Música para Ioga

sábado, 31 de outubro de 2009

Músicas excelentes, a número 2 em especial.

01 – Deva Premal – Om Namah Shivaya
02 – Peas – Air Oil
03 – Nawang Kheehog – Peace Through Kindness
04 – Randy Armstrong – Love Has No Boundries
05 – Luis Perez – Sleeping Woman
06 – Stephen Deruby – Opening
07 – Stephen Deruby – Devotion
08 – Randy Armstrong – Songs For Peace
09 – Kitaro – Planet
10 – Deva Premal – Yemaya Assessu
11 – Nawang Kheehog – Presence
12 – Kitaro – Mist


Download, via Rapidshare, AQUI!


Cortesia do blog da Lu

Lutar contra e lutar com: duas espadas

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Escrever "lutar contra" é como chover no molhado pois quem luta, luta contra algo ou alguém.

Quem está a favor de algo, alguém ou de uma causa luta por esse algo, com alguém ou por uma causa. Isso pode ser chamado de lutar a favor ou "lutar com".

Interessante perceber como a palavra luto possui uma polissemia curiosa. Eu luto. Eu estou de luto. No Tarot e na Cartomancia o mesmo naipe da luta também é do luto, espadas, que possui a cor da noite, do fim.

Mas vocês já repararam como alguém que "luta contra" acaba se voltando contra aqueles que "lutam com"?

Parece que as pessoas que lutam contra algo por muito tempo acabam por lutar contra seus próprios companheiros de tão arrebatados que ficam por sua causa, ideal ou objetivo. E de tão arrebatados por sua própria causa parecem esquecer de si mesmos pois não vêem mais nada, e levados por sua causa, que se torna uma obsessão, não percebem que se tornaram um perigo para si mesmos. A história humana revela incessantemente que todos os revolucionários, assim que assumiram o poder, se transformaram naquilo mesmo contra o qual lutavam. Isso lembra Nietzche. Isso lembra religião como instrumento de dominação. Fanatismo.

O que significa a expressão "bom combate"? E a expressão "não vim a Terra trazer paz, mas sim espada"? Temos que ter cuidado. As melhores intenções podem ficar muito afiadas.

F.A.

Comemorando o dia do livro: Aprenda a meditar

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Eis um belo livro, bem escrito, bem desenhado, com um belo design para tratar de tema tão importante como é a questão do domínio da mente pela força sutil de uma prática de prestar atenção a respiração, ao corpo, a si mesmo e aos pensamentos que nos percorrem.

Escrito por David Fontana, praticante inglês de meditação. e editado pela PubliFolha o livro aborda de forma leve os diversos caminhos, técnicas e tradições que encontram na meditação a prática direta para o silêncio interior. São oferecidos diversos exercícios e práticas para que você possa encontrar aquela que mais se adapta a você.

Download do livro, via 4 shared (27 mb), AQUI!

A história de Mushkil Gusha

Era uma vez, a menos de mil milhas daqui, um pobre lenhador viúvo, que vivia com sua pequena filha. Todos os dias, costumava ir às montanhas cortar lenha, que levava para casa e atava em feixes. Depois da primeira refeição, caminhava até o povoado mais próximo, onde vendia a lenha e descansava um pouco antes de voltar para casa. Um dia, ao chegar em casa, já muito tarde, a menina lhe disse:

- Pai, de vez em quando gostaria de ter uma comida melhor, em maior quantidade e mais variada.

- Está bem, minha filha - disse o velho - , amanhã levantarei mais cedo do que de costume, irei mais alto nas montanhas, onde há mais lenha, e trarei uma quantidade, maior do que o habitual. Voltarei mais cedo para casa, atarei os feixes mais depressa e irei logo ao povoado vende-los para conseguirmos mais dinheiro. E lhe trarei uma porção de coisas deliciosas.

Na manhã seguinte, o lenhador levantou-se antes da aurora e partiu para as montanhas. Trabalhou arduamente cortando lenha e fez um feixe enorme, que carregou nos ombros até sua casa.

Ao chegar era ainda muito cedo. Então, colocou a carga no chão e bateu à porta, dizendo:

- Filha, filha, abra a porta. Estou com sede e fome; preciso comer alguma coisa antes de ir ao mercado.

Mas a porta continuou fechada. O lenhador estava tão cansado que se deitou no chão, ao lado do feixe de lenha, e logo adormeceu. A menina, esquecida da conversa da noite anterior, dormia profundamente.

Quando o lenhador acordou, algumas horas depois, o sol já estava alto. Bateu novamente à porta e disse:

- Filha, filha, abra logo. Preciso comer alguma coisa antes de ir ao mercado vender a lenha, pois já é muito mais tarde do que de costume.

Mas a menina que tinha esquecido completamente a conversa da noite anterior, tinha se levantado, arrumado a casa e saído para dar um passeio. Em seu esquecimento, e supondo que o pai já tivesse ido para o povoado, deixou a porta da casa fechada.

Assim o lenhador disse a si mesmo:

- Já é muito tarde para ir à cidade. Voltarei para as montanhas e cortarei outro feixe de lenha, que trarei para casa, e amanhã terei carga em dobro para levar ao mercado.

O lenhador trabalhou duro aquele dia, cortando e enfeixando lenha nas montanhas. Já era noite quando chegou em casa com a lenha nos ombros.

Pôs o feixe atrás da casa, bateu à porta e disse:

- Filha, filha, abra a porta. Estou cansado e não comi nada o dia todo. Trago uma dupla carga de lenha, que espero levar ao mercado amanhã. Preciso dormir bem esta noite para recuperar minhas forças.

Mas não houve resposta, pois a menina, sentindo muito sono ao voltar do passeio, preparou sua comida e foi para a cama... A princípio, ficara preocupada com a ausência do pai, mas tranqüilizou-se logo, pensando que ele passaria a noite no povoado.

Cansado, faminto e com sede, vendo que não podia entrar em casa, o lenhador deitou-se novamente ao lado da lenha. Apesar de preocupado com o que poderia estar acontecendo com a filha, não conseguiu ficar acordado: adormeceu logo. Mas, como estava com muito frio, muita fome e muito cansado, acordou bem cedo na manhã seguinte, antes mesmo de o dia clarear.

Sentou-se, olhou ao redor, mas não conseguiu ver nada. Mas, nesse momento, aconteceu uma coisa estranha. Pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia:

- Depressa! Depressa! Deixa tua lenha e vem por aqui. Se necessitas muito e desejas pouco, terás uma refeição deliciosa. O lenhador levantou-se e caminhou na direção de onde vinha a voz. Andou, andou e andou, mas não encontrou nada.

Então sentiu mais cansaço, frio e fome do que antes e, além do mais, estava perdido. Tivera muitas esperanças, mas isso não parecia tê-lo ajudado. Ficou triste, com vontade de chorar, mas percebeu que chorar também não o ajudaria. Assim, deitou-se e adormeceu. Logo depois acordou novamente. Sentia frio e fome demais para poder dormir. Foi então que lhe ocorreu narrar a si mesmo, como se fosse um conto, tudo o que tinha acontecido desde que a filha lhe pedira um tipo de comida diferente.

Mal terminou a história, pareceu-lhe ouvir outra voz, vinda de algum lugar no alto, como se saísse do amanhecer, que dizia:

- Velho homem, velho homem, que fazes sentado aqui?

- Estou me contando minha própria história - respondeu o lenhador.

- E qual é?

O lenhador repetiu sua narração.

- Muito bem - disse a voz, e a seguir lhe pediu que fechasse os olhos e subisse um degrau.

- Mas não vejo degrau algum - disse o velho.

- Não importa, faz o que te digo - ordenou a voz.

O Homem fez o que lhe fora ordenado. Mal fechou os olhos, descobriu que estava de pé e, levantando o pé direito, sentiu que debaixo dele havia algo semelhante a um degrau.

Começou a subir o que parecia ser uma escada. De repente os degraus começaram a mover-se - moviam-se muito rapidamente - e a voz lhe disse:

- Não abra os olhos até que eu ordene.

Não se passara muito tempo, quando a voz mandou que o velho abrisse os olhos. Ao fazê-lo, o lenhador achou-se num lugar que parecia um deserto, com um sol escaldante acima dele. Estava rodeado de montes e montes de pedrinhas de todas as cores: vermelhas, verdes, azuis, brancas. Mas parecia estar só; olhou em volta e não consegui ver ninguém. Então a voz começou a falar de novo:

- Apanha todas as pedras que puderes, fecha os olhos e desce os degraus.

O lenhador fez o que lhe mandavam e, quando a voz ordenou que abrisse os olhos novamente, encontrou-se diante da porta de sua própria casa. Bateu à porta, e a sua filha veio atender. Ela lhe perguntou por onde ele tinha andado, e o pai lhe contou o ocorrido, embora a menina mal entendesse o que ele dizia, porque tudo lhe parecia muito confuso.

Entraram em casa e a menina e o seu pai repartiram a última coisa que lhes restava para comer: um punhado de tâmaras secas. Quando terminaram a comida, o velho achou que estava ouvindo uma voz, uma voz igual àquela que o mandara subir os degraus.

- Embora ainda não o saibas - disse a voz - foste salvo por Mushkil Gusha. Lembra-te: Mushkil Gusha está sempre aqui. Promete a ti mesmo que todas as quintas-feiras, à noite, comerás umas tâmaras, e darás outras a alguma pessoa necessitada, a quem contarás a história de Mushkil Gusha. Ou darás um presente, em seu nome, a alguém que ajude os necessitados. Promete que a história de Mushkil Gusha nunca, nunca será esquecida. Se fizeres isso, e o mesmo fizerem as pessoas a quem contares a história, os que tiverem verdadeira necessidade sempre encontrarão seu caminho.

O lenhador então colocou todas as pedras que havia trazido do deserto num canto do casebre. Pareciam simples pedras, e ele não soube o que fazer com elas. No dia seguinte, levou seus dois enormes feixes de lenha ao mercado e os vendeu facilmente, por ótimo preço. Ao voltar para casa, levava para sua filha uma porção de iguarias deliciosas que ela jamais havia provado antes. Quando terminaram de comer, o velho lenhador disse:

- Agora vou lhe contar a história de Mushkil Gusha. Mushkil Gusha significa "O dissipador de todas as dificuldades". Nossas dificuldades desapareceram por intermédio de Mushkil Gusha, e devemos lembra-lo sempre.

Durante uma semana o homem seguiu sua rotina. Ia às montanhas, trazia lenha, comia alguma coisa, levava a lenha ao mercado e a vendia. Sempre encontrava comprador, sem dificuldade.

Mas chegou a quinta-feira seguinte e, como é comum entre os homens, o lenhador se esqueceu de contar a história de Mushkil Gusha. Nesta noite, já tarde, apagou-se o fogo na casa dos vizinhos. E, como não tinham com que voltar a acendê-lo, foram à casa do lenhador e disseram:

- Vizinho, vizinho, por favor, dê-nos um pouco de fogo dessas suas lâmpadas maravilhosas que vemos brilhar através da janela.

- Que lâmpadas? - perguntou o lenhador.

- Venha cá e veja - responderam.

O lenhador saiu e viu claramente e variedade de luzes que, vindas de dentro, brilhavam através de sua janela. Entrou e viu que a luz saía do enorme monte de pedras que havia posto num canto. Mas os raios de luz eram frios e era impossível usá-los para acender fogo. Então tornou a sair e disse:

- Sinto muito, vizinhos, não tenho fogo - e bateu-lhes a porta no nariz.

Os vizinhos ficaram aborrecidos e surpresos e voltaram para casa resmungando. E aqui eles abandonam nossa história.

Rapidamente, o lenhador e sua filha, com medo que alguém visse o tesouro que possuíam, cobriram as brilhantes luzes com os trapos que encontraram. Na manhã seguinte, aos destampar as pedras, descobriram que eram gemas luminosas e preciosas.

Uma a uma, levaram-nas às cidades dos arredores, onde as venderam por um preço enorme. Então, o lenhador decidiu construir um esplêndido palácio para ele e sua filha.

Escolheram um lugar que ficava exatamente na frente do castelo do rei de seu país. Pouco tempo depois, um edifício maravilhoso estava construído.

O rei tinha uma filha muito bonita que uma manhã, ao acordar, viu o castelo, que parecia de contos de fadas, bem em frente ao de seu pai. Muito surpresa, perguntou a seus criados:

- Quem construiu esse castelo? Com que direito fazem uma coisa dessas tão perto do nosso lar?

Os criados saíram e investigaram. Ao regressar, contaram à princesa tudo o que conseguiram saber.

A princesa, muito zangada, mandou chamar a filha do lenhador. Porém, quando as duas meninas se conheceram e se falaram, logo se tornaram boas amigas. Encontravam-se todos os dias e iam nadar e brincar juntas num regato que o rei mandara construir para a princesa.

Alguns dias depois do primeiro encontro, a princesa tirou um colar lindo e valioso e pendurou-o numa árvore à beira do regato. Na volta, esqueceu-se de apanhá-lo e, ao chegar em casa, pensou que o tinha perdido. Refletindo melhor, porém, concluiu que tinha sido roubado pela filha do lenhador. Contou tudo ao pai, que mandou prender o lenhador e confiscou-lhe todos os bens. O homem foi posto na prisão, e sua filha levada para um orfanato.

Como era costume no país, depois de algum tempo o lenhador foi retirado de sua cela e levado para praça pública, onde o acorrentaram a um poste, tendo pendurado ao pescoço um cartaz onde se lia: "É isto o que acontece a quem rouba dos reis".

A princípio, as pessoas juntavam-se a sua volta zombando dele e atirando-lhes coisas. O Lenhador estava muito infeliz. Porém, como é costume entre os homens, logo se acostumaram com o velho sentado junto ao poste e lhe prestavam cada vez menos atenção. Às vezes lhe atiravam restos de comida, às vezes nem mesmo isso.

Uma tarde, ouviu alguém dizer que era quinta-feira. De imediato veio-lhe à mente o pensamento de logo seria a noite de Mushkil Gusha, "O dissipador de todas as dificuldades", a quem há tanto tempo se esquecera de comemorar. No mesmo instante em que esse pensamento lhe chegou à mente, um homem caridoso que passava jogou-lhe uma moeda.

- Generoso amigo - chamou o lenhador -, você me deu dinheiro que para mim não tem utilidade alguma. Mas se, em sua generosidade, puder comprar uma ou duas tâmaras e vir sentar-se comigo para comê-las, eu lhe ficaria eternamente grato.

O homem saiu e comprou algumas tâmaras, sentou-se a seu lado e comeram juntos. Ao terminar, o lenhador contou-lhe a história de Mushkil Gusha.

- Acho que você deve estar louco - disse-lhe o homem generoso.

Mas era uma pessoa compreensiva e também enfrentava dificuldades. Ao chegar em casa, depois desse incidente, percebeu que todos os seus problemas estavam resolvidos. Isto o fez pensar mais seriamente a respeito de Mushkil Gusha. Mas aqui ele deixa nossa história.

No dia seguinte, pela manhã, a princesa voltou ao lugar onde se banhara e, quando ia entrar na água, viu, no fundo do regato, uma coisa que parecia ser seu colar. Porém, no momento que ia pega-lo, espirrou, jogou a cabeça para trás, e viu que o que tomara como seu colar era apenas reflexo dele na água. O colar estava pendurado no galho da uma árvore, no mesmo lugar onde o tinha deixado há muito tempo. Emocionada, apanhou-o e foi correndo contar ao rei o acontecido. Este ordenou que o lenhador fosse posto em liberdade e que lhe pedissem desculpas em público. Tiraram a menina do orfanato e todos viveram felizes para sempre.

Estes são alguns dos episódios da história de Mushkil Gusha. É uma estória muito longa, que nunca termina. Tem muitas formas. Algumas nem sequer se intitulam A história de Mushkil Gusha. Por isso as pessoas não as reconhecem como tal.

Mas é por causa de Mushkil Gusha que esta história, em qualquer de suas formas, é lembrada por alguém, em algum lugar do mundo, dia e noite, onde quer que exista gente. Tal como sempre tem sido contada, assim continuará a ser contada eternamente. Você quer repetir a história de Mushkil Gusha nas noites de quinta-feira e ajudar, assim o trabalho de Mushkil Gusha?

0bs => Mushkil Gusha se fala : MUS - QUIU GU – CHÁ

Amma: Divino Abraço e Abraço Divino

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Qual o maior milagre?



Sigmund Freud: análise de uma mente

sábado, 24 de outubro de 2009

Documentário muito interessante sobre a vida do pai da Psicanálise, Freud, um gênio precoce e auto-didata que falava 6 línguas aos 12 anos de idade e era capaz de ler Shakespeare no original. Com nome de imperador, Sigmund, dado por sua mãe em homenagem ao imperador da Morávia, que seguindo, também, uma profecia de nascimento, acreditava que o filho se tornaria alguém grandioso. Curiosamente o nome Sigmund dado em homenagem ao imperador da Morávia encontra no nome Freud a numerologia (4) e a simbologia (imperador) própria para tal referência.

Freud era obcecado pelo estudo e tinha desde muito jovem um diário onde registrava seus sonhos. Gostava de se ver como Napoleão (outra referência ao Imperador e ao 4) e chamava ao irmão de Alexandre, o grande.

Mais velho, já formado médico, usou cocaína como estimulante e como substância capaz de produzir revelações sobre si mesmo, até descobrirem que ela era viciante e prejuducial a saúde. Não chegou a viciar-se em cocaína pois era parcimonioso no seu uso, mas fumava de 20 a 25 charutos por dia o que lhe rendeu na velhice um câncer de mandíbula. Nunca ninguém analisou Freud, ele analisava a si mesmo. Esse documentário é assim apenas um fragmento de análise da pessoa que foi Freud, que em vida demonstrou ser um adepto do que hoje a Psicanálise critica: o auto-conhecimento. Aliás já tinhamos feito referência a isso no post sobre a Utopia do Auto-Conhecimento.

Sinopse

Quando o doutor Sigmund Freud começou a perguntar aos pacientes sobre os sonhos deles, seus colegas de Viena tacharam-no de louco. No entanto, poucos sabiam que muitas de suas percepções mais perturbadoras e revolucionárias eram fruto de uma auto análise, pois ele mesmo tinha várias neuroses.

Persistindo nas indagações, seguiu os sonhos até suas raízes, o inconsciente. Ao fazê-lo, inventou a psiquiatria moderna.

Produzido pela BIO. THE BIOGRAPHY CHANNEL, "Freud: análise de uma mente" revela detalhes da vida e da psique do pai da Psicanálise. O documentário traz ainda trechos do único relato em vídeo que Sigmund Freud gravou, aos 81 anos, falando sobre sua carreira.


Download, via 4 shared: 1ª parte - 2ª parte - 3ª parte

Senha: pistasdocaminho

obs: as 3 partes precisam ser baixadas uma a uma para depois serem descompactadas e reunidas num só arquivo que poderá ser então visto. O arquivo a ser descompactado está em formato RMVB.

Deus, um delírio: o debate

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Richard Dawkins, cientista e escritor, escreveu um livro intitulado "Deus, um delírio", suscitando uma tremenda polêmica entre os cristãos, que se viram na necessidade de contrapô-lo. Esse vídeo é o resultado de um debate em torno da religião, da ciência, do conceito de um deus pessoal, do criacionismo, do evolucionismo, do ateísmo e do papel da religião na formação moral dos povos. É interessante notar que o outro debatedor, John Lennox, também é um cientista, um matemático, mas que defende a Bíblia, o deus pessoal e a tese de que tudo que não podemos explicar se explica porque Deus assim o fez, o que naturalmente é um paradoxo, pois dizer que um deus pessoal criou o Universo nada explica. Pois quem explica Deus? Sem resposta. Quem criou Deus? Resposta: ele é incriado e eterno. Sendo essas as respostas do cientista me parecem que elas estão mais para teologia do que para ciência.

O mais interessante é que a ciência não tem todas as respostas, nem poderá ter, mas a religião parece querer sempre dar todas as respostas como que para suprir a necessidade humana por explicações que atendam as demandas de nossa ignorância. Um cientista pode dizer: -Eu não sei. Já um religioso sempre terá uma explicação, e dirá: - Porque "nosso Deus" assim o fez.

Se o deus pessoal dos cristãos e dos que seguem a Bíblia como livro sagrado, que possui posturas tão paradoxais e humanas tais como ira, ciúme, vingança, mentira e paixão existe ou não é um velho debate, até porque sendo deus o que é dispensaria tanto defensores quanto acusadores. Afinal se ele existe dispensa acusação ou defesa e se não existe também. Na verdade a discussão deveria girar em torno do que o homem fez e faz em torno do conceito de deus. Qual o balanço histórico dos homens que dizem agir em nome de deus? Bem, nesse caso o debate também é desnecessário, pois a História revela o que os homens fazem em nome do deus que acreditam. Se há algo de mais valia no debate é perceber como nós homens podemos discutir por horas a fio para nos assegurarmos de nossas próprias opiniões e crenças. Bem, mas essa é apenas a visão deste blogueiro.

Sinopse

Um dos mais importantes debates envolvendo o neo-ateísmo. O debate, com mais de 1 hora e meia de duração, é apresentado por Larry Taunton, realizado no “Fixed Point Foundation”, com a participação do Professor Richard Dawkins (ateu) e o Dr. John Lennox (cristão), ambos sendo mediados por um Juiz de Direito Federal. A abordagem do debate possui um foco principal no best seller de Dawkins: Deus – Um Delírio.

Segue o link para esse debate, via rapidshare, AQUI!

obs: o filme está em formato RMVB e pode ser visto se você tiver em seu computador o codec do Real Alternative. Download AQUI ou AQUI.

No cais

domingo, 18 de outubro de 2009



Flávio Venturini
Composição: Milton Nascimento e Ronaldo Bastos

Para quem quer se soltar
Invento o cais
Invento mais que a solidão me dá
Invento lua nova a clarear Invento o amor

E sei a dor de encontrar
Eu queria ser feliz
Invento o mar
Invento em mim o sonhador

Para quem quer me seguir
Eu quero mais
Tenho o caminho do que sempre quis
E um saveiro pronto pra partir
Invento o cais
E sei a vez de me lançar

obs: uso musical junto com a série de Tensegridade do Vento Leste.

Liberdade e Destino

sábado, 17 de outubro de 2009

O curso do destino de um guerreiro é inalterável. O desafio é de até onde ele pode ir e quanto ele será impecável dentro desses limites rígidos.

A única liberdade que os guerreiros têm é a de se comportar impecavelmente. A impecabilidade não é apenas liberdade; é a única maneira de endireitar a forma humana.

A pior coisa que pode nos acontecer é ter que morrer e, já que este é nosso destino inalterável, somos livres; aqueles que perderam tudo não têm mais nada a temer.

Um guerreiro aceita seu destino, seja ele qual for, e o aceita na mais total humildade. Aceita com humildade aquilo que ele é, não como fonte de remorsos, mas como um desafio vivo.

