la. Vi também o passarinho caído entre as folhas, mas, ao subir na árvore, notei o olhar triste de sua mãe e preferi devolvê-lo ao ninho. Portanto, professora, trago comigo o perfume da flor, a sensação de liberdade da borboleta e a gratidão que senti nos olhos da mãe do passarinho. Como posso mostrar o que trouxe?

A professora agradeceu à criança e lhe deu nota máxima, pois ela fora a única que percebera que só podemos trazer o amor em nosso coração...

Pois é...uma história aparentemente tão boba, uma história de crianças e para crianças, vai precisamente no ponto:

Quase sempre pensamos o amor pelo objeto e não pelo sentimento.

E fazemos assim porque assim nos foi ensinado a fazer. Se não vejamos.

Eis o 1º Mandamento da tradição religiosa dominante em nossa cultura: Amar a Deus sobre todas as coisas.

Colocar um sentimento como um mandamento me lembra a vez em que uma namorada me obrigou a dizer "eu te amo". Não se pode obrigar a amar. Um sentimento forçado é um sentimento falso. O amor forçado é uma violência emocional, um crime de lesa-coração. Não me surpreende que vivamos numa sociedade onde a violência e o abuso dominem, pois a própria religião em seu primeiro mandamento quer nos obrigar a amar. O amor não é obediente à lei, o amor é obediente ao amor.

Assim somos obrigados, por lei, a fixar nosso amor no outro, mesmo que esse outro seja Deus, quando na verdade o próprio ato de amar já é divino em si mesmo. Assim "Deus é Amor". Dizer Deus é Amor é bem diferente de dizer que o Amor é Deus. Na 1ª afirmação a Divindade é o próprio sentimento, não uma pessoa. Assim o primeiro mandamento revela não apenas a sua natureza autoritária, mas também alienante ao transferir o sentimento para outrem, quando o próprio sentimento já é ele mesmo divino.

Blavastky escreveu: Não há religião superior à Verdade.

Nós podemos escrever: Não há divindade superior ao Amor.

Mas assim como Jesus e Buda silenciaram quando perguntados sobre o que é a Verdade, o mesmo silêncio é a resposta para o que é o Amor.

Dizer que o Amor é a verdade fundamental do Universo são apenas palavras das quais os céticos zombam.

Dizer que o Amor é a verdadeira natureza do Poder são apenas palavras das quais os políticos escarnecem.

Fixamos o nosso amor no objeto, transferimos o nosso sentimento para as coisas e para os outros. Ao fazer isso nos alienamos de nós mesmos e isso cria a carência, e a carência é esse estado de precisar dos outros e das coisas para amar.

Na verdade para amar nós não precisamos do outro e das coisas, isso é secundário, para amar nós precisamos do sentimento de amor. E isso parece uma tautologia.

O nosso amor pelo outro e pelas coisas nunca poderá ser perfeito, nunca poderá ser completo, porque um amor que dependa das coisas e do outro está sujeito inevitavelmente a perda, ao abandono, ao sofrimento, um amor assim é um amor alienado, alienado de si mesmo, é como se deus não se reconhecesse como tal, é como se o sol parasse de brilhar porque a lua foi embora.

O amor que sinto depende de mim e não do outro. Ele está em mim. É um sentimento que emano a partir de mim, como um sol, que não depende daquilo que ele ilumina para iluminar, do ponto de vista do Sol isso seria um absurdo.

A dificuldade de entender o Amor como um sentimento que emana como um Sol e que independe do objeto é totalmente compreensível pois fomos educados, condicionados a sentir de uma maneira falsa.

Aquele que redescobrir o Amor em si mesmo descobrirá a Verdade de seu próprio Ser e poderá entender plenamente o que significa Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida.

Uma interpretação meramente intelectual para tal passagem é que Jesus não estava se referindo a sua pessoa, a sua personalidade, ele se referia a própria Divindade, ao próprio Amor que há no coração de todo homem e de toda a mulher.

"Eu Sou" é o Ser, a plenitude de nós mesmos, a realização da utopia da completude.

Ter essa percepção do Amor é algo realizável, não é utópico, alguns de nós já tiveram vislumbres dessa aterradora possibilidade de realização para a percepção presa no ego, outros já a realizaram em sua plenitude. É por isso que ela perdura como utopia, apenas porque é realizável, como uma promessa do potencial humano e divino de cada homem e de cada mulher.

O fato de alguns homens e mulheres não a terem experimentado não significa que ela não exista. Infelizmente ou felizmente a Utopia do Amor Perfeito é uma idealização para muitos, uma realização para poucos e uma possibilidade para todos. Na verdade tal realização não está tanto na esfera da relação entre o homem e a mulher, pode passar por ela, mas se encontra na esfera da relação do humano e do divino.

Se por um lado encarar o amor perfeito como utopia pode vir a quebrar algumas ilusões criadas pela mídia e pela cultura, por outro lado a racionalização que desmistifica a possibilidade da utopia pode ser apenas uma forma de abrandamento neurótico de uma possibilidade frustrada.

F.A.

Café Filosófico - A Utopia do Amor Perfeito

A busca de relacionamentos mais satisfatórios implicou grandes mudanças nos papéis masculinos e femininos. Os processos de emancipação feminina, a desconstrução dos papéis de homens e mulheres, movidos por uma busca de redefinição da família, do amor e da vida profissional transformaram profundamente as relações. Seriam hoje os homens sensíveis e medrosos e as mulheres livres e solitárias? Como superar os impasses da emancipação triste?A convidada desta edição é Caterina Koltai, socióloga, psicanalista, mestre em sociologia pela Sorbonne e doutora em psicologia clinica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. É professora da graduação e pós-graduação da Faculdade de Ciências Sociais da PUC-SP. Autora do livro Psicanálise e Política: O estrangeiro, pela Editora Escuta.


PARTE 1 e PARTE 2 - DOWNLOAD VIA RAPIDSHARE

Nenhum comentário: