O livro dos segredos

domingo, 10 de janeiro de 2010

Alguns pontos, introduções. Primeiro, o mundo do Vigyan Bhairav Tantra não é intelectual, não é filosófico. A doutrina não tem sentido nele. ocupa-se do método, da técnica; não de nenhum princípio. A palavra «tantra» significa técnica, o método, o caminho. De modo que não é filosófico; observa isto. Não se ocupa de problemas e indagações intelectuais. Não se ocupa do «porquê» das coisas, ocupa-se do «como»; não do que é a verdade, mas sim de como se pode alcançar a verdade.

Tantra significa técnica. De modo que este tratado é científico. A ciência não se ocupa do porquê, a ciência se ocupa do como. Essa é a diferença básica entre a filosofia e a ciência. A filosofia pergunta: « por que esta existência?» A ciência pergunta: « Como esta existência?» Assim que faz a pergunta « Como?», o método, a técnica, voltam-se importantes. As teorias perdem seu sentido; a experiência se converte no central.

O tantra é ciência, o tantra não é filosofia. Compreender a filosofia é fácil, porque só se requer seu intelecto. Se pode compreender a linguagem, se pode compreender o conceito, pode compreender a filosofia. Não precisa trocar; não requer nenhuma transformação. Tal como é, pode compreender a filosofia; mas não o tantra.

Necessitará uma mudança..., mas bem uma mutação. A não ser que você seja diferente, o tantra não se pode compreender, porque o tantra não é uma proposta intelectual, é uma experiência. A não ser que esteja receptivo, disponível, vulnerável à experiência, não vai vir a ti.

A filosofia se ocupa da mente. Sua cabeça é suficiente; não se requer sua totalidade. O tantra te necessita em sua totalidade. É um desafio mais profundo. Terá que estar nele integralmente. Não é fragmentário. requer-se uma aproximação diferente, uma atitude diferente, uma disposição diferente para recebê-lo. Por isso, Devi faz perguntas aparentemente filosóficas. O tantra começa com as perguntas do Devi. Todas as perguntas podem ser abordadas filosoficamente.

Em realidade, qualquer pergunta pode ser abordada de duas maneiras:

filosoficamente ou totalmente, intelectualmente ou existencialmente.

Por exemplo, se alguém perguntar: «O que é o amor?», pode-o abordar intelectualmente, pode debater, pode propor teorias, pode argumentar a favor de uma hipótese determinada. Pode criar
um sistema, uma doutrina: e pode que não tenha conhecido absolutamente o amor.

Para criar uma doutrina, a experiência não é necessária. Em realidade, pelo contrário, quanto menos saiba, melhor, porque então pode propor um sistema sem vacilar. Só um cego pode definir facilmente o que é a luz. Quando não sabe, é atrevido.

A ignorância sempre é atrevida; o conhecimento duvida. E quanto mais sabe, mais sente
que se dissolve o chão sob seus pés, quanto mais sabe, mais adverte quão ignorante é. E os que são realmente sábios se voltam ignorantes, voltam-se tão básicos como os meninos, ou tão simples como os idiotas.

Quanto menos saiba, melhor. Ser filosófico, ser dogmático, ser doutrinário: isso é fácil. Abordar um problema intelectualmente é muito fácil. Mas abordar um problema existencialmente - não só pensar nele, mas também vivê-lo, experimentá-lo, permitir que te transforme, é difícil. Ou seja, para conhecer o amor um terá que estar possuído pelo amor. Isso é perigoso, porque não seguirá sendo o mesmo. A experiência te vai trocar.

Assim que entra no amor, entra em uma pessoa diferente. E quando sair não poderá reconhecer seu velho rosto; não te pertencerá. Agora há uma fissura, o homem de antes morreu e chegou o homem novo. Isso é o que se conhece como renascimento: ter nascido duas vezes.

O tantra é existencial, não filosófico. De modo que, é obvio, Devi faz perguntas que parecem filosóficas, mas Shiva não as vai responder dessa maneira. Assim é melhor compreendê-lo ao princípio; do contrário se sentirá perplexo, porque Shiva não vai responder a uma só pergunta.

Todas as perguntas que faz Devi, Shiva não as vai responder absolutamente. E, entretanto, responde-as! E na verdade, só ele as respondeu e ninguém mais; mas em um plano diferente.

Devi pergunta: « Qual é sua realidade, meu senhor?» Ele não vai responder. Em troca, dará uma técnica. E se Devi experimentar esta técnica, saberá. De modo que a resposta é indireta; não é direta. Não vai responder « Quem sou?», mas sim dará uma técnica: ponha em prática e saberá.

Para o tantra, fazer é saber, e não há outro saber. A não ser que faça algo, a não ser que troque, a não ser que tenha uma perspectiva diferente a que olhar, com a que olhar, a não ser que entre em uma dimensão totalmente diferente ao intelecto, não há resposta. podem-se dar respostas: todas são mentira. Todas as filosofias são mentira.

Faz uma pergunta e a filosofia te dá uma resposta. Satisfaz-te ou não te satisfaz. Se te satisfizer, converte a essa filosofia, mas segue sendo o mesmo. Se não te satisfizer, segue procurando alguma outra filosofia a que te aderir. Mas segue sendo o mesmo; não te afetou absolutamente, não te trocou.

