A dádiva e a dívida

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O PERDÃO COMO DISPOSITIVO PSICOLÓGICO

Marcelo Bolshaw Gomes1


O presente ensaio tem por objetivo entender a noção de Perdão no cristianismo, utilizando-se das noções de 'Dádiva 'e de 'Dívida'. Primeiro, a partir do famoso Ensaio de Marcel Mauss, e de algumas suas releituras, revisa-se a noção da Dádiva. Também discute-se a noção de Dívida, investiga-se, a partir da perspectiva de Nietzsche e pensadores afins, o sentido da culpa e do pecado na ideologia cristã como uma forma manipulação da dádiva. E em um segundo momento, o texto pensa a noção de pecado a partir dos evangelho e dos textos recebidos por Eva Pierrakos. Conclue-se apresentando um novo significado para o termo 'Perdão': a superação da perda pelo excesso.

1) Generosa gênesis

“É dando que se recebe” – já dizia São Francisco. Hoje, no entanto, a máxima franciscana tornou-se slogan da prostituição e do clientelismo politico. Como as idéias de generosidade espiritual e de altruísmo desinteressado foram substituídas pela insinuação de extorsão e chantagem?

Até hoje nos falta, em minha petulante opinião, uma compreensão adequada de O Ensaio sobre a Dádiva (1974), de Marcel Mauss, um marco no desenvolvimento da sociologia da religião e da antropologia. Mauss coloca a noção de Dádiva no centro de uma 'aliança' arcaica universal – em oposição aos pensadores que fundamentam as relações sociais na exploração e na violência (Platão, Maquiavel, Marx). Porém ao contrário do contrato social de Rousseau, não se trata de acordos entre indivíduos racionais mas de regras da organização de uma aliança coletiva entre o grupo e a Divindade e/ou entre grupos vizinhos. A vida, nessa perspectiva, seria, verticalmente, um presente dos deuses; a cultura (ou o consenso da ordem social), a retribuição deste presente e a celebração desta aliança através de sacrifícios e da religião. E, horizontalmente, a Dádiva fundamentaria ainda às trocas entre os homens. A Dádiva seria um 'fato social total', o fundamento religioso das trocas sociais (econômicas, políticas e culturais).

O argumento central do Ensaio é de que a dádiva produz um laço social, não só no sentido de troca de mercadorias e de bens de consumo, mas sobretudo em alianças matrimoniais, políticas (trocas entre chefes ou diferentes camadas sociais), jurídicas e diplomáticas (incluindo-se aqui as relações pessoais de hospitalidade).

Ao receber alguém estou me fazendo anfitrião, mas também crio a possibilidade de vir a ser hóspede deste que hoje é meu hóspede. A mesma troca que me faz anfitrião, faz-me também um hóspede potencial. Isto ocorre porque “dar e receber” implica não só uma troca material mas também uma troca espiritual, uma comunicação entre almas. Ao dar, dou sempre algo de mim mesmo. Ao aceitar, o recebedor aceita algo do doador. A Dádiva é, por definição, gratuita; para funcionar como vínculo, não é objeto de negociação nem pode ser explicitamente pressuposta uma restituição; mas, ao mesmo tempo, ela gera uma dívida subjetiva, um desejo de retribuição.

Mauss teorizou a Dádiva nas sociedades primitivas como a conjugação de três obrigações socialmente instituídas: obrigação de dar; obrigação de receber; obrigação de retribuir. Para ele, dar e receber são obrigações universais, mas a obrigação de retribuir varia bastante de acordo com a época e o local. Aliás, essa parece ser a diferença entre as 'sociedades primitivas' e a nossa, em que a principal forma de retribuição é monetária. O objeto do Ensaio, assim, não é a economia primitiva, mas a circulação de valores como um momento do estabelecimento do contrato social.

Para Mauss, o mercado capitalista “enfraqueceu” a Dádiva (1974, 132), tornando-a compulsória através da mercadoria, mas as trocas podem ser re-encantadas e re-significadas culturalmente através da generosidade espiritual de todos com todos. As trocas não são apenas objetivas mas também intersubjetivas e é preciso valorizar sua dimensão transpessoal. A Dádiva nas sociedades atuais, está “embutida na relação de compra e venda” e não anexa ou desconexa desta. Se, em determinados contextos, há conflito entre as lógicas da Dádiva e da Mercadoria, em outros pode haver complementaridade. Essas lógicas não se excluem porque “as coisas vendidas tem uma alma” (Mauss, 1974, p. 164). Não se trata de uma visão nostálgica ou que veja na dádiva uma explicação para sociedades anteriores ao capitalismo. A dádiva é uma opção pessoal e uma atitude de agradecimento diante da vida.

E mais: a Dádiva explica o passado, dá sentido ao presente e projeta o futuro. Mauss acredita que, através da intensificação das trocas e do espírito de generosidade, a Dádiva nos levará a uma sociedade melhor no futuro, uma vez que o aumento da reciprocidade generalizada corresponderá à diminuição dos conflitos, que o comércio vencerá a guerra.

