A excessiva preocupação com o mundo do dia a dia

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

“Seu mundo está chegando ao fim”, disse ele.
“É o fim de uma era para você.
Você acha que o mundo que sempre conheceu irá deixá-lo levar uma vida tranqüila,
sem nenhuma confusão ou balbúrdia?
Não! Ele irá contorcer-se sob seus pés e chicoteá-lo com sua cauda”.

Fui a Sonora ver don Juan. Tinha que discutir com ele o mais sério acontecimento de minha vida na ocasião. Necessitava de seus conselhos. Quando cheguei em sua casa, eu mal cumprimentei-o. Sentei-me e relatei-lhe apressadamente tudo o que me atormentava.

“Acalme-se, acalme-se”, disse don Juan. “Nada pode ser tão ruim assim”.

“O que está acontecendo comigo, don Juan?” Perguntei-lhe. A minha pergunta foi realmente eloqüente.

“Essas são as ações do infinito”, replicou ele. “Algo aconteceu com o seu modo de perceber as coisas no dia em que nos encontramos. Seu nervosismo é devido à percepção subliminar de que seu tempo terminou. Você percebeu isso, mas não está deliberadamente consciente do fato. Você sente a ausência do tempo, e isso o torna impaciente. Eu sei disso, pois o mesmo aconteceu comigo e com todos os feiticeiros de minha linhagem. Em certo momento, toda uma era em minha vida, ou nas deles, chegou ao seu final. Agora é a sua vez. Seu tempo simplesmente esgotou-se”.

Ele então exigiu um relato completo de tudo o que me acontecera. Disse que deveria ser um relato em que não deveria ser omitido nenhum detalhe. Ele não queria uma descrição superficial. Exigia que eu botasse para fora tudo o que estava causando aquele impacto e complicando toda a minha vida.

“Vamos ter a nossa conversa pelo modo como é conhecida em seu mundo, isto é, seguindo todas as regras”, disse ele. “Entremos no reino da conversa formal”.

Don Juan explicou-me que os xamãs do México antigo desenvolveram a idéia de conversas formais versus conversas informais, e que usavam as duas como instrumentos para ensinar e guiar seus discípulos. Conversas formais eram, para eles, sumários que faziam de tempos em tempos de tudo o que haviam ensinado ou dito a seus discípulos. Conversas informais eram elucidações diárias nas quais as coisas eram explicadas sem nenhuma referência a não ser ao próprio fenômeno que estava sendo cuidadosamente examinado.

“Os feiticeiros nada guardam consigo mesmo”, continuou ele. “Esvaziar a si mesmo dessa maneira é uma manobra dos feiticeiros. Isso os conduz a abandonar a fortaleza do ‘self’”.

Comecei minha história dizendo a don Juan que as circunstâncias de minha vida nunca permitiram-me ser introspectivo. Tão distante em meu passado que eu pude lembrar-me, minha vida diária foi sempre cheia até a borda de problemas pragmáticos que reclamavam minha interferência imediata para solucioná-los. Lembro-me de meu tio favorito dizendo-me que ficava abismado pelo fato de eu nunca ter recebido presentes pelo Natal ou pelo meu aniversário. Ele tinha vindo morar na casa da família de meu pai um pouco antes de fazer tal afirmação. Ele solidarizava-se comigo pela injustiça de minha situação. Até mesmo pedia-me desculpas, embora nada tivesse a ver com o meu caso.

“Isso é revoltante, meu rapaz”, disse ele, tremendo de emoção. “Quero que você saiba que estarei cem por cento ao seu lado sempre que for chegada a hora de reparar os malfeitos”.

Ele insistia uma vez atrás da outra que eu deveria perdoar as pessoas que fizeram coisas erradas para comigo. Pelo que ele disse, fiquei com a impressão de que ele queria que eu enfrentasse meu pai apontando-lhe aquelas coisas que ele descobrira e que, primeiro o acusasse de indolência e negligência e depois, é claro, que o perdoasse. Ele falhou por não perceber que eu não me sentia injustiçado de maneira nenhuma. O que ele pedia para que eu fizesse requeria uma natureza introspectiva de minha parte, a qual me faria reagir às farpas de ter sido maltratado psicologicamente, sempre que elas fossem destacadas para mim. Garanti para meu tio que iria pensar no assunto, mas não naquele momento, porque naquele mesmo instante minha namorada, que estava me esperando na sala de visitas, fazia sinais para que eu me apressasse.