Roda do Tempo, de Carlos Castaneda




Psicologia da Evolução Possível do Homem - 3ª parte

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Mesmo tendo a possibilidade de conhecer esses quatro estados de consciência, o homem só vive, de fato, em dois desses estados: uma parte de sua vida transcorre no sono e a outra, no que se chama “estado de vigília”, embora, na realidade, esse último difira muito pouco do sono.

Na vida comum o homem nada sabe da “consciência objetiva” e não pode ter nenhuma experiência dessa ordem. O homem se atribui o terceiro estado de consciência, ou “consciência de si”, e crê possuí-lo, embora, na realidade, só seja consciente de si mesmo por lampejos, aliás muito raros; e, mesmo nesses momentos, é pouco provável que reconheça esse estado, dado que ignora o que implicaria o fato de realmente possuí-lo.

Esses vislumbres de consciência ocorrem em momentos excepcionais, em momentos de perigo, em estados de intensa emoção, em circunstâncias e situações novas e inesperadas; ou também, às vezes, em momentos bem simples onde nada de particular ocorre. Em seu estado ordinário ou “normal”, porém, o homem não tem qualquer controle sobre tais momentos de consciência.

Quanto à nossa memória ordinária ou aos nossos momentos de memória, na realidade, nós só nos recordamos de nossos momentos de consciência, embora não saibamos que isso é assim.

O que significa a memória no sentido técnico da palavra — todas as diferentes espécies de memória que possuímos —explicá-lo-ei mais adiante. Hoje, só desejo atrair sua atenção para as observações que tenham podido fazer a respeito de sua me­mória. Notarão que não se recordam das coisas sempre da mesma maneira. Algumas coisas são recordadas de forma muito viva, outras permanecem vagas e existem aquelas de que não se recordam em absoluto. Sabem apenas que aconteceram.

Ficarão muito surpresos quando constatarem como se recordam de pouca coisa. E é assim, porque só se recordam dos momentos em que estiveram conscientes.

Assim, para voltar a esse terceiro estado de consciência, podemos dizer que o homem tem momentos fortuitos de consciência de si, que deixam viva lembrança das circunstâncias em que eles ocorreram. O homem, entretanto, não tem nenhum poder sobre tais momentos. Aparecem e desaparecem por si mesmos, sob a ação de condições exteriores, de associações aci dentais ou de lembranças de emoções.

Surge esta pergunta: é possível adquirir o domínio desses momentos fugazes de consciência, evocá-los mais freqüentemente, mantê-los por mais tempo ou, até, torná-los permanentes?

Em outros termos, é possível tornar-se consciente? Esse é o ponto essencial e é preciso compreender, desde o início do nosso estudo, que esse ponto escapou completamente, até em teoria, a todas as escolas modernas de psicologia, sem exceção.

De fato, por meio de métodos adequados e esforços apropriados, o homem pode adquirir o controle da consciência, pode tornar-se consciente de si mesmo, com tudo o que isso implica. Entretanto, o que isso implica não podemos sequer imaginá-lo em nosso estado atual.

Só depois de bem compreendido esse ponto, é possível empreender um estudo sério da psicologia.

Esse estudo deve começar pelo exame dos obstáculos à consciência em nós mesmos, porquanto a consciência só pode começar a crescer quando pelo menos alguns desses obstáculos forem afastados.

Nas conferências seguintes, falarei desses obstáculos. O maior deles é nossa ignorância de nós mesmos e nossa convicção ilusória de nos conhecermos, pelo menos até certo ponto, e de podermos contar conosco mesmo, quando, na realidade, não nos conhecemos em absoluto e de modo algum podemos contar conosco, nem sequer nas menores coisas.

Devemos compreender agora que “psicologia” significa verdadeiramente o estudo de si. Esta é a segunda definição de psicologia.

Não se pode estudar a psicologia como se estuda a astronomia, quer dizer, fora de si próprio.

Ao mesmo tempo, uma pessoa deve estudar-se como estudaria qualquer máquina nova e complicada. ~ necessário conhecer as peças dessa máquina, suas funções principais, as condições para um trabalho correto, as causas de um trabalho defeituoso e uma porção de outras coisas difíceis de descrever sem uma linguagem especial que, aliás, é indispensável conhecer para ficar em condições de estudar a máquina.

A máquina humana tem sete funções diferentes:

1 a) O pensamento (ou o intelecto).

2 a) O sentimento (ou as emoções).

3 a) A função instintiva (todo o trabalho interno do organismo).

4a) A função motora (todo o trabalho externo do organismo, o movimento no espaço, etc.).

5a) O sexo (função dos dois princípios, masculino e feminino, em todas as suas manifestações).

Além dessas cinco funções, existem duas outras para as quais a linguagem corrente não tem nome e que aparecem so mente nos estados superiores de consciência: uma, a Junção emocional superior, que aparece no estado de consciência de si, e outra, a Junção intelectual superior, que aparece no estado de consciência objetiva. Como não estamos nesses estados de cons ciência, não podemos estudar essas funções nem experimenta-las; só conhecemos sua existência de modo indireto, por meio daqueles que passaram por essa experiência.

Na antiga literatura religiosa e filosófica de diferentes povos, encontram-se múltiplas alusões aos estados superiores de consciência e às funções superiores de consciência. ~ tanto mais difícil compreender essas alusões porque não fazemos nenhuma distinção entre os estados superiores de consciência. O que chamamos samadhi, estado de êxtase, iluminação ou, em obras mais recentes, “consciência cósmica”, pode referir-se ora a um, ora a outro — às vezes a experiências de consciência de si, às vezes a experiências de consciência objetiva. E, por estranho que possa parecer, temos mais material para avaliar o mais elevado desses estados, a consciência objetiva, do que para aquilatar o estado intermediário, a consciência de si, embora o primeiro só possa ser alcançado depois desse último.

Deve o estudo de si começar pelo estudo das quatro primeiras funções: intelectual, emocional, instintiva e motora. A função sexual só pode ser estudada muito mais tarde, depois de essas quatro funções terem sido suficientemente compreendidas.

Ao contrário do que afirmam certas teorias modernas, a função sexual vem realmente depois das outras, quer dizer, aparece mais tarde na vida, quando as quatro primeiras funções já se tiverem manifestado plenamente: está condicionada por elas. Por conseguinte, o estudo da função sexual será útil, apenas quando as quatro primeiras funções forem conhecidas em todas as suas manifestações. Ao mesmo tempo, é preciso compreender bem que qualquer irregularidade ou anomalia séria na função sexual torna impossível o desenvolvimento de si e, até, o estudo de si.

Tratemos, agora , de compreender as quatro primeiras funções.

O que entendo por “função intelectual” ou “função do pensamento”, suponho que seja claro para vocês. Nela estão compreendidos todos os processos mentais: percepção de im ressões, formação de representações e conceitos, raciocínio, comparação, afirmação, negação, formação de palavras, linguagem, imaginação, e assim por diante.

A segunda função é o sentimento ou as emoções: alegria, tristeza, medo, surpresa, etc. Ainda que estejam seguros de bem compreender como e em que as emoções diferem dos pensamentos, aconselhá-los-ia a rever todas as suas idéias a esse respeito. Confundimos pensamentos e sentimentos em nossas maneiras habituais de ver e de falar. Entretanto, para começar a estudar-se a si mesmo, é necessário estabelecer claramente a diferença entre eles.

As duas funções seguintes, instintiva e motora, reter-nos-ão por mais tempo, pois nenhum sistema de psicologia comum distingue nem descreve corretamente essas duas funções.

As palavras “instinto” e “instintivo” são empregadas geralmente num sentido errôneo e, freqüentemente, sem sentido algum. Em particular, atribui-se ao instinto manifestações exte­riores que são, na realidade, de ordem motora e, às vezes, emocional.

A Junção instintiva, no homem, compreende quatro espé cies de funções:

1 a) Todo o trabalho interno do organismo, toda a fisio logia por assim dizer: a digestão e a assimilação do alimento, a respiração e a circulação do sangue, todo o trabalho dos órgãos internos, a construção de novas células, a eliminação de detri tos, o trabalho das glândulas endócrinas, e assim por diante.

2 a) Os “cinco sentidos”, como são chamados: a visão, a audição, o olfato, o paladar e o tato; e todos os demais, como o sentido de peso, de temperatura, de secura ou de umidade, etc., ou seja, todas as sensações indiferentes, sensações que não são, por si mesmas, nem agradáveis nem desagradáveis.

3 a) Todas as emoções físicas, quer dizer, todas as sensa ções físicas que são agradáveis ou desagradáveis; todas as espé cies de dor ou de sensações desagradáveis, por exemplo, um sabor ou um odor desagradável, e todas as espécies de prazer físico, como os sabores e os odores agradáveis, e assim por diante.

4 a) Todos os reflexos, até os mais complicados, tais como o riso e o bocejo; todas as espécies de memória física, tais como a memória do gosto, do olfato, da dor, que são, na realidade, reflexos internos.

A Junção motora compreende todos os movimentos exterio res, tais como caminhar, escrever, falar, comer, e as lembranças que disso restam. À função motora pertencem também movi­mentos que a linguagem corrente qualifica de “instintivos”, como o de aparar um objeto que cai, sem pensar nisso.

A diferença entre a função instintiva e a função motora é muito clara e fácil de compreender; basta recordar que todas as funções instintivas, sem exceção, são inatas e não é necessário aprendê-las para utilizá-las; ao passo que nenhuma das funções de movimento é inata e é necessário aprendê-las todas; assim, a criança aprende a nadar, aprendemos a escrever ou a desenhar.

Além dessas funções motoras normais, existem ainda estranhas funções de movimento, que representam o trabalho inútil da máquina humana, trabalho não previsto pela natureza, mas que ocupa um vasto lugar na vida do homem e consome grande quantidade de sua energia. São: a formação dos sonhos, a imaginação, o devaneio, o falar consigo mesmo, o falar por falar e, de maneira geral, as manifestações incontroladas e incontroláveis.

As quatro funções — intelectual, emocional, instintiva e motora — devem, antes de tudo, ser compreendidas em todas as suas manifestações; depois, é preciso observá-las em si mes mo. Essa observação de si, que deve ser feita a partir de dados corretos, com prévia compreensão dos estados de consciência e das diferentes funções, constitui a base do estudo de si, isto é, o início da psicologia.

Ë muito importante recordar que, enquanto observamos as diferentes funções, cumpre observar ao mesmo tempo sua rela ção com os diferentes estados de consciência.

Tomemos os três estados de consciência — sono, estado de vigília, lampejos de consciência de si — e as quatro funções:

pensamento, sentimento, instinto e movimento.

Quando aprendermos a observar esses resultados e a diferença entre eles, compreenderemos a relação correta entre as funções e os estados de consciência.

Mas, antes de considerar as diferenças que apresenta uma função segundo o estado de consciência, é preciso compreender que a consciência de um homem e as funções de um homem são dois fenômenos de ordem completamente diferente, de natureza totalmente diferente, dependentes de causas diferentes, e que um pode existir Sem o outro.

As Junções podem existir sem a consciência e a consciência pode existir sem as Junções.

Essas quatro funções podem manifestar-se no sono, mas suas manifestações são então desconexas e destituídas de qual quer fundamento. Não podem ser utilizadas de maneira alguma; funcionam automaticamente.