Hoje, vemos que o Ensaio tem problemas incontornáveis. Primeiro a definição de Dádiva é muito abrangente. Ele inclui não só presentes como também visitas, festas, comunhões, esmolas, heranças, até mesmo os tributos como uma forma de dádiva. Outro problema, conexo com essa abrangência desmedida, é que, devido ao seu caráter descontínuo, assistemático e com referência culturais múltiplas (os nativos da polinésia, os índios norte-amercianos, o império romano), várias leituras bem diferentes podem ser feitas do Ensaio sobre a Dádiva. Por exemplo: Pierre Clastres (1978) usa para definir a sociedade sem estado; Marcos Lanna (1995), para estudar as relações de clientelismo político e apadrinhamento no nordeste brasileiro.

2) O espírito da coisa

Entre as importantes e polêmicas interpretações do Ensaio da Dádiva, está a leitura do antropólogo Claude Lévi-Strauss (1949), que faz dessa noção o fundamento das estruturas elementares do parentesco (entendido como princípio da reciprocidade), dissociando-a da trocas de bens (e das regras da economia) e da troca de mensagens (e das regras linguísticas). É famosa a censura crítica de Lévi-Strauss, no prefácio das edições recentes do Ensaio, sobre o fato de Mauss adotar a noção de mana (energia, axé) específica dos nativos da costa noroeste americana em sua teoria antropológica, misturando o particular com o universal e, principalmente, sucumbindo ao misticismo.

O sociólogo Pierre Bourdieu (2009), por sua vez, no clássico A Economia das Trocas Simbólicas, critica o objetivismo estruturalista de Lévi-Strauss porque ao transformar a dádiva numa simples troca, ignora a importância da representação subjetiva da liberdade da restituição. Em cada processo de dádiva a retribuição é incerta. E é essa incerteza, o carácter não contratual nem coercivo da restituição, que cria o vínculo pessoal e superioriza aquele que dá (o investe de capital simbólico) consoante os recursos de que dispõe e a adequação estratégica das suas jogadas.

Porém, a concepção de Bourdieu - a dádiva como jogo estratégico de conquista e manutenção do poder simbólico - ainda não contempla os valores de amizade, o desinteresse, a gratidão, o reconhecimento mútuo e a confiança implicados no processo de dádiva e retribuição. Esses fatores subjetivos, afetivos, são as bases indispensáveis da Dádiva como vínculo social primário e solidariedade social generalizada, tal qual foi pensado por Marcel Mauss.

Faltou tanto a Lévi-Strauss quanto a Bourdieu a noção de 'áurea', desenvolvida por Walter Benjamim, sobre as mudanças que a reprodutividade técnica dos objetos propiciou na percepção humana da realidade, principalmente na dessacralização da obra de arte. Para ele, no entanto, a industrialização generalizada (ou a produção de objetos iguais em série) destituía as coisas de sua alma, enquanto para Mauss, esta carga afetiva continua embutida nas mercadorias.

Dos autores não-esotéricos quem melhor entendeu o espírito da coisa - que as coisas permutadas guardam e transportam energia psíquica, que as trocas são eróticas além de econômicas, que a Dádiva é um complexo de significações sagradas e políticas - foi o filósofo francês Georges Bataille.

Em seus primeiros trabalhos, principalmente no livro A parte maldita (1949/1975) Bataille desenvolve uma 'economia genérica' em que o consumo precede a produção e, de modo geral, a destruição precede a construção. Há uma inversão do modo tradicional de compreensão da troca utilitária. Essa forma não-utilitária de pensar as trocas é caudatária do Ensaio, mas Bataille coloca a noção da despesa (e não de dádiva) como o motor da economia nas sociedades arcaicas e pré-capitalistas. Para ele, há uma pressão permanente provinda de um excesso que perturba os organismos vivos, havendo então a exigência do desperdício, do gasto ou da descarga. A energia excedente constituir-se-á em uma "parte maldita", já que não é usada para o crescimento ou para a conservação dos sistemas. Trata-se de uma maldição pelo fato de o dispêndio ser exigência da própria sobrevivência do sistema.

Outra forma de colocar a mesma questão (GOMES, 2006) é dizer que um grupo é mais e menos que a soma dos esforços dos seus componentes. O trabalho coletivo é mais que a soma dos trabalhos individuais gerando um excedente (o resto que sobra do todo menos as partes ou o Capital). Porém, o grupo também é menos que a soma das suas partes e recalca as qualidades de seus componentes. A esse déficit (o inibido das partes através do todo) chama-se Inconsciente. A disputa política pelo excedente simbólico do grupo e o recalque da energia psíquica é que torna nosso vínculo social tão violento. Nossas perdas e nossos excessos são as causas de nossos conflitos. Dito assim parece simples. Bastaria (para viver em uma paz dinâmica) reinvestir o excedente do todo para compensar o inibido das partes?

