Hora Imensa

sábado, 22 de maio de 2010

Nossa conversação foi interrompida, e não voltei a vê-lo até que me mandou chamar para vir ao pátio dos fundos, algumas horas mais tarde.

Dom Juan e Genaro caminhavam na extremidade mais distante do corredor. Podia vê-los gesticulando no que parecia ser uma conversação animada.

Era um dia claro e ensolarado. O sol da tarde brilhava diretamente sobre alguns dos vasos de flores que pendiam das traves do teto ao longo do corredor e projetavam suas sombras nas paredes norte e leste do pátio. A combinação de intensa luz amarela do sol, maciças sombras negras dos vasos e sombras delicadas e adoráveis das frágeis plantas floridas que neles cresciam era estonteante. Alguém com olho aguçado para o equilíbrio e a ordem havia disposto aquelas plantas para criar um efeito extraordinário.

- A mulher nagual fez isso – disse Dom Juan, como se lesse meus pensamentos. – Ela olha para essas sombras durante as tardes.

A idéia dela olhando para as sombras durante as tardes teve um efeito rápido e devastador sobre mim. A intensa luz amarela daquela hora, a quietude daquela cidade, a afeição que sentia pela mulher nagual colocaram-me bruscamente diante de toda a solidão do caminho infinito dos guerreiros.

Don Juan havia definido o objetivo daquele caminho quando me disse que os novos videntes são os guerreiros da liberdade total, que sua única busca é a liberação última, que chega ao atingir a consciência total. Compreendi com clareza absoluta, enquanto olhava para aquelas sombras fantasmagóricas sobre a parede, o que a mulher nagual queria dizer quando afirmava que ler poemas em voz alta era o único repouso que seu espírito tinha.

Lembrei-me que no dia anterior ela lera algo para mim ali no pátio, mas eu não havia compreendido realmente a sua urgência sua ansiedade. Era um poema de Juan Ramon Jimenez, “Hora Inmensa”, que ela disse sintetizar a solidão dos guerreiros que vivem para fugir para a liberdade total.

Somente um sino e um pássaro quebram a quietude....

Parece que os dois conversam com o sol poente.

Silêncio colorido de ouro, a tarde é feita de cristais.

Uma pureza errante agita as árvores frescas, e além de tudo isso

Um rio transparente sonha que correndo sobre pérolas se liberta e flui par o infinito.

Don Juan e Genaro vieram para o meu lado e olharam-me com uma expressão de surpresa.

- O que estamos realmente fazendo, Dom Juan? – perguntei. – É possível que os guerreiros estejam apenas se preparando para a morte?

- De maneira alguma – respondeu, batendo suavemente em meu ombro. – Os guerreiros preparam-se para serem conscientes, e a consciência plena só chega quando não há mais vaidade neles. Apenas quando são nada tornam-se tudo.

Ficamos quietos por um momento. Então dom Juan perguntou-me se eu estava na agonia da autopiedade. Não respondi, porque não tinha certeza.

- Você não está arrependido de estar aqui está? - perguntou Dom Juan com um leve sorriso.

- É claro que não esta – assegurou Genaro. Depois pareceu ter um momento de duvida. Coçou a cabeça, olhou para mim e arqueou as sombrancelhas. – Talvez estela – disse. – Esta?

- É claro que não esta! – trovejou Genaro, e ambos explodiram em um riso incontrolável.

Quando se acalmaram, Dom Juan disse que a vaidade é a força motivadora de todos os ataques de melancolia. Acrescentou que os guerreiros podem ter profundos estados de tristeza, mas que a tristeza está presente apenas para fazê-los rir.

- Genaro tem algo para mostrar-lhe que é muito mais excitante que toda autopiedade que você puder juntar – continuou Dom Juan. – Tem a ver com a posição do ponto de aglutinação.

Um comentário:

Marcio Farah disse...

Prezado Fernando Augusto, está muito feliz a sua escolha deste texto dentre os muitos conteúdos de grande significação dos ensinamentos de Dom Juan, nos vários livros do Castaneda. Parabéns pela escolha! Vou indicar seu blog pra outras pessoas visitarem.