A Canção de Arjuna

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

"Pois vontade pura, desembaraçada de propósito, livre da ânsia de resultado, é toda via perfeita" - A.C.

Fala Arjuna:

1 - Enalteceste, Senhor, a abstenção dos atos, e recomendaste, não obstante, a atividade. Dize-me agora, em definitivo, qual é o caminho melhor para atingir a meta mais alta.

Fala Krishna:

2 - Bom é agir e bom é abster-se da atividade; tanto isto como aquilo conduz à meta supre­ma. Mas, para o principiante, melhor é agir corretamente.

3 - O verdadeiro renunciante é somente aquele que nada deseja e nada recusa, inatingido pelos opostos, tanto no seu agir como no seu desistir, não afetado nem por esperança nem por medo.

4 - Os ignorantes tecem teorias sobre o agir e o saber, como se se tratasse de duas coisas diferentes; mas os sábios estão convencidos de que quem faz isto não deixa de colher os frutos daquilo.

5 - O reino da quietude que os sábios conquistam pela meditação é também conquistado pelos que praticam ações; sábio é aquele que compreende que essas duas coisas - a intuição mística e a ação prática - são uma só em sua essência.

6 - Difícil tarefa é, herói, alcançar estado de renúncia sem ação e sem que o espírito da fé penetre o coração. O sábio que, pela força da verdade, renuncia a si mesmo integra-se em Brahman.

7 - Esse é puro de coração, forte no bem e senhor de todos os seus sentidos; a sua vida está a serviço da vida de todos, e ele realiza todas as ações sem ser escravizado por nenhuma delas.

8 - Porquanto reconhece que não é ele que age, quando vê, ouve e sente.

9 - Pois, quando vê ou ouve, cheira ou come, dorme ou respira, quando abre ou fecha os olhos, quando dá ou recebe ou exerce outro ato sensório qualquer - não são senão os seus sentidos que operam com esses objetos externos.

10 - Quem tudo faz sem apego ao resultado dos seus atos faz tudo no espírito de Deus, e, como a flor de lótus, incontaminada pelo lago em que vive, permanece isento do mal.

11 - Com todas as forças do espírito, da mente, do coração e do corpo luta o yogui pela purificação de sua alma, sem nada buscar para si mesmo em tudo que faz.

12 - Quem a tudo renuncia, jubiloso, alcança, agora, a mais alta paz do espirito; mas quem espera vantagem das suas obras e escravi­zado por seus desejos.

13 - O sábio que, em corpo terrestre, se libertou do egoísmo, habita, mesmo quando age, no céu da sua paz, na "cidade dos nove por­tais"; não tem desejos, nem induz outros a terem desejos.

14 - O Senhor do Universo não cria ação nem o impulso de agir nem o desejo dos frutos da atividade - tudo isto nasce da natureza fini­ta do indivíduo.

15 O Senhor do Universo não toma sobre si as culpas dos homens, porque está acima de todas as ações, perfeito em si mesmo. Erram os homens por sua própria ignorância, por­que a luz da verdade está envolta nas trevas da ilusão.

16 - Mas, quando as trevas cedem à luz, amanhe­ce o dia, e, assim como o sol em pleno esplen­dor, revela-se o Ser Supremo.

17 - Quem se integra no Ser Supremo e nele re­pousa está livre da incerteza e trilha caminho luminoso, do qual não há retorno, porque a luz da verdade o libertou do mal.

18 - Quem vive na luz da verdade vê Deus em to­dos os seres - no brâmane e no cão, no elefante e na vaca, e até no desprezado pária.

19 - Os que estão firmes na luz da verdade venceram o mundo, já aqui na terra, pela fé na harmonia universal; porquanto Brahman transcende todas as condições da dualidade, habitando na suprema unidade - quem o conhece repousa em Brahman.

20 - Quem vive firmemente consolidado na cons­ciência de Brahman não sucumbe à alegria, na prosperidade, nem à frustração, na adversidade - mas remonta à claridade sem nu­vens e se integra na Divindade.

21 - Quem preserva a sua alma livre de todas as coisas que vêm de fora realiza o seu verdadeiro Eu, atinge a paz verdadeira, a beatitude do seu verdadeiro ser.

22 - As alegrias que brotam do mundo dos senti­dos encerram germes de futuras tristezas; vêm e vão; por isto, o príncipe, não é nelas que o sábio busca a sua felicidade.

23 - Feliz é aquele que, durante a vida terrestre, consegue libertar-se dos impulsos que geram paixão e ódio, estabelecendo-se firmemente no espírito da união com Deus.

24 - É ele, na verdade, um santo, que encontra o céu dentro de si mesmo; a sua vida e uma com Brahman e abre-se-lhe a porta do nirvana.

25 - É assim que os rishis, livres de incertezas e senhores de si mesmos, já aqui na ter­ra, entram no nirvana da Divindade, vivendo a vida de todos os seres.

26 - Todos os que, libertos de ódio e paixões, fortes na humildade e iluminados pela fé, superaram o seu ego humano e realizaram em si o Eu divino, todos eles se aproximam da verdadeira paz em Deus.

27 - O yogui que habita na luz, que se abstém do contato com o mundo dos sentidos, cujo olho espiritual se abriu e cuja respiração espiritual se sintonizou com a respiração corporal.

28 - Ele que, repleto da virtude de Deus, governa o coração e a mente, e, sem egoísmo, anseia pela redenção - esse se libertou de si mesmo e vive na paz eterna, aqui e por toda a parte.

29 - Ele sabe que eu sou a Essência em todas as Existências; eu, o Imanifesto em todos os Manifestos; eu, a suprema e imutável Realidade em todos os mundos em incessante mutação; eu, refúgio e proteção de todas as criaturas. Quem isto sabe encontrou a paz.

Bhagavad Gita - Download AQUI

3 comentários:

Simone Bichara disse...

Nossa! Que espaço maravilhoso de cura e paz.
Obrigada por nos oferecer tamanho regozijo!
Quando puder, dê uma passadinha por cá...
mandalasdafloresta.blogspot.com

Namastê,
Simone Bichara

Rosane disse...

Grandes ensinamentos descritos de forma poética.
Lindo!!
Paz profunda
Sinto muito,me perdoa,te amo,sou grata.
Rosane Peon

Martyn disse...

Peter Brook's Mahabharata - Diálogo entre Khrisna e Arjuna

http://youtu.be/CSOCI0rwav8