Mauss é um pensador otimista: a noção de Dádiva realiza esse reinvestimento do (excedente) social no (reprimido) psíquico. Já Bataille é abertamente trágico: a noção de despesa/perda (a expropriação social do excedente biológico) produz apenas luxo (status quo) ou a dilapidação. Mauss remitifica uma solução metateológica para sociologia da religião; Bataille, nietzschiano, desmitifica o problema de sociabilidade humana a partir do consumo e do desejo de destruição. E em seus derradeiros trabalhos, Bataille também usará essa noção de despesa/perda de energia em seus estudos sobre o erotismo e o sagrado.

3) A moratória ilimitada

A diferença entre as duas abordagens reside mesmo na contrapartida da espiritualidade da Dádiva: a religiosidade de Dívida.

Para o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1985) e para os pensadores que desenvolveram suas ideias, o cristianismo é “uma doutrina de escravos”, concebida pela plebe durante a decadência do Império Romano para dominar as elites através da culpa e reprimir seus instintos. Para ele, o cristianismo é uma forma senil de domesticação da vontade de poder.

Nietzsche deixa claro que não se trata dos ensinamentos de Jesus de Nazaré, uma doutrina de amor incondicional, mas de sua platonização em uma doutrina transcendente e abstrata primeiro por São Paulo e depois pelos sucessivos concílios da igreja católica. Em minha opinião, no entanto, o filósofo alemão em sua crítica devastadora poupa o verdadeiro responsável pela helenização do cristianismo, que foi Santo Agostinho. Para ele, devido ao pecado original de Eva, todo homem já nascia na condição de devedor, precisando ser batizado para ser salvo e permanecer devedor de sua salvação. A ideia de amor-dádiva, universal e sublimado (originária de Platão e de São Paulo) em oposição ao amor-necessidade (ao afeto natural e ao sexo) será propositalmente estruturada de forma a desenvolver a repressão dos instintos e das emoções primárias.

Michel Foucault, na História da Sexualidade (1988, 1984 e 1985) vai indiretamente tomar essa trajetória do domesticação do desejo através da Dívida na ótica nietzschiana, sem no entanto crucificar o cristianismo. Para ele, a culpa cristã é apenas “um modo de sujeição”, um estágio histórico de desenvolvimento de um mecanismo de controle social.

Desenvolvendo essa ideia, o também filósofo nietzschiano Gilles Deleuze, no famoso texto 'Post-scriptum sobre as sociedades de controle' (1985, 219-226), proclama o regime de moratória ilimitada mais do que levar a culpa (e o ressentimento) dos indivíduos contemporâneos a um estatuto de responsabilidade social, vai estabelecer um novo tipo de funcionamento do poder, ainda mais introjetado e subliminar que a disciplina: o controle contínuo a partir de um sistema numérico de cifras e senhas. Trata-se do fim das instituições disciplinares de confinamento estudadas por Foucault e o aparecimento de novos dispositivos de controle 'em redes a céu aberto'.

Não há uma ruptura radical entre a Dádiva e a Dívida – vistos como universais e categorias analíticas aplicáveis a diferentes sistemas de crença. E eles são opostos reversíveis: Mauss levava em conta o endividamento nas sociedades arcaicas e a culpa cristã pressupõe a Dádiva do Cristo, que “morreu por nossos pecados” - como denunciam Nietzsche e os nietzschianos. O que há na verdade é o crescimento histórico da religiosidade da Dívida em relação à espiritualidade da Dádiva. No Hinduísmo, por exemplo, em que a concepção de tempo é ciclico e não histórico, há uma alegoria que explica bem essa oposição complementar: o homem é um arqueiro que só possui três fechas. A primeira já foi lançada, é o seu passado. A segunda está guardada e é seu futuro. A terceira está no arco e dependendo para onde for lançada decido o destino do arqueiro: se a lançar na mesma direção do passado, o homem terá dois terços de suas ações contra si e terá um destino recorrente – estará na Dívida (ou Karma); porém, se for lançada em uma nova direção, haverá possibilidade de um destino novo, isto é, em harmonia com o Tempo e a Roda da Vida que o governa, e portanto estará na Dádiva (ou Dharma).

Dharma e Karma, Dádiva e Dívida, presente-futuro e presente-passado são assim faces da mesma moeda, pois toda generosidade implica em algum tipo retribuição – embora sempre se afirme o contrário. Mauss disse que a Dádiva é universal e as formas de retribuição são relativas no tempo-espaço. Para redimensionar a presença desses dois aspectos polares (o dever de dar e o dever de retribuir) no cristianismo e entender o sentido original da noção de Perdão, vamos agora proceder uma breve análise de alguns trechos dos evangelhos, buscando entender a evolução do significado de 'Pecado' e qual realmente seu papel na hermenêutica cristã.

(Continua)

1 Jornalista, professor de comunicação, doutor em ciências sociais.

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