USP usa maconha para tratar fobia social

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Agradecimentos à Iôrrane pela dica da reportagem.


Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto realiza testes com componentes da planta que mostram redução da ansiedade nos pacientes.

por Andrezza Czech, da Revista Época

Uma das mais de 400 substâncias que compõem a maconha pode ajudar pacientes que sofrem de transtorno de ansiedade social. Segundo estudo feito pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), voluntários submetidos a testes com cápsulas de canabidiol apresentaram menos ansiedade do que aqueles que foram tratados com placebo.

“O transtorno conhecido como fobia social caracteriza-se pela ansiedade exagerada durante exposição a situações sociais, o que impõe limitações à vida da pessoa”, afirma o professor Antonio Zuardi, do departamento de neurociências e ciências do comportamento da faculdade da USP. “Esta ansiedade é manifestada fisicamente por meio de taquicardia, sudorese, aumento de pressão arterial, falta de ar e tremores.”

A pesquisa feita pelos departamentos da universidade se dividiu em dois trabalhos. O primeiro estudo submeteu a um exame dez estudantes universitários que sofrem de fobia social. Os voluntários tiveram suas atividades cerebrais monitoradas em uma espécie de tomografia por duas vezes: ao tomar uma cápsula placebo e outra com canabidiol. “O que se verificou por meio das imagens foi que quando eles tomavam o placebo o nível de ansiedade era maior”, diz Zuardi. Ao consumir o remédio, as áreas normalmente hiperativadas naqueles que sofrem de fobia social tiveram atividade reduzida.

O segundo estudo foi feito com três grupos de doze pessoas cada. Um com pacientes com fobia social que receberam placebo, outro com pacientes que tomaram a cápsula de canabidiol e um terceiro grupo com voluntários que não sofrem do transtorno. “Foi feito um teste que reproduz um sintoma muito comum na fobia social, o medo de falar em público. Durante o experimento, os voluntários receberam a orientação de preparar um discurso de 4 minutos em frente a uma câmera de vídeo”, afirma Zuardi. “O que se verificou é que os que tomaram placebo tiveram aumento de ansiedade, enquanto os voluntários que tinham fobia social e tomaram canabidiol tiveram nível de ansiedade semelhante àqueles que não sofrem do transtorno.”

Segundo Zuardi, o canabidiol está sendo estudado desde a década de 1970, mas ainda não se sabe exatamente como a ação da substância no sistema nervoso central está relacionada com seus efeitos terapêuticos. O professor ressalta que para compreender os efeitos da droga sobre os pacientes de fobia social seriam necessários testes de uso contínuo da substância. Este transtorno de ansiedade pode ser tratado com psicoterapia e remédios, mas, segundo Zuardi, se a hipótese da utilidade do canabidiol se confirmar, haverá vantagens. “Entre as drogas utilizadas atualmente no tratamento da doença as principais são os antidepressivos, que demoram de 15 dias a um mês pra começar a fazer efeito. Esse experimento mostrou resultados com uma única dose”, diz.

No Brasil, o uso desta substância também tem sido estudada com a finalidade de auxiliar pacientes do mal de Parkinson. Caso os efeitos sejam confirmados, o Brasil necessitaria de autorização para o uso medicinal da maconha. “Seria necessária uma agência reguladora. Não adianta ter uma lei que autoriza se não há como regulamentar esse uso”, diz Zuardi. O professor afirma que o Canadá e o Reino Unido são os únicos países com medicamento liberado com a substância, o remédio Sativex, usado para amenizar a dor de quem sofre de esclerose múltipla.

Após a prisão do baixista da banda de reggae Ponto de Equilíbrio, Pedro Caetano, acusado de tráfico de drogas por cultivar dez pés de maconha e oito mudas da planta em sua casa, um grupo de neurocientistas escreveu uma carta pública sobre o tema. No texto, afirmam que no congresso da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento (SBNeC), em setembro, será realizado “um painel de discussões a respeito da influência da maconha sobre a aprendizagem e memória e também sobre as políticas públicas para os usuários”.

3 comentários:

Fernando Augusto disse...

Carta sobre descriminalização da maconha divide neurocientistas
Documento defende discussão sobre descriminalização da droga.
Carta é assinada por membros da diretoria de entidade representativa.

Marília Juste Do G1, em São Paulo


Uma carta que pede a discussão da descriminalização do uso recreativo da maconha assinada por quatro neurocientistas brasileiros dividiu opiniões entre os pesquisadores da área. Dos quatro signatários, três são membros da diretoria da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento (SBNeC). Nesta quinta-feira (15), a entidade divulgou uma nota esclarecendo que o documento não é representativo de toda a SBNeC.

“A carta foi originalmente escrita por diretores, mas ela não fala em nome de toda a SBNeC”, afirmou o presidente da entidade, Marcus Vinícius Baldo, da Universidade de São Paulo, ao G1.


O documento, divulgado originalmente no jornal “Folha de S.Paulo” na quarta-feira (14), foi redigido como forma de protesto contra a prisão do músico carioca Pedro Caetano, acusado de tráfico de drogas, e assinado pelos cientistas Cecília Hedin-Pereira, João Menezes, Stevens Rehen e Sidarta Ribeiro. Os três primeiros são da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Ribeiro, do Instituto Internacional de Neurociências de Natal. Cecília Hedin-Pereira é vice-presidente da SBNeC, Ribeiro é secretário e Rehen é tesoureiro.

“Nosso objetivo com a carta é mostrar uma situação que a gente acha que tem que ser discutida. Não falamos em nome de ninguém além de nós mesmos” afirmou Stevens Rehen ao G1. “Não acreditamos que seja certo confundir usuários com traficantes e a sociedade precisa discutir isso”, diz ele.

No texto, Rehen e seus colegas afirmam que “em virtude dos avanços da ciência que descrevem os efeitos da maconha no corpo humano e o entendimento de que a política proibicionista é mais deletéria que o consumo da substância, vários países alteraram suas legislações no sentido de liberar o uso medicinal e recreativo da maconha. (...) A discussão ampla do tema é necessária e urgente para evitar a prisão daqueles usuários que, ao cultivarem a maconha para uso próprio, optam por não mais alimentar o poderio dos traficantes de drogas”.

As afirmações foram rebatidas por colegas de SBNeC. O neurocientista Jeferson Cavalcante, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), discorda da iniciativa. “Aos cientistas cabe apenas dar os fatos, não opinar sobre o que a sociedade deve fazer. Uma coisa é mostrar os efeitos da maconha no cérebro. Isso é o aspecto científico. Mas há um aspecto social e cultural envolvido nessa questão também”, acredita.

“Fiz trabalho social e vi com meus próprios olhos que a maioria dos jovens viciados em drogas começa com a maconha. A maconha é o primeiro passo. Eles cheiram cola porque não têm dinheiro para comprar maconha. Não se pode ignorar isso”, critica Cavalcante. "Se a sociedade civil quiser consultar os neurocientistas sobre o efeito da maconha no cérebro, daremos nosso parecer científico. Se vamos assinar algo enquanto neurocientistas devemos nos ater a isso”, afirma. "Todos temos direito a nossas opiniões pessoais sobre qualquer tema, mas não devemos misturar posição pessoal com profissional", diz ele.

Fernando Augusto disse...

Gilberto Fernando Xavier, da USP, afirma que “como qualquer medicamento, é preciso analisar se os benefícios superam os malefícios [da maconha]”. “Existem evidências fortes e substanciais para que se pense que a maconha possa ser usada para tratamento de algumas doenças. Para o uso recreativo ainda falta avaliar em extensão se algum benefício eventual pode compensar os malefícios de alteração de atenção e memória que sabemos que ela causa”, diz.

O presidente da SBNeC diz respeitar a opinião dos quatro signatários da carta, mas discorda da “dimensão que essa história tomou”. “A discussão extrapolou as balizas científicas e adquiriu uma cor ideológica que de forma alguma tem o apoio da SBNeC. Com isso eu não concordo”, afirma Marcus Vinícius Baldo.