Eu nunca tive a oportunidade de pensar sobre o que prometera, mas meu tio deve ter falado com meu pai, porque ele deu-me um presente, um pacote muito bem embrulhado, com fita e tudo, e mais, com um cartão onde estava escrito “Sinto muito”.

Eu, curiosa e ansiosamente, rasquei o papel do embrulho. Era uma caixinha de papelão com um lindo brinquedo dentro, um pequeno barco com uma chavinha de corda junto, colada à chaminé. Poderia ser usado para brincar quando se tomava banho em banheiras. Meu pai esquecera-se totalmente que eu já tinha quinze anos e que, praticamente, já era um homem.

Desde que eu atingira minha idade adulta sem ser capaz de, seriamente, realizar qualquer introspeção foi sem dúvida uma autêntica novidade quando um dia, anos mais tarde, encontrei-me às voltas com uma estranha agitação emocional, que parecia aumentar com o passar do tempo. Descartei-a, atribuindo-a a um processo natural da mente ou do corpo que entra em ação periodicamente, sem nenhuma razão aparente, ou que talvez seja provocada por processo bioquímicos dentro do próprio corpo. Não pensei nada mais sobre aquilo. A agitação, entretanto, cresceu e sua pressão forçou-me a acreditar que eu chegara a um momento de minha vida que requeria uma mudança drástica. Havia algo em mim que exigia uma reorganização de minha vida. Esse impulso para reorganizar tudo me era familiar. Havia sentido-o no passado, mas ele esteve adormecido por um longo tempo.

Estava comprometido com o estudo de antropologia, e esse compromisso era tão forte que deixá-lo de lado não fazia parte de minha proposta de mudança drástica. Não ocorrera-me deixar de lado a escola e fazer outra coisa qualquer, bem longe de LA. Antes que eu empreendesse uma mudança daquela magnitude, queria fazer certo tipo de teste. Envolvi-me inteiramente num curso de verão de uma escola de outra cidade. O curso mais importante para mim era o de antropologia, que seria ministrado por um professor que era a mais famosa autoridade em índios da região andina. Eu acreditava que se focalizasse minha atenção no estudo de uma área que era emocionalmente acessível a mim, teria uma melhor oportunidade em realizar sérias pesquisas antropológicas de campo, quando chegasse a hora certa. Achava que meu conhecimento da América do Sul me facilitaria o contato com qualquer sociedade indígena da região.

Ao mesmo tempo em que me matriculei no curso, consegui um emprego como assistente de pesquisa de um psiquiatra que era o irmão mais velho de um amigo meu. Ele queria fazer uma análise consistente de trechos de algumas fitas velhas onde foram gravadas sessões de perguntas e respostas com rapazes e moças a respeito de seus problemas causados por excesso de trabalho na escola, expectativas não realizadas, desentendimentos domésticos, namoros frustados, etc, etc. As fitas foram gravadas há mais de cinco anos e seriam destruídas, mas antes disso, foram marcadas com números ao acaso, e seguindo uma tabela com tais números, as fitas eram escolhidas a esmo pelo psiquiatra e seu assistente de pesquisa, para exame de alguns trechos.

No primeiro dia de aula na nova escola, o professor de antropologia falou sobre sua boa fé acadêmica e fascinou todos os alunos com o escopo de seu conhecimento e publicações. Ele era um homem alto e magro com seus quarenta e cinco anos e olhos azuis inquietos. O que mais me impressionou em sua aparência física foi o fato de que seus olhos pareciam enormes por causa das grossas lentes de seu óculos de míope, e também pelo fato de que um deles parecia girar em sentido oposto ao do outro quando ele movia a cabeça ao falar. Eu sabia que isso não poderia acontecer; era, entretanto uma imagem muito desconcertante. Ele era extremamente bem vestido para um antropólogo, que no meu tempo era alguém que se distinguia pela vestimenta super comum. Como exemplo, posso citar que os estudantes costumavam dizer que os antropólogos eram criaturas ocupadas em determinar a idade de tudo pelo carbono-14 e que nunca tomavam banho.

