Iansã, a transgressora pela Vida

sábado, 4 de dezembro de 2010

Nem sempre a ação de transgredir, conceituada como “atravessar”, “deixar de cumprir”, “violar”, etc., constitui um ato ou gera um acontecimento reprovável, merecedor de castigo.

É o que nos demonstram os mitos de Oiá, a popular Iansã, a Senhora dos Ventos e Tempestades, Brisas e Tornados; a protetora das mulheres independentes e de todas as pessoas que tenham sede e fome de liberdade e justiça.

Em uma tradição oral, transmitida de gerações para gerações, nada mais óbvio do que a existência de mitos diferentes sobre o mesmo Orixá; alguns, até, conflitantes. Apesar das variações, no que diz respeito a Oiá, uma coisa é certa: é a transgressora pela Vida.

Orixá original de outras plagas africanas, estrangeira entre os iorubás que a adotaram, é de uma complexidade mais fácil de entender-se com o coração do que pelo simples raciocínio “dois e dois são quatro”. Saibam que esta aiabá, nome atribuído aos Orixás femininos (sinônimo de rainha), mostra-se para quem quer,quando bem deseja, tendo o dom de aparecer quando menos se espera.

Oiá, a mulher-búfalo, “a Vermelha” (como são os búfalos-fêmeas), com o condão de chafurdar na lama, pesando toneladas, transforma-se em borboleta. Também é popularmente conhecida por “a Voadora”. Pariu nove filhos, dentre os quais os egunguns, os espíritos-ancestrais, ela mesma um Egumgum-Oiá, quando quer.

Senhora das brisas que nos dão o frescor, também o é a dos furacões avassaladores e das tempestades.

É tão valente e incorruptível quando Ogum (não aceita mentiras e mentirosos, dissimulações, lorotas e bajuladores) e é a parte mais atuante na justiça ígnea de Xangô. Detesta iniquidades e tudo que negue o Amor.

Filha adotiva de Olu-Odé, o Alaketu – o qual, segundo uma corrente da mitologia, a denominou Oiá, a ligeira –, esposa de Ogum, o Orixá vanguardeiro e inventor; o primogênito dentre os Orixás Caçadores e, posteriormente, de Xangô, o Senhor do Fogo e do Poder em Exercício. Na verdade, foi ela quem deu o fogo ao marido, transformando-o no que é. Só que antes de entregar ao Rei a porção que o faria dominar o elemento sagrado, resolveu prová-la – desobedecendo às determinações conjugais… sem Oiá-Iansã, Xangô não produz nem uma faísca…

O Orixá Ossain é o senhor absoluto das ervas mágicas, ou pelo menos era, antes da transgressão de Oiá, que, provocando um vendaval, espalhou as folhas para todos os lados. Os demais Orixás recolheram as ervas que puderam, cada um passando a ter as suas.

Segundo outro mito, Obaluaê, o filho de Nanã criado por Iemanjá, grande Senhor da Terra, era tão feio, tão pavoroso, que se cobria com um capuz de palha, chamado “azê”. Muitos tinham medo de se aproximar daquela coisa, o que não aconteceu com Oiá. Os dois se tornaram amigos. Um dia, soprando sobre o “azê”, conseguiu erguê-lo. Assim, a curiosa Senhora dos Ventos mostrou o rosto belíssimo de Obaluaê, escondido pelas palhas. Moral da História: “somente os tolos julgam pela aparência”…

É difícil achar um filho, ou uma filha de Oiá, semelhante a outro… A popularidade desta Ayabá é enorme, o que é refletido em seus filhos e filhas.

Em geral, estas e estes têm os olhos rápidos, agitados e brilhantes. Mas nem todos descobriram que a estrada de Iansã é única: a espiritualidade. Há filhos e filhas de Oiá aos quais muito admiro, a exemplo de Mãe Aída Margarida Muniz, do Axé Opô Afonjá, Júlio Braga e a inesquecível Olga do Alaketu: sincera, elegante, generosa e transparente.

Relendo o conto O Plágio, de Monteiro Lobato, reunido na obra Cidades Mortas (Editora Brasiliense, SP, 1964, páginas 107 a 117) – supimpa –, pus-me a gargalhar na certeza de que o conhecido escritor paulista, grande brasileiro, tão destemido, apaixonado, irascível e polêmico, deva ter sido um filho dileto de Iansã. O texto, no estilo lobatiano inconfundível, versa sobre vaidade, falta de escrúpulos, “autotapeação”, soberba e mediocridade a beça… para o deleite dos leitores que o conheçam (deixando outros com água na boca – leiam-no!), transcrevo o finalzinho de O Plágio:

“Moralidade há nas fábulas. Na vida, muito pouca ou nenhuma”…

Claro que Lobato deveria estar dirigindo-se a algum tipo de pessoa; quiçá o conto fosse um recado enviado ou um protesto contra o engodo, o que deve ter lhe acarretado inimigos mortais e admiradores eternos, como eu.

Cléo Martins




4 comentários:

Rosane Peon disse...

Linda homenagem a Iansã Oya!
Sou filha de Oxum(Ora iê,iê,Oxum)
Mas a vibração de Iansã e de outros orixás me fascinam.
QUE IANSÃ neste novo ano nos fortaleça cada vez mais.Que seus ventos soprem nossas mentes e nossos
corações.Saravá.E que Oxalá nos ilumine e nos
proteja.

Salve,vos amo,sou grata.
Rosane Peon

Rosane Peon disse...

F.A Lindas postagens e lindos vídeos
Que Santa Bárbara venha nos valer!!

E....parrei Iansã
Que os Orixás iluminei seu caminho ,sua grandiosidade em compartilhar conosco seus aprendizados é fantático.
Grande abraço
Rosane Peon

beijamim disse...

Ela é Deusa do Trovão
Ela é Senhora dos Raios
Ela é quem me comanda
Eu sou dela comandado

Oh Iansã,
Vós venha me valer
Manda teus raios
Para me defender

Aqui na Terra a gente vive de ilusão
Raia o mundo, corta a imensidão

Aqui na Terra a gente vive de ilusão
Raia o mundo, clareia a escuridão.

Fernando Augusto disse...

Belíssimo ponto, Beijamin!

Grato!

Êparrê, Oiá!

F.A.