No estado de consciência de vigília ou de consciência relativa, elas podem, até certo ponto, servir para nossa orientação. Seus resultados podem ser comparados, verificados, retificados e, embora possam criar numerosas ilusões, só contamos no entanto com elas em nosso estado ordinário e devemos usá-las na medida em que podemos. Se conhecêssemos a quantidade de observações falsas, de falsas teorias, de falsas deduções e conclusões feitas nesse estado, cessaríamos completamente de crer em nós mesmos. Entretanto, os homens não se dão conta de quanto as suas observações e teorias podem ser enganadoras e continuam a crer nelas. E é isso o que impede os homens de observarem os raros momentos em que suas funções se manifestam sob o efeito dos lampejos do terceiro estado de consciência, ou seja, da consciência de si.

Tudo isso significa que cada uma das quatro funções pode manifestar-se em cada um dos três estados de consciência. Os resultados, todavia, diferem inteiramente.

Quando aprendemos a observar estes resultados e a diferença entre eles, compreenderemos a relação correta entre as funções e os estados de consciência.

Mas, antes de considerar as diferenças que apresenta uma função segundo o estado de consciência, é preciso compreender que a consciência de um homem e as funções de um homem são dois fenômenos de ordem completamente diferente ,de natureza totalmente diferente, dependentes de causas diferentes, e que um pode existir sem o outro.

As funções podem existir sem a consciência e a consciência pode existir sem as funções.

Ouspensky

Psicologia da Evolução Possível do Homem - 2ª parte

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Por que nem todos os homens podem desenvolver-se e tomar-se seres diferentes?

A resposta é muito simples. Porque não o desejam. Porque nada sabem a respeito e ainda que se lhes diga, não o compre­enderão antes de uma longa preparação.

A idéia essencial é que, para tornar-se um ser diferente, o homem deve desejá-lo intensamente e por muito tempo. Um desejo passageiro ou vago, nascido de uma insatisfação no que diz respeito às condições exteriores, não criará um impulso suficiente.

A evolução do homem depende de sua compreensão do que pode adquirir e do que deve dar para isso.

Se o homem não o desejar, ou não o desejar com bastante intensidade e não fizer os esforços necessários, jamais se desen­volverá. Não há, pois, injustiça alguma nisso. Por que haveria de ter o homem o que não deseja? Se o homem fosse forçado a tomar-se um ser diferente, quando está satisfeito com o que é, aí sim, haveria injustiça.

Perguntemo-nos, agora, o que significa um ser diferente. Se examinarmos todos os dados que podemos reunir sobre essa questão, encontraremos sempre a afirmação de que, ao tornar-se um ser diferente, o homem adquire numerosas qualidades novas e poderes que antes não possuía. Essa afirmação é comum a todas as doutrinas que admitem a idéia de um crescimento inte­rior do homem.

Isso, porém, não basta. As descrições, ainda que as mais detalhadas, desses novos poderes não nos ajudarão de modo algum a compreender como aparecem nem de onde vem.

Falta um elo nas teorias geralmente admitidas, mesmo na­quelas de que acabo de falar e que têm por base a idéia da possibilidade de uma evolução do homem.

A verdade é que antes de adquirir novas faculdades ou novos poderes, que não conhece e ainda não possui, o homem deve adquirir faculdades e poderes que tampouco possui, mas que se atribui, isto é, que crê conhecer e crê ser capaz de usar e de usar até com maestria.

Esse é o “elo que falta”, e aí está o ponto de maior im­portância.

No caminho da evolução, definido como um caminho ba­seado no esforço e na ajuda, o homem deve adquirir qualidades que crê já possuir, mas sobre as quais se ilude.

Para compreender isso melhor, para saber que faculdades novas, que poderes insuspeitados pode o homem adquirir e quais são aqueles que imagina possuir, devemos partir da idéia geral que o homem tem de si mesmo.

E encontramo-nos, de imediato, ante um fato importante.

O homem não se conhece.

Não conhece nem os próprios limites, nem suas possibili­dades. Não conhece sequer até que ponto não se conhece.

O homem inventou numerosas máquinas e sabe que, às vezes, são necessários anos de sérios estudos para poder ser­vir-se de uma máquina complicada ou para controlá-la. Mas, quando se trata de si mesmo, ele esquece esse fato, ainda que ele próprio seja uma máquina muito mais complicada do que todas aquelas que inventou.

Está cheio de idéias falsas sobre si mesmo.

Antes de tudo, não se dá conta de que ele é realmente uma máquina.

O que quer dizer: “O homem é uma máquina”?

Quer dizer que não tem movimentos independentes, seja interior, seja exteriormente. É uma máquina posta em movimento por influências exteriores e choques exteriores. Todos os seus movimentos, ações, palavras, idéias, emoções, humores e pensa­mentos são provocados por influências exteriores. Por si mesmo, é tão-somente um autômato com certa provisão de lembran­ças de experiências anteriores e certo potencial de energia em reserva.

Devemos compreender que o homem não pode fazer nada.

O homem, porém, não se apercebe disso e se atribui a capa­cidade de fazer. Ë o primeiro dos falsos poderes que se arroga.

Isso deve ser compreendido com toda a clareza. O homem não pode lazer nada. Tudo o que crê fazer, na realidade, acon­tece. Isso acontece exatamente como “chove”, “neva” ou “venta”.

Infelizmente, não há em nosso idioma verbos impessoais que possam ser aplicados aos atos humanos. Devemos, pois, continuar a dizer que o homem pensa, lê, escreve, ama, detesta, empreende guerras, combate, etc. Na realidade, tudo isso acontece.

O homem não pode pensar, falar nem mover-se como quer. É uma marionete, puxada para cá e para lá por fios invisíveis. Se compreender isso, poderá aprender mais coisas sobre si mes­mo e talvez, então, tudo comece a mudar para ele.

Mas, se não puder admitir nem compreender sua profunda mecanicidade, ou não quiser aceitá-la como um fato, não po­derá aprender mais nada e as coisas não poderão mudar para ele.

O homem é uma máquina, mas uma máquina muito sin­gular. Pois, se as circunstâncias se prestarem a isso, e se bem dirigida, essa máquina poderá saber que é uma máquina. E se se der conta disso plenamente, ela poderá encontrar os meios para deixar de ser máquina.

Antes de tudo, o homem deve saber que ele não é um, mas múltiplo. Não tem um Eu único, permanente e imutável. Muda continuamente. Num momento é uma pessoa, no momento seguinte outra, pouco depois uma terceira e sempre assim, quase indefinidamente.

O que cria no homem a ilusão da própria unidade ou da própria integralidade é, por um lado, a sensação que ele tem de seu corpo físico; por outro, seu nome, que em geral não muda e, por último, certo número de hábitos mecânicos implantados nele pela educação ou adquiridos por imitação. Tendo sempre as mesmas sensações físicas, ouvindo sempre ser chamado pelo mesmo nome e, encontrando em si hábitos e in­clinações que sempre conheceu, imagina permanecer o mesmo.

Na realidade não existe unidade no homem, não existe um centro único de comando, nem um “Eu’, ou ego, permanente

Eis aqui um esquema geral do homem:

EU
EUE
EUEU
EUEUEU
EUEUEUEU
EUEUEU
EUEUE
EUE
EU

Nota do digitador: No esquema original

Lia-se a palavra EU inscrita em vários quadrados inscritos em um círculo.

Cada pensamento, cada sentimento, cada sensação, cada desejo, cada “eu gosto” ou “eu não gosto”, é um “eu”. Esses eus” não estão ligados entre si, nem coordenados de modo algum. Cada um deles depende das mudanças de circunstâncias exteriores e das mudanças de impressões.

Tal “eu” desencadeia mecanicamente toda uma série de outros eus”. Alguns andam sempre em companhia de outros. Não existe aí, porém, nem ordem nem sistema.

Alguns grupos de “eus” têm vínculos naturais entre si. Fa­laremos desses grupos mais adiante. Por enquanto, devemos tratar de compreender que as ligações de certos grupos de “eus” constituem-se unicamente de associações acidentais, recordações fortuitas ou semelhanças completamente imaginárias.

Cada um desses “eus” não representa, em dado momento, mais que uma ínfima parte de nossas funções, porém cada um deles crê representar o todo. Quando o homem diz “eu”, tem-se a impressão de que fala de si em sua totalidade, mas, na reali­dade, mesmo quando crê que isso é assim, é só um pensamento passageiro, um humor passageiro ou um desejo passageiro. Uma hora mais tarde, pode tê-lo esquecido completamente e expres­sar, com a mesma convicção, opinião, ponto de vista ou inte­resses opostos. O pior é que o homem não se lembra disso. Na maioria dos casos, dá crédito ao último “eu” que falou, en­quanto este permanece, ou seja, enquanto um novo “eu” — às vezes sem conexão alguma com o precedente — ainda não tenha expressado com mais força sua opinião ou seu desejo.

E agora, voltemos às outras perguntas.

O que se deve entender por “desenvolvimento”? E o que quer dizer tornar-se um ser diferente? Em outras palavras, qual é a espécie de mudança possível ao homem? Quando e como se inicia essa mudança?

Já dissemos que a mudança deve começar pela aquisição desses poderes e capacidades que o homem se atribui, mas que, na realidade, não possui.

Isso significa que, antes de adquirir qualquer poder novo ou qualquer capacidade nova, o homem deve desenvolver nele as qualidades que crê possuir e sobre as quais ele cria para si as maiores ilusões.

O desenvolvimento não pode se basear na mentira a si mesmo, nem no enganar-se a si mesmo. O homem deve saber o que é seu e o que não é seu. Deve dar-se conta de que não possui as qualidades que se atribui: a capacidade de fazer, a individualidade ou a unidade, o Ego permanente, bem como a consciência e a vontade.

E é necessário que o homem saiba disso, pois enquanto imaginar possuir essas qualidades, não fará os esforços necessá­rios para adquiri-las, da mesma maneira que um homem não comprará objetos preciosos, nem estará disposto a pagar um preço elevado por eles, se acreditar que já os possui.

A mais importante e a mais enganosa dessas qualidades é a consciência. E a mudança no homem começa por uma mu­dança em sua maneira de compreender a significação da cons­ciência e continua com a aquisição gradual de um domínio da consciência.

Que ‘é a consciência?

Na linguagem comum, a palavra “consciência” é quase sempre empregada como equivalente da palavra “inteligência”, no sentido de atividade mental.

Na realidade, a consciência no homem é uma espécie muito particular de “tomada de conhecimento interior” independente de sua atividade mental — é, antes de tudo, uma tomada de conhecimento de si mesmo, conhecimento de quem ele é, de onde está e, a seguir, conhecimento do que sabe, do que não sabe, e assim por diante.

Só a própria pessoa é capaz de saber se está consciente ou não em dado momento. Certa corrente de pensamento da psico­logia européia provou, aliás, há muito tempo, que só o próprio homem pode conhecer certas coisas sobre si mesmo.

Só o próprio homem, pois, é capaz de saber se a sua cons­ciência existe ou não, em dado momento. Assim, a presença ou a ausência de consciência no homem não pode ser provada pela observação de seus atos exteriores. Como acabo de dizer, esse fato foi estabelecido há muito, mas nunca se compreendeu real­mente sua importância, porque essa idéia sempre esteve ligada a uma compreensão da consciência como atividade ou processo mental.

O homem pode dar-se conta, por um instante, de que, antes desse mesmo instante, não estava consciente; depois, esquecera essa experiência e, ainda que a recorde, isso não será a cons­ciência. Será apenas a lembrança de uma forte experiência.

Quero, agora, chamar-lhes a atenção para outro fato per­dido de vista por todas as escolas modernas de psicologia.

É o fato de que a consciência no homem jamais é perma­nente, seja qual for o modo como é encarada. Ela está presente ou está ausente. Os momentos de consciência mais elevados criam a memória. Os outros momentos, o homem simplesmente os esquece. É justamente isso que lhe dá, mais que qualquer outra coisa, a ilusão de consciência contínua ou de “percepção de si” contínua.