Por razões que desconheço, entretanto, o que realmente o distinguia não era sua aparência física, ou sua erudição, mas sim seu modo de falar. Pronunciava cada palavra tão claramente como eu nunca ouvira, e enfatizava algumas delas alongando-as. Tinha uma entonação marcadamente estrangeira, mas eu sabia que aquilo era uma afetação. Ele pronunciava certas frases como um inglês e outras como um pastor protestante. Fascinou-me à primeira vista, apesar de sua enorme pomposidade. Sua auto-importância era tão espalhafatosa que deixava de ser notada depois de cinco minutos do começo de sua aula, que eram sempre mostras bombásticas de conhecimento apoiadas por ousadas afirmações sobre si mesmo. Dominava seus ouvintes de maneira sensacional. Nenhum dos estudantes com quem eu conversei não sentia outra coisa senão suprema admiração por aquele homem extraordinário. Eu ansiosamente pensava que tudo estava correndo muito bem, e que aquela mudança para uma outra escola e outra cidade iria ser não apenas fácil e tranqüila, mas também extremamente positiva. Gostei muito de meu novo ambiente.

No meu trabalho, tornei-me completamente envolvido com a tarefa de ouvir as fitas, a ponto de entrar furtivamente no escritório e ouvir não apenas os trechos, mas toda a fita. O que me fascinava mais que tudo, no início, era o fato de que eu ouvia a mim mesmo falando em cada um das fitas. Com o passar das semanas e ouvir mais e mais fitas, minha fascinação transformou-se em verdadeiro horror. Cada frase que era pronunciada, inclusive as perguntas do psiquiatra, parecia minha. Aquelas pessoas falavam das profundidades do meu próprio ser. A repulsa que experimentei era algo inteiramente novo para mim. Nunca pensara que eu pudesse ser repetido indefinidamente em cada homem ou mulher cuja voz fora gravada nas fitas. Meu senso de individualidade, que foi plantado em mim desde meu nascimento, desmoronou-se sob o impacto dessa descoberta colossal.

Iniciei então um processo odioso de auto restauração. Inconscientemente fiz uma tentativa absurda de introspecção; tentei desvencilhar-me de meu dilema falando sem parar comigo mesmo. Reorganizei em minha mente todas as bases racionais possíveis que poderiam reafirmar meu senso de identidade, e depois expressei-as em voz alta para mim mesmo. Até mesmo experimentei algo bastante revolucionário para mim: acordei a mim mesmo várias vezes falando em voz alta durante meu sono, discursando acerca de meu valor e distinção.

Então, em um dia terrível, sofri outra explosão mortal. Nas horas silentes da noite, fui acordado por umas batidas insistentes em minha porta. Não eram batidas tímidas, educadas mas eram o que os meus amigos chamariam de “batidas da Gestapo”.

A porta estava quase vindo abaixo, depregando-se das dobradiças. Saltei da cama e olhei pelo olho-mágico. A pessoa que batia na porta era meu patrão, o psiquiatra. O fato de ser amigo de seu irmão mais novo parecia ter acabado com toda a cerimônia entre nós dois. Ele transformou-se em meu amigo íntimo sem nenhuma hesitação, e ali estava na porta de minha casa. Acendi a luz e abri a porta.

“Entre, por favor”, disse eu. “O que aconteceu?”

Eram três da manhã, e por seu rosto lívido e suas olheiras, percebi que ele estava profundamente agitado. Entrou e sentou-se. Seu orgulho e alegria, sua cabeleira preta e comprida, tudo estava espalhado em sua face. Ele não ligava para isso e não tentava pentear o cabelo para trás como sempre o fazia. Eu gostava muito dele, pois era uma versão mais velha de meu amigo de LA, com grossas sobrancelhas escuras, olhos castanhos penetrantes, queixo quadrado, e lábios grossos. Seu lábio superior parecia possuir uma dobra extra por dentro, e de vez em quando, ao sorrir de certa maneira, ele dava a impressão de ter o lábio superior duplo.