Ele conta que após a divulgação do documento, recebeu desde mensagens de apoio até críticas dos três mil membros da SBNeC. “Como é um assunto polêmico, vi desde aplausos até vaias. Não há uma opinião oficial da SBNeC até existir uma discussão que envolva todos os membros”, afirma.

Íntegra da carta:

“A planta Cannabis sativa, popularmente conhecida como maconha, é utilizada de forma recreativa, religiosa e medicinal há séculos mas só há poucos anos a ciência começou a explicar seus mecanismos de ação. Na década de 1990, pesquisadores identificaram receptores capazes de responder ao tetrahidrocanabinol (THC), princípio ativo da maconha, na superfície das células do cérebro. Essa descoberta revelou que substâncias muito semelhantes existem naturalmente em nosso organismo, permitiu avaliar em detalhes seus efeitos terapêuticos e abriu perspectivas para o tratamento da obesidade, esclerose múltipla, doença de Parkinson, glaucoma, ansiedade, depressão, dor crônica, alcoolismo, epilepsia e dependência de nicotina, entre outras enfermidades. A importância dos canabinóides para a sobrevivência de células-tronco foi descrita recentemente pela equipe de um dos signatários, sugerindo sua utilização também em terapia celular.

Em virtude dos avanços da ciência que descrevem os efeitos da maconha no corpo humano e o entendimento de que a política proibicionista é mais deletéria que o consumo da substância, vários países alteraram suas legislações no sentido de liberar o uso medicinal e recreativo da
maconha. Ainda que sem realizar uma descriminalização franca do uso e do cultivo, o Brasil veta (através do artigo 28 da Lei 11.343 de 2006) a prisão pelo cultivo de maconha para consumo pessoal, e impõe apenas sanções de caráter socializante e educativo. Infelizmente
interpretações variadas sobre esta lei ainda existem. Um exemplo disto está no equívoco da prisão do músico Pedro Caetano, integrante da banda carioca Ponto de Equilíbrio. Pedro Caetano está há mais de uma semana numa cela comum acusado de tráfico de drogas. O enquadramento incorreto como traficante impede a obtenção de um habeas corpus para que o músico possa responder ao processo em liberdade.

A discussão ampla do tema é necessária e urgente para evitar a prisão daqueles usuários que, ao cultivarem a maconha para uso próprio, optam por não mais alimentar o poderio dos traficantes de drogas. Em seu próximo congresso, de 8-11 de setembro próximo, a Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento (SBNeC) irá contribuir para a discussão deste tema pouco conhecido da população brasileira. Um painel de discussões a respeito da influência da maconha sobre a aprendizagem e memória e também sobre as políticas públicas para os
usuários será realizado sob o ponto de vista da neurociência. É preciso rapidamente encontrar um novo ponto de equilíbrio.

Cecília Hedin-Pereira (UFRJ)
João Menezes (UFRJ)
Stevens Rehen (UFRJ)
Sidarta Ribeiro (UFRN)"

beijamim disse...

Muito gente usa há muitos anos, pais de família e mães, não deixando de cumprir suas obrigações sociais, educar os filhos, pagar suas contas, etc.
Esse pessoal não passou para outras drogas, não ficou com a consciência diminuída, ao contrário, são pessoas menos estressadas que as demais.
O exagero no uso de qualquer planta psicoativa nunca pode ser bom, aliás, o exagero não é bom em esfera alguma.A planta também serve de "passagem" para outras drogas somente porque foi colocada dentro da esfera do tráfico. Se for liberada e vendida em farmácias, por exemplo, essa questão de ser passagem se esgota, pois seu efeito não tem nada a ver com drogas de bomba química. A gente não deve se esquecer que maconha não se mistura com nada, é natural mesmo.
Outra coisa: sociedade hipócrita! Cachaça tá liberada pra quem quiser se embriagar, ficar muito revoltado e estourar de pancada a mulher e os filhos. Quantas famílias não se destroem com essa droga lícita, a cachaça? A turma quer discutir o quê, então? Bando de medrosos.