Algumas modernas escolas de psicologia negam inteira­mente a consciência, negam até a utilidade de tal termo; isso, porém, não passa de paroxismo de incompreensão.

Outras escolas, se é possível chamá-las assim, falam de “es­tados de consciência”, quando se referem a pensamentos, senti­mentos, impulsos motores e sensações. Tudo isso tem como base o erro fundamental de se confundir consciência com funções psíquicas. Falaremos disso mais adiante.

Na realidade, o pensamento moderno, na maioria dos casos, continua a crer que a consciência não possui graus. A aceitação geral, ainda que tácita, dessa idéia, embora em contradição com numerosas descobertas recentes, tornou impossível muitas obser­vações sobre as variações da consciência.

O fato é que a consciência tem graus bem visíveis e obser­váveis, em todo caso visíveis e observáveis por cada um em si mesmo.

Primeiro, há o critério da duração: quanto tempo se per­maneceu consciente?

Segundo, o da freqüência: quantas vezes se tornou cons­ciente?

Terceiro, o da amplitude e da penetração: do que se estava consciente? Pois isso pode variar muito com o crescimento inte­rior do homem.

Se considerarmos apenas os dois primeiros desses três pon­tos, poderemos compreender a idéia de uma evolução possível da consciência. Essa idéia está ligada a um fato essencial, per­feitamente conhecido pelas antigas escolas psicológicas, tais como a dos autores da Philokalia, porém completamente ignorado pela filosofia e pela psicologia européias dos dois ou três últimos séculos.

É o fato de que, por meio de esforços especiais e de um estudo especial, a pessoa pode tornar a consciência contínua e controlável.

Tentarei explicar como a consciência pode ser estudada. Tome um relógio e olhe o ponteiro grande, tentando manter a percepção de si mesmo e concentrar-se no pensamento “eu sou Pedro Ouspensky”, por exemplo, “eu estou aqui neste momen­to”. Tente pensar apenas nisso, siga simplesmente o movimento do ponteiro grande, permanecendo consciente de si mesmo, de seu nome, de sua existência e do lugar em que você está. Afaste qualquer outro pensamento.

Se for perseverante, poderá fazer isso durante dois minutos. Tal é o limite da sua consciência. E se tentar repetir a experiên­cia logo a seguir, irá achá-la mais difícil que da primeira vez.

Essa experiência mostra que um homem, em seu estado normal, pode, mediante grande esforço, ser consciente de uma coisa (ele mesmo) no máximo durante dois minutos.

A dedução mais importante que se pode tirar dessa expe­riência, se realizada corretamente, é que o homem não é cons­ciente de si mesmo. Sua ilusão de ser consciente de si mesmo é criada pela memória e pelos processos do pensamento.

Por exemplo, um homem vai ao teatro. Se tem esse hábito, não tem consciência especial de estar ali enquanto ali está. E, não obstante, pode ver e observar; o espetáculo pode interessá-lo ou aborrecer-lhe; pode lembrar-se do espetáculo, lembrar-se das pessoas com quem se encontrou, e assim por diante.

De volta à casa, lembra-se de haver estado no teatro e, naturalmente, pensa ter estado consciente enquanto lá se en­contrava.

De forma que não tem dúvida alguma quanto à sua cons­ciência e não se dá conta de que sua consciência pode estar totalmente ausente, mesmo quando ele ainda age de modo razoá­vel, pensa e observa.

De maneira geral, o homem pode conhecer quatro estados de consciência, que são: o sono, o estado de vigília, a consciên­cia de si e a consciência objetiva.

A Utopia do Amor Perfeito

domingo, 11 de outubro de 2009

Aproveitando o título de mais esse Café Filosófico (os links estão no final do post), a Utopia do Amor Perfeito, podemos perguntar:

- Quem aqui pretende um amor perfeito?

E na seqüência lógica da pergunta surge:

- Como pretendemos avaliar o que é perfeito sendo como somos?

A maça celestial


Nasrudin está sentado no meio de um círculo de discípulos, quando um deles lhe pergunta que relação existe entre as coisas deste mundo e as de uma dimensão diferente. Diz Nasrudin:


— Você precisa compreender a alegoria.


O discípulo retruca:


— Mostre-me alguma coisa prática. Por exemplo, uma maça do paraíso.


Nasrudin pega uma maçã e estende-a ao homem.


— Mas esta maçã está estragada de um lado. Uma maçã celestial com certeza seria perfeita.


— Uma maça celestial seria perfeita — concorda Nasrudin; — mas, na medida em que você é capaz de julgá-la, situados como estamos nesta morada de corrupção, e com suas faculdade atuais, esta é a mais parecida com uma maçã celestial que você conseguirá ver em toda sua vida.


Eis uma história perfeita. Mostra que obtemos o amor perfeito de acordo com o nosso grau de perfeição. Perfeição é uma palavra perigosa sujeita que está a tantos significados. Nem a palavra é perfeita. Consulto rapidamente o dicionário em busca de socorro:

Perfeito

adjetivo
1 em que não há defeito; que apresenta as melhores qualidades
2 que se caracteriza por ser completo; cabal, rematado, total
3 que se destaca por ser notável; magistral

Amor perfeito é amor total, o amor que nos completa.

Mas parece-me que uma coisa óbvia nos escapa na prática dos relacionamentos.

Sempre pensamos o amor perfeito pelo objeto e não pelo sentimento.

Vou repetir, até para ver se não estou escrevendo besteira, as vezes entro numa espécie de paranóia quando acredito estar vendo algo aparentemente óbvio, afinal, o que se percebe fácil nos deixa desconfiados com a facilidade mesma da percepção.

Sempre pensamos o amor perfeito pelo objeto e não pelo sentimento.

Vou até refazer o pensamento de forma menos exigente.

Quase sempre pensamos o amor pelo objeto e não pelo sentimento.

Assim quando perdemos o objeto do nosso amor o nosso sentimento vai com ele e se converte num sentimento diferente: perda, abandono, tristeza.

Pregamos o nosso sentimento de amor no objeto tal como Jesus na cruz. Estranho isso, muito estranho, porque o sentimento é nosso.

Vou contar uma outra historinha:

Em uma sala de aula, havia várias crianças, quando uma delas perguntou à professora:

- Professora, o que é o amor?

A professora sentiu que a criança merecia uma resposta à altura da pergunta inteligente que fizera. Como já estava na hora do recreio, pediu para que cada aluno desse uma volta pelo pátio da escola e que trouxesse o que mais despertasse nele o sentimento de amor.

As crianças saíram apressadas e, ao voltarem, a professora disse:

- Quero que cada um mostre o que trouxe consigo.

A primeira criança disse: - Eu trouxe esta flor, não é linda?

A segunda criança falou: - Eu trouxe esta borboleta. Veja o colorido de suas asas, vou colocá-la em minha coleção.

A terceira criança completou: - Eu trouxe este filhote de passarinho. Ele havia caído do ninho junto com outro irmão. Não é uma gracinha? E assim as crianças foram se manifestando.

Terminada a exposição, a professora notou que havia uma criança que tinha ficado quieta o tempo todo. Ela estava vermelha de vergonha, pois nada havia trazido.

A professora se dirigiu a ela e perguntou: - Meu bem, por que você nada trouxe?

E a criança timidamente respondeu:

- Desculpe, professora. Vi a flor e senti o seu perfume. Pensei em arrancá-la, mas preferi deixá-la para que seu perfume exalasse por mais tempo. Vi também a borboleta, leve, colorida! Ela parecia tão feliz que não tive coragem de aprisioná-la. Vi também o passarinho caído entre as folhas, mas, ao subir na árvore, notei o olhar triste de sua mãe e preferi devolvê-lo ao ninho. Portanto, professora, trago comigo o perfume da flor, a sensação de liberdade da borboleta e a gratidão que senti nos olhos da mãe do passarinho. Como posso mostrar o que trouxe?

A professora agradeceu à criança e lhe deu nota máxima, pois ela fora a única que percebera que só podemos trazer o amor em nosso coração...

Pois é...uma história aparentemente tão boba, uma história de crianças e para crianças, vai precisamente no ponto:

Quase sempre pensamos o amor pelo objeto e não pelo sentimento.

E fazemos assim porque assim nos foi ensinado a fazer. Se não vejamos.

Eis o 1º Mandamento da tradição religiosa dominante em nossa cultura: Amar a Deus sobre todas as coisas.

Colocar um sentimento como um mandamento me lembra a vez em que uma namorada me obrigou a dizer "eu te amo". Não se pode obrigar a amar. Um sentimento forçado é um sentimento falso. O amor forçado é uma violência emocional, um crime de lesa-coração. Não me surpreende que vivamos numa sociedade onde a violência e o abuso dominem, pois a própria religião em seu primeiro mandamento quer nos obrigar a amar. O amor não é obediente à lei, o amor é obediente ao amor.

Assim somos obrigados, por lei, a fixar nosso amor no outro, mesmo que esse outro seja Deus, quando na verdade o próprio ato de amar já é divino em si mesmo. Assim "Deus é Amor". Dizer Deus é Amor é bem diferente de dizer que o Amor é Deus. Na 1ª afirmação a Divindade é o próprio sentimento, não uma pessoa. Assim o primeiro mandamento revela não apenas a sua natureza autoritária, mas também alienante ao transferir o sentimento para outrem, quando o próprio sentimento já é ele mesmo divino.

Blavastky escreveu: Não há religião superior à Verdade.

Nós podemos escrever: Não há divindade superior ao Amor.

Mas assim como Jesus e Buda silenciaram quando perguntados sobre o que é a Verdade, o mesmo silêncio é a resposta para o que é o Amor.

Dizer que o Amor é a verdade fundamental do Universo são apenas palavras das quais os céticos zombam.

Dizer que o Amor é a verdadeira natureza do Poder são apenas palavras das quais os políticos escarnecem.

Fixamos o nosso amor no objeto, transferimos o nosso sentimento para as coisas e para os outros. Ao fazer isso nos alienamos de nós mesmos e isso cria a carência, e a carência é esse estado de precisar dos outros e das coisas para amar.

Na verdade para amar nós não precisamos do outro e das coisas, isso é secundário, para amar nós precisamos do sentimento de amor. E isso parece uma tautologia.

O nosso amor pelo outro e pelas coisas nunca poderá ser perfeito, nunca poderá ser completo, porque um amor que dependa das coisas e do outro está sujeito inevitavelmente a perda, ao abandono, ao sofrimento, um amor assim é um amor alienado, alienado de si mesmo, é como se deus não se reconhecesse como tal, é como se o sol parasse de brilhar porque a lua foi embora.

O amor que sinto depende de mim e não do outro. Ele está em mim. É um sentimento que emano a partir de mim, como um sol, que não depende daquilo que ele ilumina para iluminar, do ponto de vista do Sol isso seria um absurdo.

A dificuldade de entender o Amor como um sentimento que emana como um Sol e que independe do objeto é totalmente compreensível pois fomos educados, condicionados a sentir de uma maneira falsa.

Aquele que redescobrir o Amor em si mesmo descobrirá a Verdade de seu próprio Ser e poderá entender plenamente o que significa Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida.

Uma interpretação meramente intelectual para tal passagem é que Jesus não estava se referindo a sua pessoa, a sua personalidade, ele se referia a própria Divindade, ao próprio Amor que há no coração de todo homem e de toda a mulher.

"Eu Sou" é o Ser, a plenitude de nós mesmos, a realização da utopia da completude.

