O uso coletivo da Hayahuaska em rituais de Santo Daime

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

“Vou dizendo e vão aprendendo, façam esforço de pegar: desocupar o aparelho para poder se trabalhar”.

Essa frase está inserida num hino recebido mediunicamente há cerca de 50 anos, e creio resumir aspectos importantes da chamada doutrina do Santo Daime.

‘Aparelho’ aqui é designação dos corpos do homem – do físico aos mais sutis – que estando alinhados e equilibrados, funcionam em conjunto com a essência espiritual que cada um de nós possui para que a mesma possa manifestar-se de forma adequada na matéria, e assim obter aperfeiçoamento e força, ao mesmo tempo em que colabora com a manutenção das energias vivas do planeta.

Para os Daimistas, que consagram em seu ritual um chá enteógeno chamado Hayahuaska, – conhecida e consumida por indígenas sul-americanos há mais de 5000 anos – somos como aparelhos capazes de receber e emitir mensagens repletas de energia e significação, uns rádios muito sofisticados ou satélites de muitas antenas, com a diferença que estes conduzem e materializam imagens e sons, enquanto os aparelhos humanos são capazes de conduzir e produzir eventos, além de imagens e sons em diversas categorias.

Somos capazes de atrair a chuva ou o raio, somos capazes direcionar, manifestar ou impedir a manifestação de muitas coisas muito palpáveis neste plano, podemos ser aptos a curar e sermos curados, de ir até a lua sem tirar os pés do chão, porque temos extensões em nossos corpos para isso. Mas é preciso estar firmemente conectado às energias vivas e criativas, através da própria essência espiritual trabalhada, para realizar tais coisas.

O detalhe constrangedor é que este aparelho capaz de tantas maravilhas - seus dons naturais - costuma estar “ocupado” por energias hostis, que o impedem de perceber não apenas outras fatias da realidade, mas sua própria essência espiritual, influenciando decisões e sedimentando hábitos alheios à sua verdadeira natureza, obstruindo seu aprendizado e fruição da existência.

Essas “energias” podem ser diversas, desde formas-pensamento arraigadas a seres de outras dimensões espirituais, mas o que ocorre normalmente, o que verificamos e assim nos parece, é que geralmente são egos humanos desencarnados a se alojar e se alimentar das energias dos encarnados, no éter presente em tudo o que produzimos, sentimos e pensamos. Podem de fato existir seres mais sofisticados por detrás dessa ocorrência, chega a ser bem provável e lógico, uma vez que ela é apenas uma extensão, ao mesmo tempo reflexa e geradora, do vampirismo que se manifesta no plano físico. E embora inteligências extra-terrestres e outros seres inimagináveis também se manifestem nos trabalhos daimistas, o que observamos na maior parte dos casos são egos humanos adoentados, daqui mesmo e do astral inferior, quando se trata do quê ocupa ou obseda um ser humano.

Alguém pode me perguntar se as pessoas, que estão em sua maior parte sob o domínio do ego, não têm a possibilidade de se transformarem logo em um espírito mais lúcido depois que desencarnam, uma vez que estão “livres do peso da materialidade”. Aí eu digo que depende do que você considera ser um espírito. Para mim, espírito é essência, é o que somos de verdade e, quando o somos, é aqui ou em qualquer lugar. A morte não resolve as coisas como num passe de mágicas e o próprio plano astral é uma extensão da matéria, sendo apenas mais sutil. De forma que uma pessoa que viva desconectada da própria essência, após o desencarne costuma “penar” por muito tempo nas regiões baixas do astral até poder reencontrar a mesma. Ficam sem direção e continuam dependentes das mesmas necessidades que os possuíam quando eram encarnados, então passam a aprender a absorver as emanações etéricas dos “vivos”. Pouca gente pode dizer que fuma sozinho, bebe sozinho ou faz “amor” sozinho. E estes são somente alguns exemplos. A maior parte de nós costuma estar suficientemente acompanhada em quase tudo o que fazemos. Por isso não os chamo de espíritos, mas de egos desencarnados, embora eles sejam, cada qual, expressões de um espírito ou essência distinta, estando dela apartados nesta situação. Eu mesmo que agora escrevo sou consciente de ser um ego encarnado e estou chamando a essência aqui, que me dê uma clareza, para não sair por aí dizendo coisas desnecessárias.

De nada adianta culpar essas entidades por tudo o que temos de impróprio em nossas vidas. Na verdade, elas apenas se agregam a algo que já estava vibrando em nós. O problema é que, por esta influência, vão aumentando as brechas e desvios que já temos. De qualquer modo, um conceito a mais nos salta à consciência quando entramos em contato com essa realidade: corremos o risco concreto de desencarnar e repetir o mesmíssimo itinerário. E é mais fácil do que parece. Basta trair ou esquecer demais a própria essência, substituindo a consciência da necessidade pela necessidade sem consciência. Pronto! É a panela do diabo!

Esse dado da obsessão por energias adoentadas e distorcidas - bem como dos seres que as acompanham - explica em parte o que ocorreu recentemente com o estimado Glauco Villas Boas, além de cartunista, excelente comandante daimista e amigo de muita gente, morto por um jovem obsedado pela ação de seres que lhe tomaram e subjugaram a intenção do aparelho de uma forma mais comum e corriqueira que se costuma imaginar. Na verdade, a maioria de nós vive e se movimenta subjugada, os graus e aspectos é que variam. Dependendo da crise e da situação, eles mostram a cara. E por não compreender ou aceitar esse fato, muita gente se deixa levar por ímpetos, dependências, vontades irresistíveis, ilusões terríveis que se traduzem em ódios e até em aparência de amor, cometendo atos que vão dos simplesmente desnecessários aos mais infelizes e atrozes. Depois de feita a colheita, pára e pensa: como fui capaz de fazer isso?!

Logo, portanto, se aprende que parte considerável do que achamos que somos e louvamos na realidade pode ser uma espécie de piada de mau gosto, ou um rascunho perto do que realmente nosso ser é e necessita. A partir dessa percepção, começamos um trabalho de diminuição deste ego encarnado, medroso e possessivo em essência - além de muito capturável - para que o espírito, que é mais livre, floresça e possa habitar o aparelho, expulsando as energias hostis agregadas e gerando a chamada iluminação, que por sua vez o transformará num ser de natureza crística, pelo jeito só realizável para nós a partir desse plano físico mesmo, o Jardim. “Sou casa de um espírito, instrumento da verdade”, nos diz outro hino recebido.

De forma análoga, quando se fala de Hayahuaska, e das características do trabalho espiritual daimista, que direciona e filtra as possibilidades desta ponte para a espiritualidade, é importante salientar que existem tribos de caçadores de cabeças no equador e na amazônia brasileira que também usam a mesma bebida para “caçar” e matar seus inimigos no meio da selva, do mesmo modo que existem diversas tradições nativas de cura e auto-conhecimento. O “Vinho dos Espíritos”, como é conhecido, é uma ponte estável e não um porto seguro. Por si mesmo, abre os canais de percepção espiritual de forma avassaladora, mas é preciso um direcionamento e uma intenção clara, revestida de vontade forte e sincera para que se adquira um aprendizado válido, que não vá confundir e embaralhar ainda mais os paradigmas adoentados de quem a ingere. Os índios tinham e têm seus Xamãs para essa finalidade. Nós, os chamados civilizados - mais propriamente ignorantes espirituais - temos alguns xamãns sim, outros em formação, cada qual com sua especialidade, mas temos principalmente uma estrutura de ritual, que nos assegura e protege em muitos aspectos, além de seres aliados provenientes da natureza e do astral superior.

O ritual Daimista, assim como os rituais da Barquinha e da União do Vegetal, servem para o direcionamento da intenção individual e coletiva, usando da musicalidade e mensagens dos hinos para manter as freqüências emocionais/vibracionais humanas em sintonia com as energias da vida, do amor, da alegria e da justiça, sem o qual muita gente se perderia na vastidão espiritual ou, porque não dizer, nos próprios abismos. Ao mesmo tempo, expandimos esse tom e essa freqüência de volta para o planeta e para a própria humanidade.

Não é por acaso que os trabalhos são consagrados à Virgem-Mãe, à Rainha da Floresta, à Nossa Sra. da Conceição (Concepção). São nomes para a energia criadora que é una e múltipla ao mesmo tempo e no espaço de manifestações. E é a Ela que recorremos, o espírito da Terra, o espírito da Criação e da Vida Universais, manifesto em miríades de seres e estâncias conscientes de seu papel, tanto para obter sentido e orientação, como para se livrar de muitos apuros.

Como se dá esse ritual? Não pretendo explicar detalhes de funcionamento, mas o principal é saber que não existem padres e intermediários à toda prova (embora em pensamento muita gente se comunique e se auxilie), mas comandantes e padrinhos, que não são senhores absolutos, mas instrumentos de orientação e ordenamento do trabalho. Não existe um único e definitivo livro “inspirado por Deus”, como a bíblia ou o corão. O que existem são hinos, músicas recebidas e inspiradas de forma mediúnica (e qualquer ser humano pode recebê-las), com melodias e arranjos que logo percebemos não serem deste mundo conhecido, e que se manifestam num cantar coletivo, ensinando a cada um em sua própria capacidade de percepção e aprendizado, tendo o poder ainda de expandir nossas consciências.

A mensagem que capto num hino hoje pode e deve ter complemento ou outra entrada de percepção na próxima vez que cantá-lo. Também posso apreciar significações em um hino, e meu colega receber outras particularidades bem distintas. Não existe uma regra que fixa tua percepção de forma dogmática, ou você entende ou não entende, não existe a possibilidade de conforto com algo que você simplesmente aceite sem entender.

Estando nesse trabalho espiritual musicado, cantado e bailado, assim continuamos pela noite afora, descortinando realidades, limpando os aparelhos das más influências, subindo e descendo dentro de nós mesmos e da contraparte astral que se manifesta e é realmente acessada. Além disso, uma vez que recebemos cura emocional, mental e corpórea de falanges e entidades espirituais mais sábias e abrangentes, também doamos nosso próprio aparelho para ajudar na cura de outros espíritos (desencarnados ou não), e isso se faz com consciência desperta, onde muitas vezes sentimos as aflições e dores do ser adoentado, trabalhando com o mesmo pela sua emancipação, o que se reflete obviamente na emancipação de quem faz tal doação.

Nenhum ser ou energia se agrega em nós se não possuirmos o encaixe, a vibração análoga capaz de exercer atração. Esta vibração é dada e por pensamentos, sentimentos, atos e palavras, expressões que só parecem distintas quando as evocamos para análise, mas que na práxis só conseguem articular-se conectadas.

Existe ainda um outro detalhe da corrente espiritual, da egrégora que se forma, que é a capacidade de projetar uma realidade, trazer algo que é da intenção para a manifestação concreta, ou seja, realizar um ato mágico usando da força da corrente coletiva. Mas sobre esse aspecto, eu diria apenas para que ninguém se aventure a fazê-lo por fazer, principalmente se não tiver muita consciência e percepção da natureza de seu objetivo, das forças postas em ação, para que sua manifestação não vá gerar distorções piores do que aquelas que se pretendem remediar. Outro dado: é preciso ter alinhamento com a mensagem do hino que a corrente está vibrando.

No Daime, na Barquinha ou na UDV, as pessoas colhem rapidamente o que plantam em atos, pensamentos e palavras. É retorno rápido e seguro. E esse é um dado significativo para os curiosos de plantão: não aconselho este caminho, muitas vezes difícil, mas seguramente compensador, a quem não tem necessidade de uma busca verdadeira, ou a quem não pretende se aliar com as forças da natureza para encontrar a própria naturalidade, a essência perdida ou subjugada pelas ilusões deste mundo. A força da Hayahuaska é antes de tudo a de um triturador de egos. E ela é capaz de te botar de joelhos, na vida prática mesmo, se você se fizer de desentendido de algo que já lhe foi bem explicado dentro da força do enteógeno.

Também aconselho o alinhamento do que chamarei de humildade com confiança em si mesmo.

Pode parecer contraditório, mas é essencial para se realizar um bom trabalho. Não adianta mentir, fingir ou pretender ser o que não se é depois de estar sobre o efeito da bebida. Ao contrário, quanto mais tua verdade for agregada, esteja ela para ser corrigida ou reforçada, quanto mais limpo e aberto o sujeito se colocar, e quanto menos ele julgar a si e aos demais, melhor será para ele mesmo neste tipo de trabalho.

Uma última consideração ou informação importante, que deixo a cargo dos leitores decifrarem. Desde que o corpo doutrinário expresso em hinos começou a ser montado ou recebido pelos participantes, em meados da década de quarenta e até os dias de hoje, vêm sido recebidas mensagens significativas sobre o fim deste mundo como o conhecemos. São muitos avisos sobre um “balanço”, um ajuste sem precedentes, uma apuração, de forma que aguardamos o advento da Nova Era, da Nova Jerusalém, entendida aqui como um novo céu e uma nova terra, desprovidos das mazelas que conhecemos atualmente, uma realidade muito mais articulada com as forças naturais. Em resumo, uma nova era de paz e realização, também o tempo do homem que caminha no astral.

Sabemos, contudo, que é preciso ter preparo, estar desobstruído para poder receber e Ser nesta nova configuração.

Que assim seja, assim esperamos e por isto trabalhamos.

Maurício de Lara Galvão
Técnico da Biblioteca da Floresta/ Rio Branco-AC

4 comentários:

Fernando Augusto disse...

É isso aí, Maurício!

Gostei bastante do texto e das idéias! Quero, quem sabe num próximo texto, que você dedique uma reflexão específica sobre a Hayahuasca como uma trituradora de egos e como você se sente esta força em relação à força de outros enteógenos que por ventura tenha experimentado.

Forte abraço!

F.A.

marcelo dalla disse...

Maravilhosas informações e reflexões. Essa "Medicina" é mesmo mágica e divina.
Parabéns pelo trabalho que realiza aqui!
abraço

Fernando Augusto disse...

Marcelo,

Agradecemos em nome do Maurício e de nós mesmos ;-)

Vos amo, sou grato!

F.A.

Simone Bichara disse...

Muito, muito, muito bom!
Esclarecor e forte. E além.