O menino que jogava Tarot

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Desde cedo ele aprendeu a jogar Tarot. Tudo começou muito casualmente quando encontrou uma carta no chão da rua. Uma carta incomum, pois não era uma carta de baralho qualquer, mais fácil de ser encontrada, por certo, mas, ainda assim, algo inusitado. Essa era colorida, cheia de detalhes, com símbolos estranhos e que, de alguma forma, o tocaram. A carta se parecia com ele, um jovem com uma estranha mochila que perambulava despreocudamente pelo mundo seguido de um cachorro que parecia brincar com a barra de sua calça. Parecia àquela figura como ele mesmo naquele momento, um garoto gazeteiro com sua mochila de livros que tinha fugido da aula para ir ler na biblioteca, porque lá tinha livros que ele podia escolher, cada um cheio de estórias interessantes. Por que na escola não ensinavam sobre esses livros? Por que a aula era tão chata? Será que era para ninguém aprender, de fato? Por que não podia ser um prazer conhecer? Lá chegando procurou o dicionário para saber-se através de uma palavra, que alguém lhe atribuiu em tom de xingamento. Abriu o dicionário para descobrir-se na palavra gazeteiro.

Gazeteiro, tava lá escrito:

aquele que publica ou redige gazetas; jornalista; que espalha notícias infundadas; mentiroso; noveleiro; que vem de gazetear, deixar de comparecer as aulas para ir passear, vadiar.

Então era isso, ele era um vagabundo das letras, não por que não gostasse de estudar, mas por que não queria estudar aquilo que ensinavam na escola.

Ele também bem que gostava de novelas, mas não sabia que aquela carta anunciava o seu futuro através de seu presente de matar aulas para fugir para biblioteca. Não, ele não se tornaria bibliotecário, mas fez faculdade de comunicação, tornou-se jornalista, mas também não era bem esse o caminho louco que lhe atravessava em forma de carta e marcava o seu destino.

Ele gostava de ler, ele gostava do menino maluquinho do Ziraldo, de certa forma o menino era ele e aquela carta era o menino maluquinho. Bem que sua mãe dizia que ele era doidinho mesmo. Tão doidinho que fez jornalismo. Bem que seu avô um pouco mais tarde lhe diria para fazer uma faculdade séria, uma verdadeira profecia, pois agora qualquer um pode ser jornalista sem faculdade.

(...)

Mais tarde ele veio a descobrir que aquela carta do Tarot, chamada O Louco, era a única sobrevivente dentro do baralho comum das cartas chamadas de Maiores. O Louco era o Curinga e o Curinga podia ser qualquer coisa, assim ele também podia ser qualquer coisa, mas como tinha que escolher uma resolveu escolher ser tarólogo. Mas ser tarólogo era apenas um dos seus talentos, pois o Louco da carta e a carta do Louco lhe diziam que ele como zero não seria um zero à esquerda, seria como nada, e sendo nada poderia ser tudo, qualquer coisa, qualquer profissão. Assim veio a ser muitas coisas, sem prender-se a nenhuma, antes elas, como talentos, é que se prendiam a ele, assim veio a ser professor de filosofia, instrutor de ioga, trocador de ônibus (também conhecido como assessor financeiro automotivo), gerente de livraria, vendedor de tapetes persas, corretor de seguros e de imóveis, consultor de ambientes, garçom, massagista, analista de crédito, ator, escritor, xamã, louco de fato e de direito, neurótico, pai no santo, franciscano sem ordem e por aí vai, ou foi. Uma verdadeira metamorfose ambulante, uma versão de maluco beleza, um espreitador por necessidade e vocação.

Aí ele passou a entender mais e mais o que tinha naquela sacola que o Louco do Tarot carregava pendurada em seu cajado: era todo seu aprendizado, sua bagagem de vida, que figurava num saco que nunca ficava cheio, pois ele tinha a paciência de saber a hora certa de ir-se. Ele aprendeu que paciência não é apenas esperar, é saber o momento certo de andar, de perambular por aí com o seu saco, sem ter nunca que dizer: - Ai, que saco!

E ele aprendeu, a saber, à hora certa de ir embora dos lugares por uma estranha magia do espelho, em que ele se via transformado num velho, envolto num capuz, com um cajado igual ao dele e que portava uma lâmpada em pleno dia. O velho estranho no espelho ia ficando cada vez mais velho e de tão velho se curvava sobre si mesmo e desaparecia, deixando o espelho vazio, sem imagem a refletir, como se ele não mais estivesse ali. Então ele sabia que tinha que partir, porque se ficasse descobririam que ele não tinha mais reflexo e, fatalmente, o tomariam por bruxo, mago, vampiro ou algo do gênero.

Cada partida era ao mesmo tempo um morrer e um renascer, os trapos de sua roupa gasta à medida que seguia seu rumo iam se soltando, como se fossem pele de cobra, e ele ficava por um tempo nu e só, curtindo aquela liberdade de sentir o vento a acariciar-lhe o corpo, parecia que ele entrava nesses momentos num outro mundo, tomado por um círculo de consciência onde ele compreendia a razão de suas últimas experiências, até que pudesse voltar a esta terra e iniciar uma nova aventura entre os seus, os homens.

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