Ele sempre comentava sobre a forma de seu nariz, que ele descrevia como impertinente e peludo. Eu achava que ele era extremamente seguro de si, dogmático a perder de vista. Ele afirmava que em sua profissão, tais qualidades eram essenciais ao sucesso.

“O que aconteceu!” Repetiu ele em de zombaria, com seu lábio superior duplo tremendo incontrolavelmente. “Ninguém sabe o quanto me aconteceu esta noite”.

Sentou-se numa cadeira. Parecia tonto, desorientado, procurando pelas palavras. Levantou-se e foi até ao sofá, estirando-se nele.

“Eu não apenas tenho responsabilidade sobre meus pacientes,” continuou, “mas também pelas pesquisas, por minha mulher e meus filhos, e agora recebo outra carga desgraçada e o pior é que eu mesmo sou o culpado, com minha burrice em confiar numa vagabunda estúpida!

“Vou dizer para você, Carlos”, continuou ele, “não existe nada mais constrangedor, nojento, nauseante, que a insensibilidade das mulheres. Eu não sou alguém que deteste as mulheres, você sabe disso! Mas nesse momento tenho a impressão de que cada uma dessas vagabundas não passa disso, uma vagabunda. Vira folhas e vil!”

Eu não sabia o que dizer. Tudo o que ele estava dizendo não necessitava nem de aprovação e nem de negação. Eu não me atreveria absolutamente a contradizê-lo. Não tinha argumentos para tanto. Eu estava com muito sono. Queria voltar para a minha cama e continuar dormindo, mas ele continuou falando como se sua vida dependesse disso.

“Você conhece Theresa Manning, não conhece?” Perguntou-me ele de um modo forçado, acusatório.

Por um instante, acreditei que ele estivesse me acusando de ter algo a ver com a sua jovem e linda secretária estagiária. Sem me dar tempo para responder, ele continuou falando.

“Theresa Mannig é uma vagabunda. É uma simplória! É uma mulher estúpida e sem consideração que não tem outro incentivo na vida que enrolar as pessoas com um pouquinho de fama e notoriedade. Eu pensei que ela fosse uma mulher inteligente e sensível. Pensei que ela tivesse alguma coisa, alguma compreensão, alguma empatia, algo que pudesse ser compartilhado, ou mesmo guardado para si mesmo como um tesouro. Eu não sei, mas esse é o retrato de si mesma que ela pintou para mim, quando na realidade ela é indecente e degenerada, e mais ainda, posso acrescentar, uma mulher incuravelmente grossa”.

Enquanto ele continuava falando, uma estranha imagem começou a emergir.

Aparentemente o psiquiatra tinha apenas tido uma má experiência envolvendo sua secretária.
“Desde o dia em que ela começou a trabalhar para mim”, continuou ele, “eu percebi que ela sentia-se atraída sexualmente por mim, mas ela nunca manifestou isso.

Isso só era percebido nas indiretas e nos olhares. Bem, foda-se! Esta tarde eu me senti doente e farto de tanto fingimento e fui direto ao assunto. Subi até sua mesa e disse-lhe, ‘sei o que você quer, e você sabe o que eu quero....”

Ele então começou com uma enorme e elaborada falação de como ele esforçou-se para dizer a ela que a esperava em seu apartamento do outro lado da rua, às 23:30 e que não modificava suas rotinas para ninguém, que leu, que trabalhou, que bebeu vinho até uma da manhã, quando então foi para o quarto de dormir. Ele mantinha um apartamento no cidade bem como uma casa no subúrbio onde vivia com sua mulher e filhos.

“Estava muito confiante de que tudo iria dar certo e que seria uma noite memorável,” disse ele suspirando. Sua voz adquiriu o tom meloso de alguém que confidenciasse algo muito íntimo.

“Cheguei até mesmo a entregar-lhe a chave do meu apartamento,” disse ele com a voz em falsete.