Ter essa percepção do Amor é algo realizável, não é utópico, alguns de nós já tiveram vislumbres dessa aterradora possibilidade de realização para a percepção presa no ego, outros já a realizaram em sua plenitude. É por isso que ela perdura como utopia, apenas porque é realizável, como uma promessa do potencial humano e divino de cada homem e de cada mulher.

O fato de alguns homens e mulheres não a terem experimentado não significa que ela não exista. Infelizmente ou felizmente a Utopia do Amor Perfeito é uma idealização para muitos, uma realização para poucos e uma possibilidade para todos. Na verdade tal realização não está tanto na esfera da relação entre o homem e a mulher, pode passar por ela, mas se encontra na esfera da relação do humano e do divino.

Se por um lado encarar o amor perfeito como utopia pode vir a quebrar algumas ilusões criadas pela mídia e pela cultura, por outro lado a racionalização que desmistifica a possibilidade da utopia pode ser apenas uma forma de abrandamento neurótico de uma possibilidade frustrada.

F.A.

Café Filosófico - A Utopia do Amor Perfeito

A busca de relacionamentos mais satisfatórios implicou grandes mudanças nos papéis masculinos e femininos. Os processos de emancipação feminina, a desconstrução dos papéis de homens e mulheres, movidos por uma busca de redefinição da família, do amor e da vida profissional transformaram profundamente as relações. Seriam hoje os homens sensíveis e medrosos e as mulheres livres e solitárias? Como superar os impasses da emancipação triste?A convidada desta edição é Caterina Koltai, socióloga, psicanalista, mestre em sociologia pela Sorbonne e doutora em psicologia clinica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. É professora da graduação e pós-graduação da Faculdade de Ciências Sociais da PUC-SP. Autora do livro Psicanálise e Política: O estrangeiro, pela Editora Escuta.


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Pistas do Caminho: quem eu sou?

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Difícil se auto-definir, qualquer coisa que se diga parece mentiroso, soa falso.

Dizer o que faço me torna um homos faber;

dizer quem sou parece um exercício de narcisismo ou de culto a personalidade.

Não dizer também fica vago ou impreciso.

Qualquer resposta não será uma resposta, nunca poderá ser definitiva.

Currículos são mentiras socialmente aceitas.

Talvez eu seja apenas isso, um espelho.

O que digo de mim, ou o que não digo, são apenas pistas do caminho que estou a percorrer.

E esse caminho também sou eu.

Aonde eu vou me levar?

Descobrirei quando lá chegar.

Então talvez diga: eis-me.

Ou quem sabe, até logo.

F.A.

A Utopia do Auto-Conhecimento

"O auto-conhecimento é basicamente a frase: quem sabe de mim sou eu".

"Não há inconsciente, eu sou dono das minhas próprias determinações".

"O auto-conhecimento se baseia num mito, numa idéia de uma auto-transparência de mim para mim mesmo".

Com essas três frases o psicanalista Ricardo Goldemberg começa esse Café Filosófico sobre a Utopia do Auto-Conhecimento (oferecemos os links para download mais abaixo). Mas esse início me parece bastante paradoxal, pois se a idéia do auto-conhecimento envolve uma transparência de si que abole o inconsciente, naturalmente, fica abolido o próprio auto-conhecimento, pois o conhecimento de si já seria evidente por si mesmo, seríamos como aquelas vitrines muito "cleans" de certas lojas.

Se o auto-conhecimento, como diz o psicanalista Ricardo Goldemberg, fosse auto-transparente não haveria necessidade do Oráculo de Delfos dizer: Conhece a ti mesmo.

Estranhamente o psicanalista faz uma referência histórica a idéia de auto-conhecimento citando Descartes: - Penso, logo existo -, para ilustrar seu argumento. Mas a idéia de auto-conhecimento é obviamente bem mais que a expressão de Descartes e seu racionalismo, pois tradicionalmente o processo de auto-conhecimento não passa apenas pela razão, haja vista o emprego de técnicas como Meditação, Astrologia, Tarot, Numerologia e a Psicologia que encontramos em Escolas Iniciáticas, tais como as Escolas do Quarto Caminho.

Se nós fossêmos usar a mesma idéia simplista do psicanalista, que define o auto-conhecimento como "quem sabe de mim sou eu", para definir a psicanálise numa frase, esta seria: "quem sabe de mim é o psicanalista". E se fossêmos prosseguir nesse raciocínio poderíamos perguntar:

Mas quem sabe do psicanalista?

Resposta:

Outro psicanalista.

E a continuar no raciocínio chegaríamos no pai criador da psicanálise: Freud. Então se entende a frase: Freud explica. Mas quem explica Freud? Ora, ele mesmo. Então por mera lógica teríamos que dizer que se Freud explica Freud, então Freud é um adepto do auto-conhecimento e de sua "mística". Daí o paradoxo do pensamento do psicanalista Ricardo Goldemberg. Mas fora esses exercícios de lógica, Goldemberg ainda diz coisas muito interessantes sobre a etiqueta da conversa, sobre a ética da fala (onde se diz que eu só sei de mim através do outro). E aqui está um pensamento fundamental:

PARA SABER DE MIM EU PRECISO ATRAVESSAR O OUTRO.

Tal idéia segundo Goldemberg é o miolo da psicanálise, de qualquer psicanálise, independente da linha ou escola, tendo essa prática como fundamental o que varia de uma escola para outra, segundo ele, é a estratégia para implementar tal prática. Assim Astrologia, Tarot e Numerologia são estratégias psicanalíticas para o entendimento de si através do outro.

Mas essa idéia não é original da Psicanálise, se não vejamos:

"Portanto, a primeira meta de um homem que começa o estudo de si deve ser reunir-se a um grupo. O estudo de si só pode efetuar-se em grupos convenientemente organizados. Um homem sozinho não pode ver a si mesmo.

Mas certo número de pessoas associadas neste propósito trará para todas, mesmo sem querer, um auxílio mútuo. Um dos traços típicos da natureza humana é que o homem vê sempre mais facilmente os defeitos dos outros que os próprios. Ao mesmo tempo, no caminho do estudo de si, o homem aprende que ele próprio tem todos os defeitos que encontra nos outros. Ora, há muitas coisas que não vê em si mesmo, enquanto nos outros começa a vê-las. (...) Mas é claro que, para ver-se a si mesmo nas falhas de seus companheiros e não simplesmente ver as falhas deles, deve manter-se alerta sem trégua e ser muito sincero consigo mesmo.

Deve lembrar-se de que não é um; que uma parte dele mesmo é o homem que quer despertar-se e que a outra - "Ivanoff", "Petroff" ou "Zacharoff" - não tem o menor desejo de despertar e deverá ser despertada à força .

Um grupo é, comumente, um pacto feito entre os Eus de certo número de pessoas para travarem a luta contra todos os "Ivanoff", "Petroff" e "Zacharoff", isto é, contra suas "falsas personalidades".

Tomemos "Petroff". Ele é formado por duas partes - Eu e "Petroff". Mas Eu não tem força diante de "Petroff". Petroff é o amo. Suponhamos que haja vinte pessoas; vinte Eus começam então a lutar contra um só Petroff. Podem agora revelar-se mais fortes que ele. Em todo o caso, podem pertubar seu sono, impedi-lo de dormir tranquilamente quanto antes. E assim atinge-se a meta."

Pags. 256 e 257 do "Fragmentos ", de Ouspensky.

Compreendemos que a posição do psicanalista não leva em consideração que o processo de auto-conhecimento não deriva tão somente de uma relação comigo mesmo, nem tão somente da presença do outro, seja esse outro o detentor de algum saber específico sobre a alma humana, mas de um processo dialético onde olho para mim mesmo a partir do outro na intenção de entender-me, de auto-conhecer-me, até porque sem essa intenção nada seria possível nessa direção.

Feita estas observações, que naturalmente serão melhor entendidas após o vídeo, temos aí os links para mais um Café Filosófico bastante interessante.

FACS


O que você quer?

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A vida é feita de escolhas. Houve um tempo em que escolher era mais fácil porque tínhamos poucas opções e muita vontade. Atualmente, temos muitas opções e pouca vontade.

Escolher um caminho de vida é como escolher um produto, dentre tantos, na prateleira do supermercado. Diante de tantas marcas e tantas variáveis, acabamos optando pelo que já conhecemos ou o mais colorido, o que distrai melhor os olhos.

Não é raro encontrar alguém que se sente infeliz, mas não consegue imaginar o que o deixaria feliz. Não é raro encontrar quem saiba o que não quer, mas não consiga alcançar o que realmente deseja. E por mais surpreendente que seja, ouço com certa freqüência pessoas perguntando ao Tarot o que elas sentem “de verdade” pelo marido, namorado, companheiro ou pretendente. As pessoas não sabem mais o que sentem...

Talvez, o detalhamento exagerado das coisas, as complexidades que foram implantadas em nossa sociedade e todos os medos (em especial o de errar) que são alimentados diariamente, estejam promovendo uma cultura que valoriza a estagnação ao invés da ousadia de tomar uma decisão e assumi-la!

Ninguém quer errar. Ninguém quer “fazer feio”. Ninguém quer se responsabilizar pelo que faz, sente, pensa. Ninguém quer se comprometer com nada, nem ninguém, em especial consigo mesmo. Ninguém quer arriscar ter uma idéia e colocá-la em prática, ter um sentimento e se lançar nele. Ninguém quer! Deixam que uma entidade abstrata chamada “sistema” queira em seu lugar.

O tédio que se alastra pelo mundo é resultado da falta de vontade. O ser humano anda anêmico de propósito, anda fraco nas decisões. Ocupado demais em sobreviver e trocar seu dinheiro por espelhos e bugigangas. Muito ocupado para ser feliz.

Pensamentos de segunda-feira...
Cláudia Mello

Tarot, poesia e solidão

- Sinto-me tão só!

- Encontro-me só.

Sentir-se só é uma coisa, estar só é outra bem diferente.

A primeira é psicológica. A segunda é física.

Podemos estar solitários a dois ou numa multidão.

Podemos estar sozinhos sem nos sentir solitários.

Quando o poeta Manuel Bandeira disse que os corpos se entendem mas as almas não, ele quis dizer algo sobre a dificuldade das almas se comunicarem, essa incomunicabilidade das almas é um sintoma da solidão.

Quando não encontro ninguém a quem eu possa comunicar o que vai na alma isso resulta em solidão.

A exigência da alma que não encontra seu par: solidão.

Talvez por isso o poeta escreva, para abrandar a solidão.

Mas quando ele, poeta, escreve, ele cumpre uma exigência de sua própria alma, e isso o conecta com um propósito mais amplo do seu próprio ser. Essa conexão se torna uma cura para a solidão. Assim a cura para a solidão não é apenas uma alma encontrar outra com a qual se entenda, mas é a própria alma conectar-se com algo mais vasto que a faz sentir-se cumpridora de um propósito, propósito para o qual ela existe. No caso do poeta, escrever poesia. Eis a sua paixão.

A cura para a solidão é o encontro da alma com o seu próprio destino.

Assim a solidão é uma doença da alma que foi afastada do seu propósito verdadeiro para cumprir anseios que não são seus.

Nossa sociedade é uma sociedade de solitários que buscam abrandar o isolamento de diferentes maneiras.

A forma preferida de anestesia para a solidão é a paixão. Uma estranha conexão. Solidão e paixão. Eremita e Diabo, uma curiosa interação.

Há outras formas de anestesia, tais como consumir vorazmente, outra expressão do 15º arcano. Há um mito sobre Exu, um mito conectado a este arcano, que fala que ele começou a tudo devorar. Assim nos comportamos em nossa ânsia, em nosso desejo de completude que não encontra a sua saciedade. Assim por vezes esgotamos nossas relações e acabamos por sós ficar. Talvez por isso a Temperança preceda o Diabo, como um aviso de moderação.

Por isso o poeta disse: porque os corpos se entendem, mas as almas não. Isso parece estar de certa forma simbolizado no arcano 15 do Tarot.

E no entendimento dos corpos acreditamos, as vezes, que possa ocorrer também o entendimento das almas. Mas é uma ilusão que o tempo rapidamente desfaz. De tal maneira que as pessoas sentem medo de assumir um compromisso, pois não querem sentir a ressaca da pós-paixão. O que fica depois que o prazo de validade do tesão se esgota? Na maior parte das vezes duas almas que não se entendem. Então, "sabiamente", criou-se o verbo "ficar" para indicar uma relação descartável, rápida e indolor que evita o risco do contágio da decepção. Mas que mantém a doença da solidão intocada na sua causa e anestesiada nos seus sintomas. Transar, foder pode ser como tomar doril, tomou "doril", a dor da solidão sumiu! Mas não há garantias. Afinal nunca foi tão fácil transar, mas a impotência de amar encontra seu par na solidão, seja a dois ou com mais pessoas.

O que ocorre, afinal? Somos 6 bilhões de pessoas ávidas de amor e fartas de sexo. Estranho paradoxo. Por que com tanta gente no mundo as pessoas estão tão solitárias? Por quê? Talvez o poeta já tenha matado a charada: porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Mas nem sempre. Há corpos que se entendem bem, outros não. Assim também há almas. Pelo visto o poeta não foi tão sortudo no amor, quanto foi na paixão. Mas isso também não é uma questão de sorte ou apenas de sinastria ou de destino. É preciso um certo esforço, um certo cuidado, uma certa atenção, uma certa dosagem, que é uma descoberta pessoal de paixão e amor, de corpo e alma, de completude e solidão.

FACS

A arte maravilhosa de um gato

domingo, 4 de outubro de 2009

Era uma vez um mestre de esgrima chamado Shoken. Em sua casa vivia uma ratazana, uma verdadeira praga. Ela aparecia andando para baixo e para cima, até a luz do dia. Certa vez, Shoken fechou a porta, para que o gato pudesse apanhá-la. Porém, ela pulou no focinho do gato e o mordeu tanto, que ele fugiu gritando. Essa tentativa fracassou.

O dono da casa trouxe então outros gatos da vizinhança, que gozavam da fama de corajosos, e os colocou dentro do quarto. A ratazana se acocorou num canto e, tão logo um gato se aproximava, ela pulava, mordia e punha o gato a correr. A ratazana parecia tão feroz, que todos os gatos hesitavam em se aproximar uma segunda vez.

Shoken ficou furioso, e resolveu apanhar ele mesmo a ratazana e matá-la. Porém, apesar de sua destreza, a ratazana escapava a cada golpe do mestre de esgrima, e este não conseguiu acertá-la. Em suas tentativas, ele dilacerou portas, shojis e karamanis. Mas a ratazana parecia deslizar no ar, rápida como um raio, escapando de cada um dos seus golpes: finalmente ela pulou em seu rosto e o mordeu. Banhado de suor, ele chamou seu ajudante e disse: "Parece que a seis ou sete léguas daqui há um gato que dizem ser o mais esperto do mundo. Vá e traga-o aqui!".

O empregado trouxe o gato. Este não parecia distinguir-se dos outros gatos, não aparentava ser especialmente inteligente, nem feroz. Por isso, ao vê-lo, o mestre de esgrima não alimentou grandes esperanças; mesmo assim, entreabriu a porta e o deixou entrar. O gato entrou muito tranquilo, devagarinho, como se não esperasse nada de extraordinário. A ratazana, entretanto, teve um sobressalto e permaneceu imóvel. O gato simplesmente foi se aproximando, muito devagar, agarrou-a com a boca e a levou para fora.

Nessa noite, os gatos vencidos reuniram-se na casa de Shoken, ofereceram o lugar de honra ao velho gato, fizeram uma respeitosa reverência diante dele e disseram, modestos: "Todos nós gozamos da reputação de ser bons trabalhadores. Todos nós nos exercitamos neste ofício, e afiamos nossas garras de modo a poder vencer toda espécie de ratos, e até doninhas e gambás. Nunca poderíamos imaginar que existisse uma ratazana tão forte! Como é que você conseguiu vencê-la tão facilmente? Não guarde segredo da sua arte; por favor, revele-a para nós".

Então o velho gato sorriu e disse: "É verdade que todos vocês, gatos jovens, são trabalhadores esforçados. Mas desconhecem o caminho correto. Por isso, ao se depararem com alguma coisa inesperada, falham. Mas primeiro contem-me como vocês têm praticado."

"Um gato preto aproximou-se, então, e disse: "Sou descendente de uma família famosa pela caça de ratos. Por isso decidi seguir o mesmo caminho. Sei pular sobre uma muralha de dois metros. Sei me espremer num buraco tão pequeno, que só um rato é capaz de atravessar. Desde criança tenho praticado todas as artes acrobáticas. Até mesmo ao acordar, ainda meio adormecido e com os reflexos lentos, basta-me ver, de relance, um rato passar, e já o peguei! Mas a ratazana de hoje foi mais forte do que eu, e sofri a mais terrível derrota de toda a minha vida. Estou envergonhado."

O velho gato retrucou: "O que você praticou nada mais foi do que a técnica (shosa, a mera arte física), mas você está obcecado com a pergunta: como vencer? E, portanto, fica apegado a uma meta! Quando os antigos mestres ensinavam a "técnica", eles o faziam para indicar uma forma de caminho (michisuji). Sua técnica era simples e, no entanto, encerrava a mais elevada verdade. Seus sucessores, porém, só se ocupam com a técnica. É claro que descobriram trejeitos novos, e por isso seguiram a receita do tipo "fazendo isto ou aquilo, se obtém tal e tal resultado". Mas qual é o verdadeiro resultado? Nada além de certa destreza.


Assim foi esquecido o antigo modo tradicional, e os praticantes usaram sua inteligência até a exaustão, cada qual tentando superar a técnica do outro. E agora já não sabem como continuar. Isto é o que sempre ocorre quando só se presta atenção à técnica e quando as pessoas confiam inteiramente na própria inteligência. Esta é deveras uma função do espírito, mas se não for baseada no caminho e apenas visar a habilidade, esta o colocará na senda errada, e tudo o que você conseguir será prejudicial. Procure a verdade na profundidade do seu Ser e pratique de agora em diante o caminho correto."

"A seguir, um grande gato tigrado aproximou-se e disse: "Acredito que, nas artes marciais, só o espírito importa. Por isso, desde cedo, exercitei essa força (ki wo neru). Resultou em que sinto o meu espírito "rígido como o aço", livre, carregado do "espírito ki" que preenche o céu e a terra (Mêncio). Já ao ver o inimigo, esse espírito onipotente o prende, e obtenho a vitória antes mesmo de começar. Só então faço o primeiro gesto! Inconscientemente, cada movimento acontece de acordo com o que a situação requer. Adapto-me ao "som" do meu oponente, lanço o meu poder sobre o rato, faço com que vá para a direita ou para a esquerda a meu bel-prazer, antecipando-me a cada gesto dele. Não me importo absolutamente com a técnica, que surge espontaneamente. Quando um rato vai passando, eu o fito com o olhar, e imediatamente ele cai, é minha presa. Mas essa ratazana misteriosa aparece sem forma e desaparece sem deixar traços. O que será isso? Eu não sei!"

Então o velho gato lhe disse: "O que você treinou é o efeito que provém da grande força que preenche o céu e a terra. Mas você adquiriu apenas uma força psíquica, que nada tem que ver com um bem que realmente mereça esse nome. O mero fato de estar consciente da força com a qual você deseja vencer já inibe a vitória. O seu eu está em jogo. E se por acaso o eu do outro for mais forte que o seu, o que acontece? Se você quer vencer o inimigo com a sua força superior, ele joga a força dele contra a sua. Será que você imagina realmente que será sempre mais forte, e que todos os outros serão mais fracos? Como você agirá se houver algo que a sua grande força, mesmo com a melhor boa vontade, não conseguir vencer? Esta é a pergunta a ser formulada! A força espiritual interior que você sente "livre" e "dura como o aço", capaz de "preencher o céu e a terra" não é a grande força em si (ki no sho), porém o seu reflexo. É o seu próprio espírito, portanto, apenas a sombra do Grande Espírito. É verdade que, às vezes, se apresenta como a grande força oniabrangente, mas na realidade trata-se de algo totalmente diferente. O espírito a que Mêncio se referia é forte porque permanece iluminado pela grande claridade. Porém o seu espírito só é imbuído de força em certas circunstâncias. Sua força e aquela mencionada por Mêncio procedem de origens diferentes, e por isso também atuam de modo diverso. São tão diferentes como o eterno fluxo de um rio, como, por exemplo, o Yang-tsé, e uma corrente repentina que se forma durante a noite. Mas qual é o espírito a ser preservado quando você se encontra diante de algo que não pode ser vencido por nenhuma força espiritual (ki sei)? Esta é a pergunta a ser formulada! Diz um ditado: "Um gato encurralado morde até outro gato!" Se o inimigo está encurralado, correndo perigo de vida, ele já não se importa com nada. Ele esquece a própria vida, esquece todo o sofrimento, esquece de si mesmo, não pensa em vitórias ou derrotas. Ele nem sequer nutre a intenção de cuidar da sua própria segurança. E por isso torna-se duro como o aço. Como será possível vencê-lo através dos poderes espirituais que você atribuia a si mesmo?"

"A essa altura, um gato mais velho aproximou-se lentamente e disse: "Sim, tudo o que você disse é verdade. Por mais forte que seja, a força psíquica tem uma forma (katachi). E tudo aquilo que tem uma forma, por menor que seja, pode ser tocado. Por isso, há muito tempo estou a exercitar lentamente a minha alma (kokoro, a força do coração). Não pratico a força que domina espiritualmente o outro (o -sei- usado pelo segundo gato). Também não me fico a me debater, como o primeiro gato. Faço as pazes com o meu oponente, permito que se forme uma unidade com ele, e não me oponho a ele de modo algum. Se o outro for mais forte do que eu, simplesmente me rendo e finjo que faço o que ele quer. De certo modo, minha arte consiste em pegar as pedrinhas que são arremetidas sobre uma cortina solta. Por mais forte que seja, o rato que queria me agredir nada encontra que possa agarrar. Hoje, porém, essa ratazana simplesmente resistiu ao meu jogo. Ela ia e vinha tão misteriosamente quanto o próprio Deus. Nunca vi nada igual."

Então o velho gato replicou: "O que você chama fazer as pazes não procede da essência intrínseca, nem da grande natureza. É uma paz elaborada, artificial, um truque. Você conscientemente quer iludir o intuito agressivo do seu oponente. Mas por pensar a respeito, mesmo durante um breve momento, ele nota a sua intenção. Se você tenta uma "reconciliação" nesse estado de espírito, só confunde e obscurece o seu próprio instinto agressivo, e a precisão de sua percepção e da sua ação fica prejudicada. Tudo aquilo que você fizer com uma intenção inibe o ímpeto original e secreto da grande natureza, e perturba o fluxo do seu movimento espontâneo. Como é que você pode esperar um milagre deste modo? Só quando você não pensa em nada, quando não deseja nem faz nada, e se rende incondicionalmente ao seu próprio ritmo e à vibração da sua natureza intrínseca (shizen no ka), quando já não tem nenhuma forma palpável, é que já nada mais no mundo pode surgir como contraforma. Então já não existe nenhum inimigo que possa se opor a você."

"Não acredito, por um segundo sequer, que tudo aquilo que vocês praticaram tenha sido inútil. Tudo, absolutamente tudo, pode converter-se numa forma de caminho. A técnica e o caminho também podem ser uma única e a mesma coisa, e o espírito que tudo governa estará então contido na técnica e falará através dos gestos do corpo. A força do grande espírito (ki) serve à pessoa humana (ishi). Se o seu ki é liberado, você está eternamente livre para ir ao encontro de tudo, da maneira correta. Se o seu espírito está genuinamente reconciliado e em paz, você não pode ser atingido nem com pedras, nem com ouro, e não precisará de esquemas especiais para entrar em luta. Uma única coisa conta: que não haja nem um sopro de consciência egóica em jogo, se não tudo estará perdido. Se você pensar a respeito, nem que seja por uma mínima fração de tempo tudo se torna algo artificial e não fluirá mais a partir da essência, da vibração primordial do corpo do caminho (do-tai). Se isso ocorre, então o seu inimigo também resistirá, em vez de fazer o que você espera dele. Portanto, que espécie de método e de arte devem ser empregados? Só quando você estiver livre de qualquer tipo de consciência (mu - shin), quando você agir sem agir, sem intenções ou truques, em harmonia com a grande natureza de todas as coisas, é que você estará no caminho correto. Deixe portanto, de lado, qualquer intenção, exercite-se completamente destituído de intenções, e deixe simplesmente que as coisas aconteçam a partir da sua essência intrínseca.


Esse caminho é sem fim e inesgotável." E o velho gato acrescentou ainda algo surpreendente: "Vocês não devem acreditar que o que eu lhes disse hoje seja a última palavra.

Há pouco tempo vivia numa aldeia vizinha um velho gato. Ele dormia o dia inteiro. À sua volta, porém, não havia o menor vestígio de qualquer coisa que pudesse assemelhar-se a alguma força espiritual. Ele permanecia deitado com um tronco. Ninguém jamais o viu apanhando um rato por perto. Mas não havia o menor vestígio de rato onde quer que ele aparecesse ou permanecesse. Eu o procurei certo dia e lhe pedi que me explicasse esse fenômeno. Ele não me respondeu. Repeti minha pergunta três vezes. Ele se calou. Na realidade, não se tratava de não querer responder, pois ele evidentemente não sabia o que dizer. E então eu soube: "Aquele que sabe não diz, e aquele que diz não sabe". Este gato havia se esquecido de si mesmo e de tudo quanto o rodeava. Havia se convertido em "nada", havia alcançado o mais alto nível de ausência de intenção. Poderíamos até afirmar que ele havia encontrado o divino caminho da "cavalaria": vencendo sem matar. Falta-me ainda percorrer um longo caminho para chegar lá."

"Shoken ouviu tudo isso como que num sonho. Aproximou-se, cumprimentou o velho gato, e disse: "Há muito tempo que eu pratico a arte da esgrima, mas ainda não alcancei o seu objetivo. Ouvi as suas palavras, e acredito ter entendido o verdadeiro sentido do meu caminho; porém, peço-lhe encarecidamente que me diga mais alguma coisa a respeito do seu segredo."

"Como poderia fazê-lo?" - retrucou o velho gato. "Sou somente um animal, e o rato é o meu alimento. Como eu poderia saber alguma coisa sobre as preocupações humanas? Sei apenas o seguinte: o sentido da arte da esgrima não consiste apenas em vencer um adversário.


Trata-se muito mais de uma arte, que em última análise, pode levar o homem à grande claridade, à compreensão do princípio da morte e da vida (seishi wo akiraki ni suru). Mesmo durante seus exercícios técnicos, um verdadeiro mestre deve tratar dessa prática com um cuidado constante. Para isso, no entanto, ele precisa sobretudo estudar a doutrina básica da vida e da morte no Ser e do significado da morte(shi no ri). Só aquele que está livre de tudo o que o desvia do caminho (hen kyoku, a distância média) e sobretudo do pensamento que define, é que terá acesso à grande luz espiritual. Se a natureza e o encontro do homem com ela (shin ki) ocorre sem interferências ou perturbações, livre do eu ou de qualquer outra coisa, esta fica totalmente livre para se manifestar sempre que for necessário. Mas se o coração ainda se apega a algo, por menor que seja esse apego, a essência intrínseca fica presa e se converte em algo estático em si mesmo.


Quando isso ocorre, pressupõe-se a existência de um eu que se lhe contrapõe. Temos então uma dualidade que se encara, brigando pela sobrevivência. Nesse caso, são anulados os maravilhosos efeitos da natureza intrínseca, cuja essência é a mutação constante. Surgem, então, as garras da morte e perde-se a clareza da própria essência. Nesse estado de ânimo, como se poderia dar o encontro com o adversário numa postura correta, encarando tranquilamente a "vitória ou a derrota"? A própria vitória seria então uma vitória cega que nada teria que ver com o sentido da verdadeira arte da esgrima! "Ser livre de todas as coisas não significa um vazio. A essência intrínseca como tal não tem natureza própria, pois transcende todas as formas. Ela também não tem nenhum arquivo. Mas, se o homem se apegar a qualquer coisa, por mais passageira que seja, o equilíbrio primordial do fluxo de energias se perde. Se a essência intrínseca for aprisionada, mesmo que de leve, por alguma coisa, seu movimento deixa de ser livre e a energia não flui imperturbável, em plenitude. Se o equilíbrio da essência humana se altera, sua força acaba depressa, para onde quer que seja direcionada, e não basta. Onde houver excesso de energia não há como detê-la, e ela se extravasa. Quando há carência de energia, o espírito se enfraquece e fracassa sempre que se tratar de enfrentar uma situação. O que eu chamo de estar livre de todas as coisas nada mais significa do que o seguinte: não acumular nada, não se apoiar em nada, não se fixar em nada, pois então já não haverá nem um eu, nem um antieu. Quando algo acontece, nós encaramos o acontecido como se estivéssemos inconscientes e o fato não deixa vestígios. O I Ching (O Livro das Mutações) diz o seguinte: "Nenhum pensamento, nenhuma ação, nenhum movimento, e sim a quietude total: só assim se pode manifestar a natureza intrínseca e a lei das coisas a partir do interior, estando o homem inteiramente inconsciente, para tornar-se finalmente Uno com o céu e a terra". Aquele que assim pratica e entende a arte da esgrima está próximo ao caminho da verdade."

"Ao ouvir isso tudo, Shoken indagou: "O que significa não haver um eu, nem um antieu, não haver sujeito nem objeto?"

E o gato replicou: "Quando há um eu, há também um adversário. Quando o homem não se apresenta como um eu, também não há um adversário. Adversário é o princípio da oposição. Enquanto as coisas mantêm uma forma, implicam a existência de uma antiforma. Sempre que se define qualquer coisa, ela passa a ter forma própria. Se a minha essência íntima é desprovida de forma, não existe a sua antiforma. Não havendo oposição, nada se opõe a nada. E isso significa o seguinte: não há um eu, nem um antieu. Ao se soltar completamente, ao se tornar totalmente livre, fundamentalmente desapegado de todas as coisas, o homem se encontra em harmonia com o mundo, tornar-se Um com as coisas na grande Unidade Total.


Mesmo se a forma do seu oponente se extinguir, ele permanece completamente alheio a esse desaparecimento. Não se trata de não perceber essa extinção, mas de não se fixar nisso, de não se ater a isso. Seu espírito continua a se movimentar livremente, isento de qualquer fixação, e suas ações fluem diretamente da sua essência intrínseca. "Se o nosso espírito já não se apega mais a nada, livre de todo e qualquer apego, então o mundo, tal como é, será completamente nosso, será Um conosco. Isso significa que agora nós o aceitamos, transcendendo o bem e o mal, a simpatia ou a antipatia. Nada mais nos prende, e também a nada mais nos agarramos. Todas as oposições que nos aparecem, ganho ou perda, bem ou mal, alegria ou dor, provêm de nós mesmos. Por isso não há nada entre o céu e a terra que seja tão valioso para nós como o conhecimento da nossa própria natureza intrínseca.


Dizia um antigo poeta: "Um grãozinho de poeira no seu olho, e os três mundos são ainda demasiado estreitos; se já não nos importamos com nada, a menor cama ainda será grande demais." Ou em outras palavras: um grãozinho de poeira, ao entrar em nosso olho, impede que ele se abra, pois algo atrapalha a visão clara, que só acontece quando não há nada no interior do olho. Isso pode ser uma metáfora do Ser, a luz que brilha e ilumina, em si mesma é completamente isenta de tudo o que é "qualquer coisa". Mas quando qualquer coisa se coloca diante do Ser, essa imagem destroi a sua virtude. "E outro poeta dizia: "Se você está rodeado por cem mil inimigos, então aquilo que você é, na sua própria forma, fica esmagado. Mas a natureza intrínseca é sua, e permanece sua, por mais forte que seja o inimigo. Pois nenhum inimigo pode jamais penetrar." "Dizia Confúcio: "A essência intrínseca não pode ser roubada nem mesmo de um homem pobre. Mas se o seu espírito torna-se confuso, sua essência intrínseca volta-se contra ele." "Isto é tudo o que eu lhes posso dizer. Penetrem no interior de vocês mesmos, e procurem conhecer-se melhor. Um mestre só pode tentar transmitir algo ao aluno e tentar explicá-lo. Porém, só você mesmo pode reconhecer a verdade e apropriar-se dela. A isso se chama "autoconhecimento" (jitoku). A transmissão se dá de coração a coração (ishin denshin). Trata-se da transmissão de um dom por intermédio de sendas extraordinárias, que transcendem o vazio e a erudição (kyogai betsuden). O que não significa que contradizem os ensinamentos do mestre.


Quer dizer apenas que mesmo um mestre não é capaz de transmitir a verdade. E isto não é válido somente para o Zen. Desde os exercícios espirituais dos antigos, desde a arte de aprimoramento da alma até as belas artes, o elemento vital sempre foi o autoconhecimento, e este só pode ser transmitido de coração a coração, além de qualquer ensinamento comunicado. O propósito de cada ensinamento é apenas: apontar e ressaltar aquilo que todo homem já possui sem saber. Também não existe nenhum segredo que o mestre possa "passar" para o discípulo. É fácil ensinar. Ouvir é fácil. Difícil é conscientizar-se daquilo que se possui dentro de si mesmo, encontrá-lo e tomar posse dessa essência adequadamente. A isso chamamos olhar para dentro de si mesmo, a isso denominamos visão da essência (ken-sei, ken-sho). Se isso ocorrer, alcançamos o satori. É o grande despertar do sonho, das ilusões e dos enganos. Despertar, vislumbrar a nossa natureza intrínseca, perceber a própria verdade, é a mesma coisa." Ito Tenzen Chuya "

Agradeço a Takeharu Teramoto, meu professor de Zen, por um texto de inesgotável profundidade, "A História da Arte Maravilhosa de um Gato", que transmite uma visão única e vívida da dialética das cinco etapas. Takeharu Teramoto foi almirante e antigo professor da Academia de Marinha de Tóquio. Sua prática (gyo) era a esgrima. Essa história lhe foi transmitida por seu mestre, o último de uma escola de esgrima na qual a história dos cinco gatos havia sido secretamente transmitida desde o século XVII."

KARLFRIED GRAF DÜRCKHEIM

Do livro: O Zen e Nós. Editora Pensamento.