A Utopia do Auto-Conhecimento

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

"O auto-conhecimento é basicamente a frase: quem sabe de mim sou eu".

"Não há inconsciente, eu sou dono das minhas próprias determinações".

"O auto-conhecimento se baseia num mito, numa idéia de uma auto-transparência de mim para mim mesmo".

Com essas três frases o psicanalista Ricardo Goldemberg começa esse Café Filosófico sobre a Utopia do Auto-Conhecimento (oferecemos os links para download mais abaixo). Mas esse início me parece bastante paradoxal, pois se a idéia do auto-conhecimento envolve uma transparência de si que abole o inconsciente, naturalmente, fica abolido o próprio auto-conhecimento, pois o conhecimento de si já seria evidente por si mesmo, seríamos como aquelas vitrines muito "cleans" de certas lojas.

Se o auto-conhecimento, como diz o psicanalista Ricardo Goldemberg, fosse auto-transparente não haveria necessidade do Oráculo de Delfos dizer: Conhece a ti mesmo.

Estranhamente o psicanalista faz uma referência histórica a idéia de auto-conhecimento citando Descartes: - Penso, logo existo -, para ilustrar seu argumento. Mas a idéia de auto-conhecimento é obviamente bem mais que a expressão de Descartes e seu racionalismo, pois tradicionalmente o processo de auto-conhecimento não passa apenas pela razão, haja vista o emprego de técnicas como Meditação, Astrologia, Tarot, Numerologia e a Psicologia que encontramos em Escolas Iniciáticas, tais como as Escolas do Quarto Caminho.

Se nós fossêmos usar a mesma idéia simplista do psicanalista, que define o auto-conhecimento como "quem sabe de mim sou eu", para definir a psicanálise numa frase, esta seria: "quem sabe de mim é o psicanalista". E se fossêmos prosseguir nesse raciocínio poderíamos perguntar:

Mas quem sabe do psicanalista?

Resposta:

Outro psicanalista.

E a continuar no raciocínio chegaríamos no pai criador da psicanálise: Freud. Então se entende a frase: Freud explica. Mas quem explica Freud? Ora, ele mesmo. Então por mera lógica teríamos que dizer que se Freud explica Freud, então Freud é um adepto do auto-conhecimento e de sua "mística". Daí o paradoxo do pensamento do psicanalista Ricardo Goldemberg. Mas fora esses exercícios de lógica, Goldemberg ainda diz coisas muito interessantes sobre a etiqueta da conversa, sobre a ética da fala (onde se diz que eu só sei de mim através do outro). E aqui está um pensamento fundamental:

PARA SABER DE MIM EU PRECISO ATRAVESSAR O OUTRO.

Tal idéia segundo Goldemberg é o miolo da psicanálise, de qualquer psicanálise, independente da linha ou escola, tendo essa prática como fundamental o que varia de uma escola para outra, segundo ele, é a estratégia para implementar tal prática. Assim Astrologia, Tarot e Numerologia são estratégias psicanalíticas para o entendimento de si através do outro.

Mas essa idéia não é original da Psicanálise, se não vejamos:

"Portanto, a primeira meta de um homem que começa o estudo de si deve ser reunir-se a um grupo. O estudo de si só pode efetuar-se em grupos convenientemente organizados. Um homem sozinho não pode ver a si mesmo.

Mas certo número de pessoas associadas neste propósito trará para todas, mesmo sem querer, um auxílio mútuo. Um dos traços típicos da natureza humana é que o homem vê sempre mais facilmente os defeitos dos outros que os próprios. Ao mesmo tempo, no caminho do estudo de si, o homem aprende que ele próprio tem todos os defeitos que encontra nos outros. Ora, há muitas coisas que não vê em si mesmo, enquanto nos outros começa a vê-las. (...) Mas é claro que, para ver-se a si mesmo nas falhas de seus companheiros e não simplesmente ver as falhas deles, deve manter-se alerta sem trégua e ser muito sincero consigo mesmo.

Deve lembrar-se de que não é um; que uma parte dele mesmo é o homem que quer despertar-se e que a outra - "Ivanoff", "Petroff" ou "Zacharoff" - não tem o menor desejo de despertar e deverá ser despertada à força .

Um grupo é, comumente, um pacto feito entre os Eus de certo número de pessoas para travarem a luta contra todos os "Ivanoff", "Petroff" e "Zacharoff", isto é, contra suas "falsas personalidades".

Tomemos "Petroff". Ele é formado por duas partes - Eu e "Petroff". Mas Eu não tem força diante de "Petroff". Petroff é o amo. Suponhamos que haja vinte pessoas; vinte Eus começam então a lutar contra um só Petroff. Podem agora revelar-se mais fortes que ele. Em todo o caso, podem pertubar seu sono, impedi-lo de dormir tranquilamente quanto antes. E assim atinge-se a meta."

Pags. 256 e 257 do "Fragmentos ", de Ouspensky.

Compreendemos que a posição do psicanalista não leva em consideração que o processo de auto-conhecimento não deriva tão somente de uma relação comigo mesmo, nem tão somente da presença do outro, seja esse outro o detentor de algum saber específico sobre a alma humana, mas de um processo dialético onde olho para mim mesmo a partir do outro na intenção de entender-me, de auto-conhecer-me, até porque sem essa intenção nada seria possível nessa direção.

Feita estas observações, que naturalmente serão melhor entendidas após o vídeo, temos aí os links para mais um Café Filosófico bastante interessante.

FACS


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