“Muito obedientemente ela chegou às 11:30,” continuou ele. “Entrou no apartamento usando a chave que lhe dei, e esgueirou-se para quarto de dormir como uma sombra. Isso excitou-me terrivelmente. Sabia que ela não iria representar nenhuma dificuldade para mim. Ela sabia qual era o seu papel. Provavelmente ela pegou no sono ao deitar-se na cama. Ou talvez tenha ficado vendo TV. Eu fiquei envolvido em meu trabalho, e não me importei com o que estivesse acontecendo com ela. Sabia que ela estava no papo.

“Mas no momento em que fui para o quarto,” continuou ele, com sua voz tensa e contrita, como se tivesse sido moralmente ofendido, “Theresa pulou em cima de mim como um animal e pegou meu pênis. Ela nem mesmo me deu tempo para colocar no chão a garrafa e os dois copos que estava segurando. Tive agilidade suficiente para colocar no chão meus dois copos de cristal sem quebrá-los. A garrafa rodou pelo assoalho quando ela agarrou meus bagos como se eles fossem pedras. Eu tentei bater nela. Na verdade berrei de dor, mas isso não afetou-a. Ela dava risadas como se tivesse louca, pensando que eu estivesse me fazendo de atraente e sexy. Ela disse isso, como para me conter”.

Balançando a cabeça com uma raiva contida, ele disse que aquela mulher estava tão faminta sexualmente e era tão egoísta que não levou em consideração que o homem necessita de um momento de paz, que necessita de sentir-se à vontade, como se estivesse em casa, num ambiente amigo. Em lugar de mostrar consideração e compreensão, como exigia o seu papel, Theresa Manning tirou os seus órgãos sexuais para fora de suas calças com a perícia de alguém que tivesse feito isso centenas de vezes.

“O resultado de toda essa merda”, disse ele, “foi que minha sensualidade retraiu-se com horror. Eu fiquei emocionalmente brocha. Meu corpo abominou aquela vagabunda instantaneamente. Mesmo assim, minha luxúria impediu-me de jogá-la no olho da rua”.

Ele disse que decidiu então que, em lugar de ficar miseravelmente vexado com a sua impotência, como era a sua tendência, ele iria fazer sexo oral com ela, e fazer com que ela tivesse um orgasmo – ou seja, colocá-la sob seu controle – mas seu corpo rejeitou aquela mulher tão completamente que ele não pôde fazer aquilo.

“A mulher não era mais nem mesmo bonita”, disse ele, “mas era uma mulher comum. Quando vestida, seu vestido disfarçava o volume de suas ancas. Ela realmente parecia OK. Mas quando nua, é um saco volumoso de carne branca! A elegância que ela mostra quando vestida é falsa. Não existe”.

O veneno jorrava do psiquiatra numa quantidade que eu nunca poderia imaginar. Ele tremia de raiva. Ele queria desesperadamente parecer calmo, e fumava um cigarro atrás do outro. Ele disse que o sexo oral era muito mais enlouquecedor e nauseante, e que ele estava quase vomitando quando aquela vagabunda deu um soco em sua barriga, rolou-o para fora de sua própria cama fazendo com que ele caísse no chão, e ainda chamou-o de fresco e brocha.

Nessa altura de sua narrativa, os olhos do psiquiatra estavam flamejantes de ódio. Sua boca estava trêmula. Ele ficou extremamente pálido.

“Tenho que usar o seu banheiro”, disse ele. “Necessito tomar um banho. Estou fedendo a fumaça de cigarro. Acredite ou não, peguei também um cheiro de vagina”.

Ele chorava abertamente e eu daria qualquer coisa do mundo para não estar ali. Talvez fosse o meu cansaço, ou a natureza mesmérica de sua voz, ou ainda a futilidade daquela situação que tenha criado a ilusão de que eu não estava ouvindo a voz de um psiquiatra, mas sim a voz de um suplicante masculino de uma de suas fitas reclamando de um probleminha que foi transformado em algo sério pela repetição obsessiva do mesmo. Meu tormento terminou por volta das nove horas da manhã. Era hora de ir para minhas aulas e hora para o psiquiatra ir embora e ver até onde havia se rebaixado.

Fui para a escola então com a enorme carga de uma ansiedade que me queimava por dentro, e com uma tremenda sensação de desconforto e impotência. Lá eu recebi o golpe final, golpe que causou uma tentativa de minha parte de uma mudança drástica que quase provocou meu colapso final. Nesse colapso não estava incluída nenhuma parte de minha vontade, e ele surgiu como se tivesse sido programado de antemão, sendo seu desenrolar acelerado por alguma causa desconhecida.

O professor de antropologia começou sua palestra sobre um grupo de indígenas do altiplano do Peru e Bolívia, os aymarás. Ele chamava-os de “ei- Má- ras”, alongando o nome como se sua pronúncia daquele nome fosse a única certa em todo o mundo. Ele disse que a preparação da chica, que é pronunciada como “CHEE-cha”, mas que ele pronunciava como “CHAHI-cha”, uma bebida alcoólica feita do milho fermentado, era do domínio de uma seita de sacerdotisas, consideradas semidivinas pelos aymarás. Ele disse, num tom de revelação, que tais mulheres tinham a seu cargo preparar o milho cozido transformando-o numa papa a ser fermentada, e que faziam isso mastigando e cuspindo o milho, adicionando à papa, desse maneira, a enzima que existe na saliva humana. Toda a classe recolheu-se com um horror contido quando ele mencionou tal fato.

O professor pareceu estar se deliciando ao máximo. Ele dava risadinhas a prestação. Era como um risinho desagradável de um bebê. Ele continuou dizendo que as mulheres eram mastigadoras peritas, e chamava-as de as “chahichas mastigadoras”. Ele olhou para as pessoas da primeira fileira da sala, onde estava sentada a maioria das jovens alunas, e desferiu seu golpe de misericórdia.

“Tive o p-r-r-ivilégio”, disse ele com uma estranha entonação como se fosse um estrangeiro, “de ser convidado a dormir com uma das mastigadoras chahi-cha. A arte de mastigar a papa do chahi-cha faz com que elas desenvolvam os músculos faciais e ao redor da garganta ao ponto de que elas possam fazer maravilhas com eles.”

Ele olhou para a sua platéia atônita e fez uma longa pausa, salpicando-a com os seus risinhos maliciosos. “Estou certo de que vocês perceberam o que insinuo,” disse ele, e então começou a dar acessos de risadas histéricas.

Toda a classe ficou louca com as indiretas do professor. A palestra foi interrompida por pelo menos cinco minutos de risadas e uma enxurrada de perguntas que o professor declinou-se de responder, emitindo outros risinhos estúpidos.

Eu senti-me tão oprimido pela pressão das fitas, pela história do psiquiatra e pelas “mastigadoras chahi-cha” do professor que numa tacada instantânea desisti do emprego, da escola e voltei para LA.

“O que quer que tenha me acontecido por causa do psiquiatra e do professor de antropologia”, disse para don Juan, “lançou-me num estado emocional desconhecido.

Eu só posso chamá-lo de introspeção. Tenho falado comigo mesmo sem parar”.

“A sua doença é muito simples”, disse don Juan, tremendo de tanto rir. Aparentemente deliciava-se com minha situação. Era um deleite do qual eu não podia participar, porque não encontrava nenhuma graça nele.

“Seu mundo está chegando ao fim”, disse ele. “É o fim de uma era para você.

Você acha que o mundo que sempre conheceu irá deixá-lo levar uma vida tranqüila, sem nenhuma confusão ou balbúrdia? Não! Ele irá contorcer-se sob seus pés e chicoteá-lo com sua cauda”.

2 comentários:

António Rosa disse...

O 'Cova do Urso' vai entrar de férias hoje, mas antes, vim aqui desejar-lhe umas Festas Felizes.

Desejo-lhe um 2011 com tudo de bom.

Abraço

António

luxo disse...

Fernando,
foi exatamente isso que aconteceu comigo. Com você, é assim?
Sabrina