Assim dá no mesmo que seja hindu ou maometano ou cristão ou jaina. A pessoa real detrás da fachada de hindu ou maometano ou cristão é a mesma. Só são distintas as palavras, ou a roupa. O homem que vai à igreja ou ao templo ou à mesquita é o mesmo.

Só troca o rosto, e se trata de rostos falsos, máscaras. detrás das máscaras encontrará ao mesmo homem -a mesma ira, a mesma agressividade, a mesma violência, a mesma avareza, a mesma luxúria-; tudo é o mesmo. É a sexualidade maometana diferente à sexualidade hindu? É a violência cristã diferente à violência hindu? É a mesma! A realidade segue sendo a mesma; só troca a roupa.

O tantra não se ocupa da roupa; o tantra se ocupa de ti. Se fizer uma pergunta, sua pergunta mostra onde está. Mostra também que, em qualquer lugar que esteja, não pode ver; por isso surge a pergunta. Um cego pergunta: « O que é a luz?», e a filosofia começa a responder o que é a luz. O tantra só saberá isto: se um homem perguntar « O que é a luz?», pergunta-a mostra tão somente que está cego. O tantra começará a operar o homem, a trocar ao homem, para que possa ver. O tantra não dirá o que é a luz. O tantra te dirá como alcançar a compreensão, como chegar a ver, como obter a visão.

Quando houver visão, haverá uma resposta. O tantra não te dá a resposta; o tantra te dá
a técnica para obter a resposta.

Agora bem, esta resposta não vai ser intelectual. Se lhe disser algo sobre a luz a um cego, isto é intelectual. Se o cego mesmo se voltar capaz de ver, isto é existencial. A isto refiro quando digo que o tantra é existencial. De modo que Shiva não vai responder às perguntas do Devi; entretanto, responderá. Isto é o primeiro.

O segundo: este é um tipo diferente de linguagem. Deve saber algo sobre ele antes de abordá-lo. Todos os tratados de tantra são diálogos entre a Shiva e Devi. Devi pergunta e Shiva responde. Todos os tratados de tantra começam dessa maneira. Por que? Por que este método? É muito significativo. Não é um diálogo entre um professor e um discípulo, a não ser entre dois amantes.

E com isso, o tantra dá a entender algo muito significativo: que os ensinos mais profundos não podem dar-se a menos que exista o amor entre os dois: o discípulo e o professor. O discípulo e o professor devem estar profundamente apaixonados. Só então se pode expressar o mais elevado, o mais à frente.

De modo que é uma linguagem de amor; o discípulo deve estar em uma atitude de amor. Mas não só isto, porque os amigos podem ser amantes. O tantra diz que um discípulo deve atuar de forma receptiva, adotar uma receptividade feminina; só então é possível algo. Não precisa ser uma mulher para ser um discípulo, mas sim ter uma atitude feminina de receptividade. Quando Devi pergunta, isto significa que pergunta a atitude feminina. por que esta ênfase na atitude feminina?

O homem e a mulher não só são diferentes fisicamente; são diferentes psicologicamente. O sexo não é só uma diferença no corpo; é também uma diferença de psicologias. Uma mente feminina significa receptividade: receptividade total, entrega, amor. Um discípulo necessita uma psicologia feminina; do contrário não poderá aprender. Pode perguntar, mas se não estar aberto, não poderá ser respondido. Pode fazer uma pergunta e mesmo assim seguir fechado. Então a resposta não pode penetrar em ti. Suas portas estão fechadas; está morto. Não está aberto.
Uma receptividade feminina significa uma receptividade como a do útero na profundidade interna, de modo que possa ser receptivo. E não só isso: significa muito mais. Uma mulher não só está recebendo algo; assim que o recebe se converte em parte de seu corpo. recebe-se um menino. Uma mulher concebe; no momento em que se produz a concepção, o menino se converteu em parte do corpo feminino. Não é um estranho, não é um forasteiro. Foi absorvido.

Agora o menino não viverá como um pouco acrescentado à mãe, a não ser simplesmente como uma parte, simplesmente como a mãe. E o menino não só é recebido; o corpo feminino se volta criativo, o menino começa a crescer.

Um discípulo necessita uma receptividade como a do útero. O que se receba não deve ser acumulado como conhecimento morto. Deve crescer em ti; deve converter-se em sangue e ossos dentro de ti. Deve converter-se em uma parte, agora. Deve crescer!

Este crescimento te trocará, transformará a ti, o receptor. Por isso o tantra usa este sistema. Todos os tratados começam com o Devi fazendo uma pergunta e Shiva respondendo. Devi é a consorte da Shiva, sua parte feminina.

Uma coisa mais... Agora a psicologia moderna, especialmente o psicanálise, diz que o homem é homem e mulher. Ninguém é só varão e ninguém é só fêmea; todo mundo é bissexual. Os dois sexos estão pressentem. Esta é uma investigação muito recente no Ocidente, mas para o tantra este foi um dos conceitos mais básicos há milhares de anos. Deve ter visto imagens da Shiva como ardhanarishwar: metade homem, metade mulher. Não há outro conceito como este em toda a história humana.

Shiva é representado como metade homem, metade mulher.

De modo que Devi não é só uma consorte; é a outra metade da Shiva. E a não ser que um discípulo se converta na outra metade do professor, é impossível transmitir o ensino mais alta, os métodos esotéricos. Quando te faz um, não há dúvida. Quando é um com o professor - tão totalmente um, tão profundamente um -, não há debate, não há lógica, não há razão. A gente simplesmente